Tópicos de vida e obra de Denis diderot

Por João R. A. Borba (João Borba)

 

Denis Diderot é um dos mais importantes e influentes filósofos do Iluminismo. Atuando não apenas como filósofo, mas também como literato e dramaturgo, procurou promover por todos os meios a educação moral e política do povo, no sentido de tornar as pessoas mais racionais e conscientes de seus atos, e também mais maduras e autônomas — portanto menos manipuláveis e mais livres nas suas decisões — no campo político. 

Diderot era um defensor radical do uso da razão, e em seu envolvimento com o teatro, acabou por adotar o trabalho dos atores — não o de todo e qualquer ator, mas segundo ele o dos melhores — como um modelo de racionalidade para o homem comum, em sua vida diária. Em seu entendimento, os melhores atores eram os menos emocionais  e mais racionais. Por isso mesmo também os menos instáveis em sua atuação, e os mais capazes de aperfeiçoá-la com segurança de um espetáculo a outro. Em uma passagem famosa, ele declara que as lágrimas do público, comovido com a cena, sobem do coração para brotar nos olhos... mas as do bom ator, que provoca essa emoção, são lágrimas frias e calculadas, que descem do cérebro.

Com base nesta ideia, ele traça um paralelismo entre essa situação observável no teatro e aquilo que observamos na vida. Pensando na vida social e política como um grande teatro, Diderot opõe, de um lado, a condição ativa do ator, e de outro, a condição passiva (e passionalmente manipulável) do público. E sugere que o amadurecimento intelectual e moral do povo, defendido pelo movimento Iluminista, deveria pautar-se nisto: numa educação (por exemplo através das artes, como o teatro) que ajudasse as pessoas a amadurecerem sua razão, tornando-se frias e calculistas como os bons atores, de modo a se imunizarem contra qualquer manipulação emocional, e se colocarem em uma condição humanamente "superior".

O mais interessante é a compreensão diderotiana — bastante incomum — do que seria uma pessoa em condição humanamente "superior". Diz ele que entre os cidadãos mais evoluídos intelectualmente, entre os mais frios, calculistas e racionais, os que atuam à maneira dos bons atores na vida social e política, se encontram tanto os de uma moral altruísta a mais elevada, quando os mais terríveis e surpreendentes criminosos. Diderot valoriza a ambos, e considera inaceitável a mediocridade, a posição daqueles que, mesmo tendo todas as condições de desenvolverem sua razão, persistem em se manter na zona de conforto mediana, sem ousarem ir tão longe em qualquer das duas direções.

Esse tema da pessoa que leva suas relações sociais à maneira de um ator frio e calculista retoma algo de Maquiavel (1469-1527). Além de detectar e analisar teoricamente esse tipo de postura nos líderes mais eficazes, Maquiavel escreveu peças de teatro como A mandrágora que sugerem a extrapolação disto como um modelo superior de comportamento para as pessoas em geral, em suas relações sociais. Pois quem se conduz na vida como um ator frio e calculista torna-se imprevisível, e por isso mesmo, livre das manipulações por parte dos outros — e esta é, segundo Maquiavel, uma das principais razões pelas quais os líderes mais eficazes são os mais eficazes. Porque se tornam mais independentes em relação a forças externas manipuladoras do que outros líderes. Neste sentido, o bom uso maquiaveliano das máscaras, do fingimento frio e racional, está ligado até certo ponto ao tema da liberdade. Uma liberdade individual na vida diária — embora em Maquiavel isto permaneça sempre apenas sugerido.

Entretanto a liberdade nunca é tratada explicitamente por Maquiavel como uma questão que diga respeito aos indivíduos. Pelo contrário, o florentino fala sempre de uma liberdade republicana, a liberdade do conjunto dos cidadãos de uma sociedade. Falar em uma liberdade individual à maneira de Maquiavel seria como sugerir que O príncipe fosse um livro aconselhável para qualquer um, e não somente para os líderes. Contudo Maquiavel deixa bem claro que se trata de um livro cujos conselhos se dirigem apenas aos príncipes, e ainda mais estreitamente, apenas aos principes que se encontram em determinadas condições, muito específicas, em relação aos seus governados. Por outro lado, no caso de Diderot, esse tema da liberdade individual ligada ao autodomínio racional e à utilização do fingimento, à maneira de um ator, se ajusta perfeitamente.

Se houve aí uma influência maquiaveliana sobre Diderot (e provavelmente houve), essa influência consiste precisamente nisto. Diderot torna explicita e explora até o fundo uma possibilidade apenas sugerida indiretamente e de modo hesitante em Maquiavel. A de uma liberdade individual apoiada no controle racional, pelo indivíduo, de sua imagem perante os outros na vida social — como um ator.

