Arte & técnica

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Mumford, Lewis / 1960

livro

Breve apresentação

 

Antes de qualquer coisa, é importante, para a correta avaliação desta obra de Munford, notar aqui que foi publicada originalmente em 1952, portanto antes do Movimento de 68 — embora já prenuncie alguns dos posicionamentos presentes nessa grande mobilização estudantil internacional de contracultura. E notar também que nesta época, ainda não se conhecia a Internet e não se tinha a noção hoje difundida de "programas", "softwares", em que o elemento simbólico está fortemente presente e aliado muito mais à automatização do que propriamente à arte...

Mesmo aqui, no entanto, a obra de Mumford permite avaliar o quanto essas novas tecnologias, que na época ainda não estavam popularmente presentes, combinam melhor ou pior os elementos artísticos e funcionais, integrando-os e equilibrando-os ou perdendo-se em exageros de um lado ou de outro. A leitura tenderia a despertar muitas reflexões em um programador de computadores, por exemplo.

 

I.

O livro foi formado a partir da transcrição de seis conferências de Lewis Mumford sobre as relações entre arte e técnica no mundo contemporâneo. Os títulos dos capítulos são os títulos de cada uma das seis conferências:

  1. A arte e o símbolo
  2. O instrumento e o objeto
  3. Do artesanato à arte da máquina
  4. Estandardização, reprodução e escolha
  5. Símbolo e função em arquitetura
  6. Arte, técnica e integração cultural

 O livro basicamente apresenta uma oposição entre arte e técnica, e se apóia na análise histórica de diversos momentos das relações entre essas duas coisas na vida humana, desde a pré-história até o século XX, para mostrar que vivemos oscilando entre situações de equilíbrio e situações de desequilíbrio entre os valores culturalmente atribuídos a cada uma delas.

Segundo Mumford, o desenvolvimento humano no mundo começou por uma tendência cada vez mais exagerada no sentido da valorização do elemento artístico nas ações — o que levou à ineficácia do pensamento mítico e da magia, cada vez mais perdidos na imaginação e na falta de senso de realidade. Depois se desenvolveu a técnica, com base na observação dos objetos materiais ao nosso redor e na mecanização das ações a fim de lidar mais eficazmente com eles. E a partir de então, entramos em oscilações entre a supervalorização de uma dessas coisas em detrimento da outra ou vice-versa. 

Mumford avalia que os melhores momentos da humanidade foram aqueles em que arte e técnica se aproximaram do equilíbrio e de uma boa integração entre ambos — como por exemplo no superdesenvolvimento da cultura artesanal, nos primórdios do capitalismo.

Avalia também que o desenvolvimento do capitalismo foi levando crescentemente, depois disso, a uma supervalorização da técnica que, no decorrer do século XIX, além de conduzir a regimes totalitários e guerras de dimensões até então inimagináveis, foi chegando ao extremos de arrastar a arte para a marginalidade, a ponto de retirá-la da vida diária, transformá-la em meros enfeites ou objetos de lazer de valor secundário, ou submetê-la quase totalmente às referências e critérios do capitalismo, da automatização e da tecnicidade (como no marketing), em última análise ameaçando as atividades artísticas de extinção se não tomarmos atitude em sentido contrário. De modo que ele próprio adota como posicionamento — historicamente justificado — a defesa da arte contra os excessos de uma vida crescentemente tencicizada, mecanizada e automatizada.

Ao tomar essa posição, Mumford diz estar tomando posição também em favor de uma maior expressão da interioridade e da subjetividade humanas na cultura (o que se dá sobretudo na arte), contra uma tendência generalizada (que a certa altura ele qualifica de "cancerígena") para a pura exterioridade voltada para ações automáticas e funcionais, que desembocam na tecnocracia.

 O próprio conjunto das conferências que formam os capítulos do livro reflete também essa oscilação observada por Mumford entre o predomídio da arte e o da técnica.

Assim, o capítulo A arte e o símbolo lança o alerta e o posicionamento contra a escalada da tecnocracia e em defesa da arte. E o capítulo  O instrumento e o objeto, oscilando para o outro lado, procura fazer justiça aos benefícios conquistados para a humanidade pela técnica.

O capítulo Do artesanato à arte da máquina volta à crítica da técnica, mas ponderadamente, mostrando com mais cuidado não apenas como se foi dando historicamente o desequilíbrio final em favor da técnica, mas também como um pouco de arte permanece sempre inscrito nela (e inclusive Mamford utiliza a palavra "arte" em sentido lato, referindo-se à busca da excelência na mecanização técnica como a prática das "artes mecânicas").

