Dicionário de Marx (e do marxismo em geral)

por João R. A. Borba

 

ADVERTÊNCIA: Este dicionário não pretende ser completo. Verifique a data da última atualização e se o número de verbetes aumentou desde sua última visita. Os verbetes estão em ordem alfabética.  Última atualização - Jan/2016 - 7 verbetes

 

Alienação

Segundo Marx, uma pessoa está “alienada” quando alguma coisa que seria naturalmente dela ou que fazia parte dela está afastada dessa pessoa, de modo que a pessoa sente aquilo como se fosse completamente alheio a ela, como se fosse algo naturalmente afastado dela. Por exemplo: quando um operário vai ao mercado e vê na prateleira um produto caríssimo que vem da fábrica onde ele próprio trabalha, e que está distante dele, no sentido de que mesmo estando logo ali na prateleira seria impossível para ele comprar aquilo. Ele próprio participa todos os dias da fabricação daquele produto. Gasta sua força como trabalhador produzindo aquilo, mas depois esse produto do seu trabalho é apresentado para ele como algo completamente exterior, como se não tivesse nada a ver com o seu trabalho. No capitalismo, segundo Marx, os trabalhadores estão alienados do produto do seu próprio trabalho. E geralmente a alienação é tanta que o trabalhador nem sabe direito o que é que está produzindo naquela fábrica, porque em seu trabalho, ele faz apenas uma pequena parte, que vai sendo completada pelo trabalho de seus colegas, e nunca vê o resultado final, pode até não saber do que se trata.

Do mesmo modo, podemos dizer que uma pessoa é “alienada” politicamente quando não tem noção do que acontece no mundo político à sua volta e do fato de que esse mundo político interfere diretamente na sua vida. Mais do que isso: como a pessoa politicamente alienada não sabe de nada do que se passa no mundo político, também não toma nenhuma atitude para mudar as coisas que a estão prejudicando juntamente com muitas outras pessoas que estão na mesma condição que ela. Não percebe que outras pessoa estão na mesma situação. Acha que não fazendo nada se mantém “neutra”, sem tomar posição nos conflitos políticos da sociedade. Mas está completamente enganada: a postura “neutra” e passiva, de quem não toma nenhuma atitude para mudar as coisas, é boa para aqueles que já estão muito bem na situação atual — ou seja, de um modo geral, os mais ricos e poderosos. Eles gostariam que todos ficassem “neutros” e passivos, porque assim as pessoas continuam fazendo as coisas como sempre fazem, e isso reforça esse modo de fazer as coisas que já está estabelecido — quem está “por cima”, com riqueza e poder, evidentemente quer manter essa situação, e não quer que as pessoas sejam muito ativas e interessadas nas coisas do mundo político, porque a política tem força para mudar as coisas, e essa atividade e esse interesse podem colocar as pessoa em condições de se organizar com outras e fazer pressões para que ocorram mudanças.


 

Consciência das necessidades

Segundo Marx, todo ser humano tem certas necessidades básicas que ele precisa satisfazer com certos bens materiais para sobreviver. Por exemplo as necessidades de se alimentar e se agasalhar, que são satisfeitas com alimentos e roupas. Mas conforme vamos nos desenvolvendo na nossa vida em sociedade, vamos conseguindo satisfazer mais facilmente algumas necessidades, e ao mesmo tempo, vamos criando outras — por exemplo a necessidade de se transportar de casa para o trabalho e do trabalho para casa, que se satisfaz com veículos de transporte públicos ou privados, as distâncias, que se satisfaz com aparelhos como telefone e recursos como internet. Mas é preciso tomar o cuidado de não confundir necessidades reais com os simples desejos que as pessoas têm de alguma coisa, por exemplo de ter uma jaqueta vermelha. A jaqueta só satisfaz realmente uma necessidade na medida em que sirva para repor ou manter as energias gastas pela pessoa no seu trabalho, por exemplo preservando a saúde da pessoa contra o frio.

