Filosofia do ato responsável

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Bakhtin, Mikhail / 2010

rascunhos

breve apresentação de Para uma filosofia do ato responsável

I.

Bakhtin costuma ser conhecido principalmente como um linguista, um estudioso da linguagem, mas os escritos de Para uma filosofia do Ato Responsável, em conjunto com os de O autor e o herói na atividade estética –– que estão ambos entre os seus primeiros, escritos na década de 1920 –– nos mostram muito mais um filósofo do que propriamente um estudioso especializado em questões de linguagem.

O próprio Bakhtin, aliás, parece ter preferido ser compreendido como filósofo (cf. pág. 11 da Introdução de Augusto Ponzio a esta edição). Todo o seu empenho nas décadas seguintes, até sua morte em 1975, estudando a linguagem e a literatura, exige reinterpretação e oferece uma nova compreensão, sob uma nova luz, a partir da consideração desses textos. E de fato, são textos em que Bakhtin parece exprimir seu projeto intelectual, o programa de estudos básico que pretende seguir desenvolvendo ao longo da vida. 

Como Bakhtin se notabilizou por examinar a linguagem e os textos literários a partir de uma perspectiva dialógica –– o texto em cada passagem dialoga com algo assinalando sua diferença em relação a esse algo, e então deve ser compreendido a partir de sua relação com esse algo que não está dito nele, mas subentendido –– entende-se qeu devemos buscar nestes textos filosóficos bakhtinianos da década de 20 os princípios e fundamentos desse modo de leitura dialógico, para o compreendermos melhor.

A tarefa não é fácil.

Como nos informa Carlos Alberto Faraco no posfácio a esta edição do texto:

"O texto é um rascunho; faltavam ao manuscrito as páginas iniciais; não sabemos que título teria (o que recebeu lhe foi dado pelos editores), e há trechos ilegíveis em decorrência das precárias condições em que foi guardado. Quando iniciamos a leitura, o argumento já vai a meio caminho. Mergulhamos numa exposição basicamente conceitual: não há exemplos (afora o poema de Pushkin), não há comentários aplicados a situações concretas que nos auxiliassem a entender o conceitual e as dimencões da filosofia em elaboração. Não há, salvo indicações acidentais (em geral, apenas nomes entre parênteses), maiores referências às fontes (a que enunciados, a que já-ditos o texto responde?). Talvez elas viessem depois, mas o texto acabou por nunca ser retomado para uma eventual edição e ficamos nós, leitores, em boa parte a ver navios.

Sabemos que Bakhtin tinha uma declarada implicância com citações e referências (ele chegou a dizer que elas eram desnecessárias para o leitor competente e inúteis para o não qualificado). Gostava de falar, portanto, para o seu leitor próximo, que, supõe-se, identificava logo as referências não explícitas do texto."

(FARACO, Carlos Alberto. Um posfácio meio impertinente. In BAKHTIN, M. Para uma filosofia do ato Responsável, p.148-14.)

 

As principais noções mobilizadas e articuladas por Bakhtin no conjunto de Para uma filosofia do Ato Responsável, cuidadosamente levantadas na Introdução de Augusto Ponzio para esta edição, são:

1. a existência como um evento

2. a exotopia

3. a singularidade do ato (e do agente)

4. imagem ou configuração

5. validade

6. o dever ou obrigação singular, o que me obriga e só a mim justamente por minha singularidade (em oposição ao imperativo categórico kantiano)

7.  a experiência vivida orientada (retomando o conceito husserliano de intencionalidade, mas reelaborando-o sem a face transcendental que apresentava em Husserl)

8. o pensamento participante, não indiferente

9. a distinção entre o que é dado e o que é dado para ser feito ou alcançado, como tarefa

10 filosofia da vida (em um diverso daquele do vitalismo de Bergson)

11. estrutura arquitetônica do mundo  como evento.

E entre os autores direta ou indiretamente citados por Bakhtin, encontram-se Kant, Hegel, Kierkegaard, Husserl, Rickert, Spengler, bergson, Dilthey, Simmel, Shoppenhauer, Nietzsche, Cohen e Cassirer. 

