Tópicos de vida e obra de Albert Camus

Por João R. A. Borba

 

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Quais as principais obras filosóficas de Camus e de quê elas tratam?

 

 O pensamento filosófico de Camus está espalhado por suas obras literárias, e ele julgava que o melhor modo de filosofar é precisamente este: através da literatura. Tendia mesmo a considerar diversos autores de literatura –– Kafka por exemplo –– como filósofos que produziam sua filosofia desse modo. E na verdade estava longe de ser o único a fazer isso.

Mas é preciso compreender que se trata de uma postura nem um pouco acadêmica. E de fato, a Filosofia do Absurdo criada por Camus a partir do existencialismo compartilha com ele essa característica, de ser uma filosofia criada para ser praticada em um "clima" ou "ambiente" intelectual não exclusivamente  acadêmico, rompendo as fronteiras entre a vida acadêmica e o espaço do pensamento  lúdico, realizado no prazer de pensar.

Por outro lado, não se pode dizer que a filosofia existencialista, e menos ainda a de Camus, seja frívola ou superficial. A base da filosofia camusiana pode ser encontrada em linguagem teórica e direta, sem os rodeios da literatura, em um livro sobre o suicídio. Um livro que  trata dessa questão da maneira mais grave, séria, densa e profunda, até mesmo um tanto assustadora, que se possa imaginar.

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Apesar de assustador, o livro não é uma apologia do suicídio: pelo contrário, trata-se de uma supervalorização da vida como luta absurda e  constante contra um outro absurdo, o absurdo do mundo, que tende a nos conduzir, por uma lógica poderosa, ao suicídio como saída. Camus mergulha fundo na lógica do raciocínio suicida, reconhece sua coerência e, como resposta, declara que mesmo essa coerência é absurda, e que contra a lógica coerente e absurda do suicídio, mesmo assim vale mais o absurdo da vida.

Este é o link para um podcast de aproximadamente 1 hora com um resumo da estrutura dos pensamentos expostos nessa densíssima obra: 
LINK: O Sísifo de Camus - podcast por João Ribeiro de A. Borba)

 

Ou então você pode experimentar ouvir o podcast diretamente aqui: 

 

Mas em O mito de Sísifo (1942), Camus ainda examina a relação do indivíduo suicida, considerado isoladamente, em suas relações com o mundo ao redor, em sentido geral. Um mundo cinzento em que tudo e todos parecem a esse suicida elementos cada vez mais indiferentes, e que poderiam ser trocados indiferentemente uns pelos outros. E os outros? E nossas relações com as pessoas enquanto pessoas, outras pessoas, com cuja existência independente nos confrontamos no mundo ao nosso redor?

Seguindo a linha sombria e corajosa de seu pensamento absurdo, Camus trata diretamente do assunto, em linguagem teórica e não literária, em outro livro, e a partir de uma questão diferente daquela do suicídio: trata disto em O homem revoltado (1951), a partir da questão do assassinato. E mais uma vez, da valorização da vida –– agora em contraste com a imagem do "assassinato".

Antes ainda de O mito de Sísifo e O homem revoltado, Camus já havia esboçado seus posicionamentos sobre  a condição humana aos 22 anos de idade (em 1937) nos 5 ensaios de um livro pequeno e denso (como o seu "Sísifo") intitulado O avesso e o direito.

Próprio Camus tende a se considerar curiosamente mais como artista que como filósofo, e filósofo apenas pelo conteúdo sobre a vida de que suas obras estão carregadas. Falando desse seu primeiro livro de ensaios, publicado aos 22 anos chega a declarar sua opção pela carreira de "artista":

"Sei que minha fonte está em O Avesso e o Direito, nesse mundo de pobreza e de luz em que vivi durante tanto tempo e cuja lembrança me preserva, ainda, os dois perigos contrários que ameaçam todo artista:  o ressentimento e a satisfação. A miséria me impediu de acreditar que tudo vai bem sob o sol e na história, o sol ensinou-me que a história não é tudo. Mudar a vida, sim, mas não o mundo do qual eu fazia minha divindade. Assim é, sem dúvida, que abordei essa carreira desconfortável em que me encontro, enfrentando com inocência uma corda bamba, na qual avanço com dificuldade, sem estar seguro de alcançar a outra ponta."

 

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Entretanto, a própria declaração já o mergulha de saída no universo dos debates filosóficos, porque está em diálogo direto com uma metáfora de Nietzsche em seu livro Assim falava Zaratustra. Segundo uma imagem formulada por Nietzsche neste livro, a vida humana transcorria como se estivéssemos atravessando uma corda bamba estendida entre o humano inferior, animalesco, animal de rebanho, e no outro extremo uma condição superior para além da humana.

A vida humana digna, segundo essa imagem de Nietzsche retomada aqui por Camus, envolve encarar esse desafio da corda bamba, essa luta pelo equilíbrio tentando chegar até lá –– mesmo sabendo que nunca se chegará: porque o "lá", a outra ponta, é justamente (e como declarado já de saída), uma condição super-humana, para além da humanamente possível. A vida humana digna envolve esse desafio e o risco da queda. E cair dessa corda significa, literalmente, cair para a morte, e nada menos que isso.

Os 5 ensaios de O avesso e o direito tratam de quê? 

O primeiro –– A ironia –– trata da juventude e da velhice, do abandono e da morte. No segundo –– Entre o sim e o não  –– Camus confessa sua necessidade de simplicidade e despojamento, e de sinceridade ponderando que a esperança e o desespero são condições igualmente injustas contra as quais se pode lutar. (Quanto a isto, vale a pena ressaltar que coragem da sinceridade, uma sinceridade brutal acerca de si mesmo, virtude ou defeito, em Camus atinge níveis aterradores para a imensa maioria das pessoas). No terceiro ensaio –– A morte da alma –– Camus trata da solidão e do tédio nas viagens de exílio. O quarto ensaio –– Amor pela vida –– também sobre viagens, Camus fala sobre a apreciação estética da natureza e das produções estéticas com as quais vamos nos deparando. O quinto e último ensaio, que tem dá título ao livro –– O avesso e o direito –– fala de uma mulher que  se apega ao próprio túmulo a tal ponto que passa a estar morta para o mundo ao seu redor.

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Além desses dois livros centrais (O mito de Sísifo e O homem revoltado), dos ensaios de O avesso e o direito, e de diversos outros ensaios também teóricos, boa parte de sua filosofia do absurdo se encontra, como já mencionado, em suas produções literárias. É ali que esses temas saem de sua base inicial para avançarem  mais longe e mais detalhadamente em diversas direções.

Cabe uma menção especial por exemplo aos livros O estrangeiro (1942) e A peste (1947), e ao conto A queda (1956).

