Ditos & Feitos de Max Stirner

Seleção e organização por João R. A. Borba

 

Sumário

Sobre educação e liberdade | Sobre cultura geral versus habilidades práticas | Sobre o saber, a vontade e a formação da personalidade | Sobre o gênio e a busca do ideal | Sobre o confronto com si mesmo na arte | Sobre o entendimento e a fé | Sobre religião e liberdade | Sobre religião, entendimento e amor| Sobre a arte e a origem da religião | Sobre a arte cômica e o fim da religião| Sobre o amor e o ódio na religião | Sobre a filosofia | Sobre o egoísmo e a defesa de causas | Sobre a possessão por ideia fixas


 

Sobre educação e liberdade

 

Cultivam, em nossa adolescência, nossa predisposição à criação ou nos tratam apenas como criaturas unicamente suscetíveis de adestramento? Esse problema é tão importante quanto qualquer problema social: em verdade, é o mais importante pois, em fim de contas, os problemas sociais repousam sobre essa base. Se temos valor, realizaremos coisas de valor (...) o problema escolar é um problema vital.

 

STIRNER, Max. O falso princípio da nossa educação.
São Paulo: Imaginário, 2001, p. 62.

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(...) o motor de toda a nossa atividade consistia nessa relação de senhor e servidor; é graças a essa característica da época que podemos compreender por que se aspirava tão abertamente ao "ensino superior" e por que se estava tão desejoso de distinguir-se do vulgar. A cultura fazia de seu detentor um senhor para os indivíduos incultos. O conceito de educação popular teria entrado em conflito com essa situação, pois se presumia que o povo deveria permanecer ignorante em relação a esses "senhores instruídos" (...)

 

STIRNER, Max. O falso princípio da nossa educação.
São Paulo: Imaginário, 2001, p. 65

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A verdade do homem não é outra senão a revelação de sua natureza própria e para isso lhe é preciso descobrir-se a si mesmo, liberar-se de todo o que lhe é estranho, abstrair-se ao extremo ou livrar-se de toda autoridade, reconquistar sua ingenuidade. A escola não forma homens tão profundamente verdadeiros; se, contudo, há alguns deles, é certamente malgrado a escola. Na realidade, se a escola permite-nos controlar os objetos e, se preciso, controlarmos a nós mesmos, ela não faz de nós seres livres.

 

STIRNER, Max. O falso princípio da nossa educação.
São Paulo: Imaginário, 2001, p. 75-76

 

(...) Em pedagogia, como em outros campos, a liberdade não pode expressar-se, nossa faculdade de oposição não pode exprimir-se; exigem apenas a submissão. O único objetivo é adestrar à forma e à matéria (...) Sufocam pela força nossa saudável tendência à indisciplina e impedem ao mesmo tempo o Saber de se desenvolver em Vontade livre.

(...) adaptamo-nos à nossa época, tornamo-nos seus servidores, o que se conveio chamar de bons cidadãos. No entanto, onde se encorajam o espírito de oposição em vez do espírito de submissão nutrido até o presente momento? Onde se formam indivíduos que criam e não indivíduos que aprendem? Onde o mestre se transforma em companheiro de trabalho e reconhece que o Saber deve tornar-se Vontade? Onde está a instituição que se propõe por objetivo liberar o homem e não se limitar a cultivá-lo?

 

STIRNER, Max. O falso princípio da nossa educação.
São Paulo: Imaginário, 2001, p. 77-78

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Sobre cultura geral versus habilidades práticas

 

Era preciso que a vantagem essencial dos eruditos, a cultura geral, pudesse beneficiar a todos. Podemos perguntar-nos, contudo, o que é a cultura geral senão, em termos vulgares, a capacidade de "poder falar de tudo", ou, mais seriamente, dominar qualquer assunto. Percebeu-se que a escola estava em atraso com relação à vida, não apenas porque mantinha-se afastada do povo, mas porque negligenciava a cultura geral dos estudantes em proveito de uma cultura especializada, e portanto que abstinha-se de desenvolver, em sala de aula, o estudo dos numerosos problemas que a vida impõe.

