História da vida privada Vol 2

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Ariés, Philippe; Duby, Georges / 1990

coleção de textos (um dos volumes)

Resenha crítica

História da vida Privada: o volume sobre a Idade Média

Resenha por João Borba - em maio de 2012

 

Dividida em subtítulos para melhor leitura no site


sumário

Qual é a proposta dos autores de História da vida privada? | Quais os assuntos tratados no volume 2 de História da vida privada? |O volume 2 de História da vida privada trara de toda a Idade Média? | A Idade Média pode ser chamada de "Era das trevas"? | Houve muita mudança da primeira fase da Idade Média para a segunda? | A Inquisição e a "caça às bruxas" aconteceram em que fase da Idade Média? | O Renascimento foi um período radicalmente diferente da Idade Média?


 

Qual é a proposta dos autores de História da vida privada?

A coleção História da vida privada é uma enorme seleção de estudos de história, escritos por muitos historiadores diferentes todos mundialmente reconhecidos, a maioria deles da França. É uma coleção famosa no mundo inteiro, e segue uma linha de pesquisa histórica conhecida como história do cotidiano.

Os historiadores do cotidiano não se interessam pelas realizações de "grandes homens" famosos ou importantes, nem dão tanta atenção a explicações sobre as razões ou mecanismos que foram provocando as transformações de uma época para outra. Segundo eles, o mais importante é entender como viviam as pessoas comuns de cada época no seu dia a dia, e deixar essas razões que levam às transformações de época para época, se essas razões realmente existirem, aparecerem sozinhas e de maneira evidente pela simples apresentação detalhada e cuidadosa dos fatos cotidianos, do modo como eram vividos normalmente pelas pessoas naquelas épocas. São historiadores que evitam colocar opiniões, interpretações ou teorias pessoais. Seguem a ideia de que os simples fatos falam por si mesmos.

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Quais os assuntos tratados no volume 2 de História da vida privada?

História da vida privada é uma coleção de textos de diversos historiadores, organizada em 5 volumes grandes e grossos que muitas vezes costumam ser vendidos separadamente. Os próprios organizadores da
coleção, Philippe Ariés e Georges Duby, são provavelmente os historiadores do cotidiano mais
famosos do mundo. Os estudos estão distribuídos por 4 capítulos. O primeiro - "Abertura" - é apenas de Duby Traz alguns esclarecimentos sobre a proposta da história do cotidiano e um estudo sobre as questões políticas na Idade Média. O segundo se chama "Quadros", e traz estudos sobre a vida nas classes sociais mais ricas e poderosas da época. O terceiro se chama "ficções", e examina a literatura na segunda metade da Idade Média. O quarto capítulo se chama "Problemas", e traz estudos (sempre focalizando a Idade Média apenas depois ano 1000) que tratam do modo como os medievais organizavam seu espaço privado no dia a dia, de como entendiam sua individualidade, e de como lidavam com a solidão e a sua intimidade.

 

O volume 2 de História da vida privada trata de toda a Idade Média?

Na coleção História da vida privada, a Idade Média está dividida em dois volumes diferentes. A primeira metade dela é tratada no volume 1, anterior a este aqui comentado. O volume 2 trata apenas da segunda metade da Idade Média.

O volume 1 de História da vida privada - anterior a este - vai mais precisamente do Imperio Romano (antiguidade) ao Ano Mil (século X). Isso quer dizer que passa pela queda do Império Romano e pelo que se costuma chamar de "Alta Idade Média" - que é a primeira metade Idade Média, iniciada no século V. 

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A Idade média pode ser chamada de "Era das Trevas"?

A primeira fase da Idade Média (tratada no volume 1 de História da vida privada) é o que muitas vezes é considerado como "Era das Trevas". O público leigo em geral e até mesmo alguns historiadores às vezes acabam entendendo como "Era das Trevas" o conjunto da Idade Média inteira, mas as duas fases desse período - Alta Idade Média (fase que ocupa a primeira metade do conjunto) e a Baixa Idade Média (segunda metade, tratada neste volume aqui comentado) - são na verdade bastante diferentes em alguns aspectos importantes, o suficiente para questionarmos o título de "Era das Trevas" para a Baixa Idade Média. Talvez por isso estejam em volumes separados nessa coleção organizada pelos historiadores do cotidiano.

A "Era das Trevas" (entendida como sendo apenas a Alta Idade Média) é um um largo período de tempo (paroximadamente 500 anos) durante o qual, principalmente por causa da perseguição de estudiosos pela Igreja, haviam sido praticamente abandonados os estudos em medicina, história, política, os estudos sobre o mundo natural em geral (hoje chamados de "física", "química" etc.) e diversas outras áreas.

Na verdade, a expressão "Era das Trevas" se iniciou dirigida à Idade Média como um todo, e só mais tarde é que passou a focalizar cada vez mais apenas a Alta Idade Média. É uma expressão que sempre foi muito usada como uma maneira de criticar o pensamento e o modo de vida de toda a Idade Média (ou "Era Cristã"), até o século XV. A expressão vem da ideia de que em todo esse período foram abandonadas "as luzes da razão", porque as pessoas pararam de estudar as coisas e de refletir a respeito delas, apoiando-se sempre apenas na fé, no preconceito e na superstição.

