Protágoras

Protágoras

(Protágoras)

Protágoras de Abdera

(485-480? aC - 415-410? aC)

Ditos & Feitos de Protágoras

Seleção e organização das citações (e autoria da Observação preliminar) por João R. A. Borba

 

Observação preliminar

As citações de Protágoras que estão entrando aqui ainda estão em processo de coleta e organização (esta página ainda não está pronta). Quando forem todas colocadas aqui, este aviso em letras cinzas será retirado.

 

 

As obras de Protágoras não chegaram até nós. Do séc. V a.C. para cá quase todos os seus escritos desapareceram, e tudo o que restou foram fragmentos do seu pensamento que aparecem citados nos textos de outros pensadores, o que quer dizer que além de serem apenas fragmentos, e não teorias apresentadas por completo, podem ter sido distorcidas por esses outros pensadores, de modo que não oferecem a mais segura das informações.

Os estudiosos costumam chamar esses outros pensadores de "doxógrafos" de Protágoras, porque grafaram, registraram, a doxa dele, isto é, as opiniões (no sentido mais acadêmico de teses teóricas) que ele defendia. A maioria desses doxógrafos de Protágoras é da antiguidade, e ainda tinha acesso direto às obras dele.

De todos os doxógrafos de Protágoras, o que foi mais longe, citando o maior número de ideias dele e fazendo as citações mais extensas, foi Platão. Mas não é uma fonte muito confiável por duas razões. Primeiro, porque Platão era não só adversário de Protágoras nos debates filosóficos, mas também inimigo político declarado e assumido do Movimento Sofista de defesa da democracia de Atenas (movimento do qual Protágoras foi um dos iniciadores e também o nome mais influente). E Platão tinha a notória tendência de extrapolar o debate filosófico e político com os sofistas e levá-lo para o campo do conflito pessoal.

Segundo, porque Platão nunca registrava as opiniões de outros pensadores exata e fielmente com as palavras deles. Pelo contrário, ele construia os seus textos na forma de diálogos imaginários (belissimamente escritos, aliás) com personagens reais, mas que muitas vezes nunca haviam se encontrado, podendo ser inclusive de épocas diferentes — ou seja, ele fantasiava propositalmente, de modo que não é fácil detectar o que é realmente do filósofo que aparece como personagem e o que é fruto da imaginação de Platão a partir de algumas coisas ditas pelo tal filósofo.

Os platonistas (estudiosos de Platão) costumam dividir o conjunto de sua obra em duas grandes fases: a fase de juventude, em que ele ainda seguia mais ou menos de perto os ensinamentos de seu mestre Sócrates, e a fase madura, em que ele já escrevia a partir de seus próprios pontos de vista (apesar de continuar usando o personagem Sócrates para fazer isso, como se o Sócrates real, de carne e osso, fosse concordar com suas ideias se ainda estivesse vivo (e hoje sabemos seguramente que não concordaria).

O Sócrates real e original, segundo tudo o que se sabe a seu respeito, tendia a destacar tanto o seu próprio pensamento quanto o de seus adversários, criticando-os com firmeza e profundidade, mas sem distorcer o que diziam. Por isso, os estudiosos tendem a acreditar que nas obras de juventude, quando seguia Sócrates de maneira mais fiel, Platão provavelmente também deveria estar sendo mais fiel ao pensamento original dos demais pensadores que apareciam como personagens.

Assim, as passagens em que Platão menciona as ideias de Protágoras parecem ser mais confiáveis quando são de textos de sua juventude do que quando são dos textos de sua fase madura. O Platão já maduro, possivelmente mais hábil na leitura de teorias filosóficas, no entanto tinha suas próprias ideias e estava mais muito preocupado em combater esses outros pensadores (inclusive distorcendo suas teorias se preciso), do que em expô-las fielmente.

