Tópicos de vida e obra de René Descartes

Por João R. A. Borba (João Borba)

 

René (ou Renato) Descartes é considerado o "pai do racionalismo". Desenvolveu a teoria segundo a qual o mais importante para o conhecimento é o uso da razão — e não a experiência empírica. E acabou sendo seguido nesse racionalismo por toda uma linhagem de filósofos "cartesianos", alguns deles mais próximos de fato ao seu projeto original, outros menos.

Escrevia suas obras em Latim, como era o costume da época para publicações acadêmicas e teóricas, ou em francês, e costuma ser considerado um filósofo francês. Mas na verdade nasceu na Haia, no vilarejo de Tourain, que era considerado parte da cidade — Haia é hoje uma das maiores cidades dos Baíses Baixos (muitas vezes chamados imprecisamente de Holanda).

Hoje sede de inúmeras grandes organizações internacionais, além do próprio governo dos Países Baixos, na época de Descartes a cidade de Haia era apenas uma região com castelos e vilarejos, mas em seu território havia a província de Touraine, considerada um retiro natural dos reis e famosa por seus belos jardins. Seus pais na verdade eram de Poitou, cidadezinha francesa bem próxima, separada da Haia por um rio. Poitou estava em região protestante, e Haia em região católica — e na época havia muitas guerras e conflitos em toda a Europa entre os seguidores dessas duas religiões. O pai de Descartes exercia um cargo diplomático e estava viajando durante a gravidez de sua mãe, que sozinha em Poitou, preferiu atravessar  rio para ir ter o filho na casa da mãe dela em Touraine — não na parte da província formada pelos castelos e jardins, mas no vilarejo de Touraine.

Esse detalhe na história do nascimento de Descartes tornou-se importante em sua biografia, porque tendo nascido em território católico, foi também criado por católicos, e mais tarde, na vida adulta, desenvolveu muito medo da Santa Inquisição católica, cuja perseguição aos intelectuais ele presenciou durante a vida. Conforme desenvolvia e publicava suas principais obras, foi procurando refúgio em países protestantes, sem perceber que os estudiosos protestantes iriam também persegui-lo justamente por verem nele um pensador católico, de modo que as críticas às suas ideias foram muitas vezes agressivas e desmedidas. 

Ainda em seu tempo de colégio, já questionava os métodos de seus professores de uma maneira que apontava para o que seria no futuro a sua filosofia. Na época (início do séc. XVII) ainda não existia a seperação entre ciências e filosofia que se desenvolveu no século XIX.

As disciplinas de filosofia eram lógica, física, matemática, metafísica e moral. E a física era dominada pela visão de mundo aristotélica, que trabalha com quatro tipos de "causas" da exstência das coisas (material, formal, eficiente e final), das quais na interpretação cristã, que era a dominante, a causa final, ou finalidade, era a principal delas. Considerava-se então que as coisas iriam sempre se desenvolver, ao longo do tempo, no sentido de cumprirem a sua finalidade. A existência dessa finalidade para as coisas era o que principalmente as movia.

Durante esse tempo de colégio, Descartes foi um jovem muito doente, e as explicações dos médicos par sua doença não o convenciam. Sentia-se inseguro com os medicamentos e procedimentos médicos indicados. E acabou desenvolvendo uma obsessão pela segurança nos conhecimentos, não apenas na área médica, mas em todas as áreas. Incomodado com as incertezas nas outras disciplinas, começou a dedicar-se muito mais aos estudos de matemática, e começa a defender que todo conhecimento deveria se basear em procedimentos de demonstração, e que fossem tão firmes como os matemáticos. Descartes decide, então, pela primeira vez na história, aplicar a matemática aos estudos de física, e inclusive construir uma nova física, apoiada na matemática.

Terminou o colégio com esse projeto em mente, e partiu então em uma série de viajens procurando conhecer o mundo e satisfazer suas curiosidades intelectuais. Nisto parece ter siguido a princípio o modelo de outro filósofo anterior, o cético Montaigne, que viajava muito procurando aprender "no livro do mundo". Mas sendo um cético, Montaigne não poderia servir por muito tempo como modelo. Porque o ceticismo é uma filosofia que, apesar de não se contentar com meras informações recebidas de autoridades intelectuais, valorizando o trabalho de investigação e sempre questionando os conhecimentos mal fundamentados — coisas que agradavam a Descartes — por outro lado nunca chegava a certeza nenhuma a respeito de nada, e questionava exageradamente mesmo as certezas que pareciam mais sólidas, de modo que até agravava as incertezas ao invés de saná-las.

