Seleção de citações recolhidas no livro

 

Seguem abaixo citações que recolhi da leitura do livro.

O tema do livro são as formas de arte e de vida na Baixa Idade Média, na passagem para o Renascimento. Mas as citações que colhi não servem exatamente para passar uma ideia do que Huizinga fala sobre esse período. É que fiz essa seleção pensando mais como filósofo do que como historiador. A seleção que fiz dessas citações visa, mais do que qualquer outra coisa, detectar as linhas gerais do pensamento filosófico de Huizinga, por debaixo de seus estudos como historiador.

Em outras palavras, o que você vai encontrar nestas citações são passagens em que Huizinga exprime noções mais gerais, que podem ser por exemplo aplicáveis aos tempos atuais, ou que apresentam alguma coisa que esclareça o seu método e o seu ponto de vista — ou abordagem geral —, acerca dos mais variados assuntos de que trata dentro do seu tema central.

 


 

 

 

Toda época anseia por uma vida mais bela. Quanto mais profundos o desespero e a consternação diante de um presente incerto, tanto maior será esse desejo. (...) É bem verdade que cada época deixa mais rastros de seu sofrimento do que de sua felicidade. Suas desgraças se tornam sua história. Uma convicção talvez instintiva nos diz que a soma total de paz e de felicidade destinadas às pessoas não pode variar muito de uma época para outra.

 

HUIZINGA, Johan. O outono da Idade Média:
Estudo sobre as formas de vida e de pensamento
dos séculos XIV e XV na França e nos Países Baixos
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São Paulo: Cosac Naify, 2010, p. 47.

 

 

O anseio por uma vida mais bela sempre teve três caminhos que apontavam para esse objetivo distante e feliz. O primeiro levava diretamente para fora do mundo: o caminho da renúncia. Aqui parece que a vida ideal somente pode ser alcançada do outro lado, mediante a libertação de tudo o que é terreno; toda a atenção dispensada ao mundo atrasa a prometida bem-aventurança. Todas as grandes civilizações trilharam esse caminho; o cristianismo já inculcara nos homens, de forma muito veemente, o ideal de renúncia como propósito da vida individual e base da cultura, o que por muito tempo impediu quase completamente o s homens de trilhar o segundo caminho.

Esse segundo caminho era aquele que apontava para a melhora e o aperfeiçoamento do próprio mundo. A Idade Média mal conheceu essa aspiração (...).

Nada contribuiu tanto para essa atmosfera de temor à vida e de dúvida em relação aos tempos futuros quanto a ausência de uma determinação firme de tornar o próprio mundo melhor e mais feliz. Naquele mundo não havia qualquer promessa de coisas melhores. Quem ansiava por algo melhor, mas não conseguia se despedir do mundo e de toda a sua magnificência, só podia cair em desespero (...).

No momento em que se envereda pelo caminho de uma melhora positiva do próprio mundo, tem início uma nova era, na qual a coragem e a esperança tomam o lugar do temor à vida. Na verdade, esse conceito só irá surgir no século XVIII. O Renascimento extraiu a sua noção enérgica de vida de outras formas de satisfação (...).

O terceiro caminho para um mundo mais belo é o do sonho. É o caminho mais fácil, mas que mantém o objetivo igualmente distante. Quando a realidade terrena é tão perdidamente trágica e a renúncia ao mundo tão difícil, não nos resta nada além de colorir a vida com um brilho claro, vivê-la no país dos sonhos, temperar a realidade com o êxtase do ideal. Basta um tema simples, um único acorde, para se deixar levar pela fuga fascinante: um olhar para a felicidade sonhada de um passado mais belo já é suficiente, um olhar para o heroísmo e sua virtude, ou então para os alegres raios de sol da vida na natureza (...).

(...) a fuga da dura realidade para um mundo de aparência bela (...) atinge a forma e o conteúdo da vida comunitária do mesmo modo que as outras duas aspirações, e quanto mais primitiva for a cultura, mais forte isso se torna.

(...)

 

HUIZINGA, Johan. O outono da Idade Média:
Estudo sobre as formas de vida e de pensamento
dos séculos XIV e XV na França e nos Países Baixos
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São Paulo: Cosac Naify, 2010, p. 54-56.