Der acordo com o pensamento de Marx, o fato de ser uma jaqueta de cor vermelha e de um modelo específico que vimos e gostamos não tem nada a ver com o que essa jaqueta tem de necessário: tem a ver apenas com os nossos gostos e desejos individuais, que segundo Marx, não algo bem mais superficial. Nossos gostos e desejos sociais são formados pela nossa vida social, pelo convívio com pessoas que nos dizem direta ou indiretamente do que é que elas gostam e o que é que elas desejam. Mas também pelo convívio com o mercado e a propaganda de seus produtos (que hoje chega até nós de diversas maneira — pela embalagem dos produtos, pelos cartazes de outdoor e comerciais de TV etc.).

As pessoas mais pobres geralmente são as que têm uma consciência mais clara das necessidades, porque sentem constantemente a dificuldade de satisfazê-las. Os mais ricos e os alienados perdem essa noção, e tendem a confundir muito facilmente necessidades reais do ser humano com simples gostos e desejos pessoais, dando uma enorme importância a coisas que não são realmente tão importantes, e sem as quais poderia passar perfeitamente bem.

Essa ideia de Marx nos dá uma possível orientação útil em pedagogia. Um pedagogo que seguisse a teoria de Marx poderia por exemplo se esforçar para desenvolver nos alunos uma consciência clara das necessidades humanas reais, e uma boa capacidade de avaliar o que é realmente importante, na situação histórica em que ele está vivendo, para o desenvolvimento da vida dos indivíduos e da sociedade, separando isso das coisas que são apenas uma questão de gosto, desejo ou interesse pessoal, e que por isso deveriam vir em segundo plano.


 

 

Dialética

Este já é um assunto bem mais complexo, que merece uma apostila à parte. A dialética é o método adotado por Marx para estudar a realidade social. Mas também é ao mesmo tempo um movimento transformação constante que existe na própria realidade social. A sociedade vai se transformando ao longo do tempo de uma maneira que Marx diz ser “dialética”, e essa mesma maneira pela qual a sociedade vai se transformando serve também para irmos provocando pequenas transformações, alterações, mudanças, no nosso pensamento, isto é, também serve como uma forma de raciocinarmos a respeito das coisas.

O raciocínio dialético funciona sempre através de um jogo entre coisas opostas: por exemplo o pensamento de um lado, e de outro a prática. Esse jogo dialético entre pensamento e prática é o que vai formar o que Marx chama de práxis. Mas há muitos outros movimentos dialéticos que acontecem no mundo humano, e que podemos realizar também nos nossos pensamentos.

O método dialético é complexo e interessante. Merece um estudo especial, e uma apostila dedicada inteiramente a ele, de modo que não caberia desenvolver uma explicação completa aqui.


   

Ideologia

O que Marx chama de “ideologia” é um conjunto de ideias que vão sendo espalhadas pela sociedade através dos contatos sociais e dos meios de comunicação. Mas não é qualquer conjunto de ideias desse: ele chama de “ideologia” um conjunto de ideias que é enganador e alienante, que ao invés de ajudar as pessoas a compreenderem melhor a realidade, deixa as pessoas cada vez mais iludidas, inconscientes da situação real em que estão vivendo, e por isso incapazes de agir para mudarem as coisas. Por exemplo as ideias das sociedades capitalistas de hoje a respeito da liberdade individual e da capacidade de qualquer um de enriquecer.

O capitalismo sempre tem um leque de pessoas que vieram de baixo, da pobreza, e conseguiram tudo o que queriam. Essas pessoas — no caso do Brasil, pessoas como Pelé, Silvio Santos e outros — servem de “exemplos” dessa liberdade e capacidade para “ter sucesso” e enriquecer. A ideia por detrás desses exemplos é: se eles podem, por que você também não pode? Mas é pura ideologia.

Na verdade são pouquíssimos os que conseguem, tão poucos que, perto da imensa massa de gente que fica a vida toda na pobreza, esses exemplos são absolutamente irrelevantes. Mesmo assim são mostrados pela ideologia como grandes exemplos de que todos têm liberdade e condições para ter sucesso, são exemplos valorizados e engrandecidos. Essa liberdade não existe: as condições para ter esse sucesso são completamente desiguais na sociedade, os tais exemplos são meras exceções — e raríssimas. A regra é: quem tem mais consegue mais, quem tem menos consegue menos. O único caminho de saída para essa situação é mudar as regras do jogo, mudar o modo de funcionamento da sociedade. Mas para isso é preciso que as pessoas que estão com menores condições de vida se unam e se organizem, para terem força de pressão política. O problema é que a ideologia deixa essas pessoas alienadas, mergulhadas no sonho de ganhar na loteria ou se transformarem num Pelé, num Silvio Santos etc. Ficam todos lutando individualmente, cada um por si, e pior, concorrendo uns contra os outros, tentando imitar esses exemplos ideológicos.