Assim como o ceticismo de Montaigne não chegava a satisfazê-lo, porque parecia esboçar a solução das incertezas apenas para no final aprofundá-las ainda mais, também não se satisfez com a proposta montaigniana de viajar pelo mundo para conhecer as coisas. Isto não lhe pareceu suficiente. Também ão considerava seguras as informações adquiridas apenas experimentalmente, nem as "leis da natureza" induzidas apenas a partir da pesquisa empirica de campo à maneira dos estudos políticos de Maquiavel (1469-1527) ou da pesquisa empírica de laboratório que vinha se apoiando em Francis Bacon (1561-1626). Queria de algum modo articular os seus conhecimentos e informações de maneira racional e coerente, e encontrar algum fundamento lógico geral para tos os conhecimentos que uma pessoa poderia adquirir. Achava que isso traria mais firmeza e segurança às informações adquiridas.

Em 1618 escreveu um Compêndio de Música que revela seu interesse pela matemática e sua valorização do que essa disciplina teria a oferecer aos estudos em todas as áreas. Em 1628 escreveu um livro inacabado, as Regras para a direção do espírito, nas quais já deixava claros sua preocupação e seus cuidados com o processo de investigação que deveria levar a conhecimentos mais solidamente fundamentados.Mas as obras mais fundamentais para conhecer seu pensamento são o famoso, curto e claríssimo Discurso do método (de 1637), e as Meditações sobre a filosofia primeira (de 1641), obra importantíssima, de detalhamento e aprofundamento de todo o conjunto de sua filosofia, que teve muitas reedições e também ficou conhecida como Meditações metafísicas. A essa obra foi dedicada uma das mais densas e minuciosas análises de um texto filosófico já feitas na história da filosofia — mas também uma análise árida, seca, de leitura cansativa, e que deixa de fora as importantíssimas conexões da obra de Descartes com o seu contexto histórico e com os debates filosóficos da época: o extensíssimo livro de Mathiau Guérroult, em dois volumes, intitulado Descartes selon l'ordre des raisons.

Nessas meditações de Descartes se revela o quanto o filósofo buscou obsessivamente a coerência consigo mesmo, a tal ponto que as fases de sua filosofia na maior parte do tempo parecem se ajustar quase perfeitamente uma à outra numa sucessão em que as coisas vão se completando e explicando umas às outras, sem mudanças de sentido ou de posicionamento realmente relevantes. Por isso mesmo Descartes serviu muito bem aos propósitos de Guéroult, cujo método de análise de textos filosóficos  — conhecido com leitura estrutural — tende sempre a supervalorizar a organização sistêmica e coerente da obra do filósofo estudado, minimizando quaisquer desvios e contradições. E minimizando também as "perturbações" ao processo de construção desse sistema coerente que poderiam ser representadas pelos debates com outros autores, pelas interações com o contexto histórico e até mesmo pelas metáforas que um filósofo usa.

O método de Guéroult é muito criticado (com toda razão aliás) por projetar no raciocínio dos filósofos estudados um perfeccionismo lógico e uma coerência que nem sempre são de fato reais, nem sempre estão realmente presentes no texto lido, e inclusive nem sempre estão de acordo com as intenções e a proposta do próprio filósofo. Mas não se pode deixar de observar que, no caso de Descartes, temos uma filosofia que condiz bastante com essa proposta e se ajusta consideravelmente bem a uma leitura estrutural guerroultiana, ainda que não perfeitamente.

Historicamente, os debates de Descartes com outros filósofos foram de grande importância. Ele enviou cartas a diversos estudiosos de renome na época pedindo críticas às suas Meditações sobre a filosofia primeira, e muitas edições do livro passaram depois a vir acompanhadas das cartas desses filósofos com suas críticas, e das cartas de Descartes respondendo a elas. É uma correspondência filosoficamente interessantíssima, e revela um debate bastante tenso, incluindo passagens bastante agressivas, embora os argumentos sejam profundos e inteligentes, e dominem o clima muito acima da agressividade.

