Abelardo, Pedro

Abelardo

(Abelardo)

Pierre Abailard, Pierre Abélard, Pierre Abeilard, Petrus Abaelardus

(1079 - 1142)

Tópicos de vida e obra de Pedro Abelardo 

sumário

 

Quem foi Pedro Abelardo?

Abelardo foi um filósofo medieval, considerado um clássico internacional por seus estudos de lógica na primeira fase de sua filosofia, e que desenvolveu também, mais tarde, muitos estudos de teologia, por exemplo tentando explicar o misterioso dogma cristão da santíssima trindade (como Deus pode ser ao mesmo tempo um e três, isto é, pai, filho e espírito santo).

Mas o que tornou Abelardo popularmente famoso foi sua tórrida história de amor com sua aluna particular Heloísa, jovem de mentalidade extremamente avançada para a época. Castrado num ato violento por um grupo pago pelo pai da moça, foi isto o que o fez deixar os excelentes estudos de lógica e passar a se dedicar a estudos de teologia (nos quais já não se saiu tão bem assim).

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 Qual o posicionamento geral de Abelardo
nos grandes debates filosóficos de sua época?

 

Na disputa medieval entre nominalistas (que na época, diziam que os termos gerais usados na linguagem verbal são apenas abstrações) e realistas (que diziam que esses termos gerais representam entidades abstratas ou espirituais reais), Abelardo criou uma terceira posição, intermediária (se bem que talvez mais próxima do nominalismo).

Segundo seu posicionamento intermediário, os termos gerais representam de fato realidades, mas realidades de tipo apenas conceitual, que se formam na mente humana e só existem na mente humana. Entretanto, julgava que mesmo que todas as rosas do mundo fossem destruídas, as rosas ainda seriam uma realidade na medida em que o conceito de "rosa" ainda fosse real: enquanto a palavra "rosa" continuasse fazendo sentido para os seres humanos, esse conceito continuaria sendo real.

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Destarte, apesar de tender mais para o nominalismo, Abelardo se aproxima também um pouco da posição dos realistas ao afirmar a realidade da mente humana, e que esses conceitos teriam então uma realidade própria que é aquela das entidades mentais, das coisas que são geradas e mantidas no pensamento pelas mentes dos indivíduos conforme se comunicam uns com os outros.

A maior diferença entre Abelardo e os "realistas", que eram os opositores dos "nominalistas", estava em que para esses "realistas" haveria uma essência humana real no plano espiritual, de caráter metafísico, como uma entidade independente das nossas mentes –– enquanto para Abelardo, essa "essência" era algo de caráter lógico e psicológico e não metafísico, ou seja, era aquela condição lógica em que teríamos todas as semelhanças entre um conjunto de indivíduos, fazendo abstração de suas diferenças (isto é, ignorando-as).

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A "essência" para Abelardo era apenas esse conjunto de semelhanças formado em nossa mente com o uso da linguagem, e que servia de base lógica para compararmos os indivíduos por suas semelhanças. Era, digamos assim, a possibilidade lógica de pensarmos esse conceito geral a partir das semelhanças entre os dindivíduos. Daí sua posição ser chamada de "conceitualismo".

Já para os "realistas" da época, essas essências pelo contrtário eram entidades espirituais com realidade própria, independentemente de nossas mentes, da comunicação entre nós e da possibilidade ou impossibilidade de pensarmos nelas. Nossas mentes, nossa comunicação e nossa lógica serviriam apenas para tentarmos (com sucesso ou não) "descobrir", "encontrar" essa essência superior, espiritual, metafísica –– e não para dar fundamento à própria existência real das essências em nossas mentes na forma de uma condição lógica, como pensava Abelardo.

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Os pensamentos de Abelardo tiveram
alguma repercussão fora do campo da filosofia? 

O livro "O nome da rosa", de Umberto Eco (no qual foi baseado um filme com Sean Connery), recebeu esse título justamente para render uma homenagem a Abelardo.

O livro (e do mesmo modo o filme) também faz referência a outros filósofos da época, como por exemplo o nominalista radical Guilherme de Ockam, que parece ser a principal inspiração para o personagem que na versão filmada foi materializado por Sean Connery — uma espécie de detetive da Idade Média tentando solucionar o mistério de uma série de mortes ligadas a um livro proibido de Aristóteles, sobre a arte da comédia. Abelardo foi também um profundo leitor de Aristóteles, e um dos que contribuíram para a retomada dos estudos aristotélicos por parte da Igreja.

Mas para além da influência de seus pensamentos, a trágica história de amor de Abelardo com Heloísa — que acabou servindo como uma das inspirações para outras grandes histórias de amor, como a de Romeu e Julieta —, chegou até nós na forma de uma série de cartas escritas pelo casal, um para o outro, e também através de uma carta autobiográfica de Abelardo intitulada História das minhas calamidades.

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O que há de mais interessante nas Cartas de Abelardo
e Heloísa e na História de minhas calamidades?

Na primeira dessas duas fontes (as cartas trocadas pelo casal) o elemento mais interessante não está no pensamento abelardiano, mas naquelas cartas que foram escritas por Heloísa — porque sua linguagem e mesmo sua mentalidade, do ponto de vistada sexualidade, são mais do que surpreendentes, chocantes para uma mulher daquela época.

Em suas cartas Heloísa demonstra — naquele contexto histórico de extremado machismo e radical submissão das mulheres cristãs — uma inteligência ímpar e um domínio da escrita e de informações tão profundo que se pode considerar raríssimo mesmo entre os homens da época (que foi talvez um dos períodos de mais alto índice de analfabetismo deste a invenção da escrita).

Mas demonstra também, além disso, um modo de ver as coisas que, no âmbito sexual, deixaria para trás muitas hippies sexualmente "libertas" e independentes dos séculos XX e XXI, e enrubeceria a maioria das mulheres moderadamente conservadoras. 

Os dois conjuntos do textos dão, além disso, um testemunho exemplar do preconceito e da intolerância generalizada daquele periodo, ao nos apresentar o caso de um amor (e um casal de apaixonados) que cai nas malhas pegajosas desse preconceito e dessa intolerância.

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Quais as "calamidades" de que Abelardo fala
fala em sua História de minhas calamidades? 

