Crítica crítica: Proudhon

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Marx, Karl / 2003

texto selecionado de livro

Diálogos e debates
em torno da Sagrada Família de Marx

por João Borba (2013)

 

sumário

O idealismo alemão e os jovens hegelianos

Qual é o contexto em que foi escrito o texto sobre Proudhon no livro A sagrada família? | Quem são Fichte e Feuerbach?


 

O idealismo alemão e os jovens hegelianos

 

Qual é o contexto em que foi escrito o texto sobre Proudhon
no livro A sagrada família?

O texto de Karl Marx sobre o socialista francês Pierre-Joseph Proudhon no capítulo IV de A sagrada família é uma crítica à tradução e aos comentários que o jovem hegeliano Edgar Bauer faz do livro O que é a propriedade?, escrito pelo mesmo Proudhon em 1840. A primeira edição de A sagrada família é de 1845, mas o livro foi escrito por Marx e Engels em 1844. No grupo dos jovens hegelianos, do qual Marx faz parte, Edgar Bauer é um dos mais radicais e dos mais famosos. Os jovens hegelianos são filósofos políticos de esquerda que procuram defender a classe trabalhadora contra os sofrimentos que lhe são impostos pelo capitalismo, adaptando para esse fim a filosofia de Hegel — que juntamente com Fichte e Schelling forma o mais famoso trio de pensadores do idealismo alemão na filosofia.

Entre os nomes hoje famosos que fazem parte do grupo juntamente com Marx, encontramos o materialista Ludwig Feuerbach, os anarquistas Max Stirner e Mikhail Bakunin (futuros adversários de Marx), e o Friederich Engels, que acabaria se tornando colega inseparável de Marx, e que escreveu junto com ele o livro A sagrada família. O livro é composto por textos assinados separadamente, alguns por Engels, outros por Marx. O texto examinado nesta resenha é apenas um tópico do capítulo IV de A sagrada família, e está assinado somente por Marx.

Nessa adaptação da filosofia de Hegel, os jovens hegelianos se dividem quanto ao caminho a seguir. De um lado, Edgar Bauer, seu irmão Bruno Bauer e outros tendem a se reaproximar de uma filosofia radicalmente idealista anterior à de Hegel: a filosofia de Fichte (que foi mestre e depois amigo do próprio Hegel). De outro, Marx, Engels e outros seguem uma linha inaugurada por Feuerbach, que procurou inverter a dialética (método e visão de mundo histórica desenvolvidos por Hegel a partir de Fichte) voltando-a contra o idealismo hegeliano, e no sentido de um materialismo seunsualista (que valoriza as sensações físicas).

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Quem são Fichte e Feuerbach?

Fichte é um filósofo alemão de origem pobre e políticamente radical, defensor da Revolução Francesa. Mergulhou nos estudos desde muito jovem e a certa altura se ligou ao famosíssimo Kant, procurando levar mais longe a filosofia desse mestre. Construiu um idealismo que supervaloriza a consciência, a imaginação e a ação. Valoriza também o conflito entre pessoas e entre grupos e a luta ética pela integração dos pólos em conflito numa mesma unidade maior. O hegelianismo esquerdista de Edgar Bauer é bastante influenciado por esse retorno a Fichte. É fortemente idealista e acentua acima de tudo a valorização da consciência, e juntamente com ela, do exercício da crítica.

Feuerbach pode ser considerado ele próprio um dos membros do grupo jovem hegeliano. Ele e um hegeliano chamado Strauss inauguraram essa linha de filosofia política combatendo a teologia, a ideia de deus e a religiosidade cristã em geral, que direta ou indiretamente estavam entranhadas no pensamento original de Hegel.

Na Europa da época, combater politicamente a Igreja significava combater a base de sustentação das ideias que davam fundamento para a forma mais conservadora de governo de então, a monarquia absoluta de direito divino. A Revolução Francesa havia derrubado essa forma de governo, mas as forças conservadoras haviam se reconstruído sob outras formas a partir de Napoleão Bonaparte, fortalecendo o capitalismo e derrubando muitas das consquistas que a população mais pobre havia atingido nessa revolução.

Os pensadores políticos de esquerda de outros países (por exemplo a Alemanha), defendendo o aspecto mais radical Revolução Francesa e lutando ora contra o capitalismo, ora contra o retorno da monarquia de direito divino, ora contra ambos, tendiam à crítica de toda conexão do pensamento político às ideias da Igreja e às ideias dos economistas políticos que justificavam o capitalismo e o domínio dos grandes proprietários sobre o resto da sociedade.

Na Alemanha, entre os jovens hegelianos (a maioria deles tendendo ao ateísmo), os que eram seguidores de Feuerbach, como Marx, combatiam o próprio idealismo como uma espécie de contaminação indireta da filosofia pelas ideias da Igreja, e contrapunham a ele o materialismo. Os que procuravam recuperar em Hegel algo do pensamento de Fichte, como os irmãos Bauer, tendiam a valorizar a consciência crítica lançando-a contra qualquer vestígio de pensamento religioso na filosofia política. Mas a partir de A sagrada família vemos Marx dirigir essa crítica materialista, influenciada por Feuerbach, contra os próprios Bauer e outros dessa linha criticista dos jovens hegelianos.

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