Crítica crítica: Proudhon

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Marx, Karl / 2003

texto selecionado de livro

 

Resenha crítica da crítica de Marx à crítica de Bauer a Proudhon

por João Borba, em 2013 (a partir de estudos de 2008 para a tese de Doutoramento)

 

Marx defende Proudhon contra a imagem feita dele por Edgar Bauer

 

Por que Marx acha que é necessário fazer a crítica
da tradução de Proudhon feita por Edgar Bauer?

Marx começa apontando que Edgar Bauer procura tratar do "ponto de vista" de Proudhon, separando-o da pessoa física, de carne e osso, intelectual francês oriundo das classes trabalhadoras. É como se Proudhon deixasse de ser uma pessoa em particular e se tornasse um ponto de vista geral. Como Marx já vinha observando no tópico anterior do livro - onde examinava o tratamento dado por esse seu colega jovem hegeliano à questão do amor - E. Bauer, para fazer sua crítica, se coloca em uma condição que ele próprio chama de "Quietude do conhecer". Segundo Bauer, quando o crítico se coloca na "Quietude do conhecer", já não existe mais para ele "este objeto externo" de crítica, seja ele qual for, com sua peculiaridade: existe apenas um sentido geral e abstrato de "objeto". Edgar Bauer dá a essa sua crítica, baseada na "Quietude do conhecer", o nome de "Crítica crítica".

Contra esta postura - contra a "Crítica crítica"- Marx, lembrando com ironia a postura de E. Bauer em relação ao amor, acusa-o de cometer um desamor não só em relação a Proudhon, mas à própria língua francesa, em sua tradução de O que é a propriedade?. E que fará a "critica da crítica crítica", para restituir ao leitor o Proudhon otiginal, pois a "Quietude" de Bauer no conhecer o impede de captar a alteridade e peculiaridade desses "objetos" com os quais está lidando (Proudhon e a língua francesa utilizada por ele), de modo que faz uma má compreensão das palavras de Proudhon e distorce suas ideias.

O que Marx diz, mais precisamente, é que Edgar Bauer não se limita a traduzir o livro de Proudhon, mas também alterna suas traduções com comentários, no que ele chama de "glosas marginais críticas" à sua tradução, e que erra tanto na tradução quanto nas críticas. E ele fará algo similar com o texto do próprio Bauer procurando corrigi-lo, alternando do mesmo modo comentários corretivos à sua tradução de Proudhon com correções também às suas "glosas críticas". Mas segundo Marx, Bauer "é mais destrutivo quando traduz do que quando glosa criticamente". Ou seja: é um péssimo tradutor. E quando traduz, acaba recaracterizando Proudhon de maneira diferente. O Proudhon caracterizado por Edgar Bauer não condiz com o Proudhon real.

Então Marx passa a falar, ao longo do texto, sempre de dois Proudhons: o "Proudhon crítico" (aquele caracterizado a partir da Crítica crítica de Bauer); e o Proudhon real (ou pelo menos aquilo que, segundo Marx, é o Proudhon real - entretando há tanto erros quanto acertos na imagem que Marx faz do "Proudhon real", e os erros são consideravelmente graves.

 

Como é a imagem que Edgar Bauer faz de Proudhon em sua tradução comentada do livro O que é a propriedade?

Segundo Marx, as palavras alemãs escolhidas por Bauer para traduzir o livro O que é a propriedade? do francês acabam indiretamente passando sempre uma mesma imagem de Proudhon.

Fazendo um resumo simplificado, podemos dizer que, grosso modo, o Proudhon que E. Bauer nos mostra - e ao qual Marx chama de "Proudhon crítico" - seria humilde, mas indignado com a injustiça. Nessa indiganação, posicionado de um modo geral contra um partido político francês (o Partido Reformista) que agregava pessoas de variados posicionamentos, mas sempre politicamente moderados.

Esse Proudhon humilde e indignado de E. Bauer seria pouco reflexivo, mas bastante respeitoso e até reverente em relação aos estudos teóricos, tendo lido muitos livros - possivelmente sem compreendê-los a fundo, porque Bauer o mostra um tanto simplório. Graças a esses estudos é que teria percebido que não temos uma definição sólida para conceitos como justiça, equidade e liberdade - e sem essa definição, não teríamos como pôr tais coisas em prática, daí sua indignação. Seria além disso dotado de uma visão generalista das coisas que ocorrem na realidade social, sem ir muito aos detalhes, tendendo a grandes abstrações e ao misticismo e desenvolvendo, no final das contas, um pensamento com pouca lógica, fundado em conhecimentos precários de economia política e em algumas referências históricas, na verdade utilizadas talvez desnecessariamente, ou sem muita necessidade no conjunto da obra.

