Crítica crítica: Proudhon

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Marx, Karl / 2003

texto selecionado de livro

Informações bibliográficas

anarquismo, comunismo, crítica, dialética, Edgar Bauer, jovens hegelianos, Marx, massas, política, Projeto Quem, Proudhon, socialismo


Sumário

Exemplo da linguagem usada no livro

Marx acusa Edgar Bauer de desvalorizar a ousadia e força de caráter de Proudhon

Principais utilizações do texto

O texto sobre Proudhon em A sagrada família costuma ser usado apenas academicamente ou tem uso político também? | Os usos que se costuma fazer do texto sobre Proudhon que aparece em A sagrada família são bem fundamentados? | O livro A sagrada família passa uma imagem fiel de Proudhon? | Em que medida o livro A sagrada família é recomendável para quem quer começar a entender o pensamento de Proudhon? | De que modo exatamente o texto de Marx sobre Proudhon em A sagrada família se desvia do que Proudhon realmente diz? | De que modo a posição de Proudhon contra a concepção do proletariado como massa una já se inscreve no que ele diz em O que é a propriedade? | No livro A miséria da filosofia Marx esclarece melhor o pensamento de Proudhon do que no livro A sagrada família?


 

 

Exemplo da linguagem usada no livro

 

Marx acusa Edgar Bauer
de desvalorizar a ousadia e força de caráter de Proudhon

O escrito de Proudhon é submetido, pois, a um ataque duplo por parte do senhor Edgar, um deles implícito, em sua tradução caracterizadora, o outro explícito, em suas glosas críticas marginais. E nós haveremos de demonstrar que o senhor Edgar é ainda mais destrutivo quando traduz do que quando glosa criticamente.

(...)

O Proudhon caracterizado  se apresenta tão cheio de humildade, conforme aliás convém à massa, e subordina aquilo que quer àquilo que não quer. Ele não ousa querer dar um sistema do novo; ele quer menos, ele inclusive não quer nada mais do que a abolição do privilégio etc. Além dessa subordinação  crítica da vontade, que ele tem, à vontade, que ele não tem, suas primeiras palavras já se caracterizam por uma falta característica de lógica. O escritor que abre seu livro  proclamando não querer oferecer um sistema do novo por certo dirá o que ele quer oferecer: seja algo velho provido de sistema, seja algo novo desprovido de sistema. Todavia o Proudhon caracterizado, que não quer oferecer um sistema do novo, quererá ele oferecer a abolição dos privilégios? Não. Ele a quer.

O Proudhon real diz: "Je ne fais pas de système; je demande la fin du privbilège" etc.; quer dizer, o Proudhon real esclarece que não segue nenhum objetivo abstratamente científico, mas que impõe, de imediato, exigências práticas à sociedade. e a exigência que ele impõe não é arbitrária. Ela é motivada e justificada por todo o desenvolvimento que ele oferece, ela é o resumo desse desenvolvimento, pois "Justice, rien que justice; tel est le resumé de mon discours"


MARX, Karl. Crítica crítica na condição de quietude do conhecer: 4 - Proudhon.
In MARX, Karl; ENGELS, F. A Sagrada Família, cap. IV.
São Paulo: Boitempo, 2003, p. 34,35.

 

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Principais utilizações

 

O texto sobre Proudhon em A sagrada família costuma ser usado
apenas academicamente ou tem uso político também?

Este texto costuma ter um uso acadêmico, como apoio para certos estudos, e um uso político, como forma de justificar certos posicionamentos dentro do movimento socialista.

O uso acadêmico é feito principalmente por marxistas que querem entender a formação teórica do autor, Karl Marx, porque é nos livros A sagrada família (no qual se encontra este texto) e A ideologia alemã que Marx se afasta do grupo dos jovens hegelianos — do qual fazia parte — para começar uma nova fase de sua produção. Ele se afasta dos jovens hegelianos primeiramente defendendo o socialista francês Proudhon contra eles (precisamente neste texto do capítulo IV de A sagrada família). E depois finaliza sua passagem para a nova fase de sua produção voltando-se também contra Proudhon, no livro A miséria da filosofia, e acusando no francês alguns dos mesmos defeitos que antes criticava nos jovens hegelianos.

O uso político é feito, por um lado, por um grande contingente de marxistas de pouca autocrítica que — pretendendo seguir as palavras de Marx a todo custo e sem lerem Proudhon com o mesmo cuidado e dedicação — procuram desqualificar o pensamento desse anarquista francês (e com ele todo o anarquismo) mostrando uma contradição entre o que ele dizia na juventude (quando Marx ainda o defendia) e o que passou a dizer depois (quando perdeu a simpatia de Marx). 