Entre o Discurso do método e as famosas Meditações de 1641, Descartes escreveu, além de textos filosóficos, textos sobre geometria e física. Mas foi depois das famosas Meditações que se tornou um filósofo muito debatido e valorizado em toda a Europa — por outro lado também polêmico, assustando aos mais conservadores. Apesar disso, a postura pessoal sempre discreta de Descartes em relação a questões religiosas, e sua distância em relação a questões de política, acabaram contribuindo para sua aceitação, sua difusão e sua fama.

A certa altura, a proposta cartesiana de uma física de base matemática acabou se tornando uma tendência oficial nessa área: nos livros de colégio e universitários, a física aristotélica passou a ser substituída pela física cartesiana. O livro Princípia philosopheae (princípios de filosofia), de 1644, foi escrito para substituir nas instituições acadêmicas os livros de física baseados em Aristóteles. Entre outras diferenças a física cartesiana recusava qualquer finalismo — isto é, eliminava a noção aristotélica de "causa final" — e deixava de tratar a matéria e a forma como "causas", reinterpretando essas duas noções matematicamente e incorporando-as em uma só: a noção geométrica de extensão.

Descartes havia criado em geometria os famosíssimos e utilíssimos gráficos cartesianos. Passou a trabalhar com a ideia de que, ao invés das "causas materiais" e "causas formais" de Aristóteles, poderíamos trabalhar apenas com a noção de que há corpos que ocupam o espaço geométrico, porque são dotados de extensão — estendendo-se de cada ponto geométrico, no contorno de sua forma, que é o limite de sua extensão, até o ponto oposto, no outro lado desse seu limite de contorno. Assim, colocando os corpos extensos em um gráfico cartesiano, poderíamos calcular a trajetória de cada ponto nessa extensão, dentro do gráfico, conforme esse corpo fosse se movendo ou mudando de forma. E isto poderia se aplicar de maneira muito útil ao estudo dos corpos físicos que observamos empiricamente no mundo.

Mas o golpe mais profundo na física aristotélica da época, por parte de Descartes, foi o simples abandono da noção de causa final — à qual os estudiosos cristãos se apegavam mjuito, porque explicar que as coisas se movem e se transformam em função do objetivo ou finalidade que elas devem cumprir, ajudava a justificar que tudo estivesse ligado em última instância à providência divina, porque Deus seria no fundo a causa final de tudo, tudo estaria encaminhado para um destino certo pela vontade divina, e encaminhado no sentido de uma grande união final das almas humanas e das essências de todas as coisas com Deus.

Para Descartes, entretanto, nada disto era matéria adequada para os estudos da física natural. De modo que para explicar o que produzia os movimentos e transformações dos corpos extensos (movimentos e transformações cujas direções e velocidades poderiam ser calculadas no gráfico cartesiano), bastava a ideia de causa eficiente. Cada corpo extenso, ao mover-se ou mudar de forma, estaria "empurrando" outros corpos extensos ao seu redor, de modo que seria a causa eficiente o que provoca como efeito as mudanças de forma e os movimentos desses outros corpos extensos. E pronto.

As polêmicas religiosas em torno da filosofia cartesiana só se apaziguaram até um nível razoável conforme Descartes esclarecia que, para ele, todo o conjunto de seu pensamento dependia, de certo modo, da suposição da presença de Deus. A bondade divina seria a única fonte capaz de assegurar, em última instância, que tudo isso fosse correto e seguro no entendimento das coisas. De fato, segundo Descartes, sem a presença da bondade de Deus garantindo que nossa razão não esteja errada, todo esse raciocínio de fundo geométrico correria o risco de não passar de uma grande invenção da imaginção humana, sem nenhuma conexão com a realidade fora de nossas mentes.