As "calamidades" de Abelardo não se limitam apenas às consequências trágicas de seu amor proibido por Heloísa. Ele foi perseguido também — e muito, durante toda a vida — por suas ideias, e principalmente pela ousadia com que as colocava.

Abelardo era um jovem estudante especialmente hábil em lógica, em uma das primeiras universidades do mundo, que começaram a ser criadas na metade da Idade Média. Nessas universidades, a imensa maioria das matérias era voltada para assuntos religiosos de interesse cristão, mas circulavam um pouco na surdina entre os estudantes diversos livros proibidos da intiga filosofia grefa, e outros de diversas áreas da antiga sabedoria pagã — coisa para a qual muitos professores faziam vista grossa, uma vez que se tratava de qualquer modo de um legítimo interesse desses estudantes pelos estudos.

Mas nem todo professor aceitava bem isto.

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Na época, para ser professor e levar adiante essa carreira acadêmica, era preciso obrigatoriamente ser casto, sexualmente inativo, e era uma carreira que conduzia para a integração do professor como membro da Igreja, assim como na formação de um padre. Muitos professores eram, precisamente, pessoas interessadas em ingressar na Igreja por esta via (que permitia o privilégio de acesso a estudos e livros) mais do que interessadas propriamente em dar aulas. De modo que havia entre eles os que não aceitavam com bons olhos qualquer matérial de estudo que despertasse o interesse de pesquisa dos estudantes. Havia os que só aceitavam o material de interesse estritamente cristão que era recomendado oficialmente pela Igreja — e estes levavam muito a sério a proibição de certas leituras não-cristãs.

A matéria de lógica, dedicada mais ao exercídio de regras de argumentação, permitia neste sentido uma certa liberdade quanto aos conteúdos trabalhados nesses exercícios, e despertava um certo incômodo e uma certa desconfiança entre professores mais intimamente ligados aos interesses da Igreja oficial.

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Abelardo era não apenas um aluno brilhante nesta matéria, mas também um aluno ousado, com ideias próprias e vocação para polemista, para não dizer dotado de uma (curiosamente simpática) arrogância. Desafiava os professores com argumentos incomuns, e utilizando-os em defesa de posicionamentos também incomuns, sempre com um bom humor agressivo, que levava os colegas a rirem — muitas vezes a rirem dos professores, aliás, o que despertou a raiva de alguns dos mais conservadores entre eles, de modo que Abelardo logo passou a ser perseguido pela maioria de seus mestres.

Aliás, "Abelardo" não era realmente o seu nome, mas um apelido irônico e brincalhão, de certo modo carinhoso, que lhe foi dado pelos colegas estudantes. Esse apelido fazia referência ao modo como alguns professores o tratavam procurando diminuí-lo em sala de aulae quebrar sua influência sobre os colegas. "Abelardo" significa "cabeça de toucinho".

Esse apelido era um modo de dizer que Pedro (originalmente Pierre, pois nasceu em território de língua francesa, apesar de seu nome ser habitualmente traduzido para o português nos textos sobre ele disponíveis no Brasil) era um estudante tolo, incompetente, com dificuldade de entender a matéria, como se tivesse mais gordura no cérebro do que pensamentos. Evidentemente, o contrário da realidade.

Ocorre que o raciocínio lógico de Abelardo era superior ao dos professores, e os colegas estudantes começaram a perceber isso. Como tinha além do mais ideias próprias brilhantes a respeito da matéria, os outros estudantes costumavam se reunir com ele fora das aulas, para aprenderem outros pontos de vista, diferentes daqueles defendidos pelos professores.

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Estava claro que logo se tornaria ele próprio um professor, e alguns dos professores simpatizavam com ele vendo-o desde já como um futuro colega. Mas outros, os mais conservadores e mais ligados à busca de uma carreira na Igreja oficial, viam nele um rebelde que punha em risco o controle oficial das informações permitidas e proibidas. Estes se irritavam e começavam a persegui-lo com suspeitas e acusações, tentando expulsá-lo.

Os que o perseguiam viam-no também como uma ameaça pessoal, porque Abelardo era ambicioso e queria seguir essa carreira, que era promissora apesar de arriscada (arriscada porque ensinar tendia sempre a ser uma atividade suspeita aos olhos da Igreja naquela época) — e as vagas para professores eram poucas, ninguém queria perder o cargo para um estudante antes de conseguir subir dali para um posição melhor na Igreja (e já vimos que nem todos estavam ali porque pretendiam realmente ensinar). 

Quando o professor que mais o perseguia conseguiu expulsá-lo, Abelardo foi encaminhado pela Igreja para outra tarefa, em outra parte, aonde deveria fazer análises de partes pouco estudadas dos livros sagrados, e apresentá-las para um auditório de ouvintes. O sucesso foi tão grande que provocou a inveja daquele que antes era responsável por isto, e Abelardo passou a sofrer perseguição novamente. Expulso também dali, voltou para sua antiga escola, desta vez indicado como professor.

Quando explodiu o escândalo sexual envolvendo Heloísa, as "calamidades" de abelardo se agravaram evidentemente ainda mais.

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Como Abelardo conheceu Heloísa?

Instalado como professor em sua antiga escola, Abelardo tomou conhecimento de uma moça da região que estava se tornando famosa por sua sabedoria, coisa extremamente rara para uma mulher na época. Era Heloísa. Há algo estranho no relato de Abelardo a esse respeito: ele atribui a si mesmo todas as iniciativas de aproximação, mostrando-se muito determinado e sem nenhum escrúpulo em relação a isto, como se fosse um sedutor experiente. Mas sua timidez e inexperirência em relação a mulheres era notória.

Heloísa, pelo contrário, era uma moça de muita personalidade, com opiniões firmes, que queria aprender e manter contato com estudiosos. Era determinada, conhecia perfeitamente bem as dificuldades (na verdade a quase impossibilidade) de uma mulher se desenvolver intelectualmente com estudos naquela época Heloísa, e tnha o dom de encantar e influenciar as pessoas com sua inteligência, embora não por outro lado não fosse considerada sedutora nem qualquer coisa mais do que medianamente bela — os únicos atributos que normalmente levavam à admiração por uma mulher (além da retidão moral e dedicação aos valores cristãos, que eram coisas muito valorizadas).