Uma outra influência sobre Diderot (e aliás sobre todos os filósofos do Iluminismo) vem direta ou indiretamente de Maquiavel: a influência do empirismo, da valorização da experiência e dos dados sensíveis no estudo. Francis Bacon (1561-1626), que havia sido o principal sistematizador da pesquisa empírica, já declarara em sua principal obra (Novum organon) que o verdadeiro iniciador desse método de estudo tinha sido Maquiavel. Mais adiante, John Locke (1632-1704) havia adotado um empirismo modificado por uma certa dose de influência de Descartes (1596-1650). depois disto o empirismo, combinado de diversas maneiras com influências do racionalismo, foi se tornando um dos eixos de desenvolvimento da filosofia Iluminista — e em Diderot é também o que percebemos: valorização extremada da razão, mas também acompanhada de uma postura firmemente empirista, de modo a articular racionalmente aquilo que nos é trazido pela experiência.

Os textos literários e teatrais de Diderot demonstram sempre elevado senso crítico, preocupações sociais e um humor irônico e ácido, tendendo à polêmica, algumas vezes ao escândalo. Uma de suas obras, por exemplo, As joias indiscretas (publicada anonimamente em 1748), é toda permeada de erotismo. Trata de uma situação ridícula e absurda: e se de repente, sem qualquer explicação, as "joias" das mulheres (isto é, suas vaginas), começassem a falar... ou melhor, a tagarelar, revelando segredos e mexericos nas ocasiões mais inoportunas e cometendo as maiores indiscrições? Diderot se utiliza desse tema picante para fazer inúmeras denúncias aos piores aspectos cos costumes na França, por exemplo entre as classes mais altas.

Em outra ocasião, Diderot publicou uma muito célebre Carta sobre oscegos, para o uso daqueles que podem ver (1749). Nesta obra, faz uma história da evolução do pensamento humano. Nesta sua interpretação do processo, o pensamento humano passa por uma fase deísta, depois por uma fase cética, e finalmente chega, no estágio mais avançado, ao materialismo ateu. Politicamente, estava vivendo na época do absolutismo monárquico de direito divino, em que a condição de poder do rei era sustentada pela ideia de que ele tinha o direito sagrado de governar, dado a ele por Deus. De modo que esta obra de Diderot, colocando o materialismo ateu e o ceticismo acima do deísmo, foi recebida comjo uma afronta aos poderes estabelecidos — o que de fato era. Diderot foi parar na prisão.

Uma atitude de Diderot em relação a um jovem amigo também dramaturgo e filósofo é bastante ilustrativa em relação à generosidade com que, enquanto Iluminista, defendia o livre pensamento e o livre posicionamento, racionalmente fundamentado, das pessoas. Diderot estava preso pela publicação de sua subversiva Carta sobre os cegos, e recebia sempre a visita do amigo Jean-Jacques rousseau — na época um desconhecido. Nessas visitas, discutiam filosofia. E em uma delas Rousseau estava diferente. emocionalmente instabilizado e comovido por uma grande descoberta. Dizia ter tido um insight, dizia que ao voltar do último encontro entre eles, teve que parar no caminho, porque toda uma cadeia de pensamentos haviam tomado subitamente o seu cérebro, fazendo-o ver de repente com clareza inúmeros erros que vinham sendo cometidos pelos seres humanos em sua história política, social, intelectual e artísitica. rousseau dizia ter caído no chão e chorado. Então apresentou ao amigo Diderot um rascunho manuscrito que hafia feito às pressas expondo o conjunto de todas essas ideias.

Diderot leu o manuscrito. Era brilhante, mas precisava de mais elaboração e argumentação. Aconselhou então que Rousseau reelaborasse melhor esse texto, com maior fundamentação e cuidado nos raciocínios e na linguagem. E que o inscrevesse em um grande concurso de ensaios filosóficos que estava sendo promovido por uma famosa academia francesa. Ajudou o amigo Rousseau com críticas, comentários e sugestões. Rousseau seguiu o conselho, e utilizou-se bem das sugestões de Diderot. Venceu o concurso, tornando-se a partir daí imediatamente famoso em toda a Europa... mas famoso não apenas pela qualidade de sua reflexão: é que os posicionamentos que Rousseau defendia pareciam não apenas polêmicos, mas escandalosamente inaceitáveis para muita gente. Diderot defendeu publicamente a quaqlidade da reflexão filosófica daquele texto e de outros textos escritos mais tarde por Rousseau, apesar de sentir-se na obrigação de escçlarecer que não concordava com o amigo.

O interessante, o que mostra sua postura de valorização do livre pensamento, é que a filosofia recém-inaugurada do jovem amigo Rousseau não era apenas a defesa de ideias com que Diderot não poderia concordar: mais do que isso, aquela filosofia parecia ser em tudo o oposto do que Diderot e os Iluministas sempre haviam defendido. Rousseau parecia ter se revelado um dos maiores adversários filosóficos que Diderot e os Iluministas teriam que enfrentar. No entanto, teve o valor de suas reflexões plenamente reconhecido pelo amigo.