 

STIRNER, Max. O falso princípio da nossa educação.
São Paulo: Imaginário, 2001, p. 66-67

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A miséria da nossa educação até os nossos dias reside em grande parte no fato de que o Saber não se sublimou para tornar-se Vontade, realização de si, prática pura. Os realistas sentiram essa necessidade e preencheram-na, mediocremente por sinal, formando "homerns práticos" sem ideias e sem liberdade.

 

STIRNER, Max. O falso princípio da nossa educação.
São Paulo: Imaginário, 2001, p. 81

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Sobre os que querem superar filosofia através da ciência, da técnica e da prática

Por que odeiam as abstrações? Porque eles próprios são seres abstratos, porque não buscam o seu prórpio desenvolvimento (...).

Desejaríamos, por acaso, colocar a pedagogia nas mãos dos filósofos? De modo algum! eles se comportam com inabilidade. Não se confiará a pedagogia senão àqueles que são mais que filósofos, portanto infinitamente mais que humanistas ou realistas. Estes últimos pensam com justeza ao pressentirem o declínio dos filósofos, mas não têm a mínima suspeita da ressureição que se seguirá a esse declínio: eles se mantêm afastados da filosofia para alcançar sem ela esse paraíso ao qual ela aspira, eles a transpõem num salto e... caem no abismo de seu próprio nada (...). Só os filósofos sabem morrer e encontrar na morte seu verdadeiro Eu.

 

STIRNER, Max. O falso princípio da nossa educação.
São Paulo: Imaginário, 2001, p. 72

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Os realistas podem fazer-se glória de uma superioridade: eles não formam apenas pessoas cultas, mas cidadãos dotados de entendimento e utilizáveis. De fato, seu princípio de base: "tudo o que se ensina deve reportar-se à prática", poderia até mesmo servir de divisa ao nosso tempo, se ao menos eles não entendessem por vida prática a acepção trivial do termo. A verdadeira prática não consiste em fazer seu caminho na vida, e o Saber vale mais do que o uso que dele se poderia fazer para alcançar por ele objetivos práticos. A prática mais elevada é aquela que permite a um homem livre revelar-se a si mesmo e o Saber que sabe morrer é a liberdade que dá a vida. A vida prática! Com isso se crê ter dito tudo, mas os próprios animais levam uma existência essencialmente prática (...)

 

STIRNER, Max. O falso princípio da nossa educação.
São Paulo: Imaginário, 2001, p. 79

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Sobre o saber, a vontade e a formação da personalidade

 

Sim, em verdade o Saber também deve morrer para, na morte, florescer em Vontade. As liberdades de pensamento, de crença e de consciência, essas flores maravilhosas que são a obra de três séculos, se fecharão no seio da terra para nutrir com suas mais preciosas seivas uma nova liberdade, a liberdade de querer.

(...) Tudo o que é grande deve saber morrer e transcender na morte: só os miseráveis amontoam (...) documentos sobre documentos (...). O saber autêntico encontra seu acabamento cessando de ser Saber e tornando a ser um simples desejo instintivo do homem: a Vontade.


STIRNER, Max. O falso princípio da nossa educação.
São Paulo: Imaginário, 2001, p. 73-74

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A vontade não tem naturalmente a importância que desejariam fazernos-crer as pessoas práticas: não temos o direito de passar por cima da vontade de Saber para estar de imediato em estado de Querer, pois o Saber, ao contrário, transcende em vontade quando escaba dos sentidos e cria-se como um espírito que "constrói seu próprio corpo" (...) essa morte e essa assunção do Saber.

 

STIRNER, Max. O falso princípio da nossa educação.
São Paulo: Imaginário, 2001, p.74-75

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O Saber que não se depura nem se transcende de modo a conduzir-me à Vontade, ou, dito de outra forma, o Saber que pesa sobre mim como um bem, uma posse, em vez de ser uno comigo em todas as coias e permitir ao Eu livre agir, liberto de seus bens esmagadores, percorrer o mundo com um espírito novo, esse Saber que não se tornou pessoal prepara mal à vida. Não quer chegar à sua abstração que, só ela, contudo, é a verdadeira consagração de todo saber concreto: pois é ela que mata relamente a matéria, transforma-a em espírito e concede ao homem a última e autêntica liberação. Só a abstração proporciona a liberdade: o homem só é livre se tiver dominado o saber adquirido e reintegrado o que dele extraiu por suas indagações na unidade de seu Eu.