 

 

O impacto dessas três mentalidades na vida real difere bastante. O contato mais próximo e consistente entre as atividades da vida e o ideal constitui-se quando a ideia aponta para a melhoria e a perfeição do mundo em si [que é a segunda das três mentalidades]. Nessas instâncias a ousadia e a força inspiradora desaguam no próprio trabalho material, a realidade imediata é carregada de energia; realizar a obra da sua vida é também um modo de lutar pelo ideal de um mundo melhor. Se quisermos, também aqui o sonho de felicidade é o motivo inspirador. Até certo ponto, toda cultura almeja tornar real um mundo imaginário mediante a recriação das formas sociais. Ao passo que em outras instâncias isso somente se refere a uma recriação espiritual, a proposição de uma perfeição ilusória, oposta à dura realidade que se quer esquecer, aqui o objeto do sonho é a própria realidade. É ela que se quer remodelar, purificar e melhorar; o mundo parece estar no caminho certo para o ideal, basta o ser humano continuar trabalhando. A forma de vida ideal parece bem pouco distanciada da existência ativa; só existe uma ligeira tensão entre realidade e sonho (...).

No caso da primeira das três mentalidades, a influência na vida real é bem diferente: trata-se da renúncia ao mundo. O sentimento de falta da felicidade eterna torna o desenvolvimento e a forma da a existência terrena indiferentes (...), a rejeição do mundo pela sociedade terrena não exerce uma ação puramente negativa de abnegação e renúncia, mas também difunde-se em trabalho piedoso e caridade.

E como pé o impacto da terceira mentalidade sobre a vida: a busca por uma vida mais bela segundo um ideal sonhado? As formas da vida são recriadas em formas artísticas. Mas não apenas nas obras de arte em si se expressa o sonho de uma vida bela, pois ela quer enobrecer a própria vida com jogos e formas. E é justamente aqui que se fazem as maiores exigências à arte de viver das pessoas, exigências que somente podem ser satisfeitas por uma elite, em vida lúdica artificiosa.Nem todos podem viver como heróis e sábios: é uma diversão cara colorir a vida com uma tintura heroica ou idílica e, além disso, nem sempre dá certo. A ânsia pela concretização do sonho de beleza nas formas da própria sociedade tem um caráter aristocrático impresso no seu vitium originis.

 

HUIZINGA, Johan. O outono da Idade Média:
Estudo sobre as formas de vida e de pensamento
dos séculos XIV e XV na França e nos Países Baixos
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São Paulo: Cosac Naify, 2010, p. 56-57.

 

 

 

[O segundo parágrafo da página 56 desta edição brasileira, lamentavelmente, ignorou o conteúdo de todo um parágrafo na tradução, deixando passar em branco uma brilhante aplicação do platonismo aos estudos de História por parte de Huizinga, acrescentada e corrigida mais adiante pelo próprio autor com recurso ao marxismo. - Cf. Edição Pelicano. Mas isso se deve provavelmente à edição consultada pelo tradutor: o próprio Huizinga foi fazendo acréscimos a cada edição ]

 

Do ponto de vista do pensamento causal, o simbolismo é considerado um curto-circuito intelectual. O pensamento procura a conexão entre duas coisas não ao longo das sinuosidades ocultas de seus vínculos causais, mas sim saltando subitamente por cima das conexões de causa. A conexão não é um elo entre causa e efeito, mas entre significado e objetivo. A convicção de que tal elo existe pode surgir sempre que duas coisas possuam uma característica essencial em comum que se refira a alguma coisa de valor geral. Em outras palavras, qualquer associação com base em qualquer semelhança pode se transformar diretamente na ideia de uma conexão essencial e mística (...).

A equalização simbólica baseada em características comuns somente fará sentido se as características forem consideradas verdadeiramente essenciais. Rosas brancas e vermelhas florescem entre espinhos. O espírito medieval imediatamente vê neste fato um significado simbólico: virgens e mártires brilham em glória entre os seus perseguidores. Como se dá o postulado da equivalência? Ele se dá porque as qualidades são as mesmas: beleza, ternura, pureza, e o vermelho-sangue das rosas também são atributos das virgens e dos mártires. Mas essa conexão só será significativa de fato e cheia de sentido místico se o elo que conecta os dois termos do conceito simbólico, a qualidade portanto, contiver o essencial. Em outras palavras, como se as cores vermelho e branco não valessem como meros rótulos para distinções físicas com base quantitativa, mas fossem encaradas como realidades independentes.