Da fase de juventude de Platão (quando procurava ser mais fiel aos autores estudados), temos um pequeno livro que leva justamente o título Protágoras ou Os sofistas, e que é dedicado inteiramente a um debate imaginário entre Sócrates e o grande sofista. Datado provavelmente de 388 a.C., é o último e o mais elaborado dos livros de juventude de Platão, antes de começar a mergulhar na exposição de suas próprias ideias nas obras seguintes. Platão já estava com pouco mais de trinta anos, e neste livro se esboçam inclusive algumas de suas ideias posteriores, mas o estilo e o método socrático de juventude ainda são completamente dominantes, e o livro parece tentar fazer uma espécie de retrato fiel do ambiente e do "clima" intelectual da época, para a posteridade — embora cometa alguns anacronismos, colocando fantasiosamente juntos personagens de tempos diferentes.

Já da maturidade de Platão, temos uma exposição do pensamento de Protágoras no livroTeeteto. Platão  faz essa exposição para deixar claras as ideias que irá passar a refutar em seguida. Mas pode haver distorções. O livro Teeteto está conectado a outras 3 obras: O político, O sofista e O filósofo — as quatro parecem ter sido escritas para formarem um único conjunto coerente, mas a última delas, O filósofo, é uma obra desaparecida, da qual nem mesmo fragmentos chegaram aos dias de hoje. A proposta de Platão, nessas quatro obras, era precisamente a de conter e combater uma tendência de pensamento antiga que, naquela época, vinha se renovando na Grécia: o estilo jônico de pensamento, que valoriza as aparências ou as sensações físicas, e também as contradições e conflitos, e a dinamicidade do mundo. Um dos principais representantes desse modo jônico de pensar que Platão queria combater havia sido, justamente, o sofista Protágoras.

A obra Teeteto (assim como o primeiro capítulo ou "Livro I" de A República) parece ter sido escrita por Platão logo no início de sua fase matura, de desenvolvimento de sua própria teoria, mas ainda sem a clara separação que mais tarde ele faria entre o mundo das idéias puras, que só podia ser atingido pela razão, e o mundo sensível. Essa separação parece ter sido iniciada por Platão depois de sua viagem a Siracusa, na qual parece ter entrado em contato com os pitagóricos e encontrado nessa linha de pensamento (o pitagorismo, com sua matemática sagrada) o elemento que faltava para completar a teoria que estava formulando.

O resto da obra A República (os capítulos ou livros II a X) parece ter sido escrito por Platão, então, depois dessa viagem, já incorporando e reinterpretando à sua maneira os ensinamentos pitagóricos, dentro da linha de raciocínio que já vinha desenvolvendo. Por conta dessas informações, alguns preferem considerar o livro Teeteto e alguns outros textos platônicos anteriores à viagem a Siracusa como obras de uma fase intermediária, que ainda não seria exatamente a fase de maturidade do filósofo. Isto significa que as informações sobre o pensamento de Protágoras que aparecem no Teeteto de Platão, apesar de não tão confiáveis quanto as que aparecem no livro Protágoras, ainda não devem estar tão distorcidas pelo pensamento platônico quanto as menções a Protágoras e aos sofistas que aparecem em Platão nas obras posteriores.

O autor que apresenta o maior número de citações das obras perdidas do próprio Protágoras (escritas provavelmente como ele próprio as escreveu), e também as menções e resumos mais extensos do pensamento dele, como podemos ver, é esse seu maior adversário filosófico e inimigo político — Platão.  Felizmente, o anti-protagoriano Platão está longe de ser o único doxógrafo que podemos consultar. Sempre é possível comparar as diversas versões com que essas citações vão aparecendo nas obras de diferentes pensadores que se referem a ele, como por exemplo o cético radical Sexto Empírico (que é reconhecidamente mais imparcial e confiável). e muitos falaram sobre Protágoras.

Além disso, como ele teve uma vida política muito ativa, e muito conectada aos seu pensamento, temos muito a aprender sobre sua filosofia a partir de sua vida prática. Há ainda muitos e muitos outros doxógrafos que podemos consultar então, além do pouco confiável Platão e do bastante confiável Sexto Empírico, cada um nos oferecendo algumas poucas passagens das ideias de Protágoras.

 


 

Fragmentos do pensamento de Protágoras

 

Sobre a matéria e as nossas percepções

 

O que ele [Protágoras] afirma então é isto — que a matéria está em fluxo, e como ela flui, adições são feitas continuamente tomando o lugar das partes que se vão, e a ordem das sensações [que captam isso] vai sendo transformada e alterada de acordo com tempo no correr da vida e com todas as outras condições de cada corpo.