 

STIRNER, Max. O falso princípio da nossa educação.
São Paulo: Imaginário, 2001, p. 75.

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Assim, todas as educações convergem a uma fonte única: a personalidade. (...) O Saber realiza essa transformação cessando de apegar-se unicamente a objetos, tornando-se Saber de si mesmo, ou, se isso parece mais claro, Saber da ideia, autoconsciência do espírito. então, por uma espécie de inversão, ele se torna impulso, instinto do espírito, saber sem consciência do qual cada um pode ao menos ter ao menos uma ideia comparando-o a esse sentimento simples nascido da sublimação das numerosas experiências do nosso Eu, e que se denomina apreciação intuitiva: todo o Saber ampliado que emana dessas experiências concentra-se num Saber instantâneo que permite ao homem decidir sobre seus atos num instante.

 

STIRNER, Max. O falso princípio da nossa educação.
São Paulo: Imaginário, 2001, p. 81

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Sobre o gênio e a busca do ideal


Assim que a pessoa suspeita que possui um além de si mesmo (...) — e para o homem natural o outro que carece tornar-se é seguramente um ser futuro, cuja esperança somente se realizará para além da situação presente; um para-além: (...) desde o momento em que o homem desperta para este presentimento que o leva a se dividir, a cindir-se entre aquele que ele é e o outro no qual deve se converter, imediatamente passa a suspirar com todas as suas forças por esse segundo ser (...)

Ele permanece muito tempo submetido a um estado vacilante, tem somente a sensação de uma forma luminosa que deseja levantar-se das sombras de seu interior, mas os contornos precisos e a forma fixa ainda lhe escapam. Com o povo que tateia na obscuridade incerta, também o gênio hesita um certo tempo, em busca da Forma [Gestalt] que dará configuração ao seu pressentimento; mas lá onde ninguém conseguiu êxito, ele o consegue — dá forma a seu pressentimento, consegue configurá-lo, cria o Ideal.


STIRNER, Max. Art et Religion. In L'Unique et sa propriété... et autres écrits.
Lausanne: L'Age d'Homme, 1972, p. 45
(Tradução de João Borba especialmente para este site - maio de 2012)

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Sobre o confronto com si mesmo na arte


A necessidade extrema que o homem tem de não ficar só e se duplicar, de não estar satisfeito consigo mesmo, homem natural, e sim buscar o segundo homem, espiritual, essa carência, a obra de gênio a apazigua, e atribui à divisão o seu término. Então, e só então, aliviado, o homem respira fundo; pois sua confusão interior enfim está resolvida, arremessada para o exterior, e o pressentimento, a suspeita que o atormentava, está configurado de agora em diante como uma forma sensível.

Nessa forma sensível, homem se tem em face de si mesmo.

Este com quem está face a face é ele e ainda não é ele: é o para além dele rumo ao qual todos os seus pensamentos e todos os seus sentimentos escoam sem nunca alcançá-lo, e é esse seu mais além envolto deste lado em seu presente, e inseparavelmente entrelaçado nele. É o Deus de seu interior, mas se mantém na exterioridade; assim ele não pode apreendê-lo, compreendê-lo.

 

STIRNER, Max. Art et Religion. In L'Unique et sa propriété... et autres écrits.
Lausanne: L'Age d'Homme, 1972, p. 46
(Tradução de João Borba especialmente para este site - maio de 2012)

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A arte cria a divisão, opondo ao homem seu ideal, mas a visão do ideal que dura precisamente até que seja reabsorvido e reassimilado pelo olhar que mantém firmemente o desejo, se chama religião. Esta é contemplação, carece portanto de uma forma à qual se oponha ou um objeto; e o homem enquanto ser religioso se reporta ao ideal manifestado pela criação artística; ele considera seu segundo eu, colocado na exterioridade, como um objeto.

Esta é a fonte milenar de todas as torturas, de todas as lutas; porque é aterrorizante estar fora de si mesmo, e cada um está quando é para si mesmo seu próprio objeto (...)