De um modo geral pode-se dizer, resumindo estes interessantes e importantes rascunhos de Bakhtin, que ele vai articulando esses conceitos e lançando-os criticamente ao que poderíamos considerar, de um modo genérico, como o mundo das indiferenças. E faz isso em defesa do ato enquanto ato único, singular e responsável (no sentido moral, mas também no sentido da responsividade, de que o agente "assina" personalizada e singularmente esse ato, de modo a assumi-lo conscientemente e responder por ele como o único responsável, numa responsabilidade intransferível) –– essa oposição, em conjunto com o lado que Bakhtin escolheu defender, aproxima claramente do existencialismo este dialogista de formação marxista (mas perseguido pelo stalinismo).

Todo o trabalho posterior de Bakhtin em torno da questão do dialogismo, do diálogo que julga inscrito em toda linguagem, parece estar apoiada na noção de que por meio desse diálogo é que se consegue fazer emergir e trazer à presença as tais singularidades únicas (é possível sentir soar aqui uma certa vibração existencialista ao estilo da inspiração de Martin Bubber no tzadik judaico, mas é provavelmente apenas uma coincidência). E buscando a emergência da singularidade no diálogo inscrito em toda linguagem, Bakhtin  parece  encontrar na literatura algo capaz de oferecer condições especialmente favoráveis nesse sentido.

 

II.

O texto parece se dividir em três grandes blocos (a informação é do posfácio escrito por Faraco).

O primeiro bloco é dedicado a uma confrontação com o teoricismo, que envolto em conceitos abstratos e gerais, perde de vista o caráter singular e único do que é vivencial –– de modo que já desde o início está firmada a tendência antiformalista de Bakhtin, segundo Faraco marcado por traços do que provavelmente deve ser uma influência do existencialismo de Kierkegaard. 

A crítica avança também contra as pretenções da arte de representar o mundo efetivamente vivido, porque a arte exige exotopia (situar-se em um topos externo à vida diária) –– um dos conceitos filosoficamente mobilizados por Bakhtin. E finalmente, avança contra o formalismo da ética kantiana do imperativo categórico) e contra o primado da norma na moral. 

Ponzio acentua também o esforço de Bakhtin no sentido de examinar o problema da possibilidade de conhecimento daquilo que é único e singular, visto que o conhecimento, ao menos o científico, parece sempre ater-se aos conceitos universais e às grandes categorias e classificações. Tal questão –– da possibilidade do conhecimento do único e singular –– afetaria a vida de cada um, colocando em jogo a qualidade da vida.

 

III.

O segundo bloco se concentra (ainda segundo o posfácio de Faraco) em "uma fenomenologia do ato responsável, do ato que se realiza no interior da realidade prática vivida".  Aqui, em lugar do formalismo ético kantiano já criticado, Bakhtin fortalece a figura do sujeito moral responsável, apreendendo de Kant (mas sem o referido formalismo normativista) o foco na autonomia ou liberdade desse sujeito moral. 

Destaca-se neste bloco do texto a noção de uma existência sem-álibi, no sentido de que as tomadas de decisão na vida se impõem, e se impõem em face de alternativas que se excluem. De modo que não há justificativa alheia à nossa responsabilidade para cada decisão que tomamos –– para cada ato que realizamos e que, neste sentido, é o que representa uma decisão (pois as decisões não ocorrem puramente em abstrato, em algum campo mental isolado do mundo da ação).  

 "Não tenho álibi na existência: ser na vida significa agir –– eu não posso não agir, eu não posso não ser participante da vida real. E essa obrigação decorre de eu ser único e ocupar um lugar único, irrepetível, insubstituível e impenetrável da parte de um outro.  Sou insubstituível e esse fato me obriga a realizar minha singularidade peculiar: tudo o que pode ser feito por mim não poderá nunca ser feito por ninguém mais, nunca."

(FARACO, Carlos Alberto. In Um posfácio meio impertinente. In BAKHTIN, M. Para uma filosofia do ato Responsável, p. 154)

IV.