Ele mostra também, por outro lado, como é importante (e até fundamental) a presença da técnica no próprio percurso da produção artística. Com isto, apesar de enraizar a arte fundamentalmente em algo oposto à técnica no espírito humano, mesmo assim coloca a arte como um meio de possível integração e equilírio entre as duas coisas. Contudo também sugere, a partir da história da mecanização na imprensa, a interessantíssima ideia de que as grandes transformações históricas são na verdade produto dos desenvolvimentos humanos no campo da técnica.

No capítulo Estandardização, reprodução e escolha, Mumford se utiliza de dois mitos opostos da antiga Grécia (o mito tecnicista de Prometeu e o mito pró-arte de Orfeu) como metáforas para tratar dessa oposição, mostrando os benefícios e malefícios da mecanização da vida, que se alia também a uma valorização do quantitativo em detrimento do qualitativo.

A certa altura relaciona os benefícios do tecnicismo ao desencadeamento, graças à supervalorização da técnica, de um processo de democratização e propagação da igualdade. Mas por outro lado, alerta que o que se distribui nessa equalização democrática tende a ser de cada vez mais baixa qualidade para a vida e o desenvolvimento humano, pois tende a fazer com que as pessoas percam a seletividade e o senso de valor, de modo a transformar essa equalização democrática em um nivelamento para baixo. Conclui então que é preciso equilibrar esse tecnisicmo democrático com uma certa dose do elemento "aristocrático" presente nas artes, em que há avaliação de qualidade, seletividade e juntamente com isso, mais livre desenvolvimento e expressão da personalidade.

No capítulo Símbolo e função em arquitetura, Mumford procura mostrar a arquitetura como uma atividade em que o equilíbrio entre arte e técnica encontra boas condições de desenvolvimento, e fazendo a crítica de uma arquitetura desequilibrada num sentido ou no outro, acaba por valorizar como exemplo desse equilíbrio o conjunto da produção de Frank Lloyd Wright — que teria se desenvolvido cada vez mais nessa direção.

 O último capítulo, Arte, técnica e integração cultural, faz uma espécie de síntese das esperanças do autor (com otimismo) no sentido de uma futura ampliação das condições de integração e equilíbrio entre arte e técnica. Mumford aponta para isto a presença de tendências já vigentes nessa direção, impulsionadas pelas novas gerações.

 

II.

O conteúdo geral do livro é resumidamente o seguinte: Mumford começa lançando um alerta contra a desumanização da vida humana no mundo contemporâneo, devido à supervalorização dos aspectos técnicos da ação e do trabalho humano em detrimento dos aspectos humanamente mais expressivos, voltados para os valores e sentimentos. A partir desse alerta, Mumford examina as decorrências especialmente perniciosas disto para a arte. 

Passa então a definir a arte, e a define com base na relação dela com a capacidade simbólica do ser humano, isto é, a capacidade humana de servir-se da técnica para produzir símbolos que exprimam sua personalidade e suas experiências pessoais. E define a técnica — em oposição à arte — como o processo de automatização das ações humanas minimizando toda e qualquer expressão da personalidade para conseguir resultados mais realistas e eficazes, e maior poder sobre a natureza. Mumford nos mostra como esse processo se desenvolve até que essa ação, despersonalizada, desumanizada e automatizada, possa ser finalmente transferida dos seres humanos para máquinas.

No processo, os seres humanos passam a viver e agir eles próprios mecanicamente e automaticamente, como máquinas. E aonde já não são necessários, porque sua ação pode ser efetivamente substituída pela das máquinas, se torna um usuário passivo do que essas máquinas oferecem, e vai deixando sua vida ser dominada por elas, ao invés de dominá-las em favor de sua vida. Com a mecanização, tudo o que é subjetivo e qualitativo tende a existir apenas em função do que é objetivo e quantitativo, como por exemplo quantias de valor em dinheiro.

A vida humana se torna vazia, sem sentimento, sem liberdade e sem sentido. A arte, quando não é absorvida ela própria por esse processo passando a ter uma função objetiva com resultados mensuráveis, quantificáveis (como por exemplo no marketing) acaba sendo excluída do convívio cotidiano da maioria das pessoas, limitando-se a guetos como museus, e a momentos isolados (de entretenimento) da vida. Refletindo em sua arte esse estado de coisas doentio, os próprios artistas reagem a isto na maioria das vezes de modo também doentio, refletindo caricaturalmente em suas obras esse processo, essa ausência de sentido, esse vazio desesperador, ou então tornando sua arte chocante e agressiva.

Essa arte que reage doentiamente a tudo isso tende também a demonstrar traços de sensacionalismo, porque os artistas sentem a necessidade de "forçar" que as atenções do público se voltem para suas obras, justamente porque, com a influência generalizada da mecanização da vida, é um público cada vez mais emocionalmente apático, dessensibilizado e desinteressado de assuntos humanos e artísticos.  