Para citarmos outro exemplo, em grande parte do mundo as mulheres foram sendo sempre alienadas, durante séculos, através da literatura romântica e depois das novelas de rádio e TV, pela propaganda ideológica do “príncipe encantado”. A ideologia dizia que um dia ela seria “descoberta” pelo seu “verdadeiro amor” (o “príncipe encantado”). E então ela viveria uma vida rica, com todas as necessidades satisfeitas (e também os gostos e desejos), sem precisar trabalhar nem tomar iniciativa nas decisões mais difíceis da vida, que ficariam por conta do marido. Seria uma vida sempre movida pelo amor perfeito, eterno e inabalável — que as fazia jogarem pelo ralo qualquer senso de realidade em favor desse sonho.

Só recentemente na história as mulheres conseguiram realmente se libertar dessa ideologia e tomar um lugar na sociedade, que até décadas atrás só tinha espaço para os homens, pois se achava que “o lugar da mulher” era em casa, ao lado do marido ou junto ao fogão.

Uma pedagogia marxista teria que ensinar os alunos a enxergarem essa constante “propaganda falsa” das ideologias que mantêm alienadas as pessoas que na prática estão em piores condições de vida e liberdade. A ideologia atravessa inclusive (como se pode perceber no caso do “príncipe encantado”) as mais antigas fábulas e contos de fadas que costumamos contar aos nossos filhos e alunos. Se contamos essas histórias sem nenhum comentário ou alteração, sem nenhum esforço para provocarmos o senso crítico das crianças em relação ao que estamos contando, na verdade estamos sendo agentes ideológicos, isto é, propagadores de ideologias. Sem nos darmos conta, estamos fazendo propaganda ideológica para nossas crianças.


 

Pensamento do concreto

Marx critica muito as ideias abstratas, que só existem na nossa cabeça ou nos livros e estão desligadas da realidade ao nosso redor. Para ele, é fundamental pensar sempre na realidade concreta em que estamos vivendo, ligar sempre as coisas que estudamos com a realidade em que estamos vivendo — mais uma vez, encontramos aqui uma influência que marcou Paulo Freire, aliás.

Um ponto importante a observar é que, para Marx, pensar em coisas materiais como se elas fossem isoladas umas das outras e não tivessem relação com o resto da realidade, é tão abstrato quanto levantar ideias desligadas da realidade. A realidade, para Marx, é concreta — e isso quer dizer que ela é feita de muitas e muitas coisas ligadas umas às outras, umas interagindo com as outras.

Nunca vamos entender completamente o que é um carro, por exemplo, se olharmos apenas para suas peças, seu funcionamento etc. Um carro não é um objeto isolado da realidade. Ele tem uma função na sociedade, é um objeto produzido pela indústria ou importado, de modo que tem uma participação na produção social ou na economia, de um modo geral. Está ligado à necessidade de uma rede de ruas asfaltadas e de combustível, o seu uso tem implicações no meio ambiente (polui o ar, por exemplo, ou causa poluição sonora, afastando animais) etc.

Tudo isso faz parte do que significa esse objeto que chamamos de “carro”, que não pode ser entendido abstraído dessa realidade, extraído dela, tirado dela. Se o tirarmos da realidade para compreendê-lo, nosso pensamento a respeito dele vai ser tão abstrato quanto o de um livro que não mostra nenhuma ligação dos seus conteúdos com o mundo prático em que vivemos.

As lições que se pode tirar daí para a pedagogia são tão evidentes que parece até desnecessário comentá-las. Todo ensino deveria ser praticado nesse sentido: tentando relacionar a matéria estudada com a realidade vivida pelo aluno e pela sociedade em que o aluno vive.