Segundo Faraco, Bakhtin atribuiu ao terceiro bloco o número 1, indicando que os outros dois blocos formariam uma Introdução se o texto tivesse sido completado, e a esse terceiro bloco (um provável primeiro capítulo de obra mais extensa) poderia ser dado o título "Arquitetônica do mundo vivido e do ato estético". Neste bloco, Bakhtin resume sua filosofia do ato responsável, e constrói uma visão estética (ou reconstrói de outro modo, depois das críticas já feitas por ele às pretensões da estética), que parece ter servido de base a todos os seus estudos posteriores sobre linguagem e literatura.

Aqui, diz Faraco, Bakhtin parece afirmar que embora esteja entre os "mundos culturalmente abstratos", a estética está mais próxima da vida –– devido aos tons emotivo-volitivos que apresenta, que nos presentificam, que trazem algo de nossa presença, de nossa assinatura responsável, no caso do ato estético.

Ponzio, que procura dar mais atenção à questão da assim-chamada "arquitetônica"  do mundo vivido e do ato estético, ressalta por outro lado, nessa presença acentuada por Bakhtin, o fato de que cada para ele um se presentifica também perante outros. A responsabilidade sem-álibi envolve a confrontação com o outro enquanto confrontação entre duas singularidades irredutíveis.

"Eu não posso fazer como se eu não estivesse aí; não posso agir, pensar, desejar, sentir como se eu não fosse eu, e cada identificação de si mesmo falha em sua pretensão de identificação com o outro. Mas ao mesmo tempo, não posso fazer como se o outro não estivesse aí, não um outro genérico, mas o outro na sua singularidade que ocupa um lugar no espaço-tempo e na medida dos valores que não posso ocupar (...). Cada eu ocupa o centro de uma arquitetônica na qual o outro entra inevitavelmente em jogo nas interações dos três momentos essenciais de tal arquitetônica (...): eu-para-mim, eu-para-o-outro, o-outro-para-mim... (...) eu-para-mim, o-outro-para-mim, eu-para-o-outro..."

(PONZIO, Augusto. A concepção bakhtiniana do ato como dar um passo. In BAKHTIN, M. Para uma filosofia do ato Responsável, p. 23)

 

"Para Bakhtin, a interpretação-compreensão da arquitetônica pressupõe que ela se realize a partir de uma posição externa, extralocalizada, exotópica, outra, diferente e ao mesmo tempo não indiferente,, mas participativa. Postam-se assim dois centros de valor, aquele do eu e aquele do outro, que são 'os dois centros de valor da própria vida', em torno dos quais se constitui a arquitetônica do ato responsável. E é preciso que esses dois centros de valor permaneçam reciprocamente outros..."

(PONZIO, Augusto. A concepção bakhtiniana do ato como dar um passo. In BAKHTIN, M. Para uma filosofia do ato Responsável, p. 30)

 

V.

Uma das principais preocupações de Bakhtin no texto, segundo Ponzio, seria a questão da diferença. Em que medida de que modo a diferença teria a competência de apresentar (ou presentificar) a singularidade? Porque parece haver um certo modo frequente de construção da diferença que escamoteia a singularidade transformando-a no mero resultado de um cruzamento de categorias ou classificações gerais, e colocando-a a serviço da construção de indiferenças –– essas grandes indiferenças que demarcam tais categorias e classificações (cf. p 18).

 "As relações sociais, as relações culturais, aquelas reconhecidas, oficialmente, codificadas, as relações que contam juridicamente" –– diz Ponzio –– "são relações entre identidade do gênero, entre diferenças indiferentes à singularidade, relações estruturalmente estáveis por contraste e, portanto, relações opositivas e conflitantes, nas quais a alteridade de cada um é apagada" (p. 18).

