Tópicos de vida e obra de Roland Barthes

Por João R. A. Borba (João Borba)

Quem é Barthes?

Barthes é um estudioso das formas de comunicação verbais e não verbais e de suas interações com a cultura. Sua teoria avança também para os campos da estética e da crítica de arte e de literatura, e para os campos da sociologia e da psicologia social, oferecendo contribuições muito úteis também para os estudos de antropologia e de História — embora pessoalmente não tenha avançado na aplicação de seus métodos de estudo neste último terreno. Levantou também aplicações muito consistentes de sua teoria e de seus métodos no exame do que, após Foucault, vem sendo chamafo de micropolítica (o exame microscópico de relações de poder extra-oficiais difusas na sociedade).

Barthes, no entanto, nem sempre é claramente reconhecido como filósofo.

Em seu percurso intelectual, assimilou o marxismo, sendo influenciado sobretudo por Bertold Brecht, combinando depois a isso a fenomenologia e o estruturalismo. Mas manteve-se em todo o percurso ligado também à semiologia (próximo à linha de pensamento de Saussure). Sua teoria tende a oferecer recursos práticos para a reflexão e o exame crítico aprofundado de situações concretas com as quais nos deparamos na vida diária (por uma via similar à de filósofos outsiders como Vilém Flusser) — e destaca frequentemente os valores culturais envolvidos nas situações que examina, e suas implicações políticas e sociais.

Barthes pode ser considerado filósofo?

 

1.

O Dicionário dos filósofos de Denis Huisman abre o verbete "Barthes" (que vem logo após o verbete "Bakunin") dizendo o seguinte:


Barthes não é filósofo. É um crítico, talvez sociólogo, de qualquer modo um teórico. Nas suas obras finais, porém, faz incursões pela filosofia.

HUISMAN, Denis. Dicionário dos filósofos.
São Paulo: Martins Fontes, 2001, p. 117.


O mesmo dicionário, no entanto, reconhece mais adiante a presença de uma "filosofia do Eu" em uma pequena obra de Barthes sobre a música (O óbvio e o obtuso), e pouco mais à frente, mencionando além dela o exame de outra obra de Barthes, A câmara clara, realizado por um comentador (Eric Marty), acaba concluindo que:


Através da evocação desses últimos textos, acreditamos poder dizer que essa obra de crítico, de sociólogo de significações, mitos e textos, depreende-se ao fim e ao cabo uma filosofia do sujeito. uma teoria do Eu, que encontra sua identidade no reconhecimento de sua singularidade. Haveria em Barthes um filósofo.

HUISMAN, Denis. Dicionário dos filósofos.
São Paulo: Martins Fontes, 2001, p. 117.



O dicionário acrescenta ainda que segundo Manfred Frank, professor de filosofia da Universidade de Dusseldorf, na Alemanha, Barthes é lido naquele país como filósofo, e mais lido nas universidades do que Sartre, pporque costuma ser citado por um grupo conhecido como Escola de Constança e por teóricos da recepção, no campo dos estudos filosóficos sobre a questão da comunicação. Mas Susan Sontag, apesar de leitora entusiasmada de Barthes, o vê apenas como escritor.

 

2.

 

Essas ambiguidades quanto ao tratamento de Barthes como filósofo ou não derivam de duas circunstâncias.

Primeiramente, da dificuldade que existe quanto à definição da filosofia, definição que é ela própria um tema de debates filosóficos, o que causa dificuldades na classificação, quanto a isto, de autores que não percorrem os caminhos mais usuais entre os estudiosos da comunidade filosófica mundial, estudando temas incomuns por exemplo.no caso de Barthes, o vemos examinando as linguagens dramáticas e visuais, e a comunicação como um todo, em sentido mais amplo e em suas relações com a cultura, enquanto a filosofia da linguagem (área filosófica que mais se aproxima disto) costuma limitar-se tradicionalmente à comunicação verbal — limitação que, a partir do século XX, alguns filósofos passaram a lutar explicitamente para que seja ultrapassada, como é o caso de Vilém Flusser, por exemplo.

Esta é a razão pela qual Huisman, talvez pouco familiarizado com esses esforços de ultrapassagem no seio da própria filosofia, procura checar se há em Barthes uma filosofia do Eu... pois este é um tema com tradição e  bom lastro na história da filosofia, em especial nos campos da antropologia filosófica e da psicologia filosófica — principalmente a existencialista, junto à qual o posicionamento esboçado por Barthes neste sentido, aliás, o colocaria próximo não exatamente a Sartre, mencionado por Huisman, mas a Kierkegaard. Se há (e provavelmente há) em Barthes uma filosofia do Eu, o centro da atenção dele enquanto pensador sem dúvida nenhuma não está aí, mas na questão da linguagem e, mais amplamente, na questão da comunicação como um todo. Barthes circula no mesmo campo de interesses que domina grande parte da filosofia de Flusser, assim como da filosofia de Jean Baudrillard.

