Ditos & Feitos de Castoriadis

Seleção e organização das citações por João R. A. Borba


Sumário

Sobre (e contra) a Alegoria da Caverna de Platão | Sobre a psicanálise freudiana | Sobre (e contra) o totalitarismo burocrático e o capitalismo | Sobre a democracia direta de Atenas | Sobre a ideia de Estado e a Rev. Francesa | Sobre o Capitalismo | Sobre as Instituições


 

Castoriadis: psicanálise, marxismo e democracia direta
Uma análise crítica das instituições sociais lançada contra
Platão, o Capitalismo e o totalitarismo burocrático

 

 

Sobre (e contra) a Alegoria da Caverna de Platão

Pensar não é sair da caverna nem substituir a incerteza das sombras pelos contornos nítidos das próprias coisas, a claridade vacilante de uma chama pela luz do verdadeiro sol. É entrar no Labirinto, mais exatamente fazer ser e aparecer um Labirinto ao passo que se poderia ter ficado "estendido entre as flores, voltado para o céu". É perder-se em galerias que só existem porque as cavamos incansavelmente, girar no fundo de um beco cujo acesso se fechou atrás de nossos passos — até que essa rotação, inexplicavelmente, abra, na parede, fendas por onde se pode passar.

Com toda certeza o mito queria significar algo de importante, quando fazia do Labirinto a obra de Dédalo, um homem.


CASTORIADIS, Cornelius. As encruzilhadas do labirinto I.
Rio de Janeiro: Paz e terra, 1987, p. 7-8

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Sobre a Psicanálise freudiana

A palavra criação espantará aqueles que foram habituados a ver, desde algum tempo, na psicanálise uma conduta exclusivamente regressiva, no seu material um conjunto fixado para sempre por uma origem. É que não refletimos bastante sobre o que essas palavras significam. Precisamos voltar à origem somente quando e porque a origem é criação, quando e porque um sentido não pode ser dissolvido nas determinações de um sistema presente.

(...)

A essência prática da cura psicanalítica é que o indivíduo se reencontra como origem parcial da sua história, faz gratuitamente a experiência do fazer-se não sabido como tal a primeira vez, e torna-se, de novo, origem dos possíveis como tendo tido uma história que foi história, e não fatalidade.


CASTORIADIS. As encruzilhadas do labirinto I.
Rio de Janeiro: Paz e terra, 1987
p. 53 e 54

 

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Sobre (e contra) o totalitarismo burocrático e o capitalismo

Falo como alguém que critica o totalitarismo burocrático russo desde 1945 e as burocracias coloniais sob a dominação comunista desde que elas apareceram. Conduzi essa critica em nome e a partir de um projeto político de transformação social cujo conteúdo essencial é o autogoverno efetivo da sociedade, articulado no e pelo autogoverno dos grupos que a compõem — grupos de produtores, grupos locais, etc. Meu projeto sempre foi esse.


CASTORIADIS, Cornelius. As encruzilhadas do labirinto II.
Rio de Janeiro: Paz e terra, 2002
p. 113

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Houve, na Rússia, a emergênca de uma nova camada ou classe dominante e exploradora: a burocracia. Tal emergência tornou-se possível pela supressão, entre 1917 e 1921, de todo papel autêntico e autônomo dos órgãos criados pelas massas (sovietes, comissões de fábrica), em proveito do poder exclusivo e total do Partido bolchevique. Em torno  desse Partido aglomeraram-se todas as camadas dirigentes do novo Estado, reconstruído às pressas sobre o antigo da produção e da economia por Lenin, Trotsky e os bolcheviques. Conclusão negativa: o socvialismo não pode, de maneira nenhuma, ser instaurado por meio de um Partido que se apresente como o dirigente da classe operária e da revolução: um poder desse tipo só pode levar à restauração de um capirtalismo burocrático total. Conclusão positiva: o socialismo é o poder dos órgãos autônomos das massasn e das coletividades, o que se traduz, é verdade,  pela eliminação das antigas camadas dominantes, capitalistas e burocratas, mas também, e sobretudo, pelo poder positivo desses órgãos sobre todos os aspectos da vida social: gestão coletiva da produção pelos trabalhadores, das coletividades locais pelos habitantes, etc.