 

SEXTUS EMPIRICUS. Outlines of pyrrhonism.
London: Harvard University Press, 2000.
Livro I, Capítulo XXXII, 217. Edição bilíngue grego-inglês (trad. de R. G. Bury).
Tradução para o português de João Borba com acréscimos explicativos entre conchetes,
cotejada com a tradução bilíngue francesa de Pierre Pellegrin
(Paris: Éditions du Seuil, 1997).

 

 

Ele [Protágoras] diz também que as formas [logoi] das coisas aparentes subsistem na matéria, de modo que a matéria pode, até o ponto em que isso depende dela, ser tudo o que ela parece ser para todo mundo. Os humanos apreendem as diversas coisas em diferentes momentos segundo suas diferentes disposições: aquele que está em um estado natural apreende aquelas coisas subsistentes na matéria que podem aparecer aos que estão em um estado natural, e aquele que está em um estado não-natural apreende na matéria o que pode aparecer aos que estão nesse estado não-natural.

 

Precisamente o mesmo argumento se aplica às variações devidas à idade, à pessoa estar dormindo ou acordada, e a cada um dos aspectos de sua constituição ou condição. Portanto, de acordo com ele, o Homem se torna o critério que decide o [que considerar] real e existente, pois todas as coisas que aparecem aos homens, também existem realmente, e [segundo esse critério] coisas que não aparecem a ninguém não têm existência.

 

SEXTUS EMPIRICUS. Outlines of pyrrhonism.
London: Harvard University Press, 2000.
Livro I, Capítulo XXXII, 218-219. Edição bilíngue grego-inglês (trad. de R. G. Bury)
SEXTUS EMPIRICUS. Esquisses Pyrrhoniennes. Paris: Éditions du Seuil, 1997.
Livro I, Capítulo 32, 218-219. Edição bilíngue grego-francês (trad. de Pierre Pellegrin).
Tradução para o português de João Borba a partir dessas duas edições,
com acréscimos explicativos entre colchetes.

 

Ó homem ditoso — prosseguirá Protágoras [defendendo-se contra Sócrates, que vinha dialogando apenas com um jovem discípulo do sofista, portanto debatendo com uma versão simplificada da teoria de Protágoras] — sê mais nobre, ataca-me nas minhas próprias doutrinas e refuta-as se puderes, provando que as sensações que chegam a cada um de nós não são individuais, ou, se o são, que daí não se conclui que a coisa que aparece a cada um aparece ou, se temos de usar a palavra ser, que é apenas para aquele a quem aparece.

 

PLATÃO. Teeteto. Lisboa: Editorial Inquérito, sem data, p. 77
Capítulo XX - A defesa de Protágoras. Coleção Cadernos Culturais.

Com acréscimos explicativos entre colchetes por João Borba.

 

 

Sobre a verdade e as aparências

Tendo então estabelecido os pontos de vista tomados por alguns quanto à verdade, deixe-nos considerar a seguir as opiniões divergentes que foram levantadas entre os filósofos dogmáticos [os que defendem alguma tese] quanto ao critério (...), no momento é suficiente para nós dizer que alguns têm rejeitado, outros têm sustentado a existência de critério [para determinar uma verdade absoluta]. Daqueles que sustentaram isso, os principais pontos de vista são três: alguns mantiveram o critério no discurso racional, outros na evidência não-racional dos fatos, e alguns em ambos. Para além disso, ela [a existência de critério] foi rejeitada por Xenófanes de Cólofon e Xeníades de Corinto e Anacharsis o Cíntio e Protágoras e Dionysodorus; e ao lado desses, por Górgias de Leontini e Metrodomos de Chios e Anaxárchus "o Eudaimonista" e Monimos o Cínico (e entre todos estes estão também os Céticos).

 

SEXTUS EMPIRICUS. Against the Logicians.
London: Harvard University Press, 2006.
Livro I, Capítulo Concerning Truth, 46-48.
Edição bilíngue grego-inglês (trad. de R. G. Bury).
Tradução para o português de João Borba,
com acréscimos explicativos entre colchetes.