O estrangeiro narra a desventura de um assassino que mata um árabe e é julgado pelo crime. Mas como cometeu o crime de forma estranha, devido a condições de consciência alteradas pelo excesso de sol, é julgado como se fosse alguma espécie de psicopata sem sentimentos humanos, incapaz de empatia ou remorsos. 

O livro provocou elogio público do filósofo Jean-Paul Sartre, que declarou querer conhecer o autor. Então Camus apresentou-se a ele e se tornaram grandes amigos. Anos depois, no livro A peste, Camus narra uma história de solidariedade entre trabalhadores, que sinaliza preocupações políticas comuns a ele e a Sartre. Contudo mais adiante, os comentários críticos de Camus ao regime soviético no livro O homem revoltado levaram Sartre a romper a amizade com ele.

Sartre defendia o comunismo soviético, e Camus, que era anarquista, jamais aceitaria qualquer forma de autoritarismo, à direita ou à esquerda –– uma diferença que seria difícil não levarem para o lado pessoal naqueles tempos de pós-guerra, de rastros e lembranças de guerra ainda muito presentes.

Sartre não foi o único a criticar O homem revoltado, que na  verdade foi "bombardeado" por críticas de muitos que antes haviam costado do "Sísifo" de Camus. O livro A queda é uma espécie de resposta amargurada do autor a essas críticas.

 

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Principais obras de Camus

 

Como ocorre em geral com os existencialistas, Camus, cuja filosofia do absurdo nunca deixou de ser muito próxima à deles, é um desses pensadores nos quais o pensamento está intimamente ligado à vida pessoal. Não faz nenhum sentido avaliar a filosofia de um filósofo por sua vida e menos ainda sua vida com base em sua filosofia, a menos que o próprio filósofo coloque as coisas nesses termos.E mesmo que o coloque, as conexões entre vida e obra devem ser feitas com muita atenção e cuidado. É fácil cair em falsas interpretações, ou julgar as coisas de maneira tacanha, e perder de vista o que importa.

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Camus teve uma vida admirável em comparação com a de muitos em sua época e com a da aioria dos que costumam enfrentar condições semelhante: pobreza extrema na infância, em seguida a morte decretada para data imrevisível por uma doença incurável, mais tarde o enlouquecimento da esposa... e sua vida em resposta a isto foi marcada por coragem, alegria, criatividade, e reflexão profunda e honesta sobre a vida e a morte, sem escapismo.

Pensador polêmico, herói de guerra, grande artista e um famoso apreciador da vida noturna, de boates, de boa bebida e de dança. Uma vida intensa –– mas que fora de contexto pode perder sua grandeza, porque os tempos mudam e também os costumes. O que importa acentuar é sua luta de constante e incansável desafio à morte.

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 Quais as principais influências sofridas por Camus em sua formação?

Existencialista crítico, que nas fronteiras do existencialismo (e criticando-o) criou a Filosofia do Absurdo, Albert Camus é um desses filósofos cujo pensamento não há como separar da história de vida — a começar pela influência que sofreu ainda jovem de um professor. Camus desenvolveu sua filosofia sob forte influência de Jean Grenier (1898-1971) — conhecido professor de filosofia. Não se deve confundi-lo com outro famoso Jean Grenier, aquele que mais de dois séculos antes, em 1604 (aos 13 anos de idade) foi acusado de ser um lobisomem, e admitiu ter devorado mais de 50 crianças. O Jean Grenier de Camus era apenas um professor de filosofia, e bastante pacífico.

Grenier (o professor de Camus), movido sim, no fundo, por um espírito de revolta, adotava no entanto uma postura contemplativa e de não-ação, que combinava influências do taoísmo e do quietismo cristão. Esse mestre de forte influência sobre Camus escreveu principalmente sobre arte e sobre a condição da existência humana em geral, em relação às circustâncias políticas e sociais. Grenier também escreveu, além do taoísmo e do quetismo cristão, sobre a filosofia do francês Jules Lequier; e traduziu obras de Sexto empírico sobre a filosofia cética. A filosofia de Lequier exerceu poderosa influência sobre Grenier, e foi transmitida por ele para Camus. Mas é provável que parte da propensão de Camus para um anarquismo talvez contraditoriamente tingido de influências cristãs tenha vindo da leitura de Tolstoi.

No campo filosófico, Camus foi influenciado pelo estudo do neoplatonismo e de Santo Agostinho, pelo pensamento marxista, e pelo seu diálogo crítico com o existencialista Jean-Paul Sartre. Segundo Michel Onfray, entretanto, a maior influência sobre Camus, tão importante quanto pouco estudada, teria sido a de Nietzsche, ao qual ele teria, de certo modo, entendido melhor do que ninguém mais.

Mas a principal influência formadora do pensamento de Camus foi o rumo que sua vida tomou, intensa, atravessando sofrimentos, guerras, paixões e aventuras, e sempre lhe apresentando condições de existência absurdas e o desafio de tentar dar algum sentido a elas.

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Qual a influência de Jules Lequier
que chegou a Camus através de Jean Grenier?

Quem é Lequier — que influenciou Grenier, que influenciou Camus? A questão é importante, porque embora Camus tenha sua própria linha de pensamento, ela não deixa de carregar a marca dessa tradição de pensamento que vem de Lequier e que lhe é transmitida pelo professor Grenier.

Jules Lequier (1814-1862) é um filósofo francês que escreve sobre a ideia cristã da omnisciência divina. Se o deus cristão sabe tudo e tem também presciência (conhecimento prévio) do futuro, daquilo que ainda não ocorreu, como se pode justificar o livre-arbítrio humano? Como é possível que o ser humano tenha liberdade em suas ações para fazer isto ou aquilo, se já existe um futuro conhecido de antemão pelo poder divino? — Colocando-se esse tipo de questão, Lequier responde que a omnisciência divina é em primeiro lugar o conhecimento de quais fatos são ocorrências necessárias, encadeadas em uma série de outras, e quais são ocorrências contingentes, que não estão presas a nenhuma cadeia lógica de outras ocorrências, porque são apenas uma das possibilidades que se realizaram, em meio a todo um leque de outras possibilidades que não se realizaram.

Segundo Lequier, a omnisciência divina inclue o conhecimento e todas as cadeias de ocorrências que só poderiam ocorrer necessariamente assim como ocorreram, mas também o conhecimento de que há todo o leque de possibilidades que se abrem, em certos pontos dessas cadeias, para que o ser humano tome livremente a decisão de entrar pelo caminho de uma dessas possibilidades ou de outra, realizando com essa decisão toda a cadeia de lógica de consequências que então passam a existir e a estar previstas pela omnisciência divina naquele caminho que foi humanamente escolhido.

