Ditos & Feitos de La Boétie

Seleção e organização das citações por João R. A. Borba

 

Sumário

Sobre o direito natural | Sobre repúblicas e monarquias | Sobre colocar pessoas no poder | Sobre a submissão à tirania e a submissão em geral | Sobre o fundamento do poder


 

Sobre o direito natural

Se vivêssemos com os direitos que a natureza nos deu e com as lições que nos ensina, seríamos naturalmente obedientes aos pais, sujeitos à razão e servos de ninguém.

(...)

Os bichos — valha-me Deus! — se os homens não se fizerem de surdos, gritam-lhes: viva a liberdade! Entre eles há vários que morrem logo que são capturados, como o peixe que abandona a vida ao mesmo tempo que a água (...). Os outros, dos maiores aos menorzinhos, quando são capturados resistem tanto com as unhas, os chifres, o bico e os pés que declaram o quanto prezam o que perdem; uma vez capturados, dão-nos tantos sinais notórios do conhecimento que têm de seu infortúnio, que é bonito de se ver que doravante há mais langor que vida, e que continuam vivendo mais para lamentar sua liberdade perdida do que para se comprazer na servidão.

(...)

Em suma, se todas as coisas que têm sentimento, assim que os têm, sentem o mal da sujeição e procuram a liberdade; se os bichos sempre feitos para o serviço do homem só conseguem acostumar-se a servir com o protesto de um desejo contrário — que mau encontro foi esse que pôde desnaturar tanto o homem, o único nascido de verdade para viver livremente, e fazê-lo perder a lembrança de seu primeiro ser e o desejo de retomá-lo?


LA BOÉTIE, Etienne. Discurso da servidão voluntária ou O Contra-um.
São Paulo: Brasiliense, 1999, p. 17 e 1
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(...) se porventura nascesse hoje alguma gente novinha, nem acostumada à sujeição  nem atraída pela liberdade, que de uma e de outra nem mesmo o nome soubesse, se lhe propusessem ser servos ou viver livres, com que leis concordaria? Não há dúvida de que prefeririam somente à razão obedecer do que a um homem servir

 

LA BOÉTIE, Etienne. Discurso da servidão voluntária ou O Contra-um.
São Paulo: Brasiliense, 1999, p. 19

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Sobre repúblicas e monarquias

(...) para falar com conhecimento de causa, é um extremo infortúnio estar-se sujeito a um senhor, o qual nunca se pode certificar de que seja bom, pois sempre estará em seu poderio ser mau quando quiser; e em ter vários senhores, quantos se tiver quantas vezes se é extremamente infeliz. (...) Se por ora não quero debater essa questão tão tormentosa — se as outras formas de república são melhores que a monarquia — gostaria ainda de saber, antes de pôr em dúvida a posição que a monarquia deve ter entre as repúblicas, se ela deve ter alguma, pois é difícil acreditar que haja algo de público onde tudo é de um. (...)

Por ora gostaria apenas de entender como pode ser que tantos homens, tantos burgos, tantas cidades, tantas nações suportam às vezes um tirano só, que tem apenas o poderio que eles lhe dão, que não tem o poder de prejudicá-los senão enquanto têm vontade de suportá-lo, que não poderia fazer-lhes mal algum senão quando preferem tolerá-lo a contradizê-lo. Coisa extraordinária, por certo; e porém tão comum que se deve mais lastimar-se do que espantar-se ao ver um milhão de homens servir miseravelmente, com o pescoço sob o jugo, não obrigados por uma força maior,  mas de algum modo (ao que parece) encantados e enfeitiçados apenas pelo nome de um, de quem não devem temer o poderio pois ele é só (...).

 

LA BOÉTIE, Etienne. Discurso da servidão voluntária ou O Contra-um.
São Paulo: Brasiliense, 1999, p. 11-12

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Sobre colocar pessoas no poder

(...) se os habitantes de um país encontraram algum grande personagem que lhes tenha dado provas de grande previdência em protegê-los, grande audácia para defendê-los, grande cuidado para governá-los, se doravante cativam-se em obedecê-lo e se fiam tanto nisso a ponto de lhe dar algumas vantagens, não sei se seria sábio tirá-lo de onde fazia o bem para colocá-lo num lugar onde poderá malfazer (...)