 

HUIZINGA, Johan. O outono da Idade Média:
Estudo sobre as formas de vida e de pensamento
dos séculos XIV e XV na França e nos Países Baixos
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São Paulo: Cosac Naify, 2010, p. 336-337.

 

 

Para o espírito primitivo, tudo o que é denominável imediatamente assume uma essência, seja ela uma qualidade, uma forma, o que for. A coisa então se projeta automaticamente nos céus. Sua essência pode quase sempre (não necessariamente sempre) ser personificada; a qualquer instante começa a dança dos termos antropomórficos.

Todo realismo, no sentido medieval, acaba sendo um antropomorfismo. Se o pensamento que atribuiu uma entidade independente a uma ideia quer torná-la visível, não há outro modo além da personificação. É aqui que se situa a transição do simbolismo e do realismo para a alegoria. A alegoria é o simbolismo projetado num poder de imaginação superficial; é a expressão intencional, e com isso também o esgotamento de um símbolo; a transição de um grito apaixonado para uma frase gramaticalmente correta. Goethe descreve o contraste assim: " A alegoria transforma a manifestação em um conceito, o conceito em uma imagem, de forma que o conceito possa sempre se manter associado à imagem e nela ficar preservado. O simbolismo transforma a manifestação em ideia, a ideia em uma imagem, de forma que a ideia permaneça sempre eficaz e inalcançável e, mesmo que possa ser proferida em todas as línguas, permaneça inexprimível."

A alegoria tem, portanto, o potencial de ser reduzida a um pedante lugar-comum e ao mesmo tempo reduzir uma ideia a uma imagem.

 

HUIZINGA, Johan. O outono da Idade Média:
Estudo sobre as formas de vida e de pensamento
dos séculos XIV e XV na França e nos Países Baixos
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São Paulo: Cosac Naify, 2010, p. 338.

 

 

O pensamento simbólico proporciona aquela intoxicação, aquela confusão pré-intelectual dos limites de identidade das coisas, aquele abrandamento do pensamento racional que leva a intensidade do sentimento pela vida a seu auge.

(...)

O valor moral do modo de pensar simbólico é inseparável de seu valor criativo. A formulação simbólica é como a música adicionada ao texto das doutrinas formuladas de maneira lógica, que sem essa música haveriam de soar excessivamente ásperas, excessivamente pobres.

(...)

O desvanecer da Idade Média apresenta todo esse mundo de pensamento em sua última floração. O mundo era perfeitamente representado pelo simbolismo que tudo abrangia, e os símbolos individuais se transformaram em flores petrificadas. Desde sempre, aliás, o simbolismo possuíra a tendência a se tornar puramente mecânico. Uma vez estabelecido como fonte de pensamento, ele não só brota da fantasia e entusiasmo poéticos, mas se acopla às funções intelectuais como uma planta parasita e degenera até virar mero hábito e uma doença do pensamento. Surgem perspectivas completas de contato simbólico, em especial quando este brota de uma simples correspondência entre números. São meros exercícios aritméticos. Os doze meses devem significar os doze apóstolos, as quatro estações, os evangelistas, e o ano inteiro, então, só pode ser Cristo.

 

HUIZINGA, Johan. O outono da Idade Média:
Estudo sobre as formas de vida e de pensamento
dos séculos XIV e XV na França e nos Países Baixos
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São Paulo: Cosac Naify, 2010, p. 339-340.

 

 

O símbolo só conserva o seu valor emocional em função da santidade das coisas que representa: tão logo o simbolismo passa do puro domínio religioso para o exclusivamente moral, a sua degeneração irremediável é exposta.

(...)

Naturalmente, porém, mesmo nas manifestações mais insossas, o simbolismo e a alegoria tinham para o espírito medieval um valor sentimental muito mais vivo do que imaginamos. A função das equiparações simbólicas e das figuras personificadas estava tão desenvolvida, que qualquer pensamento se transformava quase automaticamente em um personnage. Qualquer ideia era considerada uma entidade, qualquer qualidade, uma substância, e, enquanto entidade, era imediatamente personificada pela inteligência que a concebera.

 

HUIZINGA, Johan. O outono da Idade Média:
Estudo sobre as formas de vida e de pensamento
dos séculos XIV e XV na França e nos Países Baixos
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São Paulo: Cosac Naify, 2010, p. 341-342.