Segundo Lequier, embora haja consequências necessárias para nossas decisões e ações, o futuro como um todo a partir do momento de uma decisão não está inteiramente determinado, em todos os seus passos, de modo que essa linha que demarca como será todo o futuro é algo que simplesmente não existe.

A rigor, "o futuro" de alguém, considerado como um todo até o seu final, ainda não existe — e não faz sentido que supor ou exigir que uma consciência qualquer, mesmo divina, "saiba" de antemão aquilo que simplesmente ainda não existe para "ser sabido". Mas a consciência divina pode ser conhecedora, de antemão, de todo o leque abstrato de futuros possíveis imagináveis, que poderiam vir a ser necessariamente desencadeados (por uma série de consequências lógicas) a partir de cada ponto, de cada momento, de livre decisão humana.

Em suma, Lequier desenvolveu um raciocínio refinado para justificar que uma liberdade humana radical possa coexistir com a omnisciência divina — não enquanto conhecedora do futuro, porque a cada momento há decisões humanas realmente livres, e consequências dessas decisões que são encadeadas em uma série de ocorrências necessárias e em relação às quais já não há mais o que decidir. Mas deixou claro que essa liberdade significa, também, ali onde ocorre, que não existe ainda uma cadeia lógica de outras ocorrências na qual ela esteja encaixada, e que possa ser humanamente percebida, compreendida e explicada.

Do ponto de vista humano, se fizermos uma interpretação tipicamente camusiana, isso significa que, nos próprios momentos em que atua a nossa liberdade, a vida é carregada de absurdidade, de ausência de qualquer caminho que nos permita prever com alguma segurança o resultado de nossas decisões e dar sentido a elas.

Esta é aproximadamente a linha de pensamento cristã que se transmitiu para Camus através dos ensinamentos de Grenier.

 

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Como a relação com Jean Grenier influenciou Camus?

É evidente que a filosofia cristã de Lequier deve ter sido de algum modo filtrada e modificada por Jean Grenier, ao transmiti-la para Camus.  Pela influência taoísta e talvez por alguma influência cética — que pode ter tornado Grenier mais sensível à questão de que nós, meros humanos, não termos clara consciência do que é livre e contingente e do que está ocorrendo dentro de uma cadeia necessária de consequências (e menos ainda de quais os possíveis rumos dessa cadeia de consequências).

O taoísmo, por outro lado, prega a moderação e a serenidade, a contemplação e a não-ação diante do rumo das coisas, como quer que elas ocorram. Tudo isso combinado a um profundo espírito de revolta sugere uma atitude contida e tensa, e a busca da serenidade como um esforço constante. Isto não impediu Grenier de estimular Camus a entrar no Partido Comunista. Talvez exprimir sua revolta por intermédio de sua influência sobre o jovem existencialista lhe permitisse manter-se mais coerente consigo mesmo, conciliando sua revolta interior com sua não-ação perfil taoísta. Decerto já estavam os dois, antes disso, estudando seriamente o marxismo.

Fosse qual fosse a herança do pensamento cristão que chegou até Camus, seu exame existencialista das condições da vida humana acabou marcado por um evidente materialismo, ao que tudo indica advindo mais de sua história de vida na infância e no início da juventude do que propriamente da teoria marxista ou da participação no Partido Comunista, que provavelmente vieram apenas reforçar isto. Mas esse exame das condições da existência humana foi marcado também por traços bastante perceptíveis de ceticismo, senão de nihilismo — influências tanto de Grenier quanto diretamente dos absurdos da condição humana.

O fato é que, apesar de terem mantido a firme amizade por toda a vida, uma carta de Camus, a certa altura, mostra que não aceitou muito bem as razões de Grenier quanto a esse episódio, porque depois de levá-lo ao partido, próprio Grenier havia se voltado contra o partido.

Camus não gostou de ter percebido por si mesmo, e só mais tarde, a "armadilha" que o Partido Comunista significafa para um espírito livre e leal às relações pessoais como o seu. Entretanto, apesar de reclamar disto a Grenier, a guinada desse mestre e amigo parece no fundo ter sido aceita, e recebida por ele mais intensamente como uma dessas reviravoltas absurdas e imprevistas da vida, do que como alguma forma de "traição" da íntima aliança e lealdade mútua que, para Camus, que caracterizava uma amizade.

De qualquer modo, embora admirasse Grenier e fosse agradecido a ele, e apesar de manter sempre essa amizade e ter chegado a dedicar dois de seus livros a ele, Camus já havia, antes mesmo desse episódio, tomado um rumo intelectual diferente do de seu mestre. Havia optado por si mesmo pelo caminho de uma vida politicamente ativa, e dedicada também, além disso, à discussão intelectual dos problemas políticos e sociais de sua época, como ensaísta e jornalista.

Participou das lutas de libertação da Argélia contra o domínio da França. Mas sob circunstâncias diferentes, solidarizou-se com os franceses: inscreveu-se na resistência francesa, na luta contra a invasão dos nazistas naquele país durante a 2ª Guerra Mundial. Seu caminho foi marcado por guerras, fome e miséria, e sua vida ativa e engajada, sua opção pela luta incessante, tornou essas marcas mais intensas.

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Como foram a infância e a juventude de Camus?

Camus era de família muito pobre e teve uma vida difícil desde cedo, também devido aos problemas políticos que envolviam as comunidades em que nasceu e cresceu, num território da Argélia dominado pela França. Perdeu cedo o pai (que era fonte de sustento da família), na 1ª Guerra Mundial. Depois viveu com a família (cinco pessoas num pequeno apartamento de dois cômodos) no bairro operário de Belcourt, em Argel — bairro que mais tarde se tornou famoso por um massacre que vitimou os moradores árabes, durante a guerra de libertação do território contra os colonizadores.

Camus estava destinado, por sua situação, a seguir a profissão humilde de seu irmão mais velho, que era tanoeiro — isto é, artesão fabricante de barris (coincidentemente a mesma profissão seguida quase exatamente um século antes por outro anarquista, Proudhon, quando era ainda bem jovem). Aliás, já desde bem cedo só conseguiu manter as necessidades do estudo (livros etc.) porque conquistou uma bolsa por sua competência. Foi estimulado por Grenier a decidir se encaminhar para a filosofia e para o meio acadêmico, para trabalhar como professor — o que era uma decisão extremamente arriscada para alguém tão pobre e que precisava de alguma atividade profissional capaz de oferecer renda imediata, sem a necessidade de tantos anos de formação. Mas seguiu o caminho com firmeza, resistindo às dificuldades.