A ideia dos marxistas que fazem uso político desse texto é a de que Proudhon teria se deixado contaminar pela mentalidade pequeno-burguesa e traído o seu próprio pensamento originalmente proletário (e às vezes é passada de modo a insinuar que o anarquismo seria todo ele contaminado por essa mentalidade pequeno-burguesa). Por outro lado, há alguns anarquistas mal informados que se utilizam politicamente do mesmo texto para acusarem Marx de contradição, já que mais tarde ele passa a combater o mesmo Proudhon que antes defendia.

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Os usos que se costuma fazer do texto sobre Proudhon
que aparece em A sagrada família são bem fundamentados?

Os marxistas que, em grande número, fazem uso político desse texto (que toma como referência o livro de Proudhon O que é a propriedade? ) acusam o socialista francês de mudar seu discurso e se tornar ou se revelar pequeno-burguês nas obras posteriores.

Os poucos anarquistas que recorrem a esse texto de A sagrada família acusam Marx de mudar seu discurso e se tornar ou se revelar mais autoritário do que defensor do proletariado em textos posteriores, e de passar a criticar Proudhon em falso (o que é verdade), por inveja de sua influência nos meios operários — o que, se for verdade, está longe de ser toda a verdade, pois há por detrás desse conflito uma divergência bem mais profunda, na própria concepção do processo de elevação do proletariado ao papel de agente revolucionário coletivo. A divergência está presente já em A sagrada família, e diz respeito sobretudo ao conceito de massa (cf. esclarecimento na resposta à última questão desta página).

Os dois usos políticos se apoiam em pesquisa de baixa qualidade.

E o uso acadêmico, infelizmente, também. Porque é parcial, atento somente ao entendimento de Marx, sem real confronto seja com Proudhon, seja com Edgar Bauer. A evolução de um autor não pode ser corretamente compreendida fora do contexto dos debates em que está inserido, ou (como esses leitores costumam fazer) com base apenas na visão que esse autor tem do debate, sem compreender o debate real, enquanto parte de uma realidade concreta maior em que o autor está inserido.

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O livro A sagrada família passa uma imagem fiel de Proudhon?

A leitura atenta desse texto de defesa de Proudhon no capítulo IV de A sagrada família, cotejada com uma leitura igualmente atenta da produção intelectual de Proudhon, revela que o pensamento do anarquista francês de fato não condiz com a imagem que Edgar Bauer (segundo Marx) faz dele, de modo que se a leitura que Marx faz de Bauer for correta, ele está também correto ao defender Proudhon contra essa interpretação distorcida. Por outro lado, o Proudhon que o próprio Marx apresenta, ao defendê-lo contra Edgar Bauer, também não corresponde exatamente aos pensamentos de Proudhon. Marx criou uma imagem de Proudhon (correta em alguns pontos, falsa em muitos outros) para então defendê-la.

E quando ataca Proudhon mais tarde, no livro A miséria da filosofia, opera distorções ainda maiores, criando um Proudhon ainda mais falso, na verdade quase completamente falso, quase pura difamação. Entretanto, se mantém coerente com seus pontos de vista em A sagrada família a respeito do que deveria ser, segundo ele, um pensamento proletário e revolucionário — ele julga Proudhon a partir dessa sua expectativa pré-concebida, à qual o pensamento proletário e revolucionário real de Proudhon de fato não corresponde.

Proudhon, por sua vez, também não mudou em direção a uma mentalidade pequeno-burguesa, nem se revelou pequeno-burguês, como pretendem os marxistas — a não sei para quem estreite sua visão do que seria a revolução proletária de modo a acolher apenas a expectativa de Marx, excluindo todo o resto da história do pensamento operário e das expectativas que nele foram se exprimindo. Proudhon mudou muito, sim, ao longo de sua vida (assim como Marx), mas logo no início, a partir de O que é a propriedade? (o livro elogiado por Marx) jamais se afastou da defesa radical de uma revolução proletária, nem atenuou seu discurso em relação a isso — engano no qual até mesmo alguns anarquistas chegam a cair. Apenas não corresponde (nem jamais pretendeu corresponder) ao que Marx julgava que deveria ser o perfil de desenvolvimento dessa revolução proletária. Suas estratégias são divergentes e até mesmo incompatíveis.

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Em que medida o livro A sagrada família é recomendável para quem quer
começar a entender o pensamento de Proudhon?

Nenhum dos dois livros de Marx, nem A sagrada família (em cujo quarto capítulo se encontra o texto aqui examinado) nem A miséria da filosofia, pode ser seriamente recomendado por um professor com o mínimo de critério como bibliografia para quem queira se introduzir no pensamento de Proudhon. Nesse sentido, seriam uma péssima recomendação.