As polêmicas sobre a filosofia cartesiana se amenizaram mas permaneceram, girando sempre em torno de dois eixos principais. Do ponto de vista dos conservadores mais apegados à filosofia cristã, parecia escandalosa a noção que Descartes nos passava das relações entre Deus e o mundo natural e material em que vivemos. O mundo, e tudo o que há nele, incluindo nossos corpos e os das plantas e animais, comporiam uma imensa engrenagem que funciona como um relógio, um grande sistema de causas e efeitos sem nenhuma intervenção divina. Deus teria apenas criado tudo isso, toda essa gigantesca e complexíssima engrenagem, e depois dado o "peteleco" ou "piparote" inicial para colocar a coisa toda em movimento. Mas um "peteleco" com força infinita, de modo que a engrenagem toda continuaria eternamente em movimento sem que fosse preciso qualquer outra ação de Deus.

Por outro lado, muitos filósofos e estudiosos ficaram incomodados que a nova física cartesiana ainda ficasse na dependência da aceitação de que todo o conhecimento dependesse em última instância de Deus. Tinha cultivado a esperança de que o projeto cartesiano de uma nova física, mais racional, os livrasse da vigilância conservadora dos religiosos, e a resposta de Descartes quanto a esse ponto não parecia ainda suficientemente libertadora. Muitos filósofos, apesar de se assumirem "cartesianos", passaram a tentar buscar uma fundamentação mais materialista para tudo isso, e menos dependente da metafísica cristã, levando a ousadia cartesiana — a valorização do trabalho racional humano — tão longe quanto se sentiam capazes de fazê-lo.

Depois das Meditações de 1641, Descartes começou finalmente a concentrar sua atenção, em seus textos, nos estudos de biologia e medicina — os primeiros que em sua vida haviam despertado nele a aflição diante das incertezas do conheciemento humano. E em 1649, a pedido da rainha da Suécia, tendo sido convidado a visitá-la naquelas terras frias, escreveu As paixões da alma. Na mesma viajem contraiu pneumonia, e veio a falecer em 1650.

O livro As paixões da alma parece ter inflamado novamente algumas polêmicas em torno de sua obra a respeito das relações entre corpo e alma. Descartes afirmava, grosso modo, que o corpo humano era apenas uma máquina de carne, e os sentimentos resultavam da ação da alma sobre essa máquina de carne e dos efeitos, ou reações, dessa máquina (o corpo) sobre a alma. Mas como algo imaterial, como uma alma, poderia mover algo material, como um corpo físico? Por meio de pressão física? Mas a capacidade de exercer pressão física sobre alguma outra coisa é precisamente uma das características que definem as coisas materiais, não as imateriais, como a alma. De que modo então ela poderia agir sobre o corpo?

Era uma questão de enorme importância, porque dizia respeito à liberdade humana. Se o corpo humano é apenas uma engrenagem movida por estímulos e causas que o "empurram" para esta ou aquela ação, a liberdade estaria na alma, que agindo sobre essa engrenagem do corpo a movimentaria como bem entendesse.

Descartes afirmava que no cérebro humano, a "glândula pineal" (de função desconhecida na época) era um órgão "sensível à alma", que era através dessa glândula que a alma agia sobre o corpo: ela estimulava a glândula a produzir "espíritos animais" que percorriam o corpo provocando seus movimentos. Atentos à época, podemos ser complacentes com a linguagem ainda um tanto medieval de Descartes ao tratar deste ponto, para podermos captar o que ele nos traz de molhor; podemos entender os seus "espíritos animais" como produtos químicos, ou talvez impulsos eletroquímicos. Mas o problema não é este — como também não era para os filósofos que naquele momento voltaram a criticar a filosofia cartesiana. O problema era que transferir o contato da alma imaterial com o corpo material para uma glândula — que continua sendo um órgão físico, material — não resolve as coisas.

Este problema, junto ao da dependência dos estudos físicos cartesianos em relação à crença em Deus — como se um cientista fosse obrigado a necessariamente aceitar a noção cristã de Deus para confiar em suas pesquisas — fez com que mais tarde, na época do Iluminismo e do seu fortíssimo impulso ao estudo do mundo natural, a filosofia de Descartes (que antes havia sido tão rebelde em relação ao domínio dos estudos pela mentalidade cristã) passasse a ser considerada excessivamente presa à metafísica cristã. Sobretudo da parte dos mais radicalmente materialistas (como Jean Meslier, por exemplo).

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