Influenciado por certos traços do pensamento cristão, Camus fez sua dissertação de Mestrado sobre o neoplatonismo, e sua tese de Doutorado sobre Santo Agostinho. O futuro na vida intelectual parecia extremamente promissor. Mas antes de tornar-se professor, esse incansável e orgulhoso lutador teve que enfrentar um inimigo imprevisto: teve o seu caminho interrompido por uma crise de tuberculose.

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A tuberculose: qual o porte desse novo inimigo no caminho de Camus?
Quais as reais condições dessa sua nova luta?

A tuberculose é contagiosa (no período inicial da infecção). A contaminação pode se dar pelo ar. Ela provoca uma tosse em que, a certa altura, começa-se a cospir sangue. Provoca febre, geralmente no final da tarde, e à noite provoca suores noturnos, dificultado o sono. Também tira o apetite. De modo que sem sono e sem alimento, a pessoa emagrece muito e perde a energia e a resistência física. A tuberculose é considerada uma doença socialmente determinada, porque seu contágio e agravamento estão diretamente ligados ao modo de trabalho e de vida da pessoa, ao ambiente em que ela vive, afetando geralmente em primeiro lugar os pulmões, e se espalhando pelo sangue. Ao longo da história, as grandes epidemias de tuberculose estiveram sempre ligadas às camadas da população que viviam uma vida mais tensa e dura, carregada de estresse e com períodos longos de baixa na resistência e na imunidade do organismo.

É uma doença resistente, cujos sinais já podem ser percebidos em ossadas pré-históricas e que em diversos momentos da história levou diferentes povos a um estado de calamidade pública. Muitas civilizações antigas a consideraram como um castigo divino. Há todo um mito romântico em torno dessa doença, como se resultasse de uma tristeza profunda. Costuma ser vista como doença típica de jovens poetas, artistas e almas apaixonadas com o coração partido. Exige um tratamento intenso com medicamentos pesados (e geralmente caros) por um período que pode durar de seis meses a dois anos, em repouso total e de preferência em isolamento. Recomenda-se frequentemente a internação, mas com acesso a sol, e preferencialmente em clima montanhoso ou marítimo.

A maioria das mortes que causa parece estar ligada ao abandono ou descuido no tratamento (evidentemente ligados, muitas vezes, a uma condição de pobreza do paciente, que dificulta levar adiante o tratamento). Como se não bastasse, a eficácia dos remédios contra a doença só foi comprovada em laboratório em 1945. Camus contraiu a doença em 1930, ainda jovem.

Em suma, Camus estava já praticamente condenado à morte por essa doença. Mas tão inesmeradamente quanto ela se manifestou, Camus ultrapassou os limites que ela lhe impunha, e sobreviveu ainda por décadas (com crises que retornavam, e sentindo-se sempre sob a sombra ameaçadora da morte). Sua luta com a doença, ainda mais inesperadamente, não se deu no nível médico ou hospitalar, mas no nível existencial, em sua recusa de entregar-se ao fato de ser portador de uma doença mortal que poderia fulminá-lo a qualquer momento. É  interessante notar, nesse sentido — lembrando sua famosa e polêmica tematização do suicídio, no livro O mito de sísifo (1942) — que dificilmente se vê uma foto sua sem um cigarro na boca ou entre os dedos. Nada recomentável para um tuberculoso. O cigarro sempre aceso era uma afronta sua a esse inimigo com o qual passou a conviver de maneira tão assustadoramente íntima. Uma declaração de despeito.

Naquele ano de 1930, com a esperança inscrita em sua juventude batalhadora ceifada de repente por uma casualidade tão absurda, Camus não poderia prever que, apesar de tudo, seu corpo resistiria e continuaria vivendo ainda por décadas. Nada indicava que houvesse alguma dose realismo em uma esperança desse gênero. E não era exatamente um homem dado a fantasias esperançosas.

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O que resultou da doença de Camus em sua filosofia?

De Camus, podemos dizer com segurança que o seu inimigo maior (a tuberculose), apesar das graves crises ocasionais, não lhe quebrou o corpo... mas dominou sua mente. É nessa época que se definem os três principais temas de toda a sua filosofia, bastante sintomáticos da súbita manifestação dessa doença em sua biografia depois de esperanças tão arduamente conquistadas, com tanta luta: o absurdo das condições de existência, a possibilidade do suicídio, e a morte. O desespero, em suma — ou a desesperança, se quisermos brincar um pouco com as palavras.

Entretando, a julgar pela obra que construiu sustentada nesses temas, podemos nos perguntar se a doença venceu mesmo a batalha, ainda que de qualquer modo a morte o tenha levado bem cedo, antes da experiência de amadurecimento mais profundo que se pode considerar simbolizada pela chegada dos cinquenta anos de idade.

Observada de relance, a vida de Camus parece dividida em duas grandes esferas: a de suas lutas politicas e amizades, e a de seus relacionamentos amorosos. A primeira não era uma esfera muito suave nem que oferecesse perspectivas muito animadoras. A segunda poderia sugerir algo diferente e mais esperançoso, mas sua primeira relação amorosa foi tão pouco promissora quanto o impacto de saber-se doente. Mesmo tuberculoso e sentindo-se condenado, desenvolvendo temas filosóficos que não pareciam apresentar uma perpectiva muito feliz para o futuro, ele, por um momento de esperança na vida, casou-se (em 1934)... um casamento infeliz, com uma esposa que se revelou toxicômana. Não soube como lidar e conviver com isso. Separou-se um ano depois.

A de Camus não era, como se vê, uma vida muito especialmente tocada por aquela sorte de alguns, que parecem topar facilmente com circunstâncias favoráveis à felicidade. E nada anunciava que isso pudesse algum dia mudar. É difícil avaliar, portanto, de onde ele extraiu essa saúde guerreira que o impulsionava para além das limitações que a doença e as vicissitudes da vida jamais deixavam de lhe assinalar. Camus  parece ter inconscientemente construído suas próprias fontes de energia.

Parece ter feito isso, por um lado, afastando-se de experiências amorosas desastrosas como essa primeira, e transformando os rumos de sua vida afetiva e sexual em algo capaz de lhe fornecer ao mesmo tempo toda tensão e energia e todo repouso e tranquilidade de que necessitasse. (O que no entanto, como veremos, parece tê-lo aprisionado em certa medida a alguns limites do modo de vida pequeno-burguêsa). Por outro lado, desenvolveu entre essa esfera amorosa e a outra, da militância e do engajamento, uma terceira esfera que tendia a se misturar parcialmente com as duas, fornecendo também ora energização, ora repouso — ou mais precisamente que repouso, uma certo sentimento de realização que parecia aliviá-lo dos desgastes da esfera engajada e militante.

