Tópicos de vida e obra de Gilberto Freyre

Por João R. A. Borba (João Borba)


1. De onde surgiu a obra de Gilberto Freyre?

Gilberto Freyre, foi o primeiro pensador brasileiro a realmente se destacar com estudos sobre a história cultural do Brasil. Estudou antropologia nos Estados Unidos com o antropólogo Franz Boas, e de volta às terras brasileiras, escreveu uma obra que acabou por se tornar internacionalmente reconhecida, traduzida para muitas línguas: Casa grande & senzala, publicada em dezembro de 1933.

Na época, havia uma nova tendência na antropologia norte-americana, promovida por Boas. A antropologia tradicional daqueles tempos costumava apoiar-se com bastante frequencia na teoria da evolução e em estudos das diferenças fisiológicas entre os povos: a forma do crânio, os traços faciais típicos de cada povo, a cor da pele etc.

Os antropólogos que seguiam a nova linha defendida por Franz Boas se concentravam mais na maneira como as pessoas de cada cultura viviam sua vida diária, considerando importante o esforço para compreender as diferenças e evitar o "etnocentrismo"  — isto é, evitar estudar outras culturas a partir da nossa própria, para não enxergarmos essas outras culturas de maneira distorcida; e principalmente evitar avaliar essas outras culturas, diferentes da nossa, a partir dos nossos próprios padrões, como se fossem mais corretos, mais civilizados ou melhores.

Freyre foi fortemente influenciado por essa proposta.

Mas em seu livro, ele foi além da antropologia, e a combinou com estudos de diversas outras áreas, como história, sociologia, psicologia etc., fazendo uma espécie de mistura de tudo, sem separar essas áreas umas das outras. Ele procurou entender a formação dos brasileiros, de seu modo de pensar, sentir e viver as coisas, sem se prender a um campo científico ou a outro. Em outras palavras, considerou o assunto como uma realidade integral, que não se divide desse modo, e que deve ser estudada ao mesmo tempo de todos os ângulos possíveis. Mas concentrou a sua atenção principalmente na vida cotidiana das pessoas durante o período em que o Brasil era colônia de Portugal e desenvolvia o cultivo de café e cana-de-açúcar usando mão-de-obra escrava trazida principalmente da áfrica.

Como o próprio título do livro já sugere, Freyre quis mostrar as relações entre os brancos portugueses — que moravam com alguns escravos domésticos na "casa grande" dos engenhos de café e cana-de-açúcar — e os negros africanos, cuja maioria vivia, nessas fazendas de engenho, em galpões chamados "senzalas".

 

2. É verdade que Caio Prado Jr.
chegou a valorizar o livro de Gilberto Freyre?

Quando o livro Casa grande & senzala foi publicado, recebeu de fato elogios de Caio Prado Jr., famoso membro do partido comunista, que na época já era um intelectual respeitado e uma espécie de referência para pensadores esquerdistas em geral, por seus cuidadosos estudos sobre Marx. Hoje, Gilberto Freyre costuma ser considerado um pensador politicamente direitista, e o apoio do esquerdista Caio Prado Jr. ao seu livro naquela época parece um pouco estranho. Para entender por que um comunista marxista famoso como Caio Prado Jr. Aplaudiu a publicação de Casa grande e senzala, é preciso entender um pouco melhor a situação em que o livro foi escrito.

Na época, havia uma tendência muito forte entre os estudiosos no sentido de valorizar a nação brasileira, uma tendência para o nacionalismo, e todos os três autores (Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e inclusive Caio Prado Jr.) participaram disso. Mas no campo político, muitos jovens empolgados com essa ideia de valorizar o Brasil vinham se ligando a um movimento chamado integralismo, que imitava um movimento político nacionalista de extrema direita que estava começando a ficar forte na Itália: esse movimento italiano era o fascismo. O integralismo pode ser considerado uma espécie de fascismo à brasileira, mais moderado que o italiano.

O fascismo italiano vinha de uma ideia militar muito antiga, da época dos imperadores romanos: a ideia de que a união faz a força e de que é preciso que um povo se mantenha unido sob o comando de um mesmo lider, sem divergência de opiniões, para poder enfrentar com mais força os inimigos externos. A palavra "fascismo" vem de uma ideia usada para passar essa imagem de união forte: a ideia de que um feixe de gravetos amarrados juntos é muito mais resistente e difícil de arrebentar do que os gravetos separados, que podem ir sendo quebrados um a um. Da palavra "feixe" veio a ideia de "feixismo", de onde acabou surgindo a palavra "fascismo". O fascismo italiano ficou muito forte graças a um lider chamado Mussoline, que se tornou aliado de um movimento político e militar alemão de extrema direita também muito forte: o nazismo.