"Cria-se assim a cisão entre dois mundos reciprocamente impenetráveis e não comunicantes: o mundo não oficial da vida vivida, da vivência (...), e o mundo oficial, da cultura, do social feito da relações entre identidades, entre papéis, entre pertencimentos, entre diferenças indiferentes, entre indivíduos que, como tais, são individualizados por coordenadas que os assumem como representativos deste ou daquele conjunto. De um lado, a singularidade de cada um, a sua unicidade, a sua insubstituibilidade, a peculiaridade das suas relações, dos seus vividos (...), a irrevogabilidade da sua responsabilidade sem álibi –– e é esta singularidade, esta unidade, insubstituibilidade, que cada um tem, nos afetos, nas relações relegadas ao privado, nas relações de amor e amizade. Do outrolado, as relações de troca entre indivíduos que representam identidades, e portanto, em cada caso entre conjuntos, gêneros, pertenças, comunidades, classes, aglomerados, coletivos (a identidade individual é inevitavelmente coletiva)."

(PONZIO, Augusto. A concepção bakhtiniana do ato como dar um passo. In BAKHTIN, M. Para uma filosofia do ato Responsável, p. 19).

 Tal ruptura acaba por envolver também questões como a da representatividade política (PONZIO, p. 25-26). A responsabilidade sem-álibi frequentemente se perde seja na pessoa a quem foi delegado o poder, seja na pessoa de quem delegou esse poder. Há "um tipo de alienamento da responsabilidade política"em que se perde "o sentido do próprio enraizamento da participação pessoal única, sem álibis, tornando vazia a responsabilidade especialista e formal, com todo o perigo que tal desenraizamento e a perda do sentido em cada caso comportam" (PONZIO, p. 26).

 

VI.

Até mesmo a morte, segundo Bakhtin, seria única e singular. A morte de cada um, vivida no último instante, como última vivência, de maneira única singular e instransferível, para além de qualquer generalização (PONZIO, p. 26-27). 

A condição singular e de responsabilidade sem-álibi pelos nossos atos constitui para Bakhtin não apenas um ponto de defesa, mas também e principalmente a constatação de uma realidade.

"Desta responsabilidade sem álibi se pode certamente tentar fugir, mas mesmo as tentativas de alienar-se desta responsabilidade testemunham o seu peso e a sua presença inevitável. Cada papel determinado, com sua responsabilidade determinada, especial, 'não elimina', diz Bakhtin, 'mas simplesmente especializa minha responsabilidade pessoal', ou seja, a responsabilidade moral sem delimitação e garantias, sem álibi. separada dessa responsabilidade absoluta, a responsabilidade especial perde o sentido, torna-se casual, uma responsabilidade técnica, e torna-se simples representação de um papel, simples execução técnica, a ação, como átividade técnica'se desrealiza ou se torna impostura."

(PONZIO, Augusto. A concepção bakhtiniana do ato como dar um passo. In BAKHTIN, M. Para uma filosofia do Ato Responsável, p. 27)

VII. 

Para além das excelentes informações que Ponzio e Faraco nos fornecem, respectivamente, na Introdução e no posfácio a esta edição de Para uma filosofia do Ato Responsável, é interessante notar o modo como as consequências que Bakhtin examina quando trata da irresponsabilização, da fuga dessa realidade constatável do singular, acabam por aproximá-lo em alguma medida do pensamento autonomista de Cornélius Castoriadis. 

Observemos neste sentido, uma última passagem de Ponzio sobre o texto:

"São particularmente importantes as considerações de Bakhtin sobre as consequências da separação entre a validade objetiva, abstrata, indiferente e a unicidade irrepetível da tomada de posição, da escolha; sobre as consequências da autonomia do que tem uma validade técnica, que se desenvolve segundo suas próprias leis imanentes, adquirindo um valor por si e um poder e um domínio sobre a vida do sujeito, uma vez que tenha perdido sua união com a viva unicidade do ato. tudo o que tem valor formal e técnico, uma vez separado da unidade singular da existência de cada um e abandonado à vontade da lei imanente de seu desenvolvimento, pode tornar-se qualquer coisa de terrível e irromper nesta unidade singular da vida de cada um como força irresponsável e devastadora."

(PONZIO, Augusto. A concepção bakhtiniana do ato como dar um passo. In BAKHTIN, M. Para uma filosofia do Ato Responsável, p. 22)

 

 

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