Essa terceira, era a esfera das artes — mais precisamente da literatura e do teatro — nas quais como que sublimava o medo e o sofrimento da presença constante da tuberculose, ao mesmo tempo que militava indiretamente em defesa de suas causas através da ficção e dos ensaios filosófico-literários, e se envolvia com mulheres do meio artístico, uma em especial (uma atriz) que em diversas ocasições atuou em suas peças ou adaptações delas para o cinema. Entretanto, a paz e o descanso que conseguia obter nesse meio, pela satisfação com suas realizações, parecia não ser nunca suficiente, de modo que teve um papel fundamental em sua vida um segundo casamento e a convivência com a esposa (que não era a mencionada atriz) e os filhos.

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Como foi a relação de Camus com o comunismo?

Camus entrou para o Partido Comunista Argelino (sob influência de Grenier) em 1934. Mas definia sua própria postura como diferente daquela dos seus colegas revolucionários comunistas. Ao invés de revolucionário, dizia-se "revoltado". Segundo Camus, o revolucionário se torna revolucionário, e passa do pensamento à ação, levado pela fria lógica da dialética marxista. O revoltado, pelo contrário, passa do pensamento à ação impulsionado por um processo de elaboração do sentimento — seja de um sentimento egoísta ou de um sentimento altruísta.

Revoltado, portanto, Camus não poderia suportar por muito tempo a lógica do partido comunista, de submissão do seu próprio "eu" às decisões partidárias — que ele considerava as de um outro "eu" que queria se impor como "superior". Nem a submissão destas decisões partidárias, por sua vez, às de uma instância considerada ainda superior: uma instância situada no estrangeiro — a da União Soviética stalinista. Podem-se perceber nessa revolta camusiana, aliás, possíveis traços de influência do anarco-individualismo de Stirner... talvez. Mas houvesse ou não alguma (pequena) dose de tal influência, Camus com toda segurança não chegava a ser um puro "egoista" stirneriano: era movido principalmente pela lógica da solidariedade, e sua revolta era motivada igualmente pelo que refletia, em seus prórios sentimentos, dos sentimentos de outros. No caso, por exemplo daqueles que, dentro do partido comunista, sofriam uma certa perseguição e um certo "patrulhamento ideológico" por tentarem expor francamente suas divergências.

Entrou em rota de colisão com o partido por sua lealdade a um grupo de militantes árabes que ajudou a organizar e que, em nome da lógica do partido, foram traídos e presos em vista de benefícios estratégicos. Em agosto de 1937 foi, então, excluído do partido comunista (que seguia a orientação stalinista), sob acusação de ser "trotskista" — acusação que os stalinistas comumente dirigiam a qualquer membro rebelde de seu grupo que acabasse por ser expulso, como Camus. Sua correspondência pessoal (em carta a Roger Quilliot de 8 de junho de 1955) mostra que na verdade sua decepção com o autoritarismo do partido comunista já datava de 1935, dois anos antes de sua expulsão.

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Camus em seus caminhos paralelos:
entre a vida amorosa, a filsofia, as artes
e a passagem do comunismo ao anarquismo

Ainda em 1937, conheceu Francine Faure, por quem se apaixonou. De família da classe média, Francine era pianista, especializada em Bach, e matemática, e trabalhava como professora substituta nessa disciplina. O pai dela havia falecido no mesmo campo de batalhas que o pai de Camus, na 1ª Guerra Mundial.

Durante todo esse período final da década de 30, continuou sempre envolvido em seus estudos de fiosofia, em estudando o neoplatonismo e a filosofia cristã de Santo Agostinho. E depois da ruptura com o partido comunista, passou a se dedicar intensamente a atividades no rádio, em jornais e no teatro (como dramaturgo).

Segundo seu amigo Pascal Pia, em 1938 Camus já demonstrava admiração pelo sindicalismo revolucionário e pelos anarquistas em geral. Mas estendia sua admiração a todo tipo de rebelde que fizesse objeções de consciência às pressões de estruturas de organização autoritárias. Sua atuação e verdadeira militância, nesta fase de sua vida, na verdade foi marcada sobretudo epecificamente pela defesa dos muçulmanos, que sofriam discriminação e perseguição na Argélia.

Em 1939, Camus critica em dois artigos de jornal o pessimismo da filosofia existencialista de Sartre em duas obras recentes deste que, apesar disto, ele declara apreciar bastante: A náusea e O muro. Camus vê em Sartre um autor capaz de constatar com agudeza absurdidade da vida, mas que coloca essa absurdidade terrível como uma conclusão, quando deveria colocá-la, com mais otimismo, como um ponto de partida que, com sua beleza e seus desafios e perigos, de certo modo acaba por dar sentido à luta constante que caracteriza a vida humana.

A postura de Camus em relação à ideia de casamento era, nesta época, indiferente, senão hostil. Mesmo assim, no final de 1940, instalado na cidade francesa de Lyon, casou-se de novo: com sua amada Francine Faure — o que para ela parece ter representado uma libertação em relação à mãe, bastante dominadora. Mas Camus era constantemente infiel, adquirindo inclusive fama de sedutor, um Don Juan.

O tema do donjuanismo sedutor aparece em O mito de Sísifo –– talvez como uma referência também ao Diário de um sedutor de Kierkegaard, o fundador do existencialismo, e não só à sua própria vida. Don Juan aparece como um dos possíveis modelos para uma vida absurda a ser valorizada, como forma de confrontar desafiadoramente a morte. É preciso lembrar que Camus era, devido à tuberculose, um condenado à morte (outro personagem-tipo mencionado em O mito de Sísifo).

O condenado à morte, segundo Camus, está no limite entre entre o entregar-se a ela (como o suicida) e a tomada de atitude do enfrentamento, assumindo uma vida absurda enquanto ainda vivo. Para o condenado à morte, tudo e todos no fundo são indiferentes... mas ele pode por isso mesmo reordenar sua visão das coisas, e aprender a revalorizar inusitadamente detalhes mínimos da vida, vivendo uma multiplicidade maior e mais rica de experiências, vivendo mais, portanto.

É a passagem que ocorre quando o condenado à morte, indiferente à cela, aos guardas, à paisagem na janela se houver uma... pode num instante, ao acaso, passar a dar atenção redobrada por exemplo ao simples cadarço de seu sapato, passando a fazer disso uma vivência excepcional, e aos poucos a acrescentar à sua experiência mais e mais vivências assim. O condenado à morte, assim inusitada e absurdamente, vence a morte, no mesmo movimento em que a constata invencível.

Ficando desempregado (em parte devido a problemas com autoridades), Camus sentiu-se forçado a voltar de Lyon para a Argélia, e tiveram que viver junto à família dela (e numa cidade que Camus detestava).

