Tópicos de vida e obra de Pierre Clastres

Por João R. A. Borba

 

O francês Pierre Clastres é um dos nomes mais importantes da antropologia política mundial, e um dos maiores estudiosos mundiais da cultura indígena tupi-guaraní — senão o maior. A antropologia é uma ciência que, desde Franz Boas (1858-1942), passou a definir-se como estudo da condição humana através do exame das diferenças culturais.

Aluno de Claude Levy-Strauss, desenvolveu críticas à teoria estruturalista de seu mestre, apontando, com base em pesquisa de campo, a possibilidade da existência de "falhas", de "rupturas" reais no todo de uma estruturas social, que portanto não apresenta uma unidade tão completamente integrada quanto a teoria levy-straussiana supunha.

Mas entrou realmente para a história da antropologia política mundial por suas críticas a certos conceitos fundamentais usados nessa ciência.

Tradicionalmente, os antropólogos haviam se acostumado a tomar como objeto de estudo sociedades ditas "primitivas", que ainda vivem em condições pré-históricas e — ponto importante especificamente para a antropologia política — também sem se organizarem na forma de um Estado. Do ponto de vista antropológico, a comparação dessas sociedades "primitivas" com aquelas consideradas "já civilizadas" seria a chave para uma compreensão profunda da condição característica dos seres humanos, enquanto seres capazes de transcender sua condição animal e construir um ambiente cultural, para então viver nele.

Entre os problemas que logo começaram a se mostrar recorrentes e os de maior persistência, na tentativa de compreenderem essas culturas tão diferentes, está aquele que foi definido como o problema do etnocentrismo. Quando um representante de uma cultura (ou etnia) se encontra com um povo de cultura muito diferente da sua, dificilmente consegue ultrapassar o modo de ver as coisas que é característico da sua cultura de origem. A imagem que forma daquela outra cultura diferente da sua acaba sendo distorcida, contaminada, e isso prejudica sua compreensão dos dados e informações aos quais está tendo acesso. Isso ocorre porque o estudioso continua centrado na cultura de sua própria etnia, não consegue se "descentrar" para focalizar uma cultura que é centrada em valores muito diferentes dos seus.

No esforço para conseguirem chegar a uma compreensão melhor dessas culturas ditas "primitivas", os antropólogos estão sempre reexaminando seus métodos e seus conceitos,para evitarem qualquer contaminação etnocêntrica. Clastres foi o jovem antropólogo que surprendeu a todos os colegas da comunidade antropológica mundial demonstrando que um dos conceitos mais habituias e enraizados dessa ciência, e um dos menos suspeitos de qualquer contaminação desse tipo, era na verdade um conceito pesadamente carregado de preconceitos etnocêntricos: o conceito de "sociedade sem Estado" — modo como habitualmente eram tratadas aquelas diversas sociedades indígenas ditas "primitivas" que eram examinadas.

Já havia críticas à noção de que essas sociedades fossem "primitivas", porque tal noção sugeria que seriam de algum modo "inferiores" às sociedades ditas "civlilizadas". Para a imensa maioria senão para todas essas sociedades indígenas, a ideia "civilizada" de progresso simplesmente não existe, de modo que não se pode compreender como realmente pensa um desses indígenas utilizando uma idéia como essa. A ideia de progresso levaria a examinar os indígenas avaliando suas realizações culturais como se fossem "ainda atrasadas" e estivessem se encaminhando necessariamente para se tornarem, no futuro, parecidas com as realizações "já alcançadas" pelas sociedades "civilizadas". Seria um erro equivalente ao de um cientista qualquer que, ao invés de procurar examinar os fatos e compreendê-los como eles são, deixasse seu pensamento ser totalmente dominado por avaliações e preconceitos a respeito desses fatos.

Clastres foi mais muito além de uma simples crítica à contaminação dos estudos antropológicos pela noção de "progresso", muito além do alerta contra a consideração das sociedades indígenas como "primitivas". Demonstrou que a comunidade antropológica mundial, sem se dar conta, vinha tomando quase sempre essas sociedades como se "ainda" não estivessem organizadas em uma estrutura estatal como aquela das sociedades em que os próprios estudiosos de antropologia viviam. Ou seja, demonstrou que considerar as sociedades indígenas como "sem Estado" era indiretamente assumir que elas não possuíam, e quase que faltava a elas um Estado. Mais precisamente, era olhar para elas já com a ideia de um Estado em mente, para só então verificar que elas não possuíam um Estado assim. Isso dificultava a compreensão dessas sociedades em sua pureza, do modo como realmente se apresentavam.

De que modo Clastres demonstrou isso? Através da pesquisa de campo junto aos remanescentes e descendentes das antigas tribos tupis-guaranis que séculos atrás haviam dominado grande parte do território brasileiro. Clastres fez um cuidadoso, metodologicamente impecável, estudo das tradições desse povo em relação às questões de poder, chegando à conclusão surpreendente de que os tupis-guaranis sempre se organizaram socialmente não sem a presença de um Estado como o das sociedades "civilizadas", mas contra a possibilidade de que algo similar viesse algum dia a existir.

Os estudos de Çlastres mostram com clareza e meticulosa atenção os diversos mecanismos desenvolvidos pela cultura tupi-guarani visando evitar qualquer concentração de poder político em suas tribos, e como cada um deles age nesse sentido.

Segundo Clastres, a unidade dessas sociedades se estabelecia não com base em alguma forma central de poder, mas com base na união de famílias e no esforço de guerra, que une as famílias de uma mesma scomunidade destacando suas distinções em relação às tribos inimigas. Mas além disso, quanto aos tupis-guaranis, essa unidade se estabelecia também, e principalmente, sob a forma de uma luta constante para evitar a concentração do poder no interior da tribo.

Surge assim, com Pierre Clastres — e não sem uma certa dose de ironia de sua parte — a categoria da "sociedade contra o Estado" (que é também o título de sue livro mais famoso). As sociedades indígenas que se encaixam nessa categoria, como a dos tupis-guaranis, claramente não podem ser consideradas em qualquer estágio "primitivo" de organização, quando em comparação com as assim-chamadas "sociedades civilizadas".

Mas fazer essa crítica é também, indiretamente (mas com muita clareza) fazer a crítica de outro preconceito muito generalizado e enraizado não só na antropologia, mas em todos os campos de atividade humana, nas sociedades "civilizadas". O preconceito de que a presença do "Estado", com um foco de poder concentrado em seu interior, como é característico de todo e qualquer "Estado", seria algo necessário e incontornável na organização de uma sociedade.

A crítica de Pierre Clastres se revela, portanto, como uma nova forma, político-antropológica, de defesa do posicionamentos tipicamente anarquistas — como foi ficando cada vez mais evidente com as polêmicas que vieram emergindo, junto com a celebridade do jovem Clastres, entre ele e os marxistas, cuja antropologia centrada forçosamente nas questões econômicas, compreendidas a partir do modelo capitalista industrial, ele nunca deixou de criticar como etnocêntricas e, mais do que isso, ineficazes.

 

 

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