Segundo Marx, Edgar Bauer dá a entender que essa atitude humilde mas indignada de Proudhon (acompanhada desse discurso pouco refletido, pouco coerente e sem base científica) seria de se esperar de um homem simples do povo, sem instrução acadêmica e sem formação filosófica.

 

Qual é a postura de Marx em relação à tradução crítica
que Edgar Bauer faz do livro de Proudhon?

Corrigindo Edgar Bauer sempre em tom agressivamente irônico, Marx nos faz avaliá-lo como um incompetente que - diante de um texto historicamente importante que representa o primeiro momento de grande tomada de consciência e formulação teórica de um posicionamento do proletariado, em oposição às forças política e economicamente dominantes - não é capaz de enxergar o que tem diante dos olhos, e projeta na obra que está traduzindo e criticando uma série de preconceitos de classe combinados a uma porção de outras coisas que, na verdade, são seus próprios defeitos enquanto intelectual, e não os de Proudhon.

Marx faz isso, ao longo do texto, apontando inúmeras passagens da tradução de E. Bauer para o livro de Proudhon, e fazendo uma a uma as correções comentadas e a retradução dessas passagens mal traduzidas, sempre com muito refinamento intelectual, e sempre com a mesma ironia e a mesma agressividade, de modo que vai dando claros exemplos daquilo que acusa em Edgar Bauer, desqualificando-o como incompetente. Suas correções não procuram frieza técnica: procuram ser destrutivas em relação ao seu colega jovem hegeliano e colocar-se como contra-exemplo, pois deixam transparecer uma certa vaidade auto-elogiosa. Marx parece querer demonstrar acima de tudo o que seria uma boa tradução do texto de Proudhon, e sua competência nesse sentido.

 

Marx constroi sua própria imagem de Proudhon

 

Qual é a imagem que Marx faz de Proudhon
em oposição àquela feita por Edgar bauer?

O Proudhon descrito por Marx não é humilde, mas "um francês leviano" (o que aqui deve ser entendido como elogio) que trata de seus assuntos com muita ironia e frieza, partindo daquilo que constata na realidade como evidente (por exemplo a injustiça social), e não dos inúmeros textos teóricos que leu, e aos quais parece tratar também com certa ironia e frieza crítica, assumindo uma postura na verdade totalmente independente em relação a eles. Indignado com a constatação da injustiça, é que Proudhon teria passado a examinar inúmeros estudos teóricos, o que apenas lhe confirmou essa constatação chocante, pois os autores não se entendem a esse respeito. Mas a tradução comentada de E. Bauer dá a entender que Proudhon descobriu isso apenas depois de suas leituras teóricas - como se fosse uma questão de mera definição teórica de termos - no caso, os termos "justiça, equidade, liberdade" - e não um problema real constatável.

Onde E. Bauer vê apenas um lamento de Proudhon em relação à injustiça sofrida por sua classe, Marx mostra como o Proudhon real se pergunta, por exemplo, se há "necessidade material" de se submeter aos infortúnios da pobreza (ironia calcada no discurso dos economistas que a justificam, e que evidentemente fala por todos os trabalhadores assalariados de seu tempo). E onde o Proudhon de E. Bauer demonstra uma visão generalista dos grupos em conflito na sociedade francesa, Marx mostra um Proudhon que "se orienta pela práxis massiva francesa", e que por isso mesmo (por essa visão gerada na vida prática da massas trabalhadoras) tem uma visão mais realista, detectando diferentes classes de reformadores e de rebeldes onde o próprio Edgar Bauer não as detectou, e criticando o fato de que as diversas posições acabam igualmente sem nenhuma solução efetiva para o problema da injustiça. Portanto é Edgar Bauer quem, na verdade, projeta sobre Proudhon um generalismo abstrato que é seu, e não dele.

Mas é importante notar que Marx começa a associar Proudhon à noção de "massa", como se ele exprimisse o pensamento das "massas" populares. A expressão sugere também a materialidade pela qual Marx se opõe ao que avalia ser ainda um idealismo não superado por parte da assim chamada "Crítica crítica" empreendida pelos irmãos Bauer - Bruno e Edgar, sendo este último (o mais radical dos dois) o alvo das críticas de Marx aqui.