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Sem medo de mostrar sua inteligência, Heloísa atraía e influenciava as pessoas com aquilo que era o mais inusitado em uma mulher. É bem possível (seria inclusive mais compreensível) que ela tivesse tomado grande parte da iniciativa, no sentido de se fazer conhecida e atraente para um jovem professor inteligente e tão extremamente ousado, rebelde e liberto em relação às castrantes e punitivas regras da Igreja, como o famoso Abelardo deveria lhe parecer.

Por outro lado, é claro que uma moça assim despertaria sua atenção, apenas se estranha que ele descreva sua aproximação de maneira tão unilateral e tão calculada e inescrupulosa. Se por acaso a iniciativa ou parte dela foi da própria Heloísa, por que Abelardo esconderia isso assumindo toda responsabilidade e descrevendo a si mesmo como um sedutor inescrupuloso, se não lhe agradava estimular ainda mais as perseguições que já vinha sofrendo?

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O fato é que, de quem quer que tenham sido as principais iniciativas, Heloísa se tornou sua aluna particular nas horas vagas, fora da faculdade. A moça já havia conseguido convencer o velho tio, que era seu tutor e a amava muito, a deixá-la estudar — coisa rara na época. Conseguiu também que a deixasse ter aulas com Abelardo, que estava se oferecendo para isto, sob o pretexto de admirar-lhe a sabedoria (o que não deixava de ser verdade).

Procuremos entender por que abelardo atribui a si mesmo toda a iniciativa pelo contato com Heloisa, e por que o faz do modo como o faz — colocando-se como um sedutor inescrupuloso, capaz de atrair a ira da Igreja contra ele.

Lembremos que na carreira acadêmica, o professor era obrigatoriamente membro da Igreja, e tinha que fazer voto de castidade, como um padre — era o que todos esperavam de Abelardo desde sempre inclusive, já desde os tempos de estudante parecia predestinado a ser professor. Isto agrava muito o relato de Abelardo, que adquire o tom de uma confissão de graves pecados para redimir-se deles. Confessar convincentemente era um importante fator na redenção, e poderia reverter no caso de Abeardo as expectativa gerais que já vinham se formando no sentido de que continuaria "rebelde" e "dando motivo" a perseguições.

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Lembremos também que as mulheres por outro lado tendiam a ser vistas como fontes de sedução para o pecado. As solteiras que não conseguissem se mostrar extremamente contidas, castas e obedientes aos pais (para depois serem obedientes aos maridos), podiam ter facilmente suas vidas arruinadas de um instante para o outro.

Na História de minhas calamidades — que é onde Abelardo confessa sua fria estratégia de sedução de Helopisa — Abelardo por outro lado mostra que tinha claríssima consciência do modo como eram vistas as mulheres pela Igreja e pelo senso comum em geral: fontes de pecado e sedução. Esta consciência parece ser a principal chave para entender sua atitude, inclusive porque o pecado admitido ali era um pouco demais para atrair o perdão e o fim das perseguições. Repitamos: Abelardo procura nitidamente atrair para si mesmo qualquer responsabilidade pelo início do relacionamento com Heloísa, descrevendo-se como um oportunista interesseiro que quis tirar proveito de uma mocinha em condições que a tornavam indefesa contra suas investidas. 

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Mas se percebe sob suas palavras, e ainda mais nas cartas de Heloísa, que ela não era nada disso, e sim, como já dito, uma jovem com livre opinião posições muito firmes, que sabia muito bem o que queria, e que "entrou no jogo" de sedução de Abelardo com todo gosto. Provavelmente inclusive com ainda maior sedução de sua parte do que da dele. A verdadeira Heloísa, com toda clareza e sem dúvida nenhuma, estava longe de corresponder a essa imagem inocente e "manipulável"  que Abelardo faz dela em sua confissão.

Ao que tudo indica, portanto, trata-se de um gesto de proteção por parte de Abelardo, sacrificando-se em lugar dela, ainda que por meio de uma estratégia carregada de algum pequeno traço de esperança em perdão, de modo a conseguir possivelmente livrar-se também punições por esta relação com ela. O que ele faz nitidamente, é bastante esforço para protegê-la contra qualquer associação dela à figura comum da "sedutora malévola" e da "feiticera" capaz de dominar e torcer a bel prazer as vontades de um homem. Essas imagens que corriam popularmente na época, em relação às mulheres que mostravam muita opinião própria, eram perigosas, e poderiam atraír para uma moça as mais graves consequências.

Escândalos envolvendo sexo eram de especial gravidade neste sentido. Até mesmo para um homem e uma mulher casados, o sexo na época tinha quer ser tratado como uma atividade sagrada de procriação, e no caso do cristianismo isto não envolvia nenhuma valorização dos desejos e prazeres naturais envolvidos (como no caso do paganismo, que também valorizava a procriação). Pelo contrário: no cristianismo medieval, a procriação não podia ser vista nunca como algo envolvendo prazer, desejo, paixão ou "excessivo" amor... ou alguma combinação de todas essas coisas.

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Eram coisas consideradas pecaminosas. Sim, nem mesmo o amor entre homem e mulher escapava a isso: esperava-se que o casal amasse mais a Deus do que um ao outro, e julgava-se que demonstrar amor demais pela parceira ou parceiro punha o amor a deus sob suspeita.

O moralismo cristão era tão agressivo naqueles tempos, que os linchamentos não eram incomuns, e um escândalo sexual poderia ser de fato perigoso para o casal — principalmente para a mulher. Por essas razões Abelardo e Heloísa mantinham com todo cuidado seu proibido caso de amor em segredo (chegaram a ter secretamente uma filha mantida escondida num convento).

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Quais foram as consequências do amor proibido
de Abelardo e Heloísa para os dois?

Os problemas do casal começaram quando Heloísa engravidou. Apesar das dificuldades, conseguiram ocultar isso do tio da moça por bastante tempo, enquanto as suspeitas e comentários maledicentes a respeito dos dois já íam se espalhando.