 

STIRNER, Max. Art et Religion. In L'Unique et sa propriété... et autres écrits.
Lausanne: L'Age d'Homme, 1972, p. 46
(Tradução de João Borba especialmente para este site - maio de 2012)

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Sobre o entendimento e a fé


A religião é uma questão de entendimento.
Tanto quanto o espírito do crente é rígido, em consonância com seu objeto de que ninguém pode se apropriar, ao qual é preciso submeter-se, assim como sua rigidez é firme face a esse objeto: ela é entendimento.
"Frio entendimento"?

Será que só se conhece este frio entendimento? Não se sabe que nada é mais ardente, mais heróico que ele?
(...)

A prática de um tal entendimento — que é inabalável somente porque seu objeto (2 x 2 = 4, etc.) não se deixa abalar - a prática de um tal entendimento deveria ser a religião? É precisamente o caso! A religião, ela também, tem um objeto inabalável e se mantém caída sob o poder dele; e somente o artista que o criou para ela, poderia dela arrebatá-lo.

 

STIRNER, Max. Art et Religion. In L'Unique et sa propriété... et autres écrits.
Lausanne: L'Age d'Homme, 1972, p. 46-47
(Tradução de João Borba especialmente para este site - maio de 2012)

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Sobre religião e liberdade


Lá onde onde o espírito está vinculado a um objeto, onde sua liberdade de movimento é definida precisamente por esse objeto (...) o espírito é dependente de um objeto que pretende explicar, perscrutar, sentir, amar etc... ele não é livre, nem genial, na medida em que que a liberdade é a condição da genialidade.
Uma fé genial é tão absurda como um tecido genial. A religião permanece acessível inclusive aos espíritos mais medíocres, e qualquer tonto desprovido de imaginação pode ter sempre e terá sempre acesso à religião: sua falta de imaginação não o impedirá de viver na dependência.


STIRNER, Max. Art et Religion. In L'Unique et sa propriété... et autres écrits.
Lausanne: L'Age d'Homme, 1972, p. 47-48
(Tradução de João Borba especialmente para este site - maio de 2012)

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Sobre religião, entendimento e amor

 

"Mas o amor não é a essência mais autêntica da religião? Não é ela uma questão de sentimento, e não de entendimento?"
Mesmo que fosse um assunto do coração, seria por isso menos questão do entendimento? É um assunto do coração posto ele que engaja totalmente meu coração. Isso não exclui que ele engaje também totalmente meu entendimento, o que não lhe atribui nada de particularmente bom: ódio e inveja podem ser também igualmente afazeres do coração.

Na realidade, o amor não é mais que uma questão de entendimento, e isso em nada desmerece seu título de assunto do coração.(...)

Mas não é um assunto da razão pois, no reino da razão, há tão pouco de amor quanto o que há no céu de casamentos, segundo a palavra de Cristo.

 

STIRNER, Max. Art et Religion. In L'Unique et sa propriété... et autres écrits.
Lausanne: L'Age d'Homme, 1972, p. 48
(Tradução de João Borba especialmente para este site - maio de 2012)

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      Mas todo amor (...) cresce ou desaparece na medida do entendimento que possui do seu objeto (é assim que com frequência os amantes se chamam, embora com torpeza, ao menos de maneira muito significativa). Basta que surja um malentendido para que o amor perca mais ou menos de sua força; se emprega precisamente a palavra "malentendido" para significar um desacordo, designando desse modo um amor perturbado. O amor se perde irrevogavelmente e sem apelo sempre que se está totalmente enganado sobre um ser humano: o "malentendido" é então absoluto, a afeição extinta.

 

STIRNER, Max. Art et Religion. In L'Unique et sa propriété... et autres écrits.
Lausanne: L'Age d'Homme, 1972, p. 49
(Tradução de João Borba especialmente para este site - maio de 2012)

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(...) o entendimento necessita de um objeto, sua eficácia cessa assim que tenha absorvido sua substância a ponto de já não encontrar matéria para sua atividade, de ter terminado com o assunto. Com o final de sua atividade desaparece seu interesse no assunto, porque se o que se quer é que se abandone com amor a ele e lhe consagre todas as suas forças, tal assunto deve permanecer um mistério.

