Breve apresentação

Mitologias é um estudo sobre um modo despolitizado e alienante de se dizer as coisas, nas sociedades capitalistas atuais, que é o que o autor chama de "mito", e que se aproxima do que Marx chama de "ideologia". Barthes julga que o "mito" distorce os fatos levando as pessoas a aceitarem uma versão despolitizada dos mesmos e a anularem o seu senso crítico diante deles. Por outro lado, os mitos exprimem, dessa maneira despolitizada, as fantasias e sentimentos de uma sociedade, servindo portanto como um bom material de estudo para ajudar a compreendê-la.

Os exemplos examinados são da sociedade francesa no século XX, vivenciados pelo próprio autor, e o exame desses exemplos funciona como uma espécie de treinamento para as habilidades críticas do leitor no desmascaramento de mitos.

O livro se divide em duas partes. Na primeira, Barthes vai apresentando, examinando e desmascarando um a um uma longa série de "mitos" presentes na sociedade francesa em que vive, dedicando um brevíssimo capítulo (de alguns parágrafos a umas pouquíssimas páginas) a cada um deles. O título dessa primeira parte é justamente Mitologias (o mesmo título dado ao livro como um todo).

Na segunda parte do livro — que tem o título O mito, hoje — Barthes se dedica a formular com maior cuidado seu conceito de "mito", e desenvolver um exame teórico mais completo do fenômeno geral que designa por esse nome. Esclarece que está trabalhando com a noção de que o mito é uma forma de linguagem, que tem sua própria estrutura linguística mas se apoia naquilo que já está dito em outras formas de linguagem, "roubando" elementos do que está dito nessa outra linguagem para fazer uma espécie de caricatura da mensagem que lhe altera o sentido, simplificando-o, despolitizando-o e tratando como se essa sua reconstrução artificial da mensagem como se fosse a expressão de algo natural — e também geralmente universal e eterno, sem história, e sem dependências e conexões com o contexto histórico.

Desse exame dos mitos, Barthes, acompanhando de perto a crítica marxista à ideologia, desenvolve sua própria crítica à visão de mundo liberal burguesa, alimento do conservadorismo capitalista. E nos mostra como a burguesia das sociedades capitalistas do século XX procuram passar a imagem de que representam de algum modo a pura e simples universalidade da condição humana, de que sua visão de mundo é apenas a expressão da visão de mundo humana por excelência, e portanto universal, sem alternativas.

Nos três capítulos finais, Barthes fala sobre o uso da mitificação das mensagens na esquerda política (incluindo uma crítica do stalinismo) e na direita (onde a linguagem mítica, usada em favor da ilusão do público e do conservadorismo, lhe parece se ajustar melhor e florescer); e finalmente, fala sobre as dificuldades que teria em seu trabalho o mitólogo — segundo ele o praticante de uma futura atividade intelectual que pretende estar fundando sob esse nome, e que consistiria na análise crítica e desmascaradora das mitificações de mensagens do mundo atual.

No capítulo sobre o mito nas direitas políticas, Barthes inclui um levantamento de orientações e parâmetros para a "futura" atividade científica do "mitólogo" em suas pesquisas. Sugere uma sociologia do uso dos signos utilizados nos mitos, e que sejam feitos estudos geográficos da distribuição desses mitos e de suas fontes em cada sociedade. E apresenta também uma primeira listagem de figuras de estilo característcas da linguagem mítica e que ajudam a detectá-la e examiná-la.

 

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