Em 1942, depois de uma crise de tuberculose, foi separado durante muito tempo de sua esposa, por circunstâncias ligadas às invasões de tropas estrangeiras durante a guerra de libertação da Argélia.

Antes que reencontrasse Francine, Camus acabou se envolvendo, em 1944,  com uma atriz em ascenção, Maria Casares, jovem de família rica, e que assim como ele, era sedutora, independente, intensa e possessiva. Manteve essa relação incessantemente itensa com Maria Casares. O carismático casal de amantes se tornou uma celebridade nas casas noturnas de Paris.

Em 1945, Camus conseguiu reencontrar sua esposa Francine — reencontro que era temido pela amante Maria Casares, embora Camus descrevesse a esposa como apenas uma espécie de "irmã" pela qual nutria muito carinho. De fato, confirmando os temores da amante, neste ano Camus e sua esposa, com quem supostamente se relacionava como com uma "irmã", tiveram dois filhos (gêmeos) — o que ocasionou o rompimento enciumado de Maria Casares com ele. Mas Casares e Camus voltaram a se relacionar, e Francine tolerava a situação — que se manteve assim pelos próximos 15 anos.

Nesta segunda metade da década de 40, Camus começou a tornar-se famoso, e suas atividades artísticas (principalmente as ligadas ao teatro) e políticas se intensificaram cada vez mais, envolvendo muitas viagens. Apesar da fama crescente, foi para Camus um período de muito desgaste e constantes decepções.

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Como foi a entrada de Camus na militância anarquista?

Em 1948 entrou em contato com o Cercle des Etudiants Anarchistes, como simpatizante, e passou a apoiar grupos de oposição tanto ao capitalismo quanto a todas as formas de totalitarismo, e que contavam com forte participação anarquista (como os Groupes de Liaison Internationale). E no final de seu livro O homem revoltado, de 1951, citou Bakunin tomando-o como referência orientadora para uma ação revolucionária que não recorra ao emprego de métodos "Cesáreos" — e reflete sobre o "renascimento do anarquismo". Essa referência ao "cesarismo" do antigo império romano é na verdade de origem proudhoniana. Proudhon, fundador da primeira consistente teoria anarquista, amigo e influenciador de Bakunin, tem um livro intitulado Cristianismo e cesarismo, no qual, fazendo referência aos Césares de Roma, demonstra as relações entre o cristianismo e certas tendências políticas autoritárias na história mundial.

O livro foi criticado por anarquistas (ainda que amistosamente) com a acusação de apresentar, em certas passagens, uma caricatura de Bakunin (crítica de Gaston Leval). Camus publicou sua resposta no jornal Le Libertaire, da Federação Anarquista, desculpando-se e respondendo que agira de boa fé, e que corrigiria essa imagem caricata de Bakunin em futuras edições. Mas já estava iniciada uma polêmica em torno do livro, entre os anarquistas, que teria uma longa repercussão. O secretário da Federação Anarquista, Georges Fontenis, escreveu um artigo intitulado: A rebelião de Camus é a mesma que a nossa? — Fontenis concluia que sim, mas com diversas críticas que sugeriam um pouco de má compreensão das posições anarquistas por parte de Camus, que parecia estar cominhando, como um principiante, para dentro do movimento.

É preciso notar que, no meio anarquista, ao contrário do que ocorre em ambientes de militância stalinista, o questionamento e a polêmica em torno de uma publicação não são de maneira nenhuma sinal de desconfiança ou prenúncio de isolamento ou marginalização do autor no conjunto do movimento. Pelo contrário: em geral significam justamente que os posicionamentos desse autor estão sendo assimilados ao grande e sempre tenso, franco e aberto diálogo que caracteriza essa linhagem de pensamento político.

O debate e o questionamento são uma das marcas típicas do acolhimento anarquista. Constituem, digamos assim, o "abraço" dos anarquistas a um intelectual simpatizante que se dispõe a entrar em diálogo com o pensamento libertário. O silêncio e a indiferença é que são mais característicos do processo anarquista de não-aceitação de uma teoria, porque a não-aceitação tende a se manifestar sob a forma de simples desinteresse, e não de marginalização agressiva, como em organizações tipicamente autoritárias.

Mesmo esse silêncio e essa indiferença muitas vezes tendem a se manifestar após um período generoso de "checagem" dos posicionamentos do autor, de exame crítico e cuidadoso de suas posições, dialogando com ele, até que se verifique em que medida seu pensamento (seja ele efetivamente "anarquista" ou não) pode efetivamente ter interesse ou utilidade para aquilo que o anarquismo defende.

O contraste entre o perfil das críticas anarquistas e o das críticas vindas dos filiados ao comunismo (como o existencialista Jean-Paul Sartre), acabou precipitando o afastamento de Camus em relação aos comunistas, e aumentando sua simpatia pelo anarquismo.

Em sua polêmica com os existencialistas filiados ao comunismo, Camus defendeu a atuação dos bakuninistas junto às massas trabalhadoras na Espanha e na França, e acabou oficiosamente "expulso" do movimento existencialista... coisa que não faz absolutamente o menor sentido, aliás, visto que o existencialismo não se define pela participação ou não de uma pessoa em tal ou tal grupo de militantes, ou pela filiação dessa pessoa a tal ou tal ideário político, e sim por uma certa atitude diante da vida, da morte e das condições de existência que são características da espécie humana em geral. Mesmo assim, a rejeição de renomados existencialistas não deixou de afetá-lo e desanimá-lo. Foi criticado também pelos artistas do Movimento Surrealista, devido às concepções estéticas que defendia no livro (uma estética do absurdo) e a críticas que dirigiu a um artista considerado pelos surrealistas como o precursor deles — o que fez as críticas anarquistas, pelo contraste do tom em que eram feitas, lhe parecerem ainda mais acolhedoras.

No decorrer de todo esse ciclo de polêmicas em que as críticas fora do meio anarquista eram por vezes despropositadamente agressivas e bem pouco analíticas, Camus, indignado, decidiu prometer a si mesmo que não se aproximaria mais de intelectuais que defendessem o stalinismo e outras posturas autoritárias — que lhe pareciam a fonte desse tipo de crítica. Assumiu que preferia o modo como era (também) criticado pelos anarquistas, o que o fez aproximar-se ainda mais deles.

Não é um percurso intelectual incomum. Muitos pensadores acabaram se aproximando do anarquismo ao experimentarem o mesmo tipo de vivência, contrastando algum ambiente crítico um tanto patológico e carregado de "tabus" e de agressividade cega contra quem os transgride — como é típico de grupos de perfil autoritário — com o ambiente intelectual anarquista, que tende espontaneamente ao diálogo, e no qual a crítica tende a ser desenvolvida com maior atenção e análise, e tratada como parte natural da convivência e das lutas sociais.