 

 

A língua humana é incapaz de evocar uma visão tão drástica da felicidade como ela o faz com o horror. Para encontrar material cru que descreva a feiura e a miséria, basta mergulhar fundo nos recantos mais baixos da humanidade; mas para descrever a suprema sensação de felicidade, é preciso esticar o pescoço bem para o alto, na direção do céu. [Dioniso Cartuxo, na Idade Média,] esfalfa-se em superlativos desesperados, o que não passa de mero reforço matemático da imaginação, sem nenhum esclarecimento ou aprofundamento da ideia de felicidade. [E faz o mesmo em relação a Deus.] (...).

Mas de que adianta acumular superlativos ou visões qualitativas da altura, da amplidão, da incomensurabilidade e da inesgotabilidade? Continuam sendo meras imagens, tentativas de reduzir a ideia do infinito a imagens nascidas do mundo finito; isto leva ao enfraquecimento e à exteriorização do conceito de eternidade. Eternidade não é tempo mensurável. Cada sensação, uma vez expressa, perde sua imediatez; cada característica atribuída a Deus tirava-lhe um pouco de Sua imponência.

Neste ponto começa a ingente luta para alçar-se, com o poder da mente humana, à absoluta ausência de imagem da divindade. Sem estar vinculada a nenhuma cultura ou época, essa luta repete-se em todos os lugares e sempre da mesma forma.

(...) Mas o apoio da imaginação não pode ser abandonado de pronto. Uma a uma, as deficiências dos meios de expressão se tornam evidentes. As encarnações concretas da ideia e as vestes multicoloridas do simbolismo são as primeiras a caírem por terra: feito isto, não se fala mais de sangue e expiação, nem mais de Eucaristia, nem Pai, Filho e Espírito Santo. No misticismo de Eckhart, Cristo quase não é mencionado, e tampouco o são a Igreja e os sacramentos. Mas as expressões para a visão mística do Ser, da Verdade, da Divindade permanecem ligadas a conceitos naturais, aqueles de luz e de vastidão. Mais tarde, bruscamente, invertem-se e passam a ter um caráter negativo: silêncio, vazio e escuridão. Em seguida, também se reconhece a insuficiência desses conceitos amorfos e sem conteúdo, e tenta-se resolver essa insuficiência conectando-os continuamente a seus opostos. Por fim, não resta nada além da pura negação; a divindade, que não é reconhecida em nada do que existe, pois está acima de tudo, passa a ser chamada pelos místicos de "Nada".

(...) É evidente que essa progressão do espírito contemplativo até o abandono de toda e qualquer representação não aconteceu exatamente nessa sequência. A maioria das declarações místicas apresenta todas essas fases misturadas entre si. Elas já existiam na Índia, estavam completamente desenvolvidas em Pseudo-Dionísio Aeropagita, que é a fonte de todo o misticismo cristão, e ressurgem no misticismo alemão do século XIV.

(...)

Ver Deus por intermédio da negação, diz Dionísio em outro momento, é mais perfeito do que pela afirmação. (...) É certo que Ele é incompreensível e desconhecido, impenetrável e inexprimível, e distingue-se de tudo o que ele faz mediante uma excelência e diferença incomensuráveis e única (...).

Será que o poder das imagens fora derrotado? Sem imagem nem metáfora é impossível expressar qualquer pensamento. Quando se fala da essência incompreensível das coisas, cada palavra é imagem. Falar dos desejos mais elevados e mais íntimos somente por negações não satisfaz o coração, e sempre que o sábio atinge o impasse, o poeta vem em seu socorro.

 

HUIZINGA, Johan. O outono da Idade Média:
Estudo sobre as formas de vida e de pensamento
dos séculos XIV e XV na França e nos Países Baixos
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São Paulo: Cosac Naify, 2010, p. 361-362 e 366-367.

 

 

O caminho do misticismo leva para dentro do infinito e para a falta de consciência. Ao negar toda conexão entre a divindade e tudo o que é particular e nomeável, anula-se a transcendência; a ponte que leva de volta à vida foi subitamente interrompida.

