Breve apresentação

 

Draft A (ou Rascunho A) é o primeiro de três rascunhos (Draft A, B e C) escritos por John Locke para o seu livro mais famoso, Um ensaio sobre o entendimento humano — uma das mais importantes obras de teoria do conhecimento da história da filosofia mundial. Trata-se de uma versão muito mais curta (sem capítulos, dividida em 45 seções de poucos parágrafos mais um Memorandum final) e com grandes diferenças em relação ao texto final, que é bem mais extenso. Além de mais curta, esta versão também mais precisa e coerente que a sua famosa versão final, e mantém do começo ao fim o mesmo estilo enxuto e direto.

Neste Draft A, Locke já defende firmemente o empirismo, com a conhecidíssima tese de que não há nada na mente humana que não tenha passado antes pelos sentidos (ou pelo menos pela experiência, de modo que os conteúdos e mesmo as operações da mente são todos adquiridos, não nascem com ela). Mas se concentra muito mais diretamente na questão da linguagem e das relações entre linguagem e conhecimento, chegando a antacipar alguns traços daquela diferença que mais tarde Kant faria entre os juízos sintéticos e os juízos analíticos — e deixa para o final suas críticas e respostas aos opositores (principalmente os defensores do inatismo, isto é, da tese de que temos algo inato em nossas mentes já antes de qualquer experiência sensorial.

A partir do segundo rascunho (Draft B) — já muito mais próximo da versão final — Locke já aumenta muito e reestrutura a obra, colocando em segundo plano essa questão da linguagem e se concentrando muito mais na refutação dos adversários, que passa a ficar concentrada no início, mas também a ter seus efeitos espalhados por toda o texto.

No Draft A, tudo gira em torno da distinção entre termos simples e proposições formadas com esses termos. Através dessa distinção Locke vai chegando a uma outra, que é a distinção entre ideias simples e compostas. Essas duas distinções não coincidem uma com a outra: um termo simples pode encobrir uma ideia composta de vários dados sensoriais, dando a ilusão de unidade.

Mais tarde, na versão final, Locke preferiu concentrar-se em primeiro plano nessa distinção entre as ideias simples e compostas, ressaltando quanto à questão da linguagem os erros a que podemos ser levados pelas definições mal feitas ou incompletas (e "definir" algo, para Locke, se aproxima muito de "descrever" listando as qualidades que percebemos nesse algo a partir da experiência.

É preciso lembrar que o empirismo de Locke não é tão oposto ao racionalismo de Descartes como os empirismos mais antigos de Maquiavel e de Francis Bacon: influenciado por alguns traços do cartesianismo, o de Locke é um empirismo mentalista, que se concentra nos efeitos das impressões sensoriais sobre a mente humana. E quanto Locke fala de "experiência", está indo além dos dados sensoriais pelos quais captamos sinais dos objetos externos a nossa mente.

Quando diz que tudo o que conhecemos provém da "experiência" Locke está falando também das próprias operações mentais que fazemos lidando com esses dados (e provodadas na mente pela presença deles), porque podemos, por reflexão, captar, perceber em nossa consciência, as operações mentais que estamos fazendo, o que significa produzirmos na mente a experiência dessas operações do mesmo modo como produzimos nela (através dos sentidos) a experiência mais direta dos dados sensoriais, que vão sendo depois relacionados por essas nossas operações mentais.

Tudo isso — que aparece em Um ensaio sobre o entendimento humano — também já está presente, e de forma mais direta e precisa, com menos rodeios inclusive, no Draft A. 

Não significa que esse rascunho inicial seja necessariamente uma obre melhor, que depois foi piorada pelo autor — embora não seja uma avaliação de todo impossível — existem sim alguns pontos menos esclarecidos neste Draft A, e a versão final de fato aprofundou e desenvolveu até muito mais longe a maioria dos assuntos tratados nele. Mas ao fazer isso, ela abriu uma considerável quantidade (muito maior, naverdade) de outros e novos pontos que precisariam também ser melhor explicados, e talvez tenha se deixado levar demais pela preocupação de antecipar e responder de antemão as críticas e refutações, e de persuadir o público explorando exemplos e argumentos — coisas que não tomam tanta atenção do autor no Draft A, onde se mostra mais interessado na simples exposição clara e direta de sua própria teoria.

A edição da Unesp conta com um curto mas excelente posfácio de Bento Prado Neto. Nele, ficam cuidadosamente esclarecidas as diferenças entre o Draft A e a versão final mais famosa da obra, também que partes do Draft A correspondem a que partes da versão final (em que a disposição dos assuntos foi alterada), e ainda tamném o modo como Locke foi reconstruindo a exposição de suas ideias, o que pode ser muito esclarecedor e ajudar a evitar interpretações imprecisas do que esse filósofo pretendia.

Esse posfácio apresenta a certa altura um breve esclarecimento do percurso de Locke no Draft A, que reproduzo a seguir:

O texto  estrutura-se fundamentalmente em torno dos conceitos de termo proposição. Com efeito, podemos dividi-lo em cinco partes: a primeira consiste no exame dos termos simples (§§ 1 a 8); a segunda no exame das proposições que podemos (legitimamente) formar com tais termos (§§ 9 a 26); a terceira (§§ 27 a 32) consiste na sistematização dos resultados obtidos na segunda parte, uma sinopse do nosso conhecimento; a quarta se dedica ao exame do assentimento ao que não é certo, mas meramente provável (§§ 33 a 42); enfim, uma quinta e última parte consiste em respostas a possíveis objeções (§§ 43 a 45). 

(PRADO NETO, Bento - p. 103)

 

 

 

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