Abelardo, que a essa altura ainda tinha carta branca do ingênuo tio da moça para educá-la como achasse melhor (incluindo o direito a castigos, que parece ter servido aos dois para realizarem fantasias sexuais), usou esse pretexto para levá-la em viagem e hospedá-la um tempo na casa de sua irmã. Ali nasceu o filho dos dois — batizado por Heloísa de Astrolábio, nome de um instrumento da mais avançada tecnonogia da época, o que por si só já é bastante significativo em relação a quem era essa "mocinha" — como a chama diminutivamente Abelardo, talvez também com alguma ingenuidade machista — e para onde dirigiam os pensamentos dela, em plena sociedade medieval.

 O que se passou então é bastante interessante.

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Abelardo queria abandonar toda a sua carreira como professor (que lembremos, significava entrar para a Igreja e fazer voto de castidade) para casar-se com Heloísa. Assim poderiam pelo menos diminuir um pouco a maledicência geral e a desonra dela perante a família e a comunidade. Na época, ao que parece, um professor tinha que ser casto desde o início, e tinha suas chances a conseguir manter essa função drasticamente diminuídas se tivesse um filho, especialmente um gerado nessas condições, antes do casamento.

Heloísa, no entanto, recusava-se a casar. Argumentava contra essa instituição ao que parece considerando-a falaciosa e contrária ao livre curso dos sentimentos amorosos. Dizia que estaria mais honrada como se fosse vista como uma amante livre que faz o que quer do que como uma esposa bem-comportada e submissa. E utilizou-se de muitos argumentos contra o casamento — argumentos descritos por Abelardo com muita profusão e riqueza de detalhes, mas ao mesmo tempo com uma curiosa imprecisão que parece sugerir, bem mais que alguma deficiência argumentativa da moça, algum ocultamento por parte dele em relação a coisas que ela dizia (talvez muito avessas aos valores cristãos tradicionais na época, e perigosas para uma moça quando saídas de sua boca).

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Heloísa queria manter a relação dos dois até onde fosse possível na condição de uma relação proibida e secreta. Onde não fosse mais possível, queria ser vista como a amante, a mulher independente que por sua própria vontade e rebeldia burlou as leis morais vigentes. Acima de tudo queria levar a relação adiante tanto quanto possível e enquanto fosse possível sem casamento. Abelardo, pelo contrário, queria revelar seu amor à família da moça, o que significava encaminhar a relação para a oficialização em um casamento honrado, e em conformidade com as prescrições da Igreja quanto a isto.

Heloísa acabou aceitando o casamento — mas chorando, frustrada, acreditando que isto arruinaria a relação e a vida dos dois, e ao que parece também revoltada porque Abelardo, com mais idade e além disso que tinha todas as condições a seu favor nesse sentido, estava assumindo a posição de macho dominante e o controle da situação. Venceu a posição de Abelardo.

Contra a vontade de Heloísa, os dois contaram à família dela, o que parece ter iniciado no velho tio e tutor da moça, que se culpava por ter confiado em Abelardo, um processo de crescente enlouquecimento, envolvendo ódio e ciúmes (haveria talvez da parte dele próprio alguma paixão oculta pela sobrinha?).

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A partir daí, é claro, Heloísa deixou de ter voz no desenrolar das decisões. Chocada e abalada, a solução encontrada pela família, em negociação com Abelardo, foi primeiro Heloísa e ele se casarem ainda em segredo, e só revelarem sua condição de casados ao conhecimento público quando não fosse mais possível ocultar os fatos, e sem nunca esclarecerem quando haviam se casado — de modo a gerar dúvidas quanto a terem casado antes ou depois do engravidamento da moça.

Isto poderia gerar incerteza entre os fofoqueiros e maledicentes costumazes, e acabar salvando a honra da família, que poderia incentivar contra os boatos uma justificada presunção de inocência de Heloísa.

Entretanto, as coisas não iriam acabar nessa suavização de todas as possibilidades de escândalo pretendida por Abelardo e pela família de Heloísa. O tio e tutor da moça continuava crescentemente inconformado com a situação, e enfurecendo-se cada vez mais com aquele professor particular nada casto — aquele famoso e arrogante Abelardo ("cabeça de toucinho") que lhe havia traído a confiança fazendo-o de idiota, e que debaixo de suas barbas havia arruinado a inocência de "sua" preciosa Heloísa.

Enlouquecido pelo ódio, o tio e tutor de Heloísa pagou um grupo de homens para invadirem o quarto da hospedagem em que Abelardo dormia, para dominá-lo à força e castrá-lo.

Os gritos e Abelardo saindo ensanguentado da hospedagem foram uma cena que é melhor não descrever. As medicina da época era péssima e as condições de higiene ainda piores, de modo que ele poderia ter morrido.

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Mas sobreviveu — difícil dizer se para o melhor ou para o pior. 

E é claro, como se não bastassem as imagináveis implicações deste horror para o casal, com tal crime passional (tão chocante ostensivo que não se poderia esconder), todo o caso escandaloso veio também à tona para atingir Heloísa ainda mais do que já havia sido atingida pelo eco já natural dessa violência sobre ela, que amava Abelardo: para aumentar seu sofrimento, a história inteira se espalhou rapidamente de modo a desonrá-la publicamente, levando toda a família a abandoná-la à sua sorte e a esforçar-se para rejeitá-la publicamente e lavar as mãos em relação a ela.

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O que se pode extrair de filosoficamente interessante
dessa história de amor entre Abelardo e Heloísa? 

 O amor, e especialmente o amor proibido, não constitui apenas um tema de ficções popularmente atraentes.

Trata-se de um tema presente na mentalidade popular dos mais diversos povos já desde as mais antigas civilizações da humanidade.

É um tema que, desenrolando-se com inúmeras variações de povo para povo conforme as diferenças culturais entre os povos, passou por um desenvolvimento histórico extremamente interessante e revelador quanto a diversos elementos importantíssimos na constituição dessas diferentes culturas, principalmente no que diz respeito aos valores morais, à religiosidade, e às relações de gênero de um modo geral. E talvez o mais interessante: no que diz respeito às relações do ser humano com sua própria natureza corpórea, orgânica, e ao modo como essas relações se manifestam nas relações afetivas heterossexuais e homossexuais.

O tema envolve principalmente as relações entre o paganismo e o cristianismo.

A história de Abelardo e Heloísa oferece um riquíssimo material para o exame desse tema no âmbito da cultura cristã européia em geral na Idade Média. 