Mais conhecido e estudado que o fascismo italiano, o nazismo alemão nasceu e cresceu ligado a um outro movimento, quer tinha uma proposta claramente racista, o movimento da "eugenia". A ideia dos defensores da eugenia era a de que as pessoas de "raça pura" são superiores aos mestiços, e com base nisso, eles propunham que fossem incentivados os casamentos entre pessoas que eram de descendência "pura" só do seu país, sem nenhuma descendência estrangeira, e que as pessoas de famílias mestiças fossem incentivadas a não terem filhos ou a irem embora do país. Nos casos mais extremos, os "eugenistas" defendiam que os estrangeiros e pessoas de famílias mestiças deveriam ser proibidos de terem filhos, ou até mesmo deveriam ser mortos, a fim de deixar no mundo apenas os seres humanos "geneticamente mais puros". Um desses casos extremos foi o da eugenia nazista, na Alemanha.

Mas o movimento eugenista ficou também forte em outros países, principalmente a Holanda (onde havia uma postura menos agressiva contra os "impuros") e os Estados Unidos. Na Itália, o fascismo, como aliado do nazismo, acabava servindo como uma porta de entrada para esse racismo eugenista no país. No Brasil, portanto, a porta de entrada para isso era o integralismo, que imitava o fascismo italiano.

O movimento nacionalista brasileiro, que estava ficando forte, começava aos poucos a valorizar a ideia de que era preciso localizar quem seriam os brasileiros "puros", a "raça pura" brasileira, e entusiasmados com essa ideia, alguns intelectuais e artistas brasileiros começavam a valorizar a imagem do indígena brasileiro, mas não era uma imagem muito realista, imaginavam o indígena de maneira fantasiosa, para passar a partir dessa imagem a ideia de uma raça brasileira "pura" que seria superior, mais forte, mais saudável, mais ligada à natureza etc. Não se tratava de examinar realmente as condições de vida dos indígenas, por exemplo, nque não eram condições nada boas. Tratava-se apenas de um esboço de eugenia racista que estava começando a aparecer no Brasil.

Foi nesse contexto que Gilberto Freyre publicou Casa grande e senzala: no meio dessa onda de entusiasmo nacionalista em busca da "raça brasileira", o livro assumia declaradamente a ideia de que o que a "raça brasileira" tem de bom é justamente o fato de não ser uma raça "pura", mas muito pelo contrário, uma raça de mestiços. E nessa mestiçagem que formou o brasileiro, principalmente a partir de brancos portugueses, negros africanos e indígenas locais, Freyre valorizou acima de tudo os negros - que em países como Alemanha, Holanda e Estados Unidos estavam entre os mais perseguidos pelo movimento eugenista. Era uma resposta contra essa tendência racista.

É interessante notar, aliás, que mais tarde, em 1942, Freyre chegou a ser preso em Recife por ter escrito um artigo denunciando publicamente atividades racistas e nazistas promovidas às escondidas pelo governo pernambucano. As atitudes anti-racistas de Freyre, a começar pelo seu famoso livro, foram enxergadas por intelectuais comunistas como Caio Prado Jr., por exemplo, como uma postura de esquerda — já que em geral eram direitistas radicais (como os nazistas alemães) que defendiam a eugenia e o racismo, e que a mestiçagem da população brasileira estava bem mais presente naquela imensa maioria que forma as classes mais baixas do que nas elites ricas. Isso quer dizer que, além dessa tomada de posição contra o racismo, defender o valor da cultura negra na formação do brasileiro, como Freyre fazia, era ao mesmo tempo defender o valor das classes sociais mais baixas no país.

Mas o que mais atraiu leitores para o livro foi o método usado por Gilberto Freyre, que misturava livremente as mais variadas ciências sem separá-las e chegava inclusive a usar, junto com tudo isso, recursos que não eram científicos, mas de literatura - como metáforas, linguagem emotiva etc. E usando tudo isso, Freyre se dedicou a examinar não a atuação de grandes líderes ou pessoas consideradas importantes, mas a simples vida cotidiana das pessoas em geral naquela época, tentando passar uma imagem fiel do modo de pensar, agir, sentir e viver, enfim, dos que habitavam o Brasil colonial.

Esse método tornou o livro de Gilberto Freyre famoso em todo o mundo, de modo que não era possível ignorá-lo aqui no Brasil. A leitura de Casa grande e senzala, então, acabou provocando um impacto no movimento integralista que vinha crescendo aqui. Muita gente passou a rejeitar a eugenia, e outros chegaram a abandonar o integralismo, depois de estudarem o livro.