 

 

Alguns, também, têm contado Protágoras de Abdera na companhia daqueles filósofos que pretendem abolir o critério [que poderia determinar alguma verdade absoluta], uma vez que ele afirma que todas as impressões sensíveis e opiniões são verdadeiras e que a verdade é uma coisa relativa, considerando como tudo o que tem aparecido a alguém ou tem sido opinado por alguém é ao mesmo tempo verdadeiro em relação a esse alguém. Certamente, na abertura de seu livro Discursos arrasadores [que Platão, discordando, diz que se intitulava A verdade] ele proclamou que "De todas as coisas a medida é o homem, das coisas existentes que elas existem, e das coisas não existentes que elas não existem". E desta afirmação mesmo a afirmação contrária parece ser testemunha. Pois se qualquer um pode afirmar que o ser humano não é o critério de todas as coisas, quem disser isso já estará confirmando a afirmação [que pretendia negar] (...), uma vez que a própria pessoa que diz isso é ela mesma um ser humano, e ao afirmar o que aparece em relação a si mesma essa pessoa já está confessando (...) [em relação a si mesma aquilo que pretendia negar].

 

 

SEXTUS EMPIRICUS. Against the Logicians.
London: Harvard University Press, 2006.
Livro I, Capítulo Concerning Truth, 60-61.
Edição bilíngue grego-inglês (trad. de R. G. Bury).
Tradução para o português por João Borba,
com acréscimos explicativos entre colchetes.

 

E pode ser negado que a controvérsia entre os filósofos sobre as mais elevadas matérias acaba abolindo o conhecimento da verdade? Pois se alguns dos fisicistas, como Demócrito, aboliram todos os fenômenos [ou aparências], e outros, como Epicuro e Protágoras, firmaram todos [os fenômenos ou aparências], enquanto outros ainda, como os Estóicos e os Peripatéticos, aboliram alguns e firmaram outros...

 

SEXTUS EMPIRICUS. Against the Logicians.
London: Harvard University Press, 2006.
Livro I, Capítulo Concerning Man, 369. Edição bilíngue grego-inglês (trad. de R. G. Bury).
Tradução para o português por João Borba, com acréscimos explicativos entre colchetes.

 

 

Se a própria apresentação [aparência dos objetos] é aceita como sendo o critério [da verdade], nós temos que afirmar seja que toda apresentação é verdadeira, como Protágoras afirma, ou que cada uma delas é falsa, como Xeníades o Coríntio declarou, ou que algumas são verdadeiras, algumas falsas, como os Estóicos e Acadêmicos disseram, e os Peripatéticos também.

 

SEXTUS EMPIRICUS. Against the Logicians.
London: Harvard University Press, 2006.
Livro I, Capítulo Concerning Man, 388. Edição bilíngue grego-inglês (trad. de R. G. Bury).
Tradução para o português por João Borba, com acréscimos explicativos entre colchetes.

 

 

[O personagem Sócrates imitando Protágoras e dizendo o que supõe que ele diria:] Eu afirmo que a verdade é como eu a defini: cada um de nós é a medida daquilo que é e um homem difere infinitamente de outro homem precisamente porque para aquele as coisas são e aparecem outras do que são e aparecem para este. Quanto à sabedoria e ao homem sapiente, longe de mim negar a sua existência; mas entendo por homem sábio aquele que, mudando a face dos objetos, os faz parecer e ser bons àquele para quem tais objetos apareciam e eram maus (...). Recorda, por exemplo, o que atrás foi dito: os alimentos aparecem e são amargos para o enfermo, e são e aparecem como o contrário para o homem de boa saúde. Nem um nem outro deve ser apresentado como mais sábio (isso nem sequer é possível) e também não devemos afirmar que o enfermo é ignorante por ter uma tal opinião, ou que o homem saudável é sábio por ter a opinião contrária. O que devemos é fazer passar o enfermo para um outro estado, melhor que o seu.

Da mesma forma, a respeito da educação, devemos fazer passar os homens dum estado para outro estado melhor; enquanto, porém, o médico utiliza remédios, o sofista emprega discursos. Nunca, de fato, se conseguiu fazer com que um homem que tinha falsas opiniões tenha, depois, opiniões verdadeiras, porque não é possível ter opiniões sobre o que não é [ou seja, sobre o que não aparece], nem impressões diferentes das que se experimentam e estas são sempre verdadeiras. (...) Concordo que [entre as opiniões]  umas são melhores do que as outras, mas não que sejam mais verdadeiras.