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O que é preciso saber sobre paganismo e cristianismo para
examinar o interesse filosófico do amor entre Abelardo e Heloísa?

Entre os medievais confrontavam-se dois tipos de culturas opostos em muitos aspectos, e ambos fortemente marcadas por valories religiosos dedicados a defender com intensidade, cada um de seu lado, um específico modelo das relações entre o material e o espiritual.

De um lado, havia culturas de perfil pagão, politeísta (com crença em vários deuses) e com propensões panteístas (em que os deuses estão integrados à natureza e às coisas materiais que estão nela, de modo que o mundo material e natural é em si mesmo sagrado). De outro lado, seitas cristãs variadas, e ocasionalmente também seitas judaicas e islâmicas, embora as primeiras (as cristãs) fossem predominantes na Europa — e este lado era marcado então por crenças e valores monoteístas (voltados para um único Deus) e que apontavam para uma oposição radical entre o espiritual e o material, valorizando o espírito contra a matéria, a dedicação à alma contra a dedicação ao corpo em sua organicidade e em sua sensualidade.

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As influências do paganismo vinham de duas fontes: antigos valores greco-romanos bastante decaídos, mas ainda parcialmente e dispersamente manifestos; e novos valores pagãos trazidos constantemente por povos vindos do norte da Europa, que acreditavam em outros deuses, diferentes dos greco-romanos... entidades como por exemplo Thor, o deus do trovão — que acabou sobrevivendo, ou revivendo, nos sécuos XX e XXI na imagem de um herói de histórias em quadrinhos e filmes de cinema e TV.

As influências islâmicas vinham do Oriente Médio e do norte da África, as judaicas se dispersavam já havia muito tempo em inúmeros pequenos focos no centro da Europa, e as cristãs eram as oficialmente dominantes, com uma das versões do cristianismo firmemente difundida pelas camadas mais poderosas da sociedade em toda a Europa — os membros da alta hierarquia da Igreja católica apostólica romana.

Essa Igreja oficial espalhava suas ramificações por todos os recantos da Europa, mas com pouco controle sobre o conjunto de seus domínios, de modo que proliferavam inúmeras variações do cristianismo ao redor de cada foco representativo da Igreja oficial, especialmente nas regiões mais distantes e de mais difícil acesso para os mensageiros e representantes do Papa — a figora maior do poder eclesiástico cristão. 

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E o cristianismo, em agressividade ora maior ora menor, defendia em todas as suas versões uma valorização maior do espiritual em detrimento do material e da natureza — embora começasse a ocorrer, precisamente na época de Abelardo, com a difusão dos pensamentos de Aristóteles (difusão pela qual ele foi aliás um dos vários responsáveis mais conhecidos), algum esforço em busca de uma maneira propriamente cristã de valorizar a natureza (não pela sua materialidade, mas digamos assim, pela lógica da arquitetura de seu funcionamento, como se tivesse sido a obra perfeita de um arquiteto perfeito: Deus).

 Algumas implicações extremamente interessantes do ponto de vista filosófico emergem de toda essa conjuntura religiosa para se manifestarem nas relações amorosas entre as pessoas, naquela época, e se refletem de maneira muito clara e instigante no caso de Abelardo e Heloísa, de modo que vale a pena examinar isto um pouco mais de perto.

 Muitos traços dos valores pagãos se misturavam com o cristianismo na mentalidade da imensa maioria da população européia, constituída por camponeses, muito ligados à natureza em sua materialidade, e especialmente à terra e aos ciclos de fertilidade da terra. 

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O paganismo costumava valorizar os ciclos da natureza, e valorizar a mulher como símbolo vivo dessa circularidade natural, devido aos seus ciclos orgânicos e sua fertilidade, que era também comparada à fertilidade da terra. Frequentemente as lideranças religiosas pagãs eram mulheres — sacerdotizas — ou então um casal sagrado, no qual a figura da mulher era a mais eminente. Apesar de suas influências na mentalidade popular, o paganismo estava oficialmente proibido pela Igreja, e esta valorização pagã da mulher (e da materialidade natural simbolizada nela) é uma das principais razões do histórico machismo cristão, que vinha combatendo diferentes formas de paganismo similares já desde a antiguidade.

As culturas pagãs costumavam supervalorizar o sexo, enquanto forma de integração profunda com nossa natureza orgânica e material, e também enquanto representação simbólica da fertilidade feminina. Muitas vezes essas culturas apresentavam cultos religiosos em que o casal-lider praticava publicamente a hierogamia (sexo sagrado).

Mas na maioria das culturas pagãs mais antigas e primitivas, especialmente aquelas próximas das influências do antigo Oriente Médio pré-islâmico, a sacerdotiza ainda praticava a hierogamia com um parceiro aleatoriamente e livremente escolhido por ela.

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O parceiro neste último caso nunca era o mesmo, e atuava no ritual hierogâmico sempre com o rosto oculto por uma máscara ou fantasia de cabeça de bode, ou de touro, ou de algum outro animal com chifres. E eram às vezes vários parceiros à sua escolha, ao mesmo tempo ou um de cada vez. Os chifres simbolizavam o órgão sexual masculino, e também ao mesmo tempo uma potência fertilizadora capaz de catalizar a fartura produtiva da nartureza em toda a sua fertilidade.

A fertilidade feminina, nesses antigos cultos pagãos, não estava ligada à ideia de casamento nem a qualquer controle da mulher pelo homem, muitíssimo pelo contrário. Era a representação de uma das diversas potencialidades do sexo — entendido como uma intensa integração do espírito humano com a sua natureza material e orgânica. Isto era compreendido como vivenciar algo similar à integração que imaginavam que seus deuses tinham com as coisas materiais, já que esses deuses eram forças da natureza, mas dotadas de um elemento sobrenatural (um lado espiritual).

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Essas culturas pagãs muitas também costumavam, em sua valorização do sexo, praticar uma considerável liberdade sexual, mesmo quando o casamento era solidamente instituído e monogâmico, e ainda mais nas regiões mais frias, em que os corpos podiam se aquecer mutuamente. Muitas vezes um casal aceitava de livre acordo que o homem se aventurasse a praticar sexo livremente com alguma outra mulher, em certas circunstâncias, ou a mulher a com algum outro homem, em certas circunstâncias. Mas os casais se mantinham, e as famílias continuavam solidamente instituídas. Muitos povos bárbaros do norte da Europa tinham esse perfil.

