Tópicos de vida e obra de Hesíodo

João Borba - Setembro de 2014

 

A princípio, de maneira resumida e aproximada, podemos começar a explicar é Hesíodo dizendo que não é um filósofo: é um poeta e um pensador religioso da antiga Grécia, que procurou exprimir suas ideias religiosas a partir de sua poesia. Era considerado um sábio cuja sabedoria era inspirada pelos deuses (numa época em que as pessoas acreditavam em vários deuses, e não em um só).

Mas esse resumo não é muito correto, porque para explicar corretamente a atividade de Hesíodo, precisamos entender melhor a sua época, a cultura religiosa da sociedade em que vivia, e também as trasformações políticas que ocorreram na Grécia poucos séculos antes da época de Hesíodo. Isso porque a cultura religiosa dos gregos antigos era muito diferente daquelas que são mais conhecidas hoje, como cristianismo, islamismo, judaísmo e budismo. Além disso, estava intimamente ligada à organização política, e toda a importância de Hesíodo como sábio inspirado pelos deuses está ligada a essas transformações políticas e religiosas que mencionamos, que aconteceram antes de sua época.

Hesíodo viveu na passagem do século VIII para o século VII antes de Cristo, e era considerado um aedo. Os aedos eram sábios inspirados pelos deuses que exprimiam essa sabedoria em forma de poemas para serem recitados e cantados, porque a linguagem simples do dia a dia não seria capaz de exprimir essa sabedoria divina, muito superior à sabedoria dos homens, poemas que contavam histórias — eram narrativas sobre a vida e as relações dos deuses.

Isso quer dizer que Hesíodo não era apenas um sábio inspirado pelos deuses que, por acaso, também era poeta: pelo contrário, fazia parte de uma categoria de sábios que eram todos necessariamente poetas, porque se pensava que essa sabedoria inspirada nos deuses não podia se exprimir de outra maneira. Esses sábios religiosos eram chamados aedos.

Então, se o judaísmo, o islamismo, o cristianismo têm os seus livros sagrados, os gregos antigos ao invés de livros, por muito tempo tiveram esses poemas cantados ou recitados oralmente pelos aedos, até que um século antes de Hesíodo um desses sábios (um chamado Homero) decidiu escrever esses poemas inspirados pelos deuses, riscando as palavras em tábuas de argila e deixando cópias espalhadas em diversos templos de diversas cidades da Grécia. Depois disso, outros aedos, entre eles Hesíodo, também escreveram seus poemas religiosos. 

Hesíodo escreveu dois importantes livros de poemas inspirados pelos deuses, mas se outros como ele também estavam escrevendo suas histórias sagradas, não eram todos os aedos que em sua época faziam isso. A maioria ainda preferia passar apenas oralmente sua sabedoria divinamente inspirada, recitando ou cantando ao vivo os poemas sagrados. Esses poemas além disso não eram exatamente os mesmos de um aedo para outro, as histórias dos deuses variavam muito. Tornaram-se mais estáveis e parecidas quando passaram a ser escritas, mas ainda assim havia versões muito diferentes delas. A rigor, mesmo nos casos em que as histórias eram parecidas, podemos dizer que cada aedo tinha sua própria versão das coisas, sua propria versão dessa sabedoria revelada a ele pelos deuses.

Se é necessário entender as mudanças políticas poucos séculos antes de Hesíodo para o entendermos melhor, é justamente porque essas mudanças políticas levaram a essa valorização da razão na sabedoria sagrada e poética dos aedos. 

E que mudanças políticas foram essas?

Hesíodo escreveu suas duas obras no século VIII antes de Cristo. Séculos antes, no seculo XII antes de Cristo, na mesma época da famosa guerra de Tróia, estava em processo a queda de um grande império que havia dominado por muito tempo as cidades-Estados de grande parte da Grécia: o Império Micênico.

Uma série de invasões de povos guerreiros, combinada com grandes pestes que atacaram as pessoas e pragas que atacaram as plantações, levaram ao descrédito e à derrubada do imperador, que séculos antes, no auge de seu prestígio e poder, havia sido considerado um deus encarnado em um corpo humano. Com descrédito generalizado na figura antes sagrada do imperador, e em seguida o enfraquecimento de seu poder até sua queda, gerou-se um vazio de poder que tornou as coisas ainda piores: os pequenos reis locais que antes estavam sob o poder do imperador (os descendentes dos famosos Ulisses, Aquiles e tantos outros), passaram a guerrear entre eles disputando o lugar deixado vazio pelo antigo imperador.

Com fome, doenças e guerras, a Grécia mergulhou numa situação muito parecida com aquela de mais de mil anos depois, que foi chamada de Idade Média. Os historiadores costumam de fato falar em uma espécie de "Idade Média da antiguidade". E foi nesse contexto que os aedos, aqueles antigos sábios religiosos (que no Império Micênico haviam sido funcionários do palácio real do imperador) começaram aos poucos a desempenhar um papel civilizador.

Esse esforço civilizador dos aedos tomou forma primeiro com Homero, que além de fixar as histórias dos deuses por escrito, tentou apresentar o que seria o modelo de um lider sábio e racional (em seus poemas, tomou o antigo Ulisses como exemplo, valorizando suas aventuras). O fato de Homero, no século IX antes de Cristo, ter começado além disso a escrever as histórias dos deuses e reis heróicos da Grecia, é bastante importante. Essas histórias sobre os deuses e os reis heróicos tinham sempre algum fundo moral, ensinavam os valores morais da época e o que os deuses esperavam que as pessoas fizessem ou evitassem fazer, de modo que antecipavam um pouco do que mais tarde seria o papel das leis escritas, que ainda não existiam.