 

LA BOÉTIE, Etienne. Discurso da servidão voluntária ou O Contra-um.
São Paulo: Brasiliense, 1999, p. 12

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Sobre a submissão à tirania e a submissão em geral

Mas, ó Deus, o que pode ser isso? Como diremos que isso se chama? Que infortúnio é esse? Que vício, ou antes, que vício infeliz, ver um número infinito de pessoas não obedecer, mas servir, não serem governadas, mas tiranizadas, não tendo nem bens, nem parentes, mulheres nem crianças, nem sua própria vida que lhes pertença; aturando os roubos, os deboches, as crueldades, não de um exército, de um campo bárbaro contra o qual seria preciso despender seu sangue e sua vida futura, mas de um só; não de um Hércules nem de um Sansão, mas de um só homenzinho (...).

 

LA BOÉTIE, Etienne. Discurso da servidão voluntária ou O Contra-um.
São Paulo: Brasiliense, 1999, p. 12-13


É estranho, porém possível, que dois, três, quatro não se defendam de um; poder-se-á então dizer com razão que é falta de fibra. Mas se cem, se mil aguentam um só, não se diria que não querem, que não ousam atacá-lo, e que não se trata de covardia e sim de desprezo e desdém? Se não vemos cem, mil homens, mas cem países, mil cidades, um milhão de homens não atacarem um só, de quem o mais bem tratado de todos recebe esse mal de ser servo e escravo, como poderemos nomear isso? Será covardia? Ora, naturalmente em todos os vícios há algum limite além do qual não podem passar (...). Então, que monstro de vício é esse que ainda não merece o título de covardia, que não encontra um nome feio o bastante, que a natureza nega-se ter feito, e a língua recusa nomear?

 

LA BOÉTIE, Etienne. Discurso da servidão voluntária ou O Contra-um.
São Paulo: Brasiliense, 1999, p. 13

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(...) são os próprios povos que se deixam, ou melhor, que se fazem dominar, pois cessando de servir estariam quites; é o povo que se sujeita, que se degola, que, tendo a escolha entre ser servo ou ser livre, abandona sua franquia e aceita o jugo; que consente seu mal — melhor dizendo, persegue-o.

 

LA BOÉTIE, Etienne. Discurso da servidão voluntária ou O Contra-um.
São Paulo: Brasiliense, 1999, p. 14

 

Como o fogo de uma pequena chama torna-se grande e sempre cresce, e quanto mais lenha encontra mais está disposto a queimar; e sem que se jogue água para apagá-lo, é só não por mais lenha que ele, não tendo mais o aque consumir, consome-se a si mesmo e vem sem força alguma, e não mais fogo — assim também, por certo, os tiranos quanto mais pilham mais exigem, quanto mais arruínam e destroem, mais se lhes dá, quanto mais são servidos, mais se fortalecem, e se tornam cada vez mais fortes e dispostos a tudo aniquilar e destruir; e se nada se lhes dá, se não se lhes obedece, sem lutar, sem golpear, ficam nus e desfeitos, e não são mais nada, como o galho se torna seco e morto quando a raiz não tem mais humor ou alimento.

 

LA BOÉTIE, Etienne. Discurso da servidão voluntária ou O Contra-um.
São Paulo: Brasiliense, 1999, p. 15

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Sobre o fundamento do poder

Mas agora chego a um ponto qure em meu entender é a força e o segredo da dominação, o apoio e fundamento da tirania. (...) Não são os bandos de gente a cavalo, não são as companhias de gente a pé, não são as armas que defendem o tirano; de imediato, não se acreditará nisso, mas com certeza é verdade.  São sempre quatro ou cinco que mantêm o tirano; quatro ou cinco que lhe conservam o país inteiro em servidão. Sempre foi assim: cinco ou seis obtiveram o ouvido do tirano e por si mesmos dele se aproximaram; ou então por ele foram chamados para serem os cúmplices de suas crueldades, os companheiros de seus prazeres, os proxenetas de suas volúpias, e sócios dos bens de suas pilhagens. Tão bem esses seis domam seu chefe, que ele deve ser mau para a sociedade não só com suas próprias maldades, mas também com as deles. Esses seis têm seiscentos que crescem debaixo deles, e fazem de seus seiscentos o que dos seis faz o tirano. Esses seiscentos conservam abaixo deles seis mil, cuja posição elevaram (...)

Assim o tirano subjuga os súditos uns através dos outros e é guardado por aqueles de quem deveria se guardar, se valessem alguma coisa (...)

 

LA BOÉTIE, Etienne. Discurso da servidão voluntária ou O Contra-um.
São Paulo: Brasiliense, 1999, p. 32-33

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