Eram também comuns, em algumas culturas como estas, as ocasiẽs de orgias coletivas com o sexo praticado livremente, como parte de certas festividades religiosas, e com o acompanhamento do uso de drogas ou de máscarar carregadas de simbologia sagrada.

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Tudo isto (todos esses elementos de antigas culturas pagãs) estava severa e rigidamente proibido pela Igreja oficial e pelas mais variadas seitas cristãs paralelas e periféricas na Idade Média, assim como estava proibido também nos dispersos focos de cultura judaica e islâmica. Mas conforme já dito, alguns vagos mas persistentes traços de todo esse paganismo ainda perduravam sobretudo na vida camponesa. entretanto, perduravam sempre e apenas sob o manto punitivo e vigilante do cristianismo, que levava a população a temer essas coisas como malévolas e pecaminosas.

De qualquer modo, tudo isto era indireta e vagamente conhecido da população cristã medieval, fortemente reprimida em termos sexuais e por isso mesmo, fortemente estimulada a pensar nessas coisas (...em segredo). Eram coisas que infestavam suas fantasias constantemente, e que afetavam seus comportamentos sem que se dessem claramente conta disso. E sempre que tomavam consciência desse fato, a consciência costumava vir acompanhada de muito medo, medo de tudo o que estavam acostumados a ouvir da Igreja acerca de pecados e punições divinas.

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De que modo as relações
entre paganismo e cristianismo trazem algo de 
filosoficamente interessante ao caso Abelardo & Heloísa?

Agora podemos entrar finalmente naquilo a que devemos prestar especial atenção aqui. Leia-se o que se segue lembrando cuidadosamente do casamento de Abelardo e Heloísa e de todas as circunstâncias já mencionadas, que envolveram esse casamento (por exemplo a recusa de Heloísa, combinando paraoxalmente medo por sua imagem pública de um lado, com heróica resistência de outro lado contra uma instituição cristã na qual parecia não ver nada de bom).

Pois bem: o modelo cristão de casamento, na Idade Média, visava entre outras coisas evitar tanto quanto possível todos esses traços de paganismo acima descritos, e principalmente a liberdade da mulher. Procurava-se estruturar o casamento de modo a submeter a mulher ao homem, e submeter todas as mulheres à necessidade do casamento com um homem sob pena de desonra e desvalorização pública. Na verdade o que se pretendia com isso encerrar todas as vias de acesso das descendentes de antigas sacerdotizas pagãs a qualquer influência sobre a população.

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Muitas jovens camponesas ou mesmo burguesas — visto que os burgueses tinham também ascendẽncia camponesa — tinham tido bisavós ou tataravós, ou tatara-tataravós, que eram verdadeiras sacerdotizas de cultos pagãos em gerações passadas. Na verdade isto não deixava de se estender também a certas famílias da nobreza nas quais tinha havido no passado próximo ou distante antigos casamentos com lideranças guerreiras pagãs.

E isto quer dizer que em todas as camadas socio-econômicas (embora isso tendesse a se intensificar naquelas com mais constante contato com a natureza) havia sempre algumas famílias que tinham velhos livros escondidos, carregados de simbologias e textos de antiga sabedoria pagã — porque aquelas antigas sacerdotizas costumavam também estudar a natureza e anotar tudo o que aprendiam a seu respeito.

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As antigas sacerdotizas pagãs também atuavam muitas vezes ao mesmo tempo como uma espécie de curandeiras, isto é, médicas e farmacêuticas em suas comunidades, fazendo poções que tinham efeitos medicinais, frequentemente de bons resultados. Suas descendentes com frequência recuperaram esses antigos conhecimentos e continuaram fazendo isso no decorrer da Idade Média. Prestavam com isso uma espécie de constante serviço médico comunitário, e o faziam correndo o grave risco de serem acusadas de bruxaria (o que frequentemente as levava à tortura até a morte nas mãos de representantes da Igeja).

Antes do aparecimento das primeiras universidades, como aquela em que Abelardo estudava quando conheceu Heloísa, os livros em geral costumavam ser proibidos, ou no mínimo firmemente (e um tanto ameaçadoramente) desaconselhados. Nem mesmo a Bíblia cristã se permitia que circulasse livremente nas mãos da população, porque a Igreja temia a possibilidade de isto servir para fundamentarem melhor interpretações do cristianismo diferentes da oficial.

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Livros com esse tipo de sabedoria muitas vezes atiçavam a curiosidade de moças jovens e inteligentes que admiravam antigas histórias de sua família sobre essas antepassadas. A população medieval era de um modo geral mantida no analfabetismo pela Igreja, e ligros de origem pagã eram proibidos com severidade. Mas essas descendentes de antigas sacerdotizas pagãs muitas vezes aprendiam por conta própria a ler e escrever. (Seria muito interessante, apenas por curiosidade, verificar qual exatamente a ascendência dessa mocinha brilhante chamada Heloísa, se fosse possível encontrar alguma documentação consistente a respeito. O que se sabe é que ela já estudava, e era famosa por sua sabedoria, antes de conhecer Abelardo, e que isto, precisamente, parece tê-lo atraído.)

Em suma, e para chegarmos ao ponto central da conexão de tudo isso com o caso específico de Abelardo e Heloísa: independentemente de alguma possível ascendência de Heloísa que a ligasse às antigas sacerdotisas pagãs (o que não passa de pura especulação), há algo no amor entre os dois — especialmente no modo como Heloísa parecia compreender esse amor — que está diretamente ligado não ao paganismo, mas sim a um específico resultado misto de paganismo e cristianismo que circulou com muita força na mentalidade popular durante toda a Idade Média, e que incomodava bastante os ideólogos oficiais da Igreja.

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Trata-se de uma estranha crença popular que entre os camponeses de língua inglesa ganhou o nome de true love ("amor verdadeiro")  — com o qual acabou se celebrizando. Havia lendas circulando sobre casos de amor verdadeiro em toda a Europa já desde muito antes do tempo de Abelardo e Heloísa.