 

PLATÃO. Teeteto. Lisboa: Editorial Inquérito, sem data, p. 77-78
Capítulo XX - A defesa de Protágoras. Coleção Cadernos Culturais.

Com acréscimos explicativos entre colchetes por João Borba.

 

Aquele que pensa sob o efeito de um estado penoso de sua alma coisas igualmente penosas, fazemos com que pense outras coisas, pensamentos que alguns, por falta de experiência, chamam de verdadeiros, mas que eu chamo de melhores uns que os outros, em nada mais verdadeiros (...), é preciso fazer a inversão dos estados, pois um vale mais do que o outro.

 

PLATÃO, Teeteto, págs. 167 b, e 166 d até 167-d da versão original grega
segundo CASSIN, Bárbara. O efeito sofístico. São Paulo: Editora 34, 2005, p. 9 e 15.

 

Com efeito, Sexto [— Sexto Empírico —] encerra Górgias sob a insígnia daqueles que suprimem o critério de verdade, ao lado de Xenófanes (...), de Xeníadies, afirmando que "tudo é falso", de Protágoras, afirmando que "tudo é verdadeiro", ao menos todos os fenômenos, e que o homem é "medida", ou de Eutidemo e Dionisidoro (...).

 

CASSIN, Bárbara. O efeito sofístico. São Paulo: Editora 34, 2005, p. 269.

 

Sobre religião

(...) e Protágoras, onde escreve em uma passagem expressamente — "Sobre os deuses não sou capaz de dizer nem se eles existem ou como eles são; pois as coisas que me impedem são muitas." E quando, por causa disso, os atenienses o condenaram à morte ele escapou, mas morreu em um naufrágio no mar. Timão de Philius faz uma menção a essa história (...)

 

SEXTUS EMPIRICUS. Against the Phisicists.
London: Harvard University Press, 2006.
Livro I, Capítulo Do Gods exist?, 56-57. Edição bilíngue grego-inglês (trad. de R. G. Bury).
Tradução para o português por João Borba, com acréscimos explicativos entre colchetes.

 

 

 

Sobre política e justiça

 

Na verdade, o que se apresenta como justo e honesto a uma cidade, assim é para ela enquanto assim considerar; somente o sábio, sempre que as coisas são más para os cidadãos, as substitui por coisas que são e lhes aparecem como boas.

 

PLATÃO. Teeteto. Lisboa: Editorial Inquérito, sem data, p. 78
Capítulo XX - A defesa de Protágoras. Coleção Cadernos Culturais.

Com acréscimos explicativos entre colchetes por João Borba.

 

(...) os oradores sábios e bons fazem com que, ao invés de coisas nocivas, sejam coisas úteis às cidades que pareçam e sejam justas.

PLATÃO, Teeteto, pág. 167 c da versão original grega
segundo CASSIN, Bárbara. O efeito sofístico. São Paulo: Editora 34, 2005.

 

Sócrates: Se você está em condições de nos mostrar, com mais evidência, que a virtude pode ser ensinada, não nos prive, mostre-nos.

 

Protágoras: Mas, Sócrates, não o privarei disso. Pergunto apenas se lhes mostrarei como um velho aos jovens, relatando um mito, ou procedendo etapa por etapa como um discurso?

 

Vários dos ouvintes disserem-lhe para proceder como quisesse.

 

— Parece-me então, diz ele, que há mais encanto em relatar-lhes um mito.

 

Naquele tempo, esistiam os deuses, mas não havia as raças mortais. Quando, para o nascimento dessas raças, chegou o tempo marcado pelo destino, os deuses as modelaram dentro da terra, misturando a terra, o fogo e tudo o que se mistura ao fogo e à terra. No momento de lançá-las à luz do dia, encarregaram Prometeu e Epimeteu de dispor e repartir, entre elas, os poderes tal como convinha. Epimeteu pede, então, o favor de realizar sozinho a repartição. — "Quando eu tiver repartido, diz ele, você virá inspecionar". Ele assim o persuade e faz a repartição.

