Tópicos de Vida e Obra de Artaud

Texto da autoria de João R. A. Borba

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Artaud: um pensador "maldito", crítico da racionalidade
Seus assuntos, seu senso crítico e sua vida... uma obra filosófica intensamente vivida, e bem pouco reconhecida

 

 

    Quais os assuntos tratados por Artaud?

Teatrólogo, Artaud se destaca pelos estudos sobre as relações entre o teatro, a cultura e a vida. É o criador de uma estética teatral voltada para o desenlvolvimento do senso crítico, mas de um senso crítico não-racional, por estranho que isso possa parecer.

 

     Como seria o senso crítico não-racional que Artaud pretende provocar?

Sua ideia é a de provocar no público sentimentos e, principalmente, sensações físicas cada vez mais estranhos e inesperados, até que sejam capazes de chegar a romper o senso de "normalidade" dessas pessoas. Quer que por um momento, no teatro, elas experimentem o sentimento de que o mundo, a vida, a realidade, podem ser diferentes daquilo a que estão acostumadas. E que saiam do teatro carregando esse sentimento — o que é um modo não-racional de passarem a viver a realidade ao seu redor com maior senso crítico.

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       Até onde vai o reconhecimento atingido pela obra de Artaud?

  Artaud escreve suas principais obras em francês, atingindo (principalmente com a obra O teatro e seu duplo) reconhecimento não apenas na França, mas mundial entre os estudiosos de teatro, desde sua época até atualmente. Seu pensamento vai muito além da teoria teatral, tem implicações em inúmeras outras áreas, e faltaria pouco para ser classificado como uma filosofia. Mesmo assim, são poucos os filósofos que o reconhecem a esse nível.

 

     Os estudiosos de filosofia estudam Artaud?

Em filosofia, Artaud continua sendo um autor "maldito", estudado por poucos. Se fosse mais cuidadosamente estudado e compreendido pelos filósofos, mesmo assim provavelmente bem poucos o aceitariam. Tenderia a ser considerado provavelmente um "irracionalista", isto é, um crítico radical da racionalidade Ocidental, da linhagem de Nietzsche ou Bergson — que apesar de mundialmente reconhecidos, já são considerados autores "malditos" por esse mesmo tipo de crítica. (Confira mais sobre a questão na seção Diálogos & Debates/ Artaud é reconhecido como filósofo?)

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     Como foi a vida de Artaud?

Esse perfil de pensador "maldito" e crítico da racionalidade se desenvolve, no caso de Artaudo, em uma biografia dolorosa, uma história de vida feita de grandes iniciativas frequentemente derrubadas por problemas psicológicos que vinham à tona em crises profundas. Problemas agravados pelos preconceitos da sociedade em relação a isso. Artaud tem, nesse sentido, uma vida difícil, sendo internado já desde jovem por desequilíbrio mental três vezes (em 1812).

Instalando-se em Paris em 1820, começa a frequentar como ator a troupe de l'Atelier de Charles Dullin, trabalhando também com Pitoëff e Jouvert. Começa a publicar seus textos em 1922 (com a publicação de La Marée). Em 1925 dirige a Central Surrealista, que descreve como "Laboratório de novo gênero, para contribuir na invenção de uma vida nova". No mesmo ano edita e redige o terceiro número da revista La Révolution Surréaliste. Em 1826, funda com Vitrac e Aron o Teatro Alfred jarry, onde atua como diretor e, às vezes, como ator, e participa do filme Napoleón, de Abel Gance, no papel de Marat. Neste mesmo ano de 1826, Artaud rompe com o lider do surrealismo, André Breton, depois de ser acusado por ele de se desviar dos princípios do movimento surrealista.

De 1827 a 1935 escreve vários textos e faz o papel do confessor no filme Jeanne D'Arc de Calr T. Dreyer (1928). Em 1935 funda o Teatro da Crueldade (com base em texto do mesmo nome que publicou em 1932). Mas logo de saída, a primeira peça é um total fracasso de público. Decepcionado, viaja em 1936 para o México, onde estuda a cultura dos índios Tarahumaras e dá várias conferências. Em 1937, de volta à Europa, sofre outras duas crises mentais e acaba internado em um asilo. Sempre internado e saindo apenas ocasionalmente com acompanhamento médico, é transferido de um hospício a outro de 1937 a 1946. Mas nesse período, mesmo internado, Artaud publica textos importantes, inclusive O teatro e seu duplo (1938), que costuma ser considerada sua principal obra.

Em 1846 é libertado e continua a publicar seus textos, recebendo finalmente, em junho de 1947 uma homenagem pública em reconhecimento à sua obra, na qual inclusive Breton comparece.

Artaud falece em 4 de março de 1848.

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