Basicamente o povo acreditava (combinando elementos pagãos e cristãos) que seria possível entre um homem e uma mulher um amor tão intenso, inclusive sexualmente, capaz de integrá-los tão completamente um ao outro tanto espiritualmente quanto fisicamente, que se tornaria um amor poderoso. Isto é, efetivamente dotado de poderes capazes de mantê-lo vivo e incessante contra tudo e contra todoscontra todas as barreiras sociais, naturais e sobrenaturais. Aliás, o elemento sexual sempre esteve intensamente presente nas lendas a respeito.

Acreditavam que, envolvidos na força do amor verdadeiro, um homem e uma mulher podiam adquirir, sem nem mesmo se darem conta disso, dons telepáticos ocasionais, e inclusive a capacidade de, para se manterem juntos, realizarem inconscientemente milagres. Chegavam ao extremo de acreditar, na verdade, — e aí está um dos pontos mais incômodos para a Igreja — que nem mesmo Deus poderia separar definitivamente duas pessoas unidas assim.

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Se isto causava incômodo em muitos ideólogos da Igreja oficial, em alguns causava verdadeiro horror. Especialmente porque era uma crença de fato muito difundida, e muito forte quando se manifestava. Manifestava-se com a força de uma epidemia quando ocorria de um casal carismático se tornar famoso, e acabar mitificado por vencer as mais impensáveis barreiras contra sua união. A aversão a essa crença levava a Igreja a ver com maus olhos e até perseguir casais muito apaixonados quando eram ao mesmo tempo carismáticos, tentando dificultar por diversos meios que eles continuassem unidos.

Um desses meios era, por exemplo, estimular os pais da moça, por diversos meios no sentido de um casaento arranjado (com alguém que não fosse o amado dela). Outro era arranjar meios para que o rapaz tivesse de realizar em terras distantes demorados serviços por exemplo para a própria Igreja, ou para amigos do nobre ao qual o rapaz servia, devidamente estimulados nesse sentido pela igreja. Esperava-se — e estimulava-se — que nesse meio tempo os dois encontrassem outras pessoas e se esquecessem um do outro.

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E tais perseguições e maquinações contra os casais — estratégia notoriamente tola — tendiam a instigar ainda mais a mitificação de certos casais que não aceitavam separar-se nem mesmo que as circunstâncias se agravasse até que suas vidas estivesses ameaçadas. O próprio conhecimento do mito do amor verdadeiro, que encantava a todos, estimulava os casais a resistirem ainda mais quando se viam proibidos ou cerceados de alguma maneira em sua união.

Tais casais queriam provar a si mesmos e a todos que eram um casal em true love, e que nada nem ninguém poderia separá-los ou reduzir seu amor seja a uma mera aventura sexual passageira, seja a um puro encontro de "almas" sem relação carnal prazeirosa, à moda castradora do modelo ideal do casamento cristão, e que o sexo era apenas uma medida infelizmente necessária à procriação, e a procriação por sua vez era acima de tudo um meio de sumeter a mulher à dedicação integral aos filhos e aos cuidados da casa, sob as ordens do pai de família.

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amor verdadeiro era visto pelo povo como uma força irracional que arrastava invencivelmente as duas pessoas uma para a outra — no que há possíveis influências das versões mais antigas, do período arcaico, de velhos mitos gregos acerca do deus Eros, coisas do tempo dos antigo Império Micênico, muito anterior aos deses do tempo da famosa democracia grega. Essa força irracional, muito intensa em seu aspecto de atração física e sexual, mas que como vimos ultrapassava largamente isso, chegando a atuar contra as barreiras como um poder sobrenatural, arrastava o casal um para o outro mesmo quando conscientemente tentavam fugir a isto. Era algo inclusive para além de suas vontades individuais.

E por parte da Igreja, era vista basicamente como uma ameaça frequentemente incômoda, e potencialmente bastante perigosa.

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O que aconteceu ao casal depois da castração de Abelardo?

Abelardo se isolou de todos e ficou silencioso por bastante tempo. Heloísa, enquanto isso, foi parar em um convento, tornou-se freira. Mas uma freira com uma filha e uma tal história de escândalo sexual nas costas, naquela época, só poderia ter sossego se rejeitasse por completo sua vida anterior (inclusive a condição de mãe, deixando o filho definitivamente aos cuidados de outros e tratando de esquecê-lo).

Heloísa recusou-se a renegar o filho e recusou-se a renegar também seu amor por Abelardo. Como resultado, foi enviada a um convento especial para freiras criminosas (havia vários destes) — e trataram de encaminhá-la para um em que tivesse que conviver com criminosas de alta periculosidade, especialmene assassinas recorrentes, que estavam ali apenas para escaparem da pena de morte.

 Castrado, a Igreja conseguiu dobrar Abelardo. Tornou-se outra pessoa, um homem sizudo, sério — e amargurado. Encarou toda a sua tragédia como um recado de Deus, pediu perdão por tudo oficialmente, jurando que nunca mais entraria em contato com Heloísa, e se consagrou professor.

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Passou a dedicar-se inteiramente às questões teológicas — abandonando a lógica, área em que era brilhante (um gênio), e entrando numa fase bem inferior de sua produção filosófica, aproximando-se do medíocre. Mesmo assim, dedicou sua filosofia teológica à defesa de posicionamentos polêmicos contra os da Igreja oficial, conseguindo chamar muita atenção — a tal ponto que que muitos membros do alto clero começaram a julgar que havia sido uma má estratégia aceitá-lo de volta. Além disso, Abelardo mentiu em ao dizer que cortaria o contato com Heloísa: passou a trocar cartas com ela (e essa correspondência mútua dos dois é a principal fonte de quase tudo o que se sabe sobre essa trágica história de amor).

Logo Abelardo voltou a sofrer intensa perseguição na Igreja, principalmente por parte de um dos seus antigos professores, que havia se tornado influente nos meios eclesiásticos. Esse antigo professor tratou de mobilizar seus contatos para arranjar tudo o que pudesse prejudicá-lo.