Depois de um cuidadoso estudo inicial das obras do próprio Proudhon, e do sentido geral que ele dá ao conjunto de sua produção, esse texto do capítulo 4 de A sagrada família poderia então ser recomendado como leitura complementar — e de segundo plano entre as indicações complementares, apesar de ser um texto inteligente e de leitura interessante. Mas isso somente com a recomendação de que se examinassem antes, com muito cuidado, os conceitos que aparecem aí e que não correspondem aos de Proudhon como o texto pretende. Por exemplo mostrando os argumentos explícitos de Proudhon contra a própria noção de "massa" à qual Marx insiste em ligá-lo, como se as classes exploradas pelo capitalismo fossem natural e necessariamente caracterizáveis como "massa".

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De que modo exatamente o texto de Marx sobre Proudhon
em A sagrada família se desvia do que Proudhon realmente diz?

Para tentar aprender algo sobre Proudhon a partir desse texto de Marx é preciso ter antes uma clara noção dos pontos em que o texto se desvia do correto entendimento de Proudhon. Não é preciso esforço interpretativo para detecar isso, porque os pontos de desvio se tornam evidentes em uma leitura minimamente atenta.

Indicar a leitura de um texto sobre Proudhon como o que aparece em A sagrada família só seria aceitável, para sermos exatos, se a indicação acompanhasse, por exemplo, e com toda clareza, os argumentos explícitos colocados por Proudhon no sentido de que a união do proletariado deveria ser feita com base no debate constante e acolhendo as divergências internas — nunca segundo uma concepção de "massa" (por uma questão de educação política das classes trabalhadoras, em vista de sua autonomia de pensamento inclusive). Marx insiste, ao longo do texto, em projetar sobre Proudhon a imagem do portavoz de uma massa de trabalhadores, e inclusive uma massa acrítica — em um jogo de palavras que engloba a a postura assumida por Edgar Bauer e chamada por ele de "Crítica crítica".

Proudhon de modo algum condiz com a "Critica crítica" de E. Bauer, mas também de modo algum deixa de ser crítico. A própria racionalidade crítica é entendida por Proudhon como algo que se dá objetivamente entre os trabalhadores, na prática, por meio das divergências internas. Divergências que inclusive não se manifestam apenas na forma de discurso, mas na ação, de modo que seria preciso encontrar estratégias de ação capazes de acolher em uma mesma direção resultante os discursos e sentidos de ação divergentes inscritos nessa direção.

 Seria preciso também mostrar a íntima e perfeitamente coerente conexão, que de fato existe e não é difícil de detectar, entre esse posicionamento pluralista, evidente em diversas de suas obras, e aquilo que já se anuncia em O que é a propriedade? (obra à qual o texto de Edgar Bauer, e por tabela o de Marx, se refere) — pois o autor deste livro não é de modo algum, como pretende Marx, um jovem comunista emergindo sua voz de uma massa (conceito que a sugere una, indiferenciada) de gente para defender essa massa, e que depois se tornou anarquista e pluralista. É desde já, já de saída, desde esse livro de juventude, anarquista e pluralista, e não vê, jamais viu, o grupo do qual faz parte — o proletariado — como massa, mas como uma rede de pessoas e subgrupos com interesses comuns e também com (boas, saudáveis) divergências, que não devem ser escamoteadas.

A crítica proudhoniana da noção de que o proletariado seria ou mesmo que ele deveria tornar-se uma massa una está inscrita implicitamente em duas noções já presentes em O que é a propriedade? — e depois desenvolvidas mais a fundo em Da criação da ordem na humanidade ou Princípios de organização política (livro publicado um ano antes de Marx e Engels publicarem A sagrada família, e que Marx aliás chegou a ter em mãos e comentar).

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De que modo a posição de Proudhon contra a concepção do proletariado
como massa una já se inscreve no que ele diz em O que é a propriedade?

Em quais noções desse livro se vê emergir esse posicionamento de Proudhon?

Primeiro: na noção de que a soberania popular é apenas uma reforma progressista da soberania monárquica, e portanto, não é ainda uma noção revolucionária, pois para revolucionar seria preciso ir além e derrubar na prática o próprio princípio de soberania (mediante uma organização pluralista e de autogerenciamento de conflitos, segundo se depreende depois, das demais obras de Proudhon). Segundo: na noção de que há uma relativa independência de qualquer coletividade de trabalhadores em relação aos indivíduos que a formam... e de que esse ente abstrato (a coletividade enquanto ente independente) não é algo puramente mental, não existe exclusivamente no pensamento de quem examina a questão, mas na realidade prática mesmo — porque essa abstração se reifica (para usarmos um termo de Marx), se torna real e manifesta na prática mediante a unidade da força coletiva excedente (com resultados inclusive mensuráveis) que emerge da cooperação sinérgica dos trabalhadores.