Quebrar esses preconceitos que atrapalhavam a clara compreensão do que foi a Idade Média e de como ela terminou foi uma das principais contribuições dos historiadores do cotidiano para a história mundial, por isso se pode dizer que, no conjunto de toda a coleção, este volume dois de História da vida privada tem um interesse especial.

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Houve muita mudança da primeira fase da Idade Média para a segunda?

Antes do aparecimento dos historiadores do cotidiano, era considerado evidente e indiscutível quase unanimemente entre os historiadores que a Idade Média havia sido um período de decadência da civilização e da humanidade, e a Igreja cristã oficial (que era a Católica) uma força de promoção dessa decadência.

Foram esses historiadores do cotidiano - como os próprios Ariés e Duby, por exemplo - que conseguiram demonstrar o quanto a vida medieval foi mudando ao longo da Baixa Idade Média, cada vez mais depressa - e principalmente no final dela. As cidades e o comércio por exemplo (que não existiam antes) começaram a surgir e crescer, e a nobreza feudal começou a perder o poder e decair, o regime de servidão dos camponeses perdeu a força, a liberdade aumentou, a própria Igreja passou a valorizar cada vez mais o mundo material (isto é, a natureza) como obra divina perfeita e não como lugar apenas de pecado e sofrimento no qual teríamos caído com a expulsão do paraíso, fundou as primeiras universidades do mundo etc.

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A Inquisição e a "caça às bruxas" aconteceram em que fase da Idade Média?

A Igreja cristã medieval sempre perseguiu quem não aceitava o cristianismo, e as primeiras vítimas medievais acusada de "bruxaria" e linchadas até a morte por fanáticos ou mesmo condenadas com apoios das instituições oficiais da igeja são logo do início da Idade Média. Isso ocorreu durante todos os 1000 anos medievais. as ao contrário do que se imagina, a perseguição foi intensificada na Baixa Idade Média, isto é, na segunda metade do período medieval, justamente na época em que a Igreja começou, ao mesmo tempo a se mostrar mais aberta e progressista.

É que acompanhando essas mudanças progressistas e assustados com elas, inclusive enraivecidos contra aqueles que as promoviam, surgiram também grupos conservadores e até ultra-reacionários, que se organizaram em torno de uma instituição poderosa e violenta, a Santa Inquisição (fundada em 1184), responsável por investigar e punir casos de suposta bruxaria, ateísmo etc.

E é claro que as vítimas desse tipo de acusação eram muitas vezes apenas pessoas interessadas em promover essa nova abertura para a o conhecimento e a liberdade que vinha se espalhando na Baixa Idade Média - de modo que aumentaram as injustiças e a perseguição a quem discordasse das ideias mais ortodoxas da Igreja. Mas isso não foi o suficiente para conter a enorme onda de mudanças, que acabou dissolvendo a Idade Média em um novo período histórico - com o o estabelecimento do capitalismo e a formação dos países (que antes disso ainda não existiam), países governados no início por reis cada vez mais poderosos. 

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O Renascimento foi um período radicalmente diferente da Idade Média?

O novo período no qual a Idade Média foi se dissolvendo aos poucos (e cada vez mais depressa) a partir do ano 1000, foi chamado pelos historiadores de "Renascimento", com base na ideia de que a Idade Média teria sido a "Era das Trevas", e que o que veio depois era muito diferente. Os historiadores que deram esse nome ao novo período ainda acreditavam que havia sido uma mudança rápida e radical. Foram os historiadores do cotidiano que mostraram que a mudança foi bem mais gradual do que se imaginava, que a Idade Média, em sua segunda metade, já vinha se dissolvendo aos poucos em novas formas de vida que se aproximavam cada vez mais do que se costuma chamar de "Renascimento".

Na verdade, antes dos historiadores do cotidiano havia muita desinformação em relação a esse assunto. Foram eles que mostraram que depois do ano mil (a partirdo século X) não só a vida cotidiano dos medievais foi mudando, mas paralelamente ao aparecimento das Universidades, surgiu uma enorme produção de estudos em diversas áreas nos séculos XII, XIII e XIV, de modo que considerar a Baixa Idade Média como "Era das Trevas" em termos de estudos e conhecimentos é uma injustiça.

Mostraram também como a Igreja medieval desta segunda fase estava dividida: entre de um lado principalmente os estudiosos, professores etc., que defendiam e promoviam o avanço nesses estudos; e de outro os conservadores, que tendiam ao fanatismo e se uniam na verdade não só em torno da Inquisição mas também de outras organizações reacionárias, atuando sempre de forma violenta na perseguição aos estudiosos - mas ao que tudo indica era justamente uma espécie de reação desesperada (provavelmente motivada no fundo pelo medo) contra todo esse avanço.

Antes dos estudos promovidos pelos historiadores do cotidiano - dos quais alguns dos mais importantes neste sentido estão justamente neste volume 2 da coleção História do cotidiano - tendia-se a acreditar que a Inquisição era absolutamente dominante, e que as perseguições contra quem não seguia o cristianismo ou mesmo contra quem procurasse estudar, refletir e pensar suas próprias ideias, exprimiam o modo de pensar de toda a Igreja. Hoje sabemos que a Baixa Idade Média foi um período bem mais complexo e contraditório do que se imaginava, e também bem mais próximo do modo de vida do Renascimento, apesar de ainda manter muitos aspectos clara e fortemente medievais.

Estudos como os deste livro contribuiram muito nesse sentido.

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