 

CASTORIADIS, Cornelius. As encruzilhadas do labirinto II.
Rio de Janeiro: Paz e terra, 2002
p.20

 

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Sobre a democracia direta de Atenas

Quando se estuda a Grécia, e em particualr as instituições políticas gregas, a mentalidade "modelo/antimodelo" tem uma consequência curiosa mas inevitável. Essas instituições são consideradas, por assim dizer, "de maneira estática", como se se tratasse de uma única "constituição" com seus diversos "artigos" fixados de uma vez para sempre e que oderiam (e deveriam) ser "julgadas" ou "avaliadas" enquanto tais. Esta é uma abordagem boa para pessoas que estão em busca de receitas — cujo número, na verdade, não parece estar diminuindo. Mas a essência daquilo que importa na vida política da Grécia antiga — o gérmen — é, certamente, o processo histórico instituinte: a atividade e a luta que se desenrolam em torno da mudança das instituições, a auto-instituição explícita (ainda que permaneça parcial) da pólis enquanto processo permanente: um processo que demora cerca de quatro séculos. (...)

Esse movimento é um movimento de autoinstituição explícita. O significado fundamental da autoinstituição explícita é a autonomia: nós estabelecemos nossas próprias leis. (...)

O coletivo dos cidadãos — o dèmos — proclama-se absolutamente soberano: ele se rege por suas próprias leis (autonomos), possui sua jurisdição independente (autodikos) e governa-se a si mesmo (autotélès), para retomar os termos de Tucídides. E declara também, a igualdade política (a igual repartição da atividade e do poder) de todos os homens livres. (...)

A igualdade dos cidadãos é naturalmente igualdade em relação à lei (isonomia), porém, no fundo, é bem mais que isso. ela não se resume à outorga de "direitos" iguais passivos, mas consiste na participação geral ativa nos negócios públicos

 

CASTORIADIS. As encruzilhadas do labirinto II.
Rio de Janeiro: Paz e terra, 2002
p. 303-304

 

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Sobre a ideia de Estado e a Revolução Francesa

A ideia central realizada pela Revolução — e na qual vejo sua importância capital para nós — é a de autoinstituição explícita da sociedade pela atividade coletiva, lúcida e democrática. Porém, ao mesmo tempo, a Revolução nunca se libera do domínio dessa peça central do imaginário político moderno: o Estado. Digo exatamente o estado: aparelho de dominação separado e centralizado — não digo o poder. Para os atenienses, por exemplo, não há "Estado" — a própria palavra não existe; o poder somos "nós", o "nós" da coletividade política. No imaginário político moderno, o estado aparece como não-eliminável. Assim foi na Revolução e continua a ser na filosofia política moderna. A esse respeito, tal filosofia encontra-se numa situação mais do que paradoxal: deve justificar o Estado, esforçando-se porém por pensar a liberdade. Trata-se de assentar a liberdade na negação da liberdade, ou confiar a sua guarda ao seu inimigo principal. Essa antinomia atinge o seu paroxismo no período do Terror.


CASTORIADIS, Cornelius. As encruzilhadas do labirinto III.
Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2006, p. 170

 

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Sobre o capitalismo

A organização capitalista da vida social — e falamos tanto do capitalismo privado do Oeste quanto do capitalismo burocrático do Leste — cria uma crise perpetuamente renovada em todas as esferas da atividade humana. Esta crise aparece com a maior intensidade no domínio da produção: a produção, as oficinas da fábrica — não a "economia" e o "mercado". Mas a situação, quanto ao essencial, é a mesma em todos os domínios — quer se trata da família, da educação, da política, das relações internacionais ou da cultura. em toda parte, a estrutura capitalista consiste em organizar a vida dos homens a partir de fora, na ausência dos interessados e contra suas tendências e interesses. Isto é apenas um outro modo de dizer que a sociedade capitalista divide-se entre uma pequena classe dirigente, que tem como função decidir sobre a vida de todo mundo, e a grande maioria dos homens que se limitam a executar as decisões dos dirigentes e, por isto, a suportar sua vida como se ela fosse alguma coisa alheia a si mesmos.