Dito isto, perceba-se que está aberto o caminho de Proudhon, enquanto porta-voz dos trabalhadores, também para a autocrítica da própria classe trabalhadora — coisa que Marx não parece aceitar muito bem, como se para defender a classe trabalhadora fosse necessário considerá-la acrítica, e qualquer autocrítica dos trabalhadores por um portavoz, como Proudhon, significasse alguma espécie de traição da classe por parte dele. E de fato, nas obras seguintes (e em termos ainda pouco explícitos, porque ainda abstratos, já em Da criação da ordem), essa força coletiva una se apresenta para Proudhon como tendente ao absoluto, e por isso mesmo como um risco ao mesmo tempo que uma força. Mas isso não impede Proudhon de defender que os trabalhadores sigam em frente com ela, apenas precavendo-se contra os riscos. Ao contrário do que Marx faz parecer, esse alerta de Proudhon não reduz em absolutamente nada a radicalidade de seu posicionamento: pelo contrário, tais precauções não moderariam a força trabalhadora, mas a tornariam mais autônoma e autodirecionada.

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Se não há nenhuma moderação dos posicionamentos iniciais de Proudhon, então por que precauções dos trabalhadores contra sua própria força? Por que ela seria um risco ao mesmo tempo que uma força?

Porque quando essa força coletiva se sobrepõe aos indivíduos que a compõem dirigindo seu poder à submissão dos mesmos, torna-se perniciosa para a autonomia dos próprios trabalhadores: quando isso ocorre, os próprios trabalhadores, enquanto classe una e massiva alienada de suas partes, acabam por escravizarem a si mesmos enquanto indivíduos e grupos autônomos dentro dessa massa. Torna-se inclusive mais fácil a emergência de alguma liderança autoritária para impor-se aos trabalhadores, fazendo-os vítimas de um autoritarismo inicialmente gerado de sua própria força, mas que alienando-se deles junto a essa força, acabaria por tornar-se uma liderança externa, impondo-se de fora, e justificando-se com base em sua conexão com essa força (força na verdade já alienada de suas partes, isto é, de suas fontes originais).

Proudhon está refletindo individualmente contra as tendências dos trabalhadores quando pensa assim? Não: este caso, especificamente, está refletindo algo já presente no modo como os trabalhadores franceses de Lyon (aos quais o próprio Marx elogia a certa altura nas páginas finais do texto aqui comentado) lutavam por seus interesses. Leia-se a respeito o excelente livro de Pierre Ansart, El nacimiento del anarquismo.

Desta autocrítica de Proudhon enquanto trabalhador emerge a valorização do que mais tarde ele irá chamar de razão coletiva, inscrita objetivamente nas divergências entre partes (subgrupos na classe trabalhadora) quando se criticam mutuamente em constante debate sem romperem a unidade entre elas. Isto, é, sem romperem a unidade de sua força coletiva, mas controlando-a, direcionando-a, ao invés de se deixarem arrastar cegamente por ela.

Eis o que Marx não enxergou — ou mais precisamente não quis ver, porque não aceitou — em Proudhon, mesmo neste livro em que o elogia e defende.

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No livro A miséria da filosofia Marx esclarece melhor o pensamento de Proudhon do que no livro A sagrada família?

Para o entendimento correto de Proudhon, o livro A sagrada família tem as deficiencias já apontadas.

Quanto ao livro A miséria da filosofia, escrito por Marx mais tarde, nem mesmo como complemento, depois de uma leitura atenta do próprio Proudhon, passa a ter algo a oferecer de útil nesse sentido. Se o que se pretende é o correto entendimento da teoria proudhoniana, a imagem que A miséria da filosofia passa dela está distante demais da realidade para ter alguma serventia.

Em suma: esses dois livros, a princípio, são recomendáveis apenas para o estudo das mudanças de fase no pensamento do próprio Marx — tal como de fato têm sido utilizados. Mas mesmo isso deveria ser feito com maior cuidado e com algumas ressalvas, visto que oferecem um quadro demasiado distorcido e parcial dos debates reais em que Marx esteve envolvido. Quanto a Proudhon, o texto do capítulo IV de A sagrada família de Marx (que é o texto em foco nesta página) pode oferecer talvez alguma utilidade, mas conforme já esclarecido, exige conhecimentos prévios das ideias de Proudhon e precisa ser lido com muito senso crítico, porque apresenta distorções graves de interpretação.

O outro livro de Marx, então — A miséria da filosofia —, embora seja o mais famoso dos dois, e marque uma virada de fase na teoria do autor, na verdade é, basicamente, inútil em relação a Proudhon. Serviria para entender Marx, que por sua vez participa dos debates socialistas em que Proudhon se inseriu. Mas quanto a isto, o próprio texto de A sagrada família já oferece algo melhor e mais completo, servindo inclusive como uma razoável introdução às ideias de Marx.

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