Tópicos de vida e obra de Guy Debord

Por João R. A. Borba


Quem foi Debord?

 

Filósofo e estudante de cinema, Debord foi um dos intelectuais que orientaram as mobilizações estudantis de 1968 na França, e fundador de um dos grupos políticos mais ativos entre os jovens na época: os Situacionistas — ou "situs", conforme um apelido comum.

Para Debord, a crítica de Marx ao "enfeitiçamento" das pessoas pelas mercadorias no capitalismo passa a ter um papel e uma importância muito maiores do que Marx atribuía a isso. Debord avalia que desde a época em que foi publicada a principal obra de Marx — O capital — o capitalismo se desenvolveu no sentido de levar ainda muito mais longe esse enfeitiçamento e remodelar com ele toda a sociedade capitalista sob o signo do espetáculo. Na sociedade do espetáculo, tudo tende a se separar ilusoriamente do contexto social e se apresentar abstratamente, isoladamente, como espetáculo para um público passivo de receptores. Tudo tende a se tranformar em marketing, o espetáculo de marketing, mais do que a própria mercadoria, passa a ser visto como microcosmo que representa toda a sociedade nessas condições.

A crítica da separação  adquire uma amplitude ainda maior que essa em Debord. A tendência separação do capitalismo espetscular é confrontada por ele com uma versão intensificada da concepção marxista-hegeliana da totalidade concreta: a realidade é um todo de partes indiscerníveis que o modo capitalista de conceber as coisas recorta em itens separados, como parte de um mecanismo de alienação.

O situacionismo debordiano procura romper com essa lógica do espetáculo alienante e apassivador, retomando a interação desalienada que a convivência íntima com as práticas artísticas permite. Assim, os "situs" tendem a interligar as práticas artísticas engajadas, em especial aquelas que buscam a interagir com o público, com sa práticas políticas revolucionárias.  Procuram, por meio de intervenções artísticas e arquitetônico-urbanísticas, criar situações diferenciadas que rompam com o cotidiano alienador em que as pessoas se encontram entorpecidas por uma série incessante de espetáculos em seu cotidiano, nos quais são apenas o espectador passivo, deslumbrado e magnetizado para o consumo.

O pensamento político de Debord é de certo modo herdeiro de concepções estéticas teatrais como as de Brecht e Artaud, que propunham a "ruptura da quarta parede" — isto é, que os atores e encenadores parassem de atuar como se houvesse uma "parede extra" entre eles e o auditório: passa-se então a interagir diretamente com o público. Pode-se dizer que Debord elevou essas propostas de teatro crítico a proporções muito maiores, ao arrastá-las para fora do campo estritamente teatral, trazendo-as para o campo das relações sociais e econômicas vivenciadas diariamente nas ruas. Com isso, promoveu diversas novas concepções para a crítica de arte e, sobretudo, a prática da arte politicamente engajada, dando-lhes uma dimensão e uma importância muito maiores naslutas pela emancipação política.

O movimento situacionista reuniu, junto a Debord, pensadores de perfil diferente, como por exemplo Raoul Vaneigen, de descendência nietzscheana bem mais do que marxista, e especialmente atento às condições de pobreza em meio à classe estudantil; e Asger Jorn, artista plástico ligado a reflexões sobre o espaço e as relações entre regiões espaciais, influenciado pelos urbanismo revolucionário e pelos princípios matemáticos básicos e intuitivos da topologia.

A Internacional Situacionista foi um grupo influente entre os estudantes revolucionários de 68, mas pequeno, sempre com poucas filiações. Inclusive porque, sob a direção principalmente de Debord, tendia a se isolar, adotando uma postura crítica e de polêmica muitas vezes agressiva em relação a outros movimentos estéticos e político-estéticos de vanguarda. Na verdade Debord a certa altura parece ter passado a promover uma espécie de patrulhamento ideológico no grupo, já pequeno demais para as ambições político-revolucionárias que apresentava, levando a frequentes exclusões de membros da I.S. (Internacional Situacionista) — incluindo muitos dos que estavam no movimento desde o início, como por exemplo Asger Jorn.

O patrulhamento e as exclusões foram levados a tal ponto que, a certa altura, brincava-se comumente de dizer, em 68, que Debord acabaria excuindo a todos menos a si mesmo, e ficando sozinho em uma "organização internacional" de um só membro.

Na Europa de 68, um dos maiores pontos fracos da I.S. enquanto movimento revolucionário foi não ter conseguido grande penetração no operariado, e inclusive no meio estudantil de mais baixa renda, apesar de esforços (por exemplo de Vaneigen) nesse sentido, permanecendo um movimento predominantemente de classe média na sua origem.

No Brasil, a realidade é outra: sem o mesmo intenso conflito de gerações que marcou o Movimento de 68 europeu e norteamericano, e além disso marcada por uma imensa camada jovem da população de baixa renda que passou a ter acesso à educação apenas na primeira década do séc XXI, um tanto subitamente.  Essa população jovem de periferia já vinha contando com maciço apoio educacional informal e extraoficial por meio de ONGs atuantes no terceiro setor — apoio realizado com frequentíssimo recurso a práticas artísticas coletivizadas — e tende a contar com o diálogo familiar quanto a isso. Nessas condições, as ideias de tipo situacionista, embora mal informadas acerca da teoria debordiana, encontraram um terreno talvez mais fértil, passando a exercer uma influência indireta e difusa, mas crescente desde então, e mais próxima de obter acesso ao proletariado.

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