 

3. Por que o método de Gilberto Freyre fez sucesso no mundo?
E como esse método se compara ao de Caio Prado Jr. e outros marxistas?

Em 1919, um historiador holandês chamado Johan Huizinga havia publicado um livro sobre os últimos séculos da Idade Média que ficou muito famoso: O outono da Idade Média. A grande importância desse livro está no fato de propor uma nova maneira de se estudar História: uma maneira bem parecida com essa que, pouco mais de 10 anos depois, Gilberto Freyre acabou utilizando no livro Casa grande & senzala.
Até aquela época, os historiadores se dividiam em geral entre duas grandes alternativas: a historiografia (ou método para se estudar história) tradicional e a historiografia marxista. Huizinga trouxe uma terceira alternativa.

A historiografia tradicional contava a história a partir das grandes realizações de líderes ou pessoas consideradas importantes, ou das grandes realizações de certas nações e governos, e às vezes a partir de grandes movimentos intelectuais (como por exemplo o Iluminismo, que valorizava o progresso e defendia que era preciso ensinar as pessoas a usarem "as luzes da razão").

Esse modo de se estudar história acabava ignorando o estudo das condições concretas de vida do povo e também os movimentos sociais de luta contra a desigualdade entre ricos e pobres, e acabava valorizando muito os que saiam vitoriosos nas grandes lutas históricas, e desprezando os derrotados nessas lutas e os que, apesar de lutarem apoiando os vencedores, eram manipulados por eles, e no final, acabavam continuando "por baixo". Era uma história só dos "vencedores", bem ajustada ao mundo competitivo do capitalismo.

A esquerda marxista acusava essa historiografia tradicional de ser pouco científica, de falsificar os fatos para valorizar os vencedores, os poderosos e os ricos, ou para valorizar as grandes ideias ignorando os fatos concretos, como se os grandes gênios pudessem mudar o mundo somente com seus pensamentos (como se fossem uma espécie de inspiração divina, modo de pensar típico da Igreja, que quase sempre se aliava com as forças políticas de direita). Essa esquerda defendia, contra isso tudo, a historiografia desenvolvida pelo teórico comunista Karl Marx.

Marx prupunha que os estudos de História fossem feitos de outro modo: era preciso examinar as condições materiais que as pessoas da sociedade estudada tinham para viver (comida, moradia, roupas, meios de transporte etc.), e o modo como era organizada, no campo da economia, a produção dessas condições materiais. Era preciso, portanto, estudar as estruturas de produção econômica e de distribuição de bens econômicos da sociedade.

Como essas coisas (roupas, comida etc.) eram produzidas? E como se tornavam acessíveis para a população? Através do mercado (das compras e vendas) ou por outro meio? Até que ponto a população tinha realmente acesso a esses bens necessários? Se o acesso aos bens se dá através do mercado, como funciona esse mercado? Até que ponto e de que modo o sistema de produção e de distribuição desses bens (por exemplo via mercado) na sociedade acabava prejudicando a população em favor de apenas alguns?

Examinando as carências da população, até que ponto poderíamos dizer que essa população estava em condições de se organizar e lutar contra aquela situação e aquela minoria de poderosos para resolver suas carências? — Esse era o tipo de problemas que um historiador deveria tentar responder, segundo Marx. Nessa historiografia esquerdista de Marx, não era preciso nem mesmo citar o nome dos "grandes homens", porque os grandes líderes e grandes gênios eram irrelevantes.

Na historiografia marxista — defendida por Caio Prado Jr. —, tudo depende principalmente das situações econômicas que fazem acontecer a produção e a distribuição de bens necessários na sociedade. As ideias políticas, religiosas, artísticas, filosóficas etc. — tudo isso, dependia em última instância da economia. Tudo isso acabava sendo resultado das condições materiais, isto é, dos bens econômicos produzidos e acessados pelas pessoas, e das condições de trabalho de quem fazia acontecer essa produção e esse acesso. O modo como pensamos, sentimos e vivemos, segundo os marxistas, depende disso. Os tais "grandes homens" tão valorizados na historiografia tradicional, então, só se tornaram "grandes" ou porque a historiografia tradicional os imaginou grandiosos, ou porque souberam fazer o que a situação econômica exigia, e estavam no lugar certo na hora certa para fazê-lo. Mas se não o fizessem, outra pessoa qualquer ocuparia o seu lugar e faria — porque a situação concreta exigia que fosse feito, não importa por quem.