 

Repartindo, ele conferiu a alguns força sem a velocidade, e colocou a velocidade à disposição dos mais fracos; ele armou outros, e arranjou, para aqueles que dotava de uma natureza desarmada, algum outro poder de sobrevida. Se revestia alguns com a pequenez, ele lhes atribuía asas para fugir, ou uma habitação subterrânea (...). E foi assim balanceando, de igual maneira, a repartição para o restante dos mortais. Ele tudo arrumava, tomando suas precauções para que nenhuma raça se extinguisse, articulou-se para torna-las resistentes às intempéries de Zeus [isto é, às intempéries do clima e da natureza]. (...)

 

[Depois de distribuir as formas de alimentação e reprodução] Epimeteu, que não era um grande sábio, se deu conta de que havia dispensado todos os poderes em benefício daqueles que não falam; faltava ainda a raça humana, que não dispunha de nada, e ele estava bem confuso, sem saber como com ela proceder.

 

Em meio a tal embaraço, chega Prometeu, no intuito de inspecionar a repartição, e observa, então, todas as raças harmoniosamente providas com tudo, salvo o homem, nu, sem nada nos pés, sem nada para cobri-lo, e sem armas. Ora, o dia fixado em que o homem deveria deixar a terra, lançando-se à luz do dia, já havia chegado. Bem conturbado, no afã de encontrar um meio qualquer de salvar o homem, Prometeu rouba a sabedoria artística de Hefesto e Atenas juntamente com o fogo, pois sem fogo não é possível se articular nem para adquirir nem para utilizar tal sabedoria, e assim com isso, presenteou o homem. O homem detinha, em função disso, a sabedoria que diz respeito à vida, mas não possuía a sabedoria política: esta estava com Zeus. [E Prometeu não conseguiu roubá-la para os homens. E foi depois perseguido pelo que roubou de Hefesto e Atenas] (...).

 

Como o homem tinha sua parte no lote divino, ele foi, a princípio, por causa de sua conaturalidade com o deus, a única criatura viva a lidar com os deuses, e começou a construir altares e estátuas para estes (...). Assim preparados, os homens tiveram, a princípio, um habitat disperso: não havia cidade (...) os ofícios das artes lhes prestavam socorro suficiente quanto à nutrição, mas se encontravam em desvantagem na guerra contra as feras. Isso porque não haviam adquirido ainda a arte política, da qual faz parte a arte da guerra. Tentavam, então reunir-se e se salvar fundando cidades; mas quando reuniam-se, eram injustos uns com os outros, pois não possuíam a arte política; assim, de novo dispersados, eles morriam. Então Zeus, temendo que nossa raça se extinguisse por inteiro, enviou Hermes para levar aos homens o respeito e a justiça (...). Hermes logo pergunta a Zeus de que modo distribuir o respeito e a justiça entre os homens: "É como são repartidas as artes que devo também reparti-los? As artes são assim repartidas: um único a possuir a arte da medicina basta a muitos profanos [nessa arte]; de igual modo ocorre para os demais homens de ofício. É dessa mesma forma que devo distribuir respeito e justiça entre os homens, ou será preciso repartir entre todos?" — Entre todos, diz Zeus, e que todos os tenham em comum; pois as cidades não existiriam se um pequeno número dentre eles os tivessem em comum, como ocorre nas ouras artes; e promulgue, precisamente em meu nome, uma lei de distribuição segundo a qual quem não tiver em comum o respeito e a justiça será condenado à morte como uma doença da cidade.

 

PLATÃO, Protágoras, pág. 320 b até 328 d da versão original grega
segundo CASSIN, Bárbara. O efeito sofístico. São Paulo: Editora 34, 2005
, p. 331-336
(a autora se apoiou em BURNET, Platonis opera. Oxford: Clarendon Press, 1909)

Alguns esclarecimentos são necessários aqui: o mito não era uma crença religiosa no sentido das crenças atuais. Era criado livremente por qualquer pessoa como uma forma comum para a expressão resumida e embelezada de pensamentos, deixando-os abertos para explicação posterior (Platão também se utilizou disso, aliás — mas julgava insuficiente explicar os mitos sem definir com precisão as noções envolvidas buscando a sua essência, e criticava além disso o fato de que muita gente se satisfizesse apenas com esses mitos sem sequer tentar um discurso explicativo, o que não era o caso de Protágoras). Na época se acreditava que um mito se tornaria real se um número muito grande de pessoas se empenhasse em cultivá-lo e cultuá-lo, o que segue um modo de pensar apoiado no que se chamava de "egrégoras".