Esta organização é profundamente irracional e contraditória, e a renovação perpétua de suas crises, sob uma forma ou outra, é absolutamente inevitável. é profundamente irracional pretender organizar os homens como se fossem objetos, ignorando deliberadamente o que eles mesmos pensam e querem quanto à sua própria organização. Na realidade, o capitalismo é obrigado a se apoiar sobre a faculdade de auto-organização dos grupos humanos, sobre a criatividade individual e coletiva dos produtores, em a qual não poderia subsistir nem um dia. Mas toda organização oficial ignora e ao mesmo tempo tenta suprimir ao máximo possível estas faculdades de auto-organização e de criação. disto não resulta somente um disperdício imenso e uma enorme ausência de ganho: o sistema suscita obrigatoriamente reação, a luta daqueles aos quais se pretende impor.

 

CASTORIADIS, Cornelius. Socialismo ou barbárie: o conteúdo do socialismo.
São Paulo: Brasiliense, 1983, p. 77

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Sobre as instituições

As sociedades que fabricam indivíduos servos — isto é, quase todas as sociedades conhecidas, com exceção da cidade democrática grega e seus legados modernos — não os submetem à coletividade (...). Elas os submetem à instituição dada da sociedade, o que é outra coisa bem diferente. O selvagem não está submetido à tribo como coletividade efetiva; a coletividade e ele mesmo estão submetidos às regras estabelecidas pelos "ancestrais". O judeu, o cristão, o muçulmano, não estão submetidos à coletividade judaica, cristã ou muçulmana; são escravos da instituição dada de sua sociedade, de uma lei imutável e intocável, pois sua origem é atribuída a uma causa transcendente, Deus. (...) A origem mítica da lei, como a entrega das Tábuas da Lei por deus a Moisés, como a revelação cristã ou o profetismo muçulmano possuem a mesma significação e função: assegurar a conservação de uma instituição heteronômica da sociedade incorporando nesta instituição a representação de uma origem extra-social da lei, que é como que estabelecida por definição e por essência subtraída à atividade instituinte dos humanos.

 

CASTORIADIS, Cornelius. Socialismo ou barbárie: o conteúdo do socialismo.
São Paulo: Brasiliense, 1983, p. 13

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A alienação não é nem a inerência à história, nem a existência da instituição como tal. Mas a alienação surge como uma modalidade da relação com a instituição e, por seu intermédio, da relação com a história (...).

A alienação apresenta-se de início como alienação da sociedade às suas instituições, como autonomização das instituições com relação à sociedade. (...)

Estas constatações levam a um questionamento da visão corrente da instituição, a qual chamaremos de visão econômico-funcional. Referimo-nos à visão que quer explicar tanto a existência da instituição como suas características (idealmente, até os mínimos detalhes) pela função que a instituição preenche na sociedade e as circunstâncias dadas, por seu papel na economia de conjunto da vida social. (...)

Não contestamos a visão funcionalista na medida em que chama nossa atenção para o fato evidente, mas capital, de que as instituições preenchem funções vitais sem as quais a existência de uma sociedade é inconcebível. Mas contestamos na medida em que pretende que as instituições se limitem a isso, e que sejam perfeitamente compreensíveis a partir deste papel.(...)

Uma sociedade só pode existir se uma série de funções são constantemente preenchidas, mas ela não se reduz só a isso (...); ela inventa e define para si mesma tanto novas maneiras de responder às suas necessidades, como novas necessidades. (...)

Mas o que deve fornecer o ponto de partida de nossa pesquisa é a maneira de ser sob a qual se constitui a instituição — a saber, o simbólico. (...)

 

CASTORIADIS, Cornelius. A instituição imaginária da sociedade.
Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982, p. 139-141

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As instituições não se reduzem ao simbólico, mas elas só podem existir no simbólico, são impossíveis fora de um simbólico em segundo grau e constituem cada qual uma rede simbólica. Uma organização dada da economia, um sistema de direito, um poder instituído, uma religião, existem socialmente como sistemas simbólicos sancionados.

(...)

Mas isto também é a história. Todo simbolismo se edifica sobre as ruínas dos edifícios simbólicos precedentes, utilizando seus materiais (...). Por suas conexões naturais e históricas virtualmente ilimitadas, o significante ultrapassa sempre a ligação rígida a um significado preciso, podendo conduzir a lugares totalmente inesperados.


CASTORIADIS, Cornelius. A instituição imaginária da sociedade.
Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982, p. 142 e 147

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