Em outras palavras, o próprio Marx procura ver em Proudhon um ponto de vista geral - como o que criticou em Bauer no início - mas procura fazer isso sem "superar" o Proudhon real de carne e osso, e superando, pelo contrário, o campo da pura abstração intelectual no qual E. Bauer construiu esse ponto de vista proudhoniano, como se fosse uma prática particular de exame de conceitos teóricos. Marx parece querer captar através de Proudhon o pensamento que emergiria da vida prática concreta dos trabalhadores assalariados, naquilo que suas vidas têm em comum, e que se confronta depois com os conceitos teóricos elaborados pelos estudiosos - aliás, elaborados por eles a partir de abstrações (como as de Edgar Bauer) que nem sempre condizem com essa realidade vivida pelos trabalhadores.

A imagem de Proudhon que Marx opõe à de E. Bauer, finalmente, é não apenas independente e irreverente em relação aos estudos teóricos, mas os compreende sim muito bem em seu sentido geral - que acaba por ser o da justificação do sistema político e econômico vigente - e ao invés de adotar uma postura respeitosa em relação a eles, os ataca criticamente em conjunto, com grande ousadia. Se não mostra grande cuidado em segui-los à risca é porque está partindo de uma visão inteiramente nova, e que não encontra expressão correta nos conceitos teóricos já existentes: uma visão emergida das massas proletárias.

 

A imagem que Marx faz de Proudhon em A sagrada família é confiável?

Muitas vezes se tende perceber, nesta leitura que Marx faz de Proudhon, uma forte influência hegeliana - mas essa influência é a que sofre o próprio Marx, não é de Proudhon. E este é um dos pontos em que a defesa de Proudhon por Marx, que se inicia bem, começa depois a naufragar quase nas mesmas águas que o ataque crítico realizado por Edgar Bauer. O rumo que isso toma, aliás, revela que o naufrágio já vinha começando na insistente associação de Proudhon à ideia de "massa"... e todavia mais do que isso - e com muito maior gravidade - na respectiva e igualmente insistente associação, por Marx, do próprio proletariado à ideia de "massa".

O furo na interpretação que Marx faz de Proudhon, em contraposição à de E. Bauer (que por sua vez parece ser uma verdadeira peneira de furos), está situado em um ponto muito preciso e facilmente detectável: nos adjetivos que Marx, com uma estratégia retórica inteligente, vai conectando ao nome "Proudhon" sempre que o utiliza, e especiamente sempre que o utiliza para se referir ao Proudhon (segundo ele) "real". Pois Marx começa chamando o Proudhon edgarbaueriano de "Proudhon crítico" e contraponto a ele o que chama de "o Proudhon real ", mas em pouco tempo começa a substituir a adjetivo "real" por uma série de outros, a começar pelo adjetivo "das massas", "de massa" ou "massivo".

Através desses adjetivos que vão substituindo o adjetivo "real" e de comentários cada vez mais extensos interpretando Proudhon, Marx vai fazendo exatamente aquilo que criticava em Edgar Bauer: projetando sobre Proudhon a sua própria visão das coisas - e quando isso se torna difícil, trata de fazer Proudhon parecer compatível com ela. A diferença de atitude entre E. Bauer e Marx, nesse sentido, é que o este último o faz propositalmente, e com refinada malícia retórica, enquanto o primeiro parece fazê-lo por incompetência - ou pelo menos é o que Marx nos dá a entender... mas o testemunho de Marx é mesmo confiável? Porque em relação a Proudhon absolutamente não é.

Seria recomendável verificar, examinando diretamente o texto de Edgar Bauer. Esta resenha se limitou a checar o que é dito por Marx examinando diretamente a teoria de Proudhon - e o resultado é bastante instrutivo, porque o que começa como uma defesa muito bem realizada de Proudhon contra as distorções de um intrérpete (supõe-se que) incompetente, em poucas páginas se transforma em difamação com distorções igualmente graves, mas realizadas habilidosamente, com muita malícia, mantendo sempre e até o fim a mesma aparência de defesa.

As distorções de Marx avançam em dois sentidos especificamente: fazem Proudhon parecer quase um hegeliano e, de maneira coerentemente conectada com essa hegelianização, introduzem um determinismo histórico rigoroso, com rumos predeterminados para a luta proletária - determinismo que é inteiramente avesso à postura proudhoniana, escamoteando no mesmo movimento o seu pluralismo e a sua defesa de de um proletariado autônomo, que constrói seus caminhos e decide seus próprios rumos em meio ao debate e às divergências internas.