Desse processo de automatização das ações, resultam instrumentos técnicos e objetos que, por sua vez, realimentam o processo, porque se mostram cada vez mais purramente funcionais e menos capazes de exprimir o que é personalizado e humano.

A própria personalização superficial dos instrumentos e objetos por meio de adornos e enfeites colocados neles pelos usuários, ou por meio do design industrial, é mais um sintoma desse desequilíbrio em favor do funcional.

No caso do design insdustrial, apesar de menos evidente, a estética que ele inscreve nesses instrumentos e objetos — por exemplo fazendo com que o radiador de um carro pareça a boca de um tubarão — é também um mero adereço ou enfeite superficial, pois não tem nada de necessário e pode ser substituído por um outro design de estilo diferente em função do interesse do mercado nas variações do modismo de ocasião. O radiador do carro (ou o elemento funcional e mecânico, seja ele qual for) continua o mesmo e continua sendo o essencial ali, não importa que imagem esstética se dê a ele. Essa imagem estética se mostra desligada dele e menos essencial, facilmente substituível por uma outra qualquer.

 O verdadeiro valor da mecanização — assim como dos instrumentos e objetos que resultam dela — está muito mais no senso de realidade e na disciplina espiritual que ela proporciona no modo de lidarmos com o mundo real, do que no poder que nos dá sobre a natureza.

Isso porque o processo da mecanização nos ensina que, para conseguirmos esse poder sobre a natureza que ela nos traz, precisamos de um esforço de despersonalização, de um esforço de autoneutralização. Precisamos de um esforço no sentido de anular nossa própria vontade e nossos impulsos criativos por meio de uma disciplina rigorosa de ações precisas e repetitivas, que vão sendo concatenadas umas às outras.

Esse processo nos ensina também a observarmos cuidadosamente os materiais com os quais estamos lidando com essas nossas ações mecânicas (por exemplo a resistência desses materiais) para ajustarmos nossas ações às exigências desses materiais sobre os quais estamos agindo.

Tudo isso é benéfico para nós, para o nosso amadurecimento e desenvolvimento, não apenas pelos resultados em termos da produção tecnológica que conseguimos desse modo, como também em termos espirituais. Mas esses benefícios têm um custo alto, que é o de abrirmos mão de grande parte do nosso impulso criativo e da nossa vontade livre enquanto estamos realizando esses procedimentos mecânicos, ou participando de sua realização pelas máquinas.

Além desse custo, o processo de mecanização tem produzido desde o início instrumentos que oferecem muito mais recursos e possibilidades do que aqueles que nós precisamos (e até mesmo muito mais do que conseguimos) utilizar. Isso nos tem levado a tentarmos utilizar desnecessariamente todos esses recursos, de maneira excessiva e prejudicial para nossas vidas, de modo que ficamos presos à potência e à quantidade dos recursos oferecidos, quase como se tivéssemos a obrigação de utilizar tudo isso ao máximo — Mumford a certa altura coloca com humor o exemplo de um sujeito que, para agradar seus hóspedes, colocava no máximo volume o aparelho de som... e não conseguia aceitar facilmente que um dos hóspedes (o próprio Mumford) pedisse para abaixar o volume: o sujeito argumentava que o aparelho de som era novo e muito potente, e parecia profundamente incomodado com a ideia de desperdiçar toda essa potência sonora.

Presos ao sentimento de que é necessário utilizar ao máximo (e não desperdiçar) todos os recursos que vão sendo disponibilizados pelo processo de mecanização da vida, perdemos (ou melhor, tiramos de nós mesmos) a liberdade de escolher o que queremos utilizar ou não. Perdemos a liberdade que parecíamos ter conquistado com todo esse novo campo de possibilidades (recursos) adquiridos, porque sentimos como que uma obrigação de utilizar tudo em todo o seu potencial, de esgotar as possibilidades oferecidas. Assim, elas deixam de ser possibilidades, e se tornam uma exigência, uma obrigação, uma tarefa a cumprir, imposta pelos instrumentos disponíveis. Nos tornamos instrumentos a serviço da realização dos potenciais de nossos instrumentos tecnológicos.  

Mumford acredita que mudar isto é uma questão apenas de força de vontade, que devemos desenvolver e difundir uma filosofia e uma cultura nessa direção, de contenção e controle diante dos novos recursos tecnológicos possíveis, mantendo sua utilização e seu desenvolvimento nos limites de nossas vontades, necessidades e interesses. As conferências que formam esse levro pretendem ser uma tentativa de contribuição nesse sentido.

 

 

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