Aqui se passa ainda o mesmo que com o amor: um matrimônio só se mantém garantindo um amor duradouro no caso de que os esposos apareçam um para o outro, a cada dia, sob um aspecto novo, e se cada um reconhece no outro uma fonte inesgotável de vida nova, um mistério, qualquer coisa de insondável, de inapreensível. A partir do momento em que já não encontram nada de novo um no outro, o amor se dissolve irresistivelmente em indiferença e tédio.

Da mesma maneira, o entendimento só existe enquanto segue ativo e quando não pode mais exercer suas forças na compreensão de um mistério, porque a obsuridade desapareceu, abandona o objeto tornado inteligível e enfadonho.

 

STIRNER, Max. Art et Religion. In L'Unique et sa propriété... et autres écrits.
Lausanne: L'Age d'Homme, 1972, p. 49-50
(Tradução de João Borba especialmente para este site - maio de 2012)

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Sobre a arte e a origem religião


Agora, se a arte cria o Ideal e deu aos homens um objeto com qual o espírito trava um longo combate - e, por esse combate, faz valer a pura atividade do entendimento -, ela é também criadora da religião (...)
A arte é o princípio, o Alfa da religião; e é também seu fim, seu Ômega. É sua companheira inclusive. Sem a arte e o artista, criador do Ideal (5) a religião não não pode nascer; é pela arte que ela morre, quando o artista faz retornar sua arte a si mesmo, e é pela arte também que ela se mantém, enquanto a arte a for renovando constantemente.

 

STIRNER, Max. Art et Religion. In L'Unique et sa propriété... et autres écrits.
Lausanne: L'Age d'Homme, 1972, p. 50
(Tradução de João Borba especialmente para este site - maio de 2012)

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A arte (...) se deixa constantemente levar por sua tendência de produzir diariamente como forma ideal, na mais abundante profusão, o que há de mais próprio e de melhor no espírito, ou melhor... o próprio espírito. Ela tende a extraí-lo da obscuridade que o acoberta por tanto tempo dormente no coração do sujeito criador para, dando-lhe configuração, fazer dele um objeto. Face a esse objeto, esse Deus, o homem se realiza, e mesmo o artista cai de joelhos diante da criação de seu espírito.

 

STIRNER, Max. L'Unique et sa propriété... et autres écrits.
Lausanne: L'Age d'Homme, 1972, p. 50
(Tradução de João Borba especialmente para este site - maio de 2012)

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  (...) na frequentação de seu objeto e no combate que ela implica, a religião segue um caminho oposto àquele da arte. Esse objeto que o artista — concentrando toda a força e a riqueza de sua interioridade para fazê-lo chegar ao esplendor de uma figura em harmonia com a necessidade e o desejo o mais autêntico de cada um — produziu à luz do dia, e que ele propõe aos olhos do mundo; este objeto, a religião por sua vez tenta devolvê-lo para a interioridade à qual ele pertence, torná-lo de novo subjetivo.
Ela se esforça para reconciliar o ideal ou Deus, com o homem, o sujeito, desnudando-o de sua dura objetividade.

Deus deve se fazer interior (não sou eu, é Cristo que vive em mim); a divisão tende a se suprimir, a se desfazer. O homem separado de seu ideal se esforça, de seu lado, para reconquistá-lo (conquistar Deus e sua graça, para enfim o identificar totalmente com seu próprio eu) - e o Deus ainda separado do homem procura ele também o conquistar para seu reino dos céus: um e o outro se buscam e se completam.
Mas jamais eles se encontram nem se tornam um: se eles se tornassem, a própria religião - posto que ela só subsiste pela separação - desapareceria. Também o crente não espera nada mais que um dia ver Deus "face a face".


STIRNER, Max. Art et Religion. In L'Unique et sa propriété... et autres écrits. Lausanne: L'Age d'Homme, 1972, p. 50-51
(Tradução de João Borba especialmente para este site - maio de 2012)

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Sobre a arte cômica e o fim da religião


Enfim, a arte está também no fim da religião. O espírito sereno, alegre, reafirma suas pretensões sobre suas criações e, proclamando-as suas, ele lhes remove a objetividade, ele as liberta do para-além em poder do qual elas haviam caído durante o período religioso. Por conseguinte, não se contenta mais em embelezá-las... ele as destrói.

