Diálogos & debates entre Artaud e outros pensadores

Por João R. A. Borba (João Borba)


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O caso Artaud: a dança "maldita" de uma psicologia anarquista
entre a psicanálise, o marxismo, o surrealismo e o teatro crítico de Brecht

 

Artaud é reconhecido como filósofo?

Artaud é considerado um autor "maldito". Não faz muitos estudos de filosofia, mas seus textos acabam sendo bastante provocativos e interessantes do ponto de vista filosófico (Cf. Tópicos de Vida & Obra).

Como não entra no grande diálogo histórico entre os filósofos, debatendo com eles, seu "diálogo" com a filosofia só costuma aparecer conforme os próprios filósofos vão reconhecendo o interesse de seu pensamento e procurando trazê-lo para dentro desse diálogo. É uma situação parecida com a de Freud, que também não dialoga diretamente com filósofos, mas é trazido para esse diálogo por eles — e a tal ponto que muitas vezes aparecem capítulos sobre Freud em livros de história da filosofia.

Mas no caso de Artaud, apenas uns poucos filósofos de renome o conhecem e chegam a valorizar seu pensamento — é o caso do heideggeriano Jacques Derridá, dos nietzscheanos Michel Foucault e Giles Deleuze, e do existencialista Albert Camus. Os filósofos atuais costumam colocar o pensamento de Artaud em diálogo principalmente com a filosofia romântica alemã, com a filosofia de Nietzsche, e entre os filósofos antigos, com Heráclito e Platão.

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     Com quais pensadores, teorias ou linhas de pensamento Artaud dialoga?

Os principais pensadores e tendências que Artaud realmente estuda — isto é, aqueles com os quais entra diretamente em diálogo através de sua teoria — são:

• o pensamento mágico e místico oriental e o mexicano;

• a Cabala (escreveu contra a Cabala);

• a filosofia estóica de Sêneca;

• passagens de Sto. Agostinho

• o racionalismo de Descartes (Artaud escreveu contra Descartes);

• o ultra-romantismo do poeta Gerard de Nerval;

• o pensamento pré-dadaísta do dramaturgo Alfred Jarry;

• o anarquismo (fortemente presente, mas absorvido por ele a partir de fontes desconhecidas);

• a psicanálise de Freud e Jung;

• o marxismo de Marx e principalmente de Trotsky;

• a filosofia de Bergson;

• talvez o estilo simbolista de Anaïs Nin, autora de literatura erótica feminina;

• e mais do que com todos os outros pensadores e tendências acima, o surrealismo de André Breton, que é o principal lider desse movimento estético.

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     Quais as relações de Arta ud com a psicanálise e o marxismo?

Boa parte do diálogo de Artaud com a psicanálise e com o marxismo parece ocorrer indiretamente através de seus contatos com André Breton, principal idealizador do movimento artístico surrealista, e o círculo de amigos dele. O próprio Artaud participa do movimento surrealista por bastante tempo, enquanto esse movimento artístico está ligado apenas a ideias da psicanálise freudiana e a uma postura política esboçada mas ainda não claramente definida. Ele se afasta do movimento quando Breton e seus seguidores começam a se ligar ao movimento político marxista, através do contato com o líder comunista Trotsky.

 

     Por que Artaud se afastou dos surrealistas?

Artaud se separa dos surrealistas por razões políticas, na medida em que Breton se aproxima de Trotsky em busca de uma ponte entre o surrealismo (que se apoia em alguns pontos da teoria freudiana) e o comunismo marxista. Artaud, mais radical, desconfia muito do autoritarismo marxista, e prefere o anarquismo.

Também por razões políticas, ele rompe relações com seu amigo, o ator Jean-Louis Barrault (um dos maiores mímicos de que se tem notícia na história da humanidade). Juntos, Barraut e Artaud se apresentavam para operários em peças improvisadas de teatro popular, realizadas na rua ou em ringues de box. Eram peças carregadas de críticas políticas. Quando suas atuações foram proibidas e visitadas pela polícia, Barrault desistiu e passou para o outro lado: começou a trabalhar em grandes espetáculos para as elites, patrocinados pelo governo da época. Artaud nunca perdoou a traição política do amigo.