Em outras palavras, para a historiografia tradicional, os grandes líderes e grandes gênios faziam tudo, e a população servia como massa de manobra. Para a historiografia marxista e de Caio Prado Jr., as situações concretas, econômicas, é que faziam tudo acontecer: os líderes e "gênios" (se é que ainda seria possível chamá-los assim), eram apenas um instrumento, um joguete, uma "massa de manobra" dessas situações concretas, que exigiam que alguém, não importa quem, estivesse ali para fazer o que fizeram.

E se não houvesse ninguém para fazer o que era necessário? Neste caso, talvez houvese, no máximo, algum pequeno desvio ou atraso no caminho. Mas logo a própria situação econômica faria aparecer alguém em condições de fazer o que era necessário. A História, segundo os marxistas, seguia sempre um mesmo mecanismo de funcionamento, e sempre achava algum meio de continuar em sua direção original — nenhum desvio ou atraso era para sempre. As coisas acabariam fatalmente caminhado na direção em que tinham que ir.

Mas que direção era essa? — A direção do comunismo.

Com essa linha de pensamento, os historiadores marxistas mais cuidadosos (como o próprio Caio Prado Jr., aqui no Brasil) acabavam fazendo um trabalho bem mais científico do que dos historiadores tradicionais. Mas os menos cuidadosos acabavam muitas vezes deturpando o trabalho científico e distorcendo os fatos em favor dos trabalhadores e das ideias comunistas — do mesmo modo como acusavam os historiadores tradicionais de distorcerem os fatos em favor do capitalismo, das classes dominantes, dos mais ricos e mais poderosos. O próprio Caio Prado chegou a criticar esse tipo de atitude pouco científica entre seus colegas marxistas.

Afastando-se da influência de Marx, o historiador Johan Huizinga preferiu se apoiar no pensamento do filósofo Friederich Nietzsche — que colocava no centro da sua atenção os valores que orientavam as ações humanas. Fazendo isso, abriu uma nova alternativa, um novo modo de se estudar história. Essa nova proposta conquistou rapidamente em todo o mundo a simpatia de esquerdistas que não aceitavam a historiografia tradicional, mas também não estavam satisfeitos com a proposta marxista; e às vezes chegou a conquistar até mesmo a simpatia de alguns marxistas que tinham mentalidade mais aberta para novidades. Entretanto essa nova historiografia não deixou de interessar também alguns direitistas que, apesar de seu posicionamento político, reconheciam a seriedade científica das críticas originais de Marx, e a falta de uma História que não ficasse presa somente aos grandes feitos de líderes e gênios.

A ideia de Huizinga era a de estudar não a vida e as realizações dos "grandes homens", nem as estruturas econômicas das sociedades, suas transformações e o que elas forçavam a acontecer — mas a vida diária e cotidiana das pessoas comuns de uma sociedade, sua cultura e seus valores. Isto significava, por exemplo, estudar aquilo em que as pessoas de uma sociedade acreditavam, seus sentimentos e costumes, seu modo de pensar e de agir no dia a dia.

No entanto, apesar do entusiasmo de historiadores de todo o mundo pela historiografia de Huizinga, ele teve poucos seguidores. Não se sabia muito bem como colocar aquela proposta em prática. Era preciso mais exemplos de aplicação prática além do livro O outono da Idade Média (publicado em 1919, como já foi dito), e poucos se arriscavam a tomar iniciativa. Inclusive porque esse modo de se fazer história exigia uma pesquisa muito demorada e trabalhosa de pequenos documentos e registros históricos — e às vezes até arqueológicos — que pudesem atestar como viviam as pessoas da sociedade estudada, na época estudada. Não era algo que pudesse ser rápida e facilmente imitado por qualquer outro historiador logo depois de ler o livro de Huizinga. Colocar isso em prática exigia anos de preparação e amadurecimento das pesquisas.

Em 1929 — quase 4 anos antes da publicação de Casa grande & senzala — foi fundada na França uma linha de pensamento em historiografia chamada "escola dos Annales". Esses historiadores se propunham a examinar menos os acontecimentos que ocorrem em certos momentos em cada sociedade, e mais os processos de longo prazo, que vão formando as mentalidades das diferentes sociedades e as grandes civilizações. Para isso, se dedicaram a examinar o modo como viviam as pessoas comuns nas sociedades examinadas, tentando retomar a obra de Johan Huizinga.