Também é preciso acrescentar que se a religião grega era mitológica, isso não significa que os mitos fossem sempre uma expressão religiosa. Mesmo falando de deuses, o centro de atenção dos mitos não está necessariamente neles. Para entender isso, é preciso interpretá-los com cuidado, porque estão cheios de simbologias e representações. Este não é nem pretende ser de modo algum um mito religioso. O fogo, neste mito, representa a energia, a vida ou vitalidade e o movimento, que poucas gerações antes Heráclito havia associado às noções de conflito e transformação. Protágoras é herdeiro das ideias de Heráclito, que se opunha à teoria de Parmênides de que haveria alguma verdade superior, transcendental ou sobrenatural, por detrás das coisas.

Importa notar também que os nomes dos deuses tinham significados que permitem uma compreensão melhor do que cada mito pretende dizer. Zeus, por exemplo, embora seja o deus dos relâmpagos, responsável pelas intempéries climáticas, tem no seu nome a raiz zás, que significa luz (uma luz poderosa), e de certo modo representa o esclarecimento súbito, a evidência, e o discernimento que promove essa "visão" ou compreensão tornando claros os limites das coisas, suas diferenças umas em relação às outras (Cf. por exemplo a introdução de Jaa Torrano em sua introdução à Teogonia de Hesíodo).

Nos discursos míticos, uma mesma ideia pode aparecer algumas vezes representada como um deus ou deusa, outras vezes não. A deusa Diké (a Justiça) é considerada filha de Zeus, e aparece nesse mito apenas como uma ideia. Segundo Barbara Cassin (cf. em O efeito sofístico, p. 68) as palavras gregas originais usadas nesse mito para "respeito" e "justiça" são aidos e diké — sendo que aidos sognifica literalmente "a vergonha", no sentido do "sentimento do olhar e da espera de outrem, o respeito da opinião pública" (CASSIN, p. 68), e é "apenas a motivação de respeitar a diké ", justiça que por sua vez deve ser entendida mais como regra ou norma publicamente aceita do que como punição ou castigo (ainda CASSIN, p. 68). O que Protágoras está defendendo então, segundo essas referências, é que a cidade nasce com o discernimento que leva as pessoas a respeitarem as leis, uma vez que são (ou na medida em que sejam) expressão da opinião pública. No debate que está iniciando com o personagem Sócrates, a própria narração do mito por Protágoras, em si mesma, já é uma primeira resposta prática (por meio da ação), quanto à possibilidade de se ensinar a virtude, pois é precisamente o que Protágoras pretende estar fazendo ao narrar o mito: ensinando a virtude. E a entende como algo de caráter político e jurídico.  

 

 

É desta forma que fazem aqueles que possuem mais recursos, e aqueles que possuem mais recursos são os mais ricos: seus filhos, que são os que mais cedo começaram a frequentar os mestres, são os que mais tarde os deixam.

Quando eles deixam os mestres a cidade, por sua vez, os força a aprender as leis e a viver em conformidade com elas, como se se tratasse de um paradigma, isso para que não saiam agindo ao sabor das aventuras, cheios de si; a cidade atua, tão simplesmente, como os professores de escrita, que traçam as letras com o estilete para as crianças que ainda não são capazes de escrever, assim lhes fornecendo, já preparada, a tábua, e, desta forma, forçando-as a escrever seguindo o riscado das letras: a cidade risca o esboço das leis — estas conquistas dos bons legisladores de outrora — e força a comandar e a ser comandado levando em consideração a adequação às leis. Quem se conduz à distância das leis, ela, acidade, pune, e o nome para essa punição, entre vocês e, muito frequentemente no exterior, na medida em que justifica e retifica, é "correção".

 

PLATÃO, Protágoras, pág. 326 d até 327 da versão original grega,
segundo CASSIN, Bárbara. O efeito sofístico. São Paulo: Editora 34, 2005, p. 343.