Reivindicando sua criatura (a religião), a arte aparece no declínio da religiosidade: representando em tom jocoso, como uma alegre comédia, toda a gravidade da antiga crença — porque ela perdeu a seriedade do conteúdo que é forçada a restituir ao jovial poeta - ele se reencontra a si mesmo e descobre em si uma nova potência criadora.

Não reprovemos sua crueldade — tão cruelmente destruidor seja ele na comédia, tão inexoravelmente ele restaura aquilo que tem intenção de... destruir de novo.

(...)

Porque a religião é, para cada um daqueles que não a seguem de maneira morna, um estado de divisão.

 

STIRNER, Max. Art et Religion. In L'Unique et sa propriété... et autres écrits.
Lausanne: L'Age d'Homme, 1972, p. 51 e 52
(Tradução de João Borba especialmente para este site - maio de 2012)

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Sobre o amor e o ódio na religião


(...) este entendimento religioso ama tão ardentemente que odeia aqueles que não queimam pelo mesmo amor: o ódio religioso é inseparável do amor religioso. Quem não tem o mesmo objeto de crença é um herético, e quem admite a heresia não é verdadeiramente invadido por piedade (...).
Na medida em que, em nossa época, o ódio perdeu algo de sua força... o amor a Deus, ele também, se debilitou, cedendo passagem a um amor humano baseado na moralidade e não na fé. É que esta demonstra mais solicitude pelo bem da humanidade do que por Deus.

 

STIRNER, Max. Art et Religion. In L'Unique et sa propriété... et autres écrits.
Lausanne: L'Age d'Homme, 1972, p. 51-52
(Tradução de João Borba especialmente para este site - maio de 2012)

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(...) uma vez que o mistério é esclarecido, uma vez que a objetividade e o estranhamento são rompidos e, desta maneira, destruída a essência de uma religião determinada, a comédia deve realizar seu dever e libertar o homem — por meio de uma prova evidente do vazio, ou melhor, da desapropriação ou descaracterização de seu objeto — de sua velha crença que o cativava e o subjugava ao que agora está devastado.
Como convém a sua essência, a comédia se apodera em todos os domínios daquilo que eles tenham de mais sagrado e tira proveiro (...)


STIRNER, Max. Art et Religion. In L'Unique et sa propriété... et autres écrits.
Lausanne: L'Age d'Homme, 1972, p. 52
(Tradução de João Borba especialmente para este site - maio de 2012)

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Sobre a filosofia

 

Se a arte cria o objeto e se a religião vive somente por encadear-se a esse objeto, a filosofia se distingue muito claramente tanto de uma como da outra. Esta última — a filosofia — não se opõe a um objeto à maneira da religião, nem cria um à maneira da arte. Ela, ao contrário, estende sua mão destruidora tanto à constituição do objeto quanto à objetividade em si mesma, e respira a liberdade.

A razão, espírito da filosofia, não se ocupa senão dela mesma e não se preocupa com nenhum objeto. Para o filósofo, deus é tão indiferente quanto uma pedra: ele é o ateu mais decidido. Se ele se ocupa de deus, não é para venerá-lo mas para rejeitá-lo: não há nisto nada mais que a razão que busca a centelha de razão que está oculta sob cada forma - pois a razão busca apenas a si mesma, se preocupa somente com si mesma, ama somente a si mesma. Ou, falando mais propriamente, não se ama, posto que aqui não há relação senão com si mesma, e não com um objeto (...).

Só que não nos propomos falar mais aqui de filosofia: se encontra para além de nosso tema.


STIRNER, Max. Art et Religion. In L'Unique et sa propriété... et autres écrits.
Lausanne: L'Age d'Homme, 1972, p. 53
(Tradução de João Borba especialmente para este site - maio de 2012)

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Sobre o egoísmo e a defesa de causas


Há tanta coisa a querer ser minha causa! A começar pela boa causa, depois a causa de Deus, a causa da humanidade, da verdade, da liberdade, do humanitarismo, da justiça; para além disso, a causa do meu povo, do meu príncipe, da minha pátria, e finalmente até a causa do espírito e milhares de outras. A única coisa que não está prevista é que a minha causa seja a causa de mim mesmo!


