Tópicos de vida e obra de Friederich Engels

Por João R. a. Borba (João Borba)

 

Engels era, por assim dizer, o "fiel escudeiro" de Karl Marx. Companheiro de estudos, ele e Marx escreveram juntos muitas obras, a quatro mãos, e consideravam suas filosofias quase como uma só, de modo que dividiam tarefas entre eles. Mas a construção e o direcionamento dessa filosofia foram conduzidos principalmente por Marx, que liderava a dupla — como o próprio Engels sempre reconheceu. Entre aquelas que seriam as atribuições de Engels nessa partilha de tarefas, estava na "sua parte" desse trabalho conjunto, a "tarefa infeliz" segundo ele, de escrever contra o anarquista Pierre-Joseph Proudhon. O objetivo era tirar do caminho aquele adversário intelectual poderoso vindo das próprias classes trabalhadoras. Mas na verdade vemos uma atuação muito mais presente, decidida e agressiva de Marx nessa "desconstrução" crítica do socialismo proudhoniano, do que de Engels. Suas críticas a Proudhon acabavam por tender a ser mais ponderadas e menos iradas que as marxianas.

Outro caso similar foi o do combate à teoria de Max Stirner, o anarco-individualista. Engels parece ter sugerido a Marx o interesse de se apropriarem de certos elementos da filosofia stirneriana, que mostrava por exemplo um forte poder de destruição das fantasias do idealismo sob todas as suas formas, e das abstrações teóricas em geral, dando atenção, em oposição a elas, ao indivíduo real de carne e osso e suas interações com outros indivíduos de carne e osso. Seja qual for a possível influência de Stirner sofrida por Marx, esse agressivo companheiro de Engels preferiu, mais uma vez, ocultá-las partindo para a confrontação direta. De qualquer modo, no caso de Stirner, tal influência sobre Marx, se houve, não foi tão penetrante e ampla quanto a de Proudhon — e a ambos indiferentemente, Stirner e Proudhon, Marx preferiu sempre dirigir mais ataques ferozes do que elogios.

A postura menos direta e agressiva de Engels em relação a esses anarquistas revela não propriamente uma fraqueza da sua parte, mas um traço de sua conhecida simpatia diplomática — que parece aliás ter sempre evitado ou amenizado atritos e conflitos gerados pela personalidade difícil do seu famoso amigo.

Engels frequentava mais facilmente que Marx o círculo desses anarquistas por exemplo. Não por serem anarquistas, mas principalmente porque eram (no caso de Bakunin e Stirner) membros da esquerda socialista dos jovens hegelianos na Alemanha. Tanto Engels quanto o próprio Marx faziam igualmente parte desse movimento. Entretanto era Engels que tinha algum diálogo com esses anarquistas, e até de Bakunin, o mais radical deles, chegou a falar de modo respeitoso e digno. Engels chegou inclusive a traçar — ao que parece num guardanapo de bar — um simpático e elegante esboço da silueta de Stirner, que acabou por ser a mais famosa das raras imagens disponíveis do anarco-individualista até hoje. No caso de Bakunin, foi também Engels quem observou, aliás com considerável dose de razão, que a teoria bakuniniana (fundada numa dialética similar à versão original de Hegel, mas na qual o princípio de negação exercia um papel  muito maior) seria uma combinação peculiar e original de Stirner e Proudhon.

A simpatia diplomática que parecia natural a Engels dispunha (fartamente, ao que parece) de um instrumento de ação com o qual ele conseguia sempre socorrer Marx em seus piores momentos: o dinheiro. Engels era de fanília abastada, e Marx precisava sempre se seu auxílio nesse sentido, porque vivia sob a perseguição de governantes e patrões, tendo que fugir de um país para outro, e passando por diversas e graves dificuldades. Engels usava o dinheiro, assim como sua facilidade para estabelecer amizades e bons contatos em toda parte, para garantir a Marx condições de sempre prosseguir em sua grande e incessante produção intelectual.

Das poucas diferenças nítidas e marcantes que se observam entre as teorias de Marx e Engels, há uma que merece destaque especial: enquanto Marx procurava utilizar sua dialética para a compreensão das relações de poder no seio das sociedades, Engels ia além (ou pretendia estar indo): expandia o campo de ação da dialética para dar conta, a partir dela, de fenômenos físicos, químicos etc... uma proposta que recebia o apoio do amigo Marx e que, virtualmente, poderia talvez ter tido repercussões revolucionárias. Entretanto precisamente essa sua expansão da dialética, devidamete examinada, acabou se revelando, aos olhos de muitos críticos do marxismo (e também aos de diversos críticos que eram eles próprios marxistas), uma formulação mais fraca que aquela de Marx — porque esta última era de aplicaçao mais estreita mas também mais incisiva, de modo que tal extrapolação engelsiana da dialética de Marx passou a ser vista muitas vezes como um exagero insuficientemente fundamentado.

Mas na verdade, o problema maior era (ou é) que proposta elgelsiana de expansão do campo de ação da dialética ousava invadir — com esse modo mais heracliteano de pensamento, em que tudo muda constantemente e cada coisa é carregada de contradições — o campo de um outro referencial já como que sacralizado por seu uso eficaz e seus constante sucesso na explicações científicas: o referencial da lógica clássica, apoiado, entre outros, no princípio de identidade e no princípio de não-contradição.

Neste sentido, o cientificismo crescente do século XIX, sob impulso do positivismo de Agusto Comte, com sua confiança na tradição de sucessos observada nas ciências, contribuiu para uma avaliação pessimista da proposta de Engels. Afinal, essa proposta ousava invadir com uma novidade incerta e ainda incipiente o espaço de um referencial já solidamente firmado como uma das principais fontes do sucesso científico: a lógica, com seu princípio de não-contradição (no fundo herdeiro de Parmênides, e oposto a propostas que fossem demasiado heracliteanas).

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