Grupos comunistas de perfil mais libertário muitas vezes também se aproximam desse tipo de ambiente de discussão franca e aberta. Mas no tempo de Camus, em que o stalinismo ainda era a orientação dominante na maioria dos partidos comunistas do mundo, isto estava longe de ser a regra. As excessões, em geral taxadas com ou sem razão de "trotskistas", na verdade tendiam quase sempre a uma considerável aproximação com o anarquismo.

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Camus rompeu definitivamente suas relações com os surrealistas?

O conflito de Camus com o movimento surrealista não foi definitivo. O campo de diálogo entre a estética surrealista e a estética do absurdo camusiana a certa altura voltou a se abrir.

Em 1952, um grupo de anarquistas espanhóis havia sido condenado à morte por Franco (ditador da Espanha), e a Liga pelos Direitos do Homem convocou um comício em Paris em defesa dos condenados.  Camus aceitou fazer uma palestra no evento, que estava sendo organizado por um jornal e pela CNT (a central anarcossindicalista espanhola). Reunindo-se com os organizadores do evento, Camus operou um discreto, complicado e delicado movimento no sentido de que André Breton (1896-1966), o já septuagenário lider do movimento surrealista, que o havia criticado muito agressivamente, também fosse apesar disso convidado para falar ao seu lado.

Breton só soube da presença de Camus (e de sua movimentação no sentido de que fosse convidado) na última hora, e a simpatia comovente com que foi tratado pelo existencialista, depois de ter escrito tão agressivamente contra ele, chegou a tirar lágrimas do líder surrealista. Este evento em que estiveram juntos promoveu a reconciliação entre Camus e os surrealistas (em 1930 o próprio Breton, aliás, havia passado pela expulsão do partido comunista, assim como Camus mais tarde, em 1937, assunto que pode ter contribuído com algum sentimento de identificação entre os dois). Depois disso, Camus estabeleceu vários laços de amizade com intelectuais e militantes anarquistas conhecidos.

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Como foi a vida amorosa de Albert Camus?

Em 1953, sua esposa, Francine (Faure) Camus, começou a apresentar sinais de depressão, e em 1954, precisou ser internada. Os médicos da época avaliaram que a depressão estaria ligada à "indiferença" de Camus e à sua infidelidade, principalmente a seu caso amoroso notório com Maria Casarès.

Mas é preciso avaliar com cuidado a própria avaliação desses doutores, pois a relação de Camus com Casarès não era nenhuma novidade para Francine nesta época (na verdade era algo que perdurava com sua aceitação já havia quase dez anos... por que neste momento passaria de repente a gerar uma crise depressiva?). Mais provável talvez que houvesse aí algum problema de ordem química, psiquiátrica, ainda que talvez agravado por isso.

Note-se que os mesmos médicos avaliaram também que a depressão de Francine deveria ser tratada com eletrochoques. Francine chegou a se atirar de um terraço tentando desesperadamente escapar do tratamento, não se sabe bem se com a finalidade de fugir do lugar ou de se matar (pois de fato quase morreu).

Os médicos podem ter tido razão, é verdade. Não parece impossível (embora difícil) que Francine tivesse sofrido com essa situação sem acostumar-se ao longo desses quase dez anos, até, digamos assim, "estourar o dique", e sem que houvesse nenhum problema de ordem química provocando isso em seu sistema nercoso. Ainda assim, há quem diga que Francine casou-se com plena consciência já desde o início, de que ele era um homem que amava muitíssimo, talvez excessivamente, as mulheres... — inclusive a sua. Camus dedicou amorosamente livros seus a Francine, e não parece ter sido, como siziam os médicos, talvez excessivamente contaminados pela moralidade burguesa, nem um pouco "indiferente" a ela.

Na verdade chegou a escrever um drama drama bastante esclarecedor, que trazia claras referências biográficas, sobre um personagem oprimido pelas pressões e responsabilidades que vêm com a conquista de uma fama crescente, mas sem fugir delas. O personagem era ao mesmo tempo atraído, com sentimentos igualmente poderosos, mas de tipos diferentes, por dois polos magnéticos opostos. Um desses polos parece representar Maria Casarès e, orbitando ao redor dela, uma miríade de pequenos casos amorosos passageiros. O outro parece representar Fancine e seus filhos.

Arrastado para o primeiro polo magnético, o personagem do drama (na verdade o próprio Camus) se descobre tomado por um impulso incontrolável de seduzir, lutar, se arriscar e se aventurar. Mas principalmente seduzir. Nesse polo, uma amante cataliza tudo, e na relação de tórrida paixão com ela se produzem as faíscas que o alimentam para sempre seguir adiante... mas aí destila também um incontornável sentimento de "pecado", de culpa.

Arrastado para o segundo polo (Francine e os filhos), o personagem do drama (o próprio Camus) se vê aliviado na necessidade desesperada de uma âncora segura de paz e estabilidade em uma vida perigosamente absurda — um refúgio, o único, em que sente que pode realmente "respirar" e simplesmente viver, com calma e amor, como se estivesse "fora do tempo" (algo similar à "cidade de Deus" de Santo Agostinho, em que a alma transcende o ritmo tenso e de incessantes mudanças da temporalidade, e vivencia a paz do atemporal e eterno?).

Evidentemente o sentimento de culpa produzido pelo primeiro polo é agravado pelo contraste com a docilidade da convivência com Francine, e ainda mais após o seu adoecimento (sobretudo em vista do diagnóstico dos médicos de sua esposa, que atribuem a ele a origem da coisa).

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De que modo a vida amorosa de Camus se relaciona
com seu percurso como intelectual, filósofo e ativista político?

 Concentrando sua vida amorosa nessas duas orientações contraditórias, em dois polos magnéticos opostos — representados de um lado pela amante Maria Casarès e uma série de pequenos casos amorosos fugazes, e de outro lado pela esposa Francine com os filhos — o que na verdade vemos transparecer em Camus, aqui, nessa esfera amorosa da sua biografia, é em última análise algo bastante banal.

Em tudo o que digo sobre este assunto, é claro, o leitor precisa estar avisado que estou arriscando o que, na verdade, não passa da análise especulativa de uma trama de "fofocas" sobre a vida de uma gente famosa. Mas sigamos em frente.