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     O que Artaud tem a ver com Brecht?

Artaud e o teatrólogo marxista Bertold Brecht costumam ser considerados em todo o mundo os dois principais teóricos do teatro engajado, de crítica política e social. No meio teatral existe um constante debate nesse sentido entre os artaudianos e os brechtianos — embora alguns atores, autores e diretores teatrais excepcionalmente criativos consigam combinar com bons resultados essas duas estéticas teatrais opostas.

Do ponto de vista político, é preciso ressaltar que o teatro crítico de Brecht tem uma visão bem mais próxima do que tradicionalmente se costuma entender por "senso crítico", valorizando a consciência racional do público — embora seu método para atingir esse senso crítico racional e consciente seja bastante original, ligado à ideia de que, para provocá-lo, é preciso criar "vazios" emocionais durante a encenação, momentos em que os sentimentos e o envolvimento emocional do público se anulem.

O posicionamento de Artaud neste sentido é mais radical. Ele faz a crítica da própria racionalidade tradicional que se costuma considerar como base do senso crítico. Também questiona a necessidade de "consciência" para que haja senso crítico. E o faz apresentando uma alternativa não racional e não consciente, mas bastante consistente — e paradoxalmente, reconhecível sim como um "senso crítico".

Na verdade, o pensamento de Artaud nos leva a considerar que todo senso crítico é, no fundo, irracional e inconsciente, e que se não assumimos isso (e radicalmente) acabamos diminuindo a força impacto crítico. Assume portanto uma postura extremamente polêmica e original.

Seguindo essa linha, Artaud defende um senso crítico compreendido, portanto, de maneira completamente diferente da tradicional: um senso crítico que se desenvolve e se manifesta pela via das sensações físicas e dos sentimentos que as acompanham.

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     A "metafísica" para Artaud tem a ver com "surrealismo"?

Pode-se dizer que Artaud se afastou dos surrealistas, mas não do surrealismo. Ao invés de "surrealismo", passou a falar em "metafísica", a se dizer um pensador do "teatro metafísico". A palavra "metafísica" é um termo técnico da filosofia, um conceito que indica, grosso modo, a região do que existiria fora deste mundo físico. Mas não é bem assim que Artaud trata esse termo.

Na própria filosofia, o termo "metafísica" também pode ser usado em um sentido mais "chão". Pode se referir, por exemplo, não a entidades religiosas ou sobrenaturais, mas simplesmente aos métodos usados para se pensar a respeito das coisas materiais (o filósofo Emmanuel Kant fez algo parecido). Neste sentido, se um método não é feito de matéria, se não é algo físico, mas apenas um conjunto de ações e atitudes intelectuais usadas no estudo do mundo físico, então é "metafisico". Mas esta ainda não é a maneira como Artaud trata a "metafísica".

Artaud usou o termo "metafísica" de uma maneira ainda mais "chão" do que essa: para ele, a arte "metafísica" é aquela que, tentando ir além do físico, do material, do sensível, promove a distorção das sensações físicas, e com isto, sensações diferentes, incomuns etc. essa desregulagem dos sentidos permitiria a libertação de certas forças inconscientes.

Essa ideia de "metafísica" de fato é muito próxima daquela mesma pela qual os artistas surrealistas definem o termo "surrealismo".

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     Até que ponto Artaud realmente se afastou do surrealismo?

A defesa da "metafísica" por Artaud é, no fundo, uma visão bem próxima daquela dos surrealistas — para não dizermos que é praticamente a mesma visão. Em outras palavras, mesmo separado dos surrealistas, Artaud mostra uma forte influência desse movimento artístico, na verdade jamais abandonada.

Apesar de ter saído oficialmente do grupo e passado a falar em um teatro "metafísico" ao invés do teatro "surrealista" que defendia antes, foi mais uma mudança de nomenclatura do que uma mudança de posicionamento. Na verdade, Artaud manteve sempre a mesma intensa valorização, comum a todos os surrealistas, do papel de forças inconscientes que nos movem sem que possamos dominá-las por inteiro.

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