 

Práxis

A ideia de práxis em Marx é a de que o nosso pensamento e as nossas ideias vão sendo formados pela nossa vida prática, e conforme vamos desenvolvendo o pensamento, podemos usá-lo para nos orientarmos melhor na vida prática, de modo que a nossa vida prática também vai passando a ser formada pelos nossos pensamentos a respeito disso tudo que estamos vivendo, experimentando e fazendo. É assim que Marx entende o funcionamento da prática humana. O ser humano tem essa característica: ele pensa a respeito do que está fazendo na vida, e altera o que está fazendo ou o seu modo de fazer em função dos seus pensamentos. Mas os pensamentos também vão se formando a partir da prática. Aliás, a palavra práxis, que Marx usa, quer dizer justamente “prática”. Mas ele está pensando na prática inteligente, pensada, que típica dos seres humanos.

Fazer as coisas mecanicamente, sem pensar — coisa a que geralmente o capitalismo força os funcionários de formação mais baixa, que costumam ser sempre a imensa maioria nas sociedades capitalistas — é desumano, faz com que as pessoas vivam como animais primitivos ou como máquinas, não como seres humanos. Todo trabalho deveria ajudar a pessoa a desenvolver a sua inteligência enquanto trabalha. Por outro lado, Pensar somente em coisas abstratas sem nunca colocar isso em relação com a vida prática e a realidade social, é pura alienação, e não verdadeira educação.


  

Produção social do indivíduo (ou condicionamento social)

Segundo Marx, todos nós, enquanto indivíduos, somos produto principalmente do meio social em que vivemos. Nossos gostos e desejos, nossa personalidade, tudo o que nos somos, está cheio de marcas do modo de ser, de viver, de sentir, de pensar e de agir da sociedade em que vivemos, e até do grupo social em que crescemos dentro dessa sociedade. Não estamos completamente presos a isso. Conforme vamos nos formando e nos desenvolvendo, podemos ir selecionando entre milhões de alternativas que a vida vai nos oferecendo, podemos ir escolhendo, em certa medida, se vamos ser uma pessoa assim ou assado, ir tomando nossos próprios rumos. Mas é a sociedade que coloca todas as condições para nos formarmos como seres humanos. Todos os rumos possíveis estão de alguma maneira embutidos no modo de ser da sociedade em que vivemos, no conjunto daquilo que fomos aprendendo ao longo da vida nas nossa convivência com outras pessoas.

Achar que somos completamente únicos, que não existe em nós nada que tenha vindo da sociedade, Marx considera uma bobagem. Segundo ele, a maior parte do que existe em nós, e também o que há de mais importante em nós, veio da nossa convivência em sociedade. O que nos atrapalha a aprendermos isso é a ideologia individualista do capitalismo, que precisa ser superada se quisermos compreender quem nós realmente somos.

Do ponto de vista pedagógico essa ideia de Marx tem uma porção de implicações. A primeira — que vemos por exemplo na psicologia pedagógica marxista de Vygostky — é a de que o aprendizado deve ser considerado como uma atividade social. É no contato social que as crianças aprendem, por exemplo, muito mais do que no simples recebimento de informações. As próprias informações fazem parte de um processo de contato social, e não deveriam ser passadas de maneira abstrata, desligada da realidade social que existe ao redor da escola. Vemos esse tipo de preocupação também em Paulo Freire.

Outra implicação dessa ideia é a seguinte: para desenvolvermos a nossa liberdade e a nossa capacidade de avaliarmos criticamente nossa própria formação social, é muito importante estudarmos como nossa sociedade foi no passado e de que maneira ela foi mudando com o tempo (estudar história e sociologia). E é importante também conhecermos sociedades diferentes da nossa, de outros lugares do mundo ou de outras épocas. Assim podemos perceber os limites da nossa própria formação social e como poderíamos ser diferentes se tivéssemos nos desenvolvido em outra sociedade.

Conhecer um modo de vida diferente do nosso ajuda a ficarmos mais livres, a termos mais escolhas do que aquelas que foram empurradas para nós pela sociedade em que vivemos. Isso vale também para o conhecimento de grupos sociais diferentes do nosso, na mesma sociedade. É pedagogicamente importante, por exemplo, que uma criança possa conhecer o modo de vida de gente bem diferente daquela que ela conhece e com quem está acostumada a conviver.

 

 

 

 

 

 

 

 

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