Tópicos de vida e obra de Max Horkheimer

Texto da autoria de João R. A. Borba


Horkheimer é marxista?

Horkheimer é o organizador da Escola de Frankfurt, famoso grupo de pensadores judeus de descendência marxista que, fugidos da alemanha nazista, se estabeleceram nos Estados Unidos — onde mais tarde foram também perseguidos, não por seu judaísmo, mas dessa vez por sua ligação com o comunismo (leia-se a esse respeito o tópico Macartismo, na seção Tendências e Grupos).

Mas o marxismo de Horkeimer (e de seus colegas da Escola de Frankfurt) está bem distante da linha de pensamento habitual das correntes marxistas mais conhecidas. É um marxismo focado na sua própria reavaliação mais especificamente a partir da busca de transformações que o inspira. Se para Horkheimer a razão deve suspeitar de si mesma e manter-se autocrítica, isso também vale para o marxismo, enquanto teoria que pretende ser em alguma medida portadora de uma razão capaz de transformar as sociedades humanas em um sentido libertador. Uma razão capaz de romper com os círculos viciosos em que se repetem sempre as mesmas cadeias de ocorrências, cadeias de ocorrências que nos mantêm presos à exploração de uns pelos outros e a uma vida sem liberdade.

No entanto, é preciso ressaltar: quanto a essa esperança de uma razão mais efetivamente libertadora, e atenta para não se desviar dessa sua vocação libertadora, Horkheimer está bem mais para pessimista do que para utópico ou sonhador. A esperança é pequena, o desvio da razão para longe de seu potencial libertador já é uma realidade evidente e dominante, da qual dificilmente podemos retroceder. A imagem final que resulta disso tudo, para ele, é quase trágica. Mas nem por isso permite acomodação e conformismo.

Se Marx, na esteira de Hegel, ainda valoriza o potencial libertador da razão humana (embora com menor ênfase), a Escola de Frankfurt, encabeçada pelo filósofo Max Horkheimer, critica a maneira nada libertadora como usamos a razão no mundo capitalista. A Escola de Frankfurt detecta que desde o advento do capitalismo, veio se desenvolvendo e se avolumando uma transformação histórica na compreensão humana do que seria propriamente o "racional". Uma transformação perniciosa que não foi detectada por Marx, embora ele próprio já carregasse na sua filosofia (especialmente no modo como desenvolve o raciocínio dialético) alguns pequenos sintomas disso.

 

Qual é a crítica de Horkheimer à razão e ao progresso?

A avaliação que Horkheimer faz do desenvolvimento da razão humana é pessimista, e o mau rumo desse desenvolvimento é atribuído principalmente ao processo de desenvolvimento natural do capitalismo. E principalmente do modo como a partir do uso capitalista da razão foi sendo engendrada a noção de "progresso", noção que acabou gerando fenômenos como por exemplo o nazismo — fortemente orientado por essa ideia de "progresso" (tecnológico de um lado, genético de outro, no sentido de um "desenvolvimento" racial).

A crítica de Horkheimer à noção de progresso não é como a de Rousseau no tempo do iluminismo. Está mais marcada pelas leituras de juventude que Horkheimer fez de um outro filósofo pessimista, Shoppenhauer. O resultado é a noção de que a própria razão deve vigiar a si mesma, e corrigir os erros que a fazem uma má orientação para a vida humana em sociedade.

Essa avaliação está presente, em toda a sua clareza, em seu livro Eclipse da razão ou Crítica da razão instrumental — assim como nas obras da primeira geração de seus seguidores na escola de Frankfurt (formada basicamente, além de Max Horkheimer, por Theodor Adorno, Walter Benjamin e Herbert Marcuse). Segundo Horkheimer e esse seu grupo, quando o pensamento ainda não estava tão contaminado pela influência histórica do capitalismo, as pessoas entendiam a razão subjetiva (esta capacidade presente na mente dos sujeitos individuais humanos) fundamentalmente como uma capacidade receptiva, de captar e compreender a ordem racional que existe inscrita no mundo e no desenvolvimento da história humana.

Mas conforme cresce a contaminação do pensamento humano pelo ideário do capitalismo, o modelo da racionalidade técnica utilizada nas operações de produção — para que essas operações rendam mais com o mínimo de custo, a fim de propiciarem maior acumulação de capital — vai se tornando cada vez mais o modelo dominante. Esse passa a ser cada vez mais o modelo quando se trata de compreender o que é a razão e qual a sua finalidade para os seres humanos. A razão vai passando cada vez mais a ser compreendida apenas como um instrumento mental de que cada sujeito dispõe, individualmente, para conseguir aquilo que quer, adequando da melhor maneira (da maneira mais "racional" neste sentido) os meios necessários para atingir os fins desejados. E nada mais que isso.

Entendida cada vez mais deste modo, a razão vai perdendo a sua capacidade receptiva de captar e compreender a lógica das coisas, a racionalidade que (supõe-se) existe por detrás do funcionamento das coisas na natureza, nas sociedades humanas e nas transformações dessas sociedades ao longo do tempo.

Isto tende também a desconectar as capacidades racionais dos indivíduos umas das outras, rompendo com o esforço que antes se fazia no sentido de buscar explicações gerais e coerentes para uma mesma realidade concreta comum a todos. A razão passa a ser cada vez mais apenas um instrumento mental de uso individual, visando objetivos e interesses exclusivamente privados. a razão se torna cada vez mais individualista, imediatista e oportunista.

 

Quais os efeitos do posicionamento de Horkheimer e da Escola de Frankfurt em seus procedimentos intelectuais?

Opondo-se a essa tendência, Horkheimer orientou a Escola de Frankfurt por exemplo no sentido de evitar a especialização do conhecimento, e de evitar também o isolamento dos estudos filosóficos em relação a outras áreas. Assim, o grupo passou a se dedicar cada vez mais a diversos campos de estudo, como literatura, sociologia e psicologia, e ao exame do modo como seus temas atravessam de um desses campos a outro.

No campo político, o grupo vê com suspeita as apologias do progresso e do avanço social mesmo em sociedades comunistas. Mas acaba se situando quase sempre entre as versões mais moderadas do marxismo.

A Escola de Franckfurt recusa a ideia marxista original de que haveria uma lei da evolução histórica das sociedades predeterminando em alguma medida essa evolução. Recusa também as formações políticas autoritárias que surgiram tomando o marxismo como base teórica ou como pretexto ideológico — o stalinismo por exemplo. E tende a buscar (ainda que com pessimismo) uma compreensão tão global e concreta do conjunto de toda a realidade quanto possível. Isso significa evitar não apenas as limitações de estudos pura e estritamente especializados, que não se abrem ao conjunto da realidade, mas também os raciocínios puramente abstratos e especulativos.

A Escola de Frankfurt considera necessário acima de tudo compreender a realidade como tum todo, e compreendendo também autocriticamente o próprio papel desses seus estudos no interior dessa realidade, na qual, afinal de contas, todo e qualquer estudo, reconheça isto ou não, está inserido.

O marxismo autocrítico e a racionalidadde autocrítica da Escola de Frankfurt muitas vezes são considerados, na comunidade filosófica mundial, como o ponto máximo do que se costuma chamar de "Teoria crítica".

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