 

De que modo o hegelianismo de Marx aparece em sua leitura de Proudhon?

A aproximação que Marx realiza de Proudhon com o hegelianismo, em sua interpretação, vai transparecendo aos poucos, em passagens com comentários marxianos cada vez mais extensos. Mas começa discretamente.

Por exemplo: segundo Marx, Proudhon teria concluído, em seus estudos teóricos, que "todos os equívocos são degraus da ciência"... de que modo? É que "nossos juízos incompletos encerram uma soma de verdades suficientes para um certo número de induções e para um determinado círculo da vida prática, acima de cujo número e além de cujo círculo conduzem teoricamente ao absurdo e praticamente à decadência"... de modo que "até mesmo um conhecimento incompleto das coisas pode satisfazer por algum tempo ao progresso social".

De fato é de Hegel a ideia de que as teorias carregam as verdades parciais de um conhecimento incompleto, que vai se completanto mais e mais nos estudiosos seguintes, ao longo da História. Mas Marx aqui tem por enquanto o (bom) cuidado de não forçar demais a aproximação de Proudhon com Hegel. Porque também é assim que raciocina Pascal - que é o nome mencionado pelo Proudhon nesse início de seu livro, como uma influência sua. Mas é preciso notar que, para Pascal, nada garante que uma teoria historicamente posterior possa ter acesso a uma verdade "menos parcial" ou "mais completa" que uma anterior. O tempo não é determinante nisto.

Nesta descrição ainda cuidadosa, mas já hegelianizante de Proudhon, Marx dá a entender (de modo muito sutil e indireto) que, se essas verdades parciais são suficientes "para um certo número de induções e para um determinado círculo da vida prática", e conduzem ao absurdo e à decadência quando ultrapassam esse limite, talvez não fossem tão insuficientes se não fossem verdades parciais, se dessem conta da realidade concreta como um todo. Dá a entender ainda que essa imparcialidade e essa insuficiência tendem a ser superadas historicamente com o progresso do conhecimento no decorrer do tempo, já que "até mesmo um conhecimento incompleto das coisas pode satisfazer por algum tempo ao progresso social".

Sem explicitar a relação com Pascal, Marx no entanto capta em Proudhon a combinação em certa medida pascaliana de induções empíricas, reduções ao absurdo e consideração de verdades parciais a se integrarem em visões mais abrangentes. O que Marx não capta de pascaliano em Proudhon é o perspectivismo, explicitamente assumido por ele três anos depois, na obra Da criação da ordem na humanidade ou Princípios de organização política (de 1843, portanto anterior à publicação de A sagrada família por Marx e Engels). O que não capta também, em conexão a isso, é que Proudhon, assim como Pascal, considera o conhecimento sempre irremediavelmente limitado a perspectivas, pontos de vista particulares, que não são "mais verdadeiros" por serem mais abrangentes, uma vez que a visão completa do todo é humanamente impossível. São apenas mais defensáveis no debate.

 

 

Na página 38 da edição utilizada nesta resenha há uma passagem muito boa em que Marx critica E. Bauer por fazer seu "Proudhon crítico" ver luta entre ideias onde o Proudhon real vê luta que tem  à disposição ideias tornadas indispensáveis. Mas é importante notar que Marx não só trata o falso Proudhon de E. Bauer como "Proudhon crítico", mas passa a tratar o real como "Proudhon acrítico" (pag. 38). Esses jogos de palavras podem parecer uma retórica inocente, brincando com a noção baueriana de "crítica".  Mas não são: têm implicações para a maneira como o leitor tente a compreender Proudhon, se não tiver conhecimento anterior de sua teoria. Implicações qie, como se verá mais adiante, distorcem a imagem que se forma de Proudhon para o leitor.

 

Na pág. 39 há mais uma bela passagem de Marx, mostrando acertadamente a propensão materialista de Proudhon, onde E. Bauer, equivocado, vê um essencialismo platonizante. No entanto, há em seguida uma passagem esquisita. O Proudhon de Bauer vê uma realidade que "fundamenta" cada equívoco teórico, de modo que é possível buscar nos próprios erros dos livros dos políticos a verdade sendo levada ao mundo. Marx corrige bauer dizendo que, segundo Proudhon, tem que ser possível achar uma verdade nos livros deles porque cada equívoco "tem por objeto" uma verdadeira realidade. Na visão de Marx, os equívocos seriam parcialidades em relação a esse objeto que é a realidade completa. A realidade parcial trazida nesses livros seria inconsciente da parte dos autores. Mas Marx, aqui, está hegelianizando Proudhon, desta vez com menos cuidado do que o que tomou em uma passagem anterior, que na verdade tinha como referência Pascal.