Trata-se de uma passagem das explicações de Protágoras para o seu mito da formação das cidades, que ao mesmo tempo oferece a defesa dos Sofistas contra a acusação de (feita por Sócrates) de trairem seus ideais democráticos ao educarem os filhos dos cidadãos mais ricos e menos democráticos nas artes da retórica. Cassin observa ainda, em nota de rodapé, que a palavra Euthynai ("correção"), "sediz, particularmente em Atenas, da prestação de contas a que os magistrados, ao fim de suas magistraturas, eram obrigados (...); prestação de contas fiscal à casa de correção" — como se diz ainda hoje por exemplo na França. Note-se além disso que a principal magistratura, eletiva e com mandato de um ano, era o cargo de Estratego principal (gestor das estratégias para por em prática as decisões tomadas, por voto de maioria simples, pela Assembleia Popular, órgão supremo do poder em Atenas, aberto à livre participação de todos os cidadãos — embora a definição de "cidadãos" fosse infelizmente restrita aos homens atenienses maiores de idade). O candidato a esse cargo poderia ser de qualquer classe socioeconômica.

 

(...) suponha que seja impossível haver cidade se não somos, cada um na medida dos seus próprios meios, todos flautistas; que em particular ou em público cada um ensine flauta ao outro e avance sobre aquele que não se desenvolve bem no instrumento, que não se guarde para si, com egoísmo, um tal saber, da mesma forma que em nossos dias ninguém guarda, nem ninguém oculta o que é justo e o que está em conformidade com as leis, diversamente do que ocorre com os segredos da arte (pois cada um tira proveito, creio eu, do senso de justiça e da excelência do outro; eis porque dizemos e ensinamos, de bom grado, um ao outro, o que é justo e conforme às leis). Se então depositamos no ensinamento da arte da flauta a mesma verve e a mesma falta de inveja, você acreditaria, por um só instante, caro Sócrates — dizia Protágoras — que são os filhos dos bons flautistas, em preferência aos dos maus, que se tornarão bons flautistas? Não creio, mas o filho do primeiro pai, se se revela o mais naturalmente dotado para a flauta, é o quem vai crescer em celebridade, enquanto que o filho de um outro, se não possui dom natural, não gozará de qualquer glória. E, com frequência, o filho de um bom flautista se tornará mau flautista, e com frequência, o filho de um mau flautista, bom. Mas em todo caso, ele seriam todos flautistas competentes, em comparação aos profanos [nessa arte] e aos que não entendem nada de flauta.

De igual modo você acredita, agora, que o homem que lhe parece o mais injusto, dentre todos os que foram criados nas leis e entre os homens, é, no entanto, justo e hábil se o comparamos a homens que não têm educação, nem tribunais, nem leis, nem outra qualquer coação que os force a se ocuparem, constantemente, da excelência — seriam selvagens (...). Certamente, se você se encontrasse entre tais homens (...) se lamentaria, com saudade, da maldade dos homens daqui! Agora, você age com desdém, caro Sócrates, porque todos, cada qual na medida dos seus próprios meios, são professores de excelência, embora ninguém, a seus olhos, se encontre em condições de ensiná-la. Ou ainda, é como se você procurasse alguém capaz de ensinar a falar o grego, pois também não lhe pareceria que só existe um mestre (...)

 


PLATÃO, Protágoras, pág. 327 b até 328 b da versão original grega,
segundo CASSIN, Barbara.
O efeito sofístico. São Paulo: Editora 34, 2005, p. 344-345
(a autora se apoiou em BURNET, Platonis opera. Oxford: Clarendon Press, 1909).

 

 

(...) estabeleci, como se segue, a prática dos meus honorários: quando alguém recebe o meu ensinamento, se assim o quiser, paga-me o preço cobrado; senão, ele vai ao templo e deposita justo o que declara, sob o voto do juramento, ser o valor de minhas lições.


PLATÃO, Protágoras, pág. 328 b até 328 c da versão original grega,
segundo CASSIN, Barbara.
O efeito sofístico. São Paulo: Editora 34, 2005, p. 346
(a autora se apoiou em BURNET, Platonis opera. Oxford: Clarendon Press, 1909).

 

 

 

 

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