STIRNER, Max. O Único e sua propriedade.
Lisboa: Antígona, 2004, p. 9

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(...) Deus só se preocupa com o que é seu, só se ocupa de si mesmo, só pensa em si mesmo e só se vê a si - e ai de tudo aquilo que não caia nas suas graças! ele não serve a nenhuma instância superior e só a si se satisfaz. a sua causa é uma causa... puramente egoísta.

(...) e serve a humanidade uma causa superior? Não, a humanidade só olha para si própria, a humanidade só quer incentivar o progresso da humanidade, a humanidade tem em si mesma sua causa. Para que ela se desenvolva, os povos e os indivíduos têm que sofrer por sua causa (...)

Veja-se o que se passa com o povo, protegido por dedicados patriotas. Os patriotas tombam em sangrentos combates, ou lutando contra a fome e a miséria. e acham que o povo quer saber disso? O povo "floresce" com o estrume de seus cadáveres! (...)

E todos esses exemplos não chegam para vos convencer de que o egoísta leva sempre a melhor? Por mim, extraio daqui uma lição: em vez de continuar a servir com altruísmo aqueles grandes egoístas, sou eu próprio o egoísta.

 

STIRNER, Max. O Único e sua propriedade.
Lisboa: Antígona, 2004, p. 9-10

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Nada é a causa de Deus ou da humanidade, nada a não ser eles próprios. Do mesmo modo, Eu ou minha causa, eu que, como Deus, sou o nada de tudo o resto, eu que sou o meu tudo, eu que sou o único.

Por isso: nada de causas que não sejam única e exclusivamente a minha causa! Vocês dirão que a minha causa deveria, então, ao menos ser a "boa causa". Qual bom, qual mau! Eu próprio sou a minha causa, e eu não sou nem bom nem mau. Nem uma nem outra coisa fazem para mim qualquer sentido.

O divino é a causa de Deus, o humano é a causa "do homem". A minha causa não é nem o divino nem o humano, não é o verdadeiro, o bom, o justo, o livre etc., mas exclusivamente o que é meu. E esta não é uma causa universal, mas sim...única, tal como eu.

Para mim, nada está acima de mim!


STIRNER, Max. O Único e sua propriedade.
Lisboa: Antígona, 2004, p. 9-11

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Sobre a possessão por ideias fixas


Cuidado, rapaz, tens a cabeça cheia de fantasmas, tens obsessões a mais! Imaginas coisas grandiosas e inventas um mundo de deuses à tua disposição, um reino de espíritos que te chama, um ideal que te acena. Tens uma ideia fixa!

E não penses que estou a brincar ou a falar por metáforas quando considero os homens presos a esta ideia do superior (de fato, quase toda a humanidade, porque a maior parte é desse tipo) como verdadeiros loucos, loucos de manicômio. O que é afinal isso de uma "ideia fixa"? É uma ideia à qual a pessoa se subjugou.

 

STIRNER, Max. O Único e sua propriedade.
Lisboa: Antígona, 2004, p. 41-42

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Encontramos nós apenas gente possessa do demônio? Ou será que não vêm ao nosso encontro outro tipo de possessos, obcecados pelo bem, pela virtude, a moralidade, a lei ou outro qualquer "princípio"? As possessões diabólicas não são as únicas. sobre n´so age Deus e age o diabo: a ação do primeiro é da ordem da "graça", a do segundo é diabólica. Possessos são aqueles que se fixam nas suas opiniões.

Se não vos agradar a palavra "possesso", podeis substituí-la por convencido, ou então, e dado que é o espírito quem vos vence e possui, e é dele que vem toda  a "inspiração", por... entusiarmo espiritual. Por mim, acrescentarei que o entusiasmo perfeito — porque não nos podemos ficar nas meias-tintas — se chama fanatismo.


STIRNER, Max. O Único e sua propriedade.
Lisboa: Antígona, 2004, p. 43

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