O hegelianismo vai se insinuando cada vez mais a cada passagem em que sua presença vai sendo sugerida por Marx - que nunca chega a declarar explicitamente esse hegelianismo em Proudhon, mas o faz aparecer cada vez mais nitidamente.

Marx, em conformidade com a linha hegeliana, trabalha com a ideia de que a realidade seria um todo sintético captado cada vez mais por essas visões parciais das teorias, ainda que inconscientemente. E faz Proudhon concordar com isto. Não declara que haveria uma herança hegeliana em Proudhon provavelmente para reforçar sua ideia de que a fonte primordial do socialista francês é a própria realidade vivida por ele, e não alguma outra teoria. Mas por que herdar algo de uma teoria seria necessariamente contraditório com ter a realidade vivida como fonte? Uma teoria não pode ajudar a formular de uma maneira particular o que já encontramos na vida? Para aproximar Proudhon do hegelianismo, Marx deixa de lado a compreensão perspectivista que Proudhon tem da realidade, como se verá mais adiante. Compreensão hertada em certa medida de Pascal, e segundo a qual a mesma realidade é captável de diversos pontos de vista igualmente válidos e corretos.

 

Os adjetivos que Marx vai acrescentando ao nome Proudhon, supostamente para exprimir o Proudhon real em oposição ao Proudhon "crítico" de E. Bauer, vão se firmando cada vez mais, e construindo por sua vez uma imagem de Proudhon que de fato não é a de Bauer, mas a de Marx, e não a "real". A partir da pág. 40, Marx trata o Proudhon sopostamente real ora como "Proudhon acrítico", ora como "Proudhon massivo". Há nesta imagem de Proudhon por Marx um certo tom irracionalista e romântico, que não condiz de maneira nenhuma com Prooudhon, que em inúmeros textos se opõe explicitamente à tendência irracionalista do romantismo.

Por outro lado, se esse irracionalismo romântico (por exemplo do filósofo Schelling) foi combatido na Alemanha pelo racionalismo idealista de Hegel, não significa que o combate de Proudhon a isto seja feito também a partir do idealismo, menos ainda do idealismo de Hegel. Marx, aqui, ao menos tem o cuidado de (acertadamente) mostrar que a filosofia de Proudhon não é idealista - embora já não tenha esse cuidado mais tarde, no livro A miséria da filosofia.

 

Marx procura corrige o que E. Bauer traduz numa passagem de Proudhon acerca de Roma e do direito romano, acusando o tradutor de fazer Proudhon parecer menos realista e mais tendente ao misticismo. Corrige em seguida outras distorções de Bauer que fazem Proudhon parecer menos crítico em relação à Revolução Francesa. Concluindo a pág. 42, finalmente, Marx declara que E. Bauer não entendeu o propósito de Proudhon com essa sua "dedução histórica", que seria o de levantar prova "das mudanças operadas nas concepções de direito e a prova da contínua realização da justiça através da negação do direito histórico e positivo". Aqui, em relação ao processo como a justiça se realiza, a hegelianização de Proudhon por parte de Marx já começa a se tornar evidente, pois ele começa a introduzir noções características da dialética hegeliana para explicar "o proprósito" de Proudhon.

Pouco mais adiante, na pág. 43, o que era quase evidente se torna plenamente evidente, quando Marx diz que Proudhon, sem que Edgar Bauer o acompanhe nissno, descobriu "a lei da realização de um princípio através de sua negação" - o que praticamente descreve o aquilo que, para os jovens hegelianos, era quase sempre o mais importante na dialética de Hegel. E Marx prossegue assim: "Sob essa formulação consciente, esse pensamento foi uma verdadeira revelação para os franceses".

Aqui, é preciso nos determos em uma breve avaliação do que Marx está fazendo: ele não somente hegelianiza Proudhon, como mostra ter uma visão dogmática desse princípio hegeliano que enxerga nele. Marx trata esse princípio dialético como se fosse algo real apenas "descoberto" por Proudhon (e pelos franceses), e não uma formulação teórica de Hegel.

 

 

 

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