Esses historiadores estavam desenvolvendo seus primeiros trabalhos, em geral curtos, tratando de pequenos detalhes da vida em uma outra época, quando emergiu do Brasil aquela extensa e detalhadíssima obra — Casa grande & senzala — de Gilberto Freyre. O livro, traduzido para dezenas de línguas diferentes, entusiasmou muitos historiadores que já sentiam alguma simpatia pela escola dos Annales. Freyre parecia ter mostrado com toda clareza que era perfeitamente possível fazer uma pesquisa extensa, profunda e densa usando um método bem parecido, e havia oferecido um excelente modelo de como fazer isso. Então passou a ser imitado em estudos sobre a história de outros países.

Atualmente, no Brasil, muitos historiadores marxistas tem tendido a "rechear" seus próprios estudos históricos das grandes transformações nas estruturas econômicas com um trabalho de história da "vida cotidiana" à maneira daquela proposta de Huizinga e dos Annales. Um grande impulso para essa nova historiografia mais tarde, aliás, durante as décadas de 60 e 70, foi a filosofia política de um nietzscheano bastante influenciado por Marx, chamado Michael Foucault (1926-1984).

A combinação das filosofias de Marx e Nietzsche, com uma dose maior de Nietzsche do que de Marx e com ambos lidos de maneira esquerdista, normalmente acaba se aproximando bastante do pensamento anarquista. Foi o que Foucault fez. Com isso, a partir da influência de Foucault, muitos historiadores anarquistas, como por exemplo a famosa Margareth Rago, passaram também a simpatizar com essa nova historiografia "da vida cotidiana".

 

4. O que afastou os simpatizantes de Caio Prado Jr. (os marxistas)
da obra de Gilberto Freyre? Por que passaram a criticar Freyre?

Gilberto Freyre não era apenas um estudioso: participou ativamente da política nacional ocupando cargos governamentais, chegando a ser deputado federal. Suas posturas políticas não eram sempre tão claramente de esquerda quanto se esperava com base em sua obra teórica, e quando ocorreu o golpe militar de 1964, Freyre, chocando e decepcionando fortemente os esquerdistas, se mostrou a favor daquela ditadura de extrema direita. Chegou até a declarar ter esperança de conseguir um alto cargos político pela via indireta, escolhido pelos militares, já que era amigo pessoal do presidente Castelo Branco, o primeiro da ditadura militar no Brasil.

Diante disso, os estudiosos esquerdistas do Brasil passaram a rever sua obra, examinando o quanto ela era realmente tão à esquerda como se julgava. Começou-se a perceber que no próprio Casa grande e senzala havia passagens nas quais Gilberto Freyre parecia simpatizar com aqueles senhores de escravos portugueses que dominavam o Brasil na época da colonização. Além disso, começou-se a suspeitar que a obra dele não era tão científica afinal, já que misturava as ciências com alguns elementos de literatura, e em muitos momentos deixava transparecerem os seus sentimentos e opiniões pessoais. E finalmente, surgiu a crítica de que, ao mesmo tempo que parecia lutar contra o racismo, Freyre acabava passando uma imagem falsa a respeito do preconceito no Brasil.

Segundo essa crítica, sua "falsa ciência" acabava passando a ideia de que nesse Brasil "dos mestiços" não havia racismo, e pessoas de todos os tons de pele entre o branco e o negro viviam harmoniosamente, sem conflitos — o que era claramente falso, e só servia para mascarar a realidade e esconder o racismo brasileiro "debaixo do tapete", por assim dizer.

Contudo é preciso observar que essa última crítica tem alguma injustiça: ela simplesmente ignora a situação em que o livro Casa grande e senzala foi escrito, e o papel importante que ele teve contribuindo para deter no Brasil a tendência para a eugenia racista que vinha crescendo no mundo e começanmdo a chegar aqui. Também ignora, por exemplo, que Freyre chegou a ser preso por denunciar atividades racistas promovida pelo governo pernambucano, de modo que não era um homem do tipo que propositalmente procurasse "esconder" ou "maquiar" os preconceitos dos seus conterrâneos, muito pelo contrário. É possível que a crítica esteja correta, e que o livro tenha contribuído para formar um mito mentiroso de que no Brasil há uma harmonia não-preconceituosa entre as pessoas. Mas se isso aconteceu, foi mais tarde: quando foi escrito, o livro serviu claramente como uma arma na luta contra o racismo.

Como resultado, ficou a polêmica: Gilberto Freyre era, afinal, um pensador de direita ou de esquerda? Sua vida pessoal como político que apoiou a ditadura militar aponta numa direção, seu método histórico não-tradicional, utilizado logo de saída, além disso, como arma para combater uma tendência racista que vinha junto com os movimentos ditatoriais nazista e fascista, imitados no Brasil pelos integralistas, aponta contraditoriamente na direção oposta.

 

 

 

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