Diálogos & Debates entre Heidegger e outros pensadores e teorias

 

O que é a "questão do ser" (ou questão "ontológica") em filosofia"?

 

A palavra "ontologia" vem do grego ta onta, que quer dizer "o ser". E logia  vem de outra palavra grega, logos, que apesar de mais difícil de traduzir por causa do conjunto de coisas que pode querer dizer, estamos acostumados a traduzir simplesmente como "estudo" (ou pensamento organizado em palavras a respeito de agluma coisa). Então "ontologia" quer dizer, basicamente "estudo do ser", e os estudos "ontológicos"em filosofia são os estudos sobre essa famosa e difícil "questão do ser".

Os debates que Heidegger com o pensamento de outros filósofos, na maioria dos casos — ou pelo menos no caso dos seus debates mais importantes — se concentra justamente nessa famosa "questão do ser" que vamos tentar entender aqui. É uma questão de importância central para ele, e seria bem difícil entender como Heidegger se confronta com outros pensadores sem examiná-la.

Estamos então diante da questão do que (e de como) é possível conhecer a respeito do "ser" das coisas. Que questão é essa? O que é o "ser" das coisas em termos filosóficos? Do que é que um filósofo está falando quando fala do "ser" das coisas?

A princípio, poderíamos tentar entender isso partindo de uma comparação. Poderíamos começar perguntando coisas mais fáceis de responder como "o que é isto?" — e apontando com o dedo para alguma coisa, por exemplo uma cadeira. É muito mais fácil explicar o que é uma cadeira.

Em comparação com essa pergunta, a questão que os filósofos estão colocando é muito mais geral e abrangente, além de mais difícil de responder. Porque do mesmo modo como perguntamos o que é a cadeira, podemos perguntar o que é um poste, o que é uma pedra, o que é um ser humano etc...

Mas o que é isto que estamos querendo saber a respeito de todas essas coisas quando fazemos essas perguntas? Essas perguntas têm sempre o mesmo formato geral: "O que é...?" — e vamos preenchendo esse espaço vazio que acabo de indicar pelas reticências com o nome das coisas que queremos saber o que são (por exemplo "cadeira", como quando perguntamos "O que é 'cadeira'?"). Ou então,  se não soubermos nem mesmo o nome da coisa, prechemos esse espaço com um termo que não tem o conteúdo definido (por exsemplo o termo "isto", ou alguma expressão como "essa coisa"). Ou preenchemos com um gesto que indica a coisa, como o gesto de apontar para ela. Mas no final das contas, o que é isso que estamos perguntando a respeito de todas essas coisas?

Quando vamos respondendo essas perguntas uma por uma, estamos dizendo o que cada uma dessas coisas é, separadamente. Mas isso ainda não responde a tal "questão do ser" colocada pelos filósofos, porque não explica o que é isto que estamos sempre, de novo e de novo, perguntando a respeito de todas essas coisas. Não explica que tipo de coisa estamos querendo saber, de um modo geral, quando perguntamos o que é que as coisas "são".

Podemos perguntar o que cada coisa é, mas só podemos perguntar isso a respeito de cada uma delas porque estamos dizendo que essas coisas "são" isto ou aquilo, e o grande problema dos filósofos, aqui, é entender de um modo geral o que é que estamos fazendo quando fazemos esse tipo de pergunta, e o que é de um modo geral esse "ser" que aparece nas nossas perguntas quando perguntamos a respeito de cada uma delas. O que significa uma coisa "ser" assim ou assado, o que significa uma coisa "ser" isto ou aquilo"? O que significa uma coisa "ser", afinal? — o que quer que ela seja, aqui, não importa tanto: o que quer que ela seja, o quer queremos saber é o que significa ela "ser" alguma coisa.

Esta é a questão do "ser" colocada pelos filósofos. Cada filósofo que examina essa questão procura reconstruí-la à sua maneira, procura "preparar" a questão em seus próprios termos, colocá-la usando sua própria linguagem e seu próprio modo de entendê-la, antes de começar a construir sua resposta para ela.

Para entender os debates de Heidegger com outros pensadores a respeito da questão do ser e de como podemos tentar responder a ela (ou seja, para entendermos a questão ontológica nos debates e diálogos entre o pensamento de Heidegger e os de outros pensadores), muitas vezes teremos que entender as respostas diferentes que ele e o outro pensador dão a essa questão. Mas também o modo diferente como abordam ou acessam essa questão, o modo diferente como cada um desses filósofos chega até ela. Isto é, as diferenças entre o modo como Heidegger constrói ou coloca essa questão, a maneira como ele a entende, e de outro lado, a maneira como o outro pensador entende essa mesma questão.

Isto vale não apenas para essa questão do ser, que Heidegger considera tão importante, mas também para outras questões filosóficas que podem ser examinadas, talvez não tão centrais mas que têm alguma imporância ou relevância a partir da confrontação ou debate entre os pensamentos dele e os de outros filósofos.

 

 

 

 

rodapé