Outra circunstância que conduz a dúvidas na classificação de Bartes como "filósofo" está no fato de que a filosofia não se desenvolve, não existe e não tem como existir (a não ser metaforicamente) fora da rede dos debates históricos da filosofia. E Barthes, se pretendemos considerá-lo como filósofo (como pretendo sim) teve então um desenvolvimento intelectual anormalmente lento nessa direção — visto que apenas no final da vida começa a se preocupar mais com a insersão direta e explícita de sua obra de pensamento nos debates históricos da filosofia, passando a confrontá-la argumentativa com outras obras, de outros pensadores, já inseridos nessa rede de debates. Ele parece ter apenas iniciado esse trabalho de inserção na rede de debates históricos da filosofia, esboçando-o, para vir a falecer, infelizmente, antes de chegar a dar uma forma realmente consistebte a esse movimento.

Assim, para tomá-lo como filósofo, somos obrigagos a completar por nós mesmos o trabalho, levantando quais seriam as confrontações filosóficas logicamente implicadas em sua obra, e que argumentos se poderia extrair de suas obras nessas confrontações.

 

3.

 

O esboço de inserção na rede dos debates filosóficos históricos deixado por Barthes, no entanto, parece ser ainda mais consistente que o deixado por exemplo por Sigmund Freud (cuja real intenção de inserir-se nessa rede de debates em vida é questionável). Freud avançou muito mais consistentemente e explicitamente rumo à fundação de uma nova ciência ao longo de sua vida do que rumo à filosofia no final dela.

O esforço de fundação de uma nova ciência (como no caso de Freud) não deixa de exigir necessariamente um contato íntimo, para não dizer mesmo um mergulho inicial, em questões filosóficas. Mas o fundador de uma ciência, se procura fazê-lo refletidadente, está no limite, na fronteira entre filósofo e cientista, podendo-se julgá-lo filósofo ou não dependendo de como o faz; e não inquestionavelmente no centro da atividade filosófica. Não obstante, Freud foi absorvido ativamente pelos próprios filósofos para dentro da rede dos debates históricos da filosofia, como acontece muitas vezes a cientistas e fundadores de novas ciências que, de algum modo, despertam especial  interesse em meio à comunidade filosófica mundial.

Barthes, em comparação, é na verdade um caso mais simples que o de Freud (aliás, muito mais simples) no que dia respeito a sua assimilação como filósofo. Ela é dificultada apenas pelo fato de que, embora renomado, não tem a mesma estatura em sua influência sobre a comunidade filosófica mundial. Muitos indiscutíveis filósofos, aliás, não têm sobre ela a mesma influência que o não-filósofo Freud — ou filósofo por procuração, ou mais precisamente, filósofo quase que apenas por absorção, por iniciativa da própria comunidade filosófica.

A absorção de Barthes na filosofia foi de certo modo iniciada por ele próprio, e é mais fácil por exemplo, para traçarmos aqui uma outra comparação, que a absorção de visões de mundo orientais às quais frequentemente se dá esse título.

As "filosofias orientais" — como erroneamente costumam ser chamadas — também podem passar por um tal processo de absorção pela filosofia como parte dela. Mas em sua origem, não foram criadas como parte da rede de debates histórica que constitui a filosofia, não entraram em debate com as teorias filosóficas já existentes. E portanto, a rigor só deveriam ser classificadas assim precisamente na medida em que absorvidas a posteriori pela comunidade filosófica mundial. Tal absorção do pensamento oriental, por enquanto, embora consideravelmente volumosa, ainda tem se dado de maneira vaga, imprecisa e indireta, como uma espécie de inspiração mal definida (e frequentemente mal informada sobre o assunto,aliás) no fundo de diversas teorias filosóficas.

Uma cosmovisão oriental, na medida em que seja fechada sobre si mesma ou só se relacione com outras por assimilações pela via dos costumes e tradições, ou por aproximações e semelhanças, distanciamentos e incompatibilidades evidenciados, mas sem efetivo debate, sem confrontação argumentativa, só pode ser chamada de "filosofia" metaforicamente, ou no sentido de que há ali uma semente, ou princípio ainda incipiente, de pensamento de tipo filosófico — mais ou menos do mesmo modo como se fala em uma "filosofia de vida" de um cidadão qualquer sem contato nenhum com a história da filosofia. Exceto pelo fato de que uma cosmovisão oriental já é algo historicamente desenvolvido, e muito bem desenvolvido... mas em uma direção diferente, que não é a da filosofia.

A filosofia teria muito a ganhar com uma absorção metódica, refletida, argumentada e cuidadosamente bem informadas (isto é, realmente filosófica) das diferentes formas assumidas pelo pensamento oriental. Ainda há muito caminho a ser percorrido neste sentido — o orientalista francês François Julian oferece um excelente exemplo de trabalho filosoficamente útil nesse sentido.

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