Na época de Hesíodo, século VIII antes de Cristo, além de começarem a ser escritos e se tornarem um pouco menos diferentes uns dos outros, os poemas sagrados dos aedos estavam começando a se tornar também mais coerentes e racionais, tentando exprimir essa sabedoria divina de uma maneira um pouco mais lógica e mais cuidadosamente raciocinada. De todos os aedos que começaram a se preocupar em tornar os poemas sagrados mais racionais e mais coerentes, o caso mais famoso e conhecido é justamente o de Hesíodo, que é um dos aedos da época que levaram mais a fundo essa mudança. Sua preocupação no sentido de tornar os poemas sagrados mais coerentes e racionais foi tão longe que suas obras costumam ser consideradas já pré-filosóficas ou até poto-filosóficas. Daí a sua importância.

Existiram portanto muitos aedos como Homero (o primeiro a passar por escrito os poemas sagrados) e Hesíodo (o que levou mais longe a racionalização desses poemas). Por exemplo Ferécides, Alcmán de Esparta, Museo e Orfeu — mas com a exceção de Orfeu, que se tornou ainda mais lendário que Homero e costuma ser confundido com os próprios personagens das histórias divinas, esses outros aedos muitas vezes são esquecidos pelos estudiosos, apesar de sua sabedoria poético-religiosa ser extremamente interessante, e de alguns deles, a bem da verdade serem tão proto-filosóficos quanto Hesíodo (como é o caso de Alcmán, que merecia ser melhor estudado).

Mas os poemas sagrados dos dois livros famosos escritos por Hesíodo mostram um esforço tão grande para serem mais coerentes e racionais, e sua linha de raciocínio ao esclarecer as relações entre os deuses é tão próxima do modo de raciocinar de alguns dos primeiros filósofos (pré-socráticos), como Heráclito e Empédocles, que acabaram ganhando um destaque especial por parte dos estudiosos. De fato, pouco tempo depois de Hesíodo, a filosofia começou a nascer a partir desse mesmo tipo de preocupação de tornar a sabedoria mais coerente e racional — só que a filosofia fez isto levando essa racionalidade muito mais longe, e separando-se cada vez mais daquela antiga sabedoria "divina" e "sagrada" dos aedos, para pensar a sabedoria como o resultado de um trabalho intelectual, de um profundo e cuidadoso estudo.

As diferenças entre uma teologia racional como a de Hesíodo e a filosofia dos primeiros filósofos são, no fundo, apenas duas.

Primeira: Hesíodo focaliza os deuses e suas relações, e ao pensá-los racionalmente, acaba indiretamente pensando de modo racional também as relações entre as coisas do mundo material, porque os deuses eram forças da natureza, ligados às coisas do mundo material, de modo que o que ocorria entre eles ocorria entre as coisas do mundo material e natural ligadas a eles. No caso da filosofia, as coisas do mundo material e natural eram focalizadas diretamente, buscando a coerencia de suas relações; o assunto era esse, e os deuses eram deixados de lado.

Segunda: Hesíodo ao narrar as histórias dos deuses, não deixa sua linha de raciocínio coerente explicitada. É preciso "escavar" para encontrar esse raciocínio no fundo de suas histórias. ele não está realmente explicando nada, mas apenas narrando as histórias dos deuses, como os demais aedos antes dele sempre fizeram. Só que na maioria dos aedos anteriores não adianta "escavar" o que dizem em busca de alguma linha de raciocínio coerente por detrás que sirva para explicar as relacões entre as coisas do mundo material e natural, a única coerência é a coerência típica de qualquer narrativa, em que uma coisa acontece depois de outra.

No caso de Hesíodo, essa coerência realmente está lá, servindo para explicar as relações entre as coisas do mundo, e podemos encontrá-la se examinarmos com cuidado suas histórias sobre os deuses, "escavando-as" em busca desse coerência, como já dissemos. Mas em filosofia não é preciso esse trabalho de "escavar" o que está sendo dito em busca de alguma linha de raciocínio útil para explicar as coisas do mundo: o texo já não é narrativo, já é diretamente uma explicação, e o que está em foco é diretamente esse raciocínio explicativo, que em Hesídodo está "escondido" por detrás das histórias dos deuses.

Esses dois livros famosos escritos por Hesíodo chamam-se O trabalho e os dias e Teogonia, sendo que a maior parte e a parte mais fundamental de sua linha de raciocínio pode ser captada, encontrada, "escavada", por debaixo das histórias dos deuses que encontramos no segundo desses dois livros — a Teogonia, palavra que quer dizer "origem ou nascimento dos deuses". E de fato, o modo como Hesíodo constrói uma linha de raciocínio explicativa coerente está ligado à noção de origem, nascimento: ele explica as coisas a partir do nascimento delas, considera que explicá-las é explicar sua origem, de onde vieram, como surgiram; e explica a própria relação entre as coisas a partir do modo como elas vão nascendo umas das outras.

Pouco mais tarde, entre os séculos VII e VI antes de Cristo, os primeiros filósofos — aqueles que ficaram conhecidos como pré-socráticos — começaram a buscar suas explicações sobre as coisas do mundo natural em algo parecido: em sua origem, em seu nascimento. Começaram a buscar o que chamavam de arké, um princípio ou ponto de origem a partir do qual tudo no mundo material iria se desenvolvendo e se organizando, ou então algo que serviria como um princípio explicativo, um ponto de partida a partir do qual tudo no mundo material e natural se explicaria — uma espécie de ponto de origem, ou ponto de nascimento de tudo.

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