Enesidemo

Enesidemo

(Enesidemo)

Enesidemo de Cnossos

(80 aC -? - 130 dC - ?)

Tópicos de Vida e Obra de Enesidemo

Por João R. A. Borba (João Borba)

Quem foi Enesidemo?

Enesidemo foi um dos mais importantes filósofos da Escola Cética, e o formulador de uma das versões mais radicais dessa filosofia. As informações sobre seus pensamentos são fartas e consistentes, mas sobre sua vida se sabe pouquíssimo, quase nada. Nem mesmo as datas certas de nascimento e morte.

Sabe-se que viveu em algum período aproximadamente entre 80 aC e 130 dC. No entanto a data de 130 dC para sua possível morte não parece muito confiável, sendo mais provável que tenha falecido muito antes, talvez nas primeiras décadas do século I. Portanto viveu provavelmente entre o século I aC e o começo do século I dC.

Parece ter morrido, então, na época da juventude de Cristo, mais ou menos (talvez apenas algumas décadas depois do nascimento desse líder religioso, mas não se sabe ao certo). De qualquer modo essa quase-coincidência entre as biografias do fundador de uma das mais influentes crenças religiosas da história mundial (o cristianismo) e do possivelmente mais radical de todos os céticos na história mundial, que desenvolveu seus pensamentos pouco antes, não deixa de ter o seu sabor de ironia um tanto amarga — porque jamais uma filosofia foi tão persistentemente crítica e investigativa, e tão avessa à fixação e proliferação de dogmas, crenças e "verdades" de qualquer espécie, quanto o ceticismo — sobretudo na versão de Enesidemo.

Enesidemo era no início (antes de fundar sua filosofia chamada "ceticismo") apenas um membro da famosa Academia Platônica da antiguidade, que durante o Império Romano chamou muito a atenção por seus membros defenderem a tese uma tese bem estranha para estudiosos de Platão: a de que as profundas e verdadeiras essências das coisas eram totalmente inatingíveis, e portanto não era possível atingir verdade nenhuma acerca de nada, nem mesmo sequer afirmar que tais essências realmente existiam.

Essa posição dos filósofos "acadêmicos" da antiguidade coincide de certo modo com o que as pessoas leigas em filosofia, em seu senso comum, passaram a chamar mais tarde de "ceticismo", a partir do nos séculos XIX. Mas na verdade o termo "ceticismo" foi criado somente depois, pelo próprio Enesidemo, para dar nome justamente à sua nova filosofia, quando se separou dos acadêmicos.

Esses estudiosos platônicos da antiga Academia se apoiavam principalmente nas obras de juventude de Platão, sem dar muita atenção às suas obras de maturidade. Portanto, estudavam Platão apenas a partir de suas obras mais influenciadas por Sócrates (pois se sabe que Platão só se afastou dessa influência para criar a sua própria teoria na maturidade). De certo modo eram então mais socráticos do que realmente platônicos.

Enesidemo fundou a linhagem realmente Cética de filosofia quando decidiu ir ainda mais longe do que seus colegas acadêmicos. Fez isso escrevendo um livro ironicamente dedicado a um deles (L. Tubéron) e de título quase impossível de se traduzir — título que, parece, aproximava a filosofia da vida a ponto de negar a própria ideia de uma mesma "Escola", ou "Sistema" ou "Teoria" de filosofia a ser seguida por pessoas diferentes... tavez porque não haja vidas vividas de maneira exatamente igual, mas conforme já dito, a tradução (e também a interpretação do sentido) desse título é problemática. O fato é que, com sua nova postura, Enesidemo parece ter não apenas criticado a leitura que seus colegas faziam de Platão, mas abandonado de vez qualquer relação com o platonismo (mesmo aquele platonismo socrático de juventude).

Em sua nova linha de pensamento, Enesidemo argumentava que os seus colegas da Academia estavam sendo contraditórios, que a própria certeza de que não havia nenhuma verdade ou acesso a qualquer tipo de verdade já era, contraditoriamente, uma maneira dos acadêmicos de afirmarem pelo menos uma, uma única e decisiva verdade: a verdade de que "não há verdades humanamente acessíveis" (a não ser esta, é claro). Enesidemo foi mais longe porque se recusou a acreditar até mesmo nisto.

O posicionamento assumido por ele foi, resumidamente, o seguinte.

Se existe ou não alguma verdade, seja ela qual for, simplesmente não sei, e vou passar a investigar incessantemente o assunto, examinando todos os argumentos que forem surgindo em qualquer direção, até que algum impasse me impeça de continuar nessa investigação. Enquanto espero algum argumento que me obrigue a sair desse impasse nessa questão, posso ir investigando outras questões. Mas sair de um impasse não significa de modo algum encontrar uma resposta aceitável, e sim apenas retomar as investigaçõesretomar as investigações? Até quando? Conforme já dito, incessantemente. A filosofia, aqui, já não se define mais como um conjunto de teses fundamentadas em argumentos, mas como uma prática incessante de investigação argumentativa.

A palavra ceticismo, usada por Enesidemo para dar nome a esse modo de pensar, vem do grego, e pode ser bastante bem traduzida justamente como "investigacionismo".

Mas e se o investigacionista (isto é, o cético), no meio do caminho de sua investigação, acabar encontrando alguma verdade em que acredita e que o satisfaz? — Então, a partir desse momento, evidentemente, ele terá deixado de ser um cético e mudado de opinião, como se poderá evidentemente constatar!

Mas o autêntico cético é precisamente aquele que persiste no caminho da investigação, contra todas as tentações no sentido de se "precipitar" na crença em relação a alguma verdade, qualquer que seja ela. O cético é, de certo modo, aquele que, em filosofia, permanece persistentemente um principiante, sem chegar a encontrar e defender quaisquer "verdades", mas que, ao contrário do principiante, continua a fazê-lo mesmo depois, já com base em profunda e meditada experiência, mantendo-se sempre propositalmente em atitude similar à do principiante.

Para evitar ser confundido em seu posicionamento com seus antigos colrgas acadêmicos, Enesidemo preferiu deixar de lado a figura de Sócrates, e declarar-se seguidor, nessa sua nova postura, de um outro filósofo também famoso e até lendártio, pouca coisa posterior a Sócrates e de posicionamento bastante similar, chamado Pirro (da antiga cidade grega de Elis). Destarte, o novo Ceticismo filosófico fundado por Enesidemo também pode ser chsmado de Ceticismo pirrônico, ou simplesmente "pirronismo".

No século XX os estudiosos de Platão de um lado, e os de Sócrates de outro, detectando mais cuidadosamente as diferenças entre esses dois filósofos, passaram cada vez mais a aproximar Sócrates daquela postura defendida por Enesidemo, embora o cético ainda pareça, para esses estudiosos, uma versã bastante radicalizada do que se supõe que tenha sido o Sócrates original.

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