Tópicos de vida e obra de Caio Prado Jr.

Texto escrito por João R. A. Borba

 

Caio Prado ficou famoso especialmente por seu livro Formação do Brasil contemporâneo. Ele começa o seu livro com a ideia de que para entender o processo de formação do Brasil é preciso entender qual foi o sentido geral da sua colonização pelos portugueses. E para encontrar esse "sentido" é preciso buscá-lo onde a teoria de Marx diz que se encontra o sentido geral do desenvolvimento de qualquer sociedade: na sua economia, principalmente no modo como essa sociedade se organiza economicamente para produzir os bens materiais necessários para a vida da população, como roupa, comida etc.

O primeiro ponto a observar nisto, é que o sentido da colonização do Brasil, segundo ele, está ligado ao sentido de desenvolvimento da economia mundial na época, e especialmente da economia portuguesa.

O que Caio Prado quer dizer com isto é que não basta estudarmos uma sociedade isoladamente e "por dentro" (como Gilberto Freyre fez) para entendermos o sentido do seu desenvolvimento, porque qualquer sociedade está ligada a outras no mundo.

Os weberianos (e com eles Sérgio Buarque), embora não ignorassem as influências externas sobre uma sociedade, também costumavam dar muito mais atenção à formação "interna" da sociedade estudada do que a essas influências externas. Caio Prado, seguindo uma linha mais típica de Marx, procurou chamar a atenção para esses fatores externos.

A combinação dessa atenção à formação do sistema de produção de bens econômicos no Brasil com o estudo das influências externas nessa formação, acabou levando Caio Prado Jr. À seguinte conclusão: o Brasil desenvolveu, ao longo da história, uma forte tendência para sempre "chegar atrasado" nas grandes mudanças econômicas que foram acontecendo no mundo.

Ele observa, neste sentido, que Portugal começou a dar atenção a estas terras com atraso, porque no começo só as via como um posto avançado para tentar conseguir chegar até as Índias, visando o comércio de especiarias vindas de lá.

Quando passou a dar atenção ao Brasil, demorou a instalar alguma forma de produção aqui, porque começou interessado apenas na extração de pau-Brasil para a produção de tinta vermelha na Europa a partir dessa madeira brasileira.

Quando começou a produzir cana e café, foi com mão-de-obra escrava, e demorou muito mais que outras colônias para abolir a escravatura.

Normalmente, essa abolição vinha junto com as pressões da industrialização, que precisava de trabalhadores assalariados para depois comprarem os produtos consumidos. Mas no Brasil, a abolição veio sem a industrialização, por pressões políticas principalmente da Inglaterra sobre Portugal (a Inglaterra já estava industrializada, precisava de mercado consumidor, e sua guerra contra a França de Napoleão estava dificultando muito a venda de seus produtos na Europa, então começaram a pensar no Brasil).

Quando começou a industrialização no Brasil, foi com enorme atraso, e ao invés de um conflito entre os que queriam essa industrialização e os antigos senhores de terras e escravos (de famílias de origem portuguesa), esses senhores de terras e escravos espertamente começaram a negociar e se associar com os que queriam a industrialização, inclusive financiando-a, e como resultado... o país começou a se industrializar mas mantendo uma classe empresarial com mentalidade de senhor de escravo, que considera o fato de ter trabalhadores a seu serviço sendo pagos como se fosse, no fundo, uma espécie de "favor" seu (de ceder esses empregos a eles e ainda por cima pagando).

Uma ideia que de Caio Prado Jr. colocada por ele em uma entrevista para o jornal Folha de São Paulo, na década de 70, que ficou muito famosa, foi a de que o Brasil "perdeu o bonde do capitalismo".

Quando a maioria dos países do mundo já estavam desenvolvendo uma forma de capitalismo avançado, o brasil ainda estava começando o seu capitalismo, e muito devagar.

Para um comunista marxista, isto é péssimo, porque segundo Marx o próprio comunismo só seria possível quando o capitalismo tivesse se desenvolvido ao máximo no país, a ponto de criar uma maioria de trabalhadores com força e capacidade de organização para lutarem pelos seus direitos e tomarem o poder. Seguindo Caio Prado Jr., pessimista na sua avaliação, o Brasil não vai conseguir se desenvolver de verdade enquanto não conseguir vencer essa sua "tendência histórica para o atraso".

 

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