Mais tarde, curiosamente, quando Rousseau escreveu um livro de orientação muito mais claramente política — O contrato social, que viria a ser de todas a sua obra mais famosa — sua imagem junto aos Iluministas (para alegria do amigo Diderot) sofreu uma súbita reviravolta. Vinham considerando Rousseau como um adversário conservador. Agora, surpresos com o conteúdo deste livro, se viam na obrigação de reconhecer não só o valor de sua filosofia, mas inclusive sua radicalidade como um pensador politicamente revolucionário, na defesa de posicionamentos politicamente emancipatórios e libertadores que eram defendidos pelos próprios iluministas. 

De 1751 a 1772, Diderot (em conjunto com outreo iluminista, D'Alembert), foi publicando volume após volume a Enciclopédia ou dicionário razoado das ciências, artes e ofícios. Os dois recolheram e organizaram sob este título ensaios escritos pelos mais variados filósofos e estudiosos em todos os campos do conhecimento, construindo um material que deveria servir como um compêndio para a informação mais completa possível dos leitores, a respeito das discussões entre os estudiosos europeus sobre todas essas áreas.

Este vastíssimo empreendimento — a primeira (e a filosoficamente mais densa) de todas as enciclopédias na história da humanidade — exprime com clareza um dos mais importantes valores defendidos pelos Iluministas. Trata-se do ideal, herdado de grandes intelectuais do Renascimento como Leonardo Da Vinci, de que cada pessoa pudesse formar e desenvolver sua inteligência unindo e integrando racionalmente todas as esferas do conhecimento, sem restringir-se aos limites de uma especialidade.

Podemos dizer conm segurança que, pelo menos no caso de Diderot, a gigantesca proposta educacional dos Iluministas — e entre eles, dos participantes desse empreendimento mencionado no parágrafo anterior, que ficaram conhecidos como os enciclopedistas não era em nada uma proposta utópica, sem fundamento em uma cuidadosa observação da realidade social por exemplo da França naquela época.

Os estudos que Diderot dedicava à compreensão das relações sociais reais, quase à maneira sociológica (embora a sociologia ainda não existisse) transparece com clareza em sua produção literária e teatral. Um exemplo famoso nesse sentido é uma peça de teatro humorística escrita por ele com o título O sobrinho de Rameau (em 1821). Rameau havia sido um músico famoso, seu sobrinho imaginário, na peça de Diderot, é uma espécie de malandro que vive de favores, um puxa-saco que vive de seu puxassaquismo, hospedado na casa dos outros — e que, deste modo, acabou passando, de uma maneira ou de outra, pelo contato com todas as mais variadas camadas da sociedade.

Isto quer dizer que o sobrinho de Rameau conhece e indiretamente representa, em sua experiência de ajustar-se aos mais variados costumes, a vida de todas as camadas sociais da França. O sobrinho de Rameau acaba desenvolvendo, nessa sua vida nada admirável, para não dizer desprezível, uma espécie de caricatura de filosofia que, surpreendentemente, não deixa de ter sua grandiosidade, justificando e explicando seus comportamentos e seu modo de ganhar a vida. A argumentação do malandro, neste sentido, é não apenas divertida, mas atraente, na verdade inteligente e incrivelmente sedutora. Mas esboça uma jogo de valores tão desprezível que não poderia deixar de ser apresentado em confrontação com um poderoso contraponto.

Neste sentido, a peça consiste em um longo diálogo entre o sobrinho de Rameau e um filósofo, diálogo em que a esperança iluminista da filosofia da época, na figura deste segundo personagem — bem mais sóbrio, sensato e profundo, mas também incomparavelmente menos simpático e atraente para o público — enfrenta o cinismo oportunista e sem freios do personagem principal.

O resultado é uma brilhante radiografia da mentalidade de cada uma das camadas da sociedade francesa, denunciada em seus recôndidos mais sórdidos, desprezíveis e ridículos, e avaliada do ponto de vista dos ideais iluministas... Mas a radiografia se desenha em meio ao esgrimar de palavras de uma luta desigual, muito árdua e até mesmo heróica de defesa desses ideais pelo filósofo. Contra o muitíssimo mais sedutor representante de toda essa mediocridade desprezível: o personagem-título, o malandro que, em sua figura estriônica, consegue paradoxalmente transformar a própria mediocridade que de cabo a rabo atravessa, sob mil formas, toda a sociedade francesa, em uma espécie enviezada de gloriosa grandeza... o espertalhão que, ainda por cima, constrói essa grandiosidade do medíocre dotando-a até mesmo de seu próprio código de (i)moralidade! Este terrívelmente sedutor adversário do filósofo — o sobrinho de Rameau.

Uma leitura que vale à pena conferir.

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