Trata-se, me parece, de um grande filósofo, artista e ativista libertário, preso no entanto, em uma das esferas de sua vida, à casca e às limitações de um matrimônio tipicamente burguês, carregado das sufocantes miudezas de uma moralidade também tipicamente pequeno-burguesa e cristã, para além da qual não consegue se elevar com os seus sentimentos. Pode haver caso mais comum no mundo cotidiano pequeno-burguês que um marido infiel sentindo-se cristãmente culpado por seguir seus impulsos (de fugir desse mesmo cotidiano burguês) e uma esposa traída sofrendo (também cristãmente) com seu marido seduzido por uma Lilith estranha ao círculo sagrado do lar? Pode haver algo mais burguês, aliás, que o próprio esforço de fugir ao cotidiano burguês buscando amantes e posando publicamente de "Don Juan", com o rosto semicoberto pela capa da culpa, mas transparente pela circunstância da fama (a fama, esse latente mas constante desejo burguês de estar de algum modo "acima" dos outros)?

Camus apenas levou tudo isto até um exagero eminentemente caricato — como ocorre aliás com gente famosa em geral. (O mais correto na verdade seria dizer que a mídia e o público mexeriqueiro levaram a coisa até esse nível caricato. Porque dizê-lo de outro modo na verdade não faria juz ao perfil do sujeito, que parece ter apenas encarado e assumido corajosamente as circunstâncias de caricaturização midiática disso tudo na qual ele, seu casamento e sua amante foram lançados — em certa medida, deixou-se arrastar pela onda, e por todos absurdo que ela trazia consigo.)

Deste ponto de vista, no entanto, há algumas contradições interessantes. A relação apaixonada de 16 anos com a mesma amante indica claramente que Camus era bem mais apegado a relações profundas e duradouras do que ele próprio (e mais que ele próprio, o público burguês ávido de fofocas) parecia julgar. O amor não obstante inabalável pela esposa Francine, ao que tudo indica, deveria ter se resolvido em um casamento aberto — mas nem Francine nem ele próprio, apesar de bem conscientes disso, pareciam ter estatura emocional suficiente para levar adiante em todas as suas consequências a abertura necessária para se manterem realmente felizes nessa relação.

Camus parece ter vivido, nesta área, um entrave borguês e cristão à sua conhecida revolta existencial, apesar de toda a sua verdadeira e corajosa ousadia em outras esferas da vida.

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Mas qual a dimensão filosófica de tanta fofoca afinal?

Ocorre que Camus, apesar de preso a essa casca de moralidade burguesa e cristã nessa esfera de sua vida, não deixou de transcendê-la genialmente, em manifestações artísticas nas quais não apenas revela, mas examina criticamente, como filósofo, todo o intenso absurdo desse rol de situações e sentimentos, que afinal, são humanos antes de serem especificamente seus e de seu círculo de relações.

Há algo de especialmente interessante em um filósofo e artista dessa estatura  vivenciar "pelo lado de dentro" essa casca de experiências tão tipicamente burguesas, sem deixar de transcendê-la em sua arte e reflexão.

A casca é redonda, porque faz a pessoa girar cambalhotas e cambalhotas em um ciclo que começa pela fuga das responsabilidades, dando vasão aos instintos, e depois cai no sentimento de culpa e na autocontenção, seguidos de novo salto de fuga, como um mergulho de cabeça, e nova queda na culpa e na contenção, e assim por diante. Flusser diria que é o círculo mágico do eterno retorno, como se a vida se detivesse em uma imagem que captura a alma e da qual não se consegue mais sair. Mas na arte e na filosofia, Camus transcende sim esse círculo reflexivamente — e ao fazê-lo faz a reflexão crítica de toda uma condição de existência pequeno-burguesa que não é só a dele, mas a de milhões de pessoas arrastadas e presas às mesmas cascas e cambalhotas que ele.

Suas obras, quando tratam desse tipo de assunto, não atingiriam tão universalmente a toda essa gente, com o impacto incômodo e desnorteador com que o fazem, provocando a reflexão crítica — se além da ousadia de fazer a reflexão estética e filosófica de uma tal condição de existência, ele não a fizesse em obras realmente carregadas dessa vivência da coisa "por dentro".

Tais obras não teriam a mesma força quanto a isto se a coisa fosse refletida totalmente a partir "de fora", de quem não a viviencia pessoalmente, de quem apenas imagina como é uma vida matrimonial tipicamente pequeno-burguesa, com seus dilemas entre pecadilhos que seduzem anunciando a possibilidade de se avolumarem em um grande pecado de magnetismo devastador, e a paz amorosa e tranquila do casamento, que, enquanto imagem ideológica recobrindo as pequenas frustrações do real, parece prenunciar e prometer o impossível paraíso na terra. (As alusões indiretas a temas do cristianismo aqui não são casuais: procuram encontrar o "gancho" entre tudo isto e os estudos filosóficos acadêmicos de Camus — este controverso, estranho e paradoxal anarquista de certo modo "cristão"... posição de polos tão difíceis de conciliar.)

Feita essa breve, impertimente e intrometida análise transfofoqueira da vida conjungal e sexual de Camus enquanto "celebridade", voltemos àquela sua outra esfera da vida, em que sua ousadia não precisava romper cascas burguesas, porque as agruras da luta pela sobrevivência (e a solidariedade com outros que também passavam por elas) já haviam destruído desde o início qualquer possibilidade de calcificação da vida nessa direção burguesmente "cambalhotante".

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Qual foi, resumidamente, o tipo de atuação
que Camus teve como ativista anarquista?

Nos anos de 1955 e 1956, já bem afastado das antigas ligações com o partido comunista, Camus passou a dedicar-se cada vez mais à defesa pública de presos e condenados políticos anarquistas em diversos países. Utilizava para isto, tanto quando podia, a sua fama e prestígio — utilizava sua celebridade como um instrumento para conseguir ajudá-los.

Algumas vezes atuava nesse sentido junto às autoridades, mas na maioria dos casos o fazia junto à imprensa, ou participando na articulação de grandes mobilizações e manifestações públicas de apoio. Muitas vezes sua atuação em favor desses presos políticos, muito frequentemente militantes anarquistas vindos das classes trabalhadoras, foi decisiva ou pelo menos bastante benéfica para eles, e lhe angariou o carinho e a sólida afeição não só especificamente de anarquistas, mas do operariado em geral.

Neste período Camus participou também pessoalmente, e com ativa dedicação, de diversas outras mobilizações anarquistas do mesmo modo como outro militante qualquer, e lado a lado com os demais. Mas sua forma de atuação predominante parecem ter sido os artigos em jornal, e as palestras e discursos em palanque, nos grandes eventos e mobilizações públicas anarquistas ou que contavam com forte participação anarquista.

Camus faleceu em um acidente de automóvel, em 1960.

No Movimento de 68 (oito anos após sua morte), um dos amigos anarquistas que Camus havia feito no início da década de 50, Maurice Joyeux, assinalou seu livro O homem revoltado como o que mais se aproximava das aspirações operárias e estudantis desse movimento.

 

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