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 Quanto a Heloísa, depois de muitas e terríveis dificuldades no convento de criminosas, foi conquistando influência sobre essas freiras, conseguindo mudar o modo de pensar de muitas delas, e adquirindo poder lá dentro. Até que, sobrevivendo a diversos atentados contra sua vida, acabou se tornando a madre superiora local, desenvolvendo ali uma interpretação diferente do cristianismo. Acusada por muitos membros do alto clero de ter criado uma nova seita cristã, que se desviava da original, Heloísa, agora madre superiora, passou também a ter dificuldades com a Igreja. O convento inteiro passou a sofrer perseguição, perdendo recursos, e aquelas mulherem mostraram então uma resistência, uma independência e uma capacidade de auto-organização surpreendentes.

As cartas entre Abelardo e Heloísa se desenvolvem num clima de forte erotismo, principalmente da parte de Heloísa, explícita e extremamente ousada, enquanto nas de Abelardo esse erotismo aparece indiretamente, sembre debaixo de disfarces, com o autor tentando conter-se com dificuldade. 

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E com muita dificuldade aliás. Porque tenta a todo momento convencer a "madre" Heloísa a se afastar da sensualidade e se voltar para valores mais cristãos, e a esquecê-lo, inclusive porque (e percebe-se que principalmente porque) ele já não é mais um homem "inteiro". E acontece que Heloísa, em suas cartas, faz o contrário: tenta incessantemente seduzi-lo, e com momentos de visível sucesso.

Heloísa encarna e assume o papel da sedutora que quiseram lhe imputar punitivamente como se fosse um pecado: se esforça a todo momento para incitar em Abelardo (já visível nele, por mais que o negue) tentação de abandonar toda essa sua carreira na Igreja e voltar ao seio do amor (carnal inclusive) com ela. O interessante é que Heloísa deixa muito claro que o sexo não se limita ao que envolve àquele específico pedaço de carne amputado de Abelardo, e o incita a ser sexualmente um pouco mais liberto disso e mais criativo, mais imaginativo...

A agora subversiva e decidida madre Heloísa mobiliza todo o arsenal de habilidades e recursos argumentativos aprendidos com o antigo amante para atraí-lo de volta para si, e a coisa se torna muito interessante — porque conforme faz isso ela também desmascara a todo momento, nos tensos esforços de Abelardo para mergulhar profunda e sinceramente na fé, com a castidade exigida para isso, toda uma impostura, uma hipocrisia que ele disfarça na verdade muito mal.

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A intimidade entre eles deixa escancarada aos olhos de Heloísa essa hipocrisia do antigo amante, e ela procura, pelos meios mais sedutores possíveis, levá-lo a enxergar e a rejeitar essa impostura, voltando para ela (que é o que ele realmente quer, o que fica claro mesmo nos momentos de mais intensa castidade no discurso de Abelardo, e aliás principalmente nesses momentos).

O que Heloísa vai desmascarando em Abelardo, e ao mesmo tempo tendando curar nele, é por um lado a fraqueza, a limitação do homem que mutilado em seu órgão viril, não consegue mais encontrar sua virilidade (nem seu antigo orgulho) em parte nenhuma, não conseguindo superar o trauma e sentindo-se inferiorizado; e por outro lado, a ambição de fazer uma carreira junto à Igreja e deixar seu nome para a posteridade por essa via.

Ainda mais interessante: Heloísa assume muito mais a fundo a rejeição dos valores tradicionais cristãos, e não rejeita o orgulho nem a ambição de Abelardo de fazer com que seu nome fique para a posteridade: ela tenta seduzi-lo com a ideia de que se alguma coisa ficará realmente para a posteridade na vida de Abelardo, se há algo em que ele será para sempre lembrado, é justamente na sua história de amor, com a qual serão lembrados juntos — um amor invencível e capaz de superar a tudo, a todas a proibições e tabus, e até mesmo a mutilação física, e sem se limitar por isso a qualquer espécie de amor "puramente espiritual".

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Heloísa quer Abelardo "por inteiro", e isto não significa com o pênis perdido, mas com toda a alma e com todo o corpo tal como é no momento, de modo que a verdadeira castração, a verdadeira mutilação, é apenas aquela que o proprio Abelardo, traumatizado, está permitindo que a Igreja e as torpezas do ambiente cheio de proibições e punitivo da época lhe imponham.

Pelo que se sabe da história real, eles nunca voltaram à cama juntos.

Abelardo ficou famoso (nos restritos círculos dos estudos de filosofia medieval), mas por sua lógica "conceitualista" da fase em que convivia com Heloísa, não pela teologia polêmica da fase de castidade, qe foi esquecida. Entretanto, muito mais famoso que o "conceitualismo" de Abelardo, com uma fama que se estende para muito além da filosofia, que já inspirou muitos artistas das mais variadas áreas e continua sempre excitando direta ou indiretamente a fantasia popular, é o amor desses dois, que influenciou indiretamente centenas e centenas de outras famosas histórias de amor no correr dos séculos.

É... parece que Heloisa tinha razão.

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Abelardo produziu mais alguma coisa filosoficamente
além de seus estudos conceitualistas?

Além do que conhecemos de sua história trágica de amor com Heloísa, e de sua produção em lógica, que o marcou como fundador do posicionamento "conceitualista", Abelardo tem também uma produção teológica –– isto é, uma produção de estudos religiosos, sobre a ideia de Deus, coisas como por exemplo uma teoria sobre o mistério da santíissima trindade, tentando explicar de modo racional como Deus poderia ser ao mesmo tempo um e três (pai, mãe e espírito santo).

Tais estudos, com posições polêmicas para a época, foram de um modo geral mal aceitos e tiveram pouca repercussão. Acabaram entrando para história como parte de um período de decadência na uqlidade da produção filosófica de Abelardo, que tinha avançado muito bem durante o período em que se dedicava à lógica.

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Na verdade, Abelardo dedicou-se intensamente e de maneira reconhecidamente brilhante à lógica, incluindo a tradução e reinterpretação de Aristóteles, e ao desenvolvimento do seu "conceitualismo", durante todo o período em que se relacionava diretamente com Heloísa. E não apenas sua vida afetiva mas também sua produção intelectual sofreram uma quebra, uma ruptura brusca, a partir do episódio de sua castração –– que marcou não só seu afastamento de Heloísa, mas também sua aproximação e aprofundamento nas questões religiosas, que passaram a substituir cada vez mais em seu interesse as questões lógicas e conceituais.

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