(...) O misticismo intensivo representa uma volta à vida espiritual pré-intelectual. Todo intelectualismo fica sem efeito, é subjugado e tornado supérfluo. Apesar disso, o misticismo contribuiu para a cultura com ricos frutos, isso porque ele se desenvolve por estágios preparatórios e só aos poucos descarta as formas do costume e da cultura. Os seus frutos para a civilização nasce nos primeiros estágios, abaixo do limite superior da vegetação. É ali que desabrocha o pomar da perfeição moral, necessário como preparativo para qualquer um que deseje a contemplação: a paz e a ternura, o abrandar do desejo, a simplicidade, a moderação, a diligência, a seriedade e o fervor. Foi assim na índia e é assim aqui: o efeito inicial do misticismo é moral e prático, consistindo, acima de tudo, no exercício da caridade.

 

HUIZINGA, Johan. O outono da Idade Média:
Estudo sobre as formas de vida e de pensamento
dos séculos XIV e XV na França e nos Países Baixos
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São Paulo: Cosac Naify, 2010, p. 367-368.

 

 

Para compreender o espírito medieval como uma unidade total, é necessário analisar as formas básicas de seu pensamento não apenas levando em conta as representações da fé e da especulação mais elevada, mas também a sabedoria de vida do cotidiano e das práticas mundanas. Pois são as mesmas grandes linhas de pensamento que dominam tanto as expressões mais elevadas quanto as mais comuns. E, enquanto no terreno da fé e da especulação continua sempre em pauta a questão de até que ponto as formas de pensamento são resultado de uma longa tradição escrita, cuja origem remonta até os gregos e os judeus, ou mesmo até os egípcios e babilônios, vemos essas formas atuando ingênua e espontaneamente na vida comum, sem nenhuma carga de neoplatonismo ou outras correntes similares.

 

HUIZINGA, Johan. O outono da Idade Média:
Estudo sobre as formas de vida e de pensamento
dos séculos XIV e XV na França e nos Países Baixos
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São Paulo: Cosac Naify, 2010, p. 375.

 

 

A forte tendência medieval de criar um órgão para cada função não passa de um resultado da forma de pensamento que atribuía independência a cada qualidade, que via cada uma delas como uma ideia em separado. O rei da Inglaterra tinha entre os seus magna sergenteria (altos postos de sargento) um oficial para segurar a cabeça dele quando atravessasse o canal e ficasse enjoado; em 1442 essa posição foi ocupada por um tal de John Baker, que depois a passou para suas duas filhas.

É necessário analisar sob a mesma luz o costume de dar um nome próprio a todas as coisas, mesmo as inanimadas. Trata-se, por mais pálido que seja, de um traço de antropomorfismo primitivo quando, mesmo na vida militar atual - que em vários aspectos significa uma volta a um comportamento de vida primitivo -, se dão nomes a canhões. (...) Quando vemos que nos dias de hoje os navios continuam a ter nomes, mas apenas uma ou outra casa manteve o hábito e os sinos não os têm mais, isso deve-se ao fato, por um lado, de os navios mudarem de lugar e precisarem ser identificados a qualquer momento, mas também porque o navio contém mais qualidades próprias que a casa, o que também está expresso no she (ela) usado no idioma inglês para referir-se a embarcações. Deve-se imaginar que essa percepção pessoal das coisas era muito mais forte na Idade Média: nesse período, cada coisa recebia um nome, desde os calabouços dos cárceres até cada casa e cada relógio.

 

HUIZINGA, Johan. O outono da Idade Média:
Estudo sobre as formas de vida e de pensamento
dos séculos XIV e XV na França e nos Países Baixos
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São Paulo: Cosac Naify, 2010, p. 376-377.

 

 

Em todas as coisas procurava-se pela "moralidade", como dizia o homem medieval, ou seja, a lição que dali se extraía, o significado moral mais essencial, Cada caso histórico ou literário tende a se cristalizar numa parábola, , num exemplo moral, numa evidência: cada declaração, numa sentença, num texto, num dito.

(...)

Um povo com tantos provérbios em uso deixa a discussão, a motivação e a argumentação por conta dos teólogos e dos filósofos; o provérbio encerra cada caso referindo-se a um juízo, que acerta bem no alvo. Ele se abstém de muita conversa disparatada e preserva-se da falta de clareza. O provérbio sempre desata os nós; uma vez aplicado o provérbio, a questão está encerrada. A habilidade de cristalizar pensamentos apresenta vantagens significantes para a cultura.

(...)

Outra forma de cristalização do pensamento semelhante ao provérbio é o lema, cultivado com uma predileção especial no período medieval tardio. Os lemas não tratam de uma sabedoria aplicada em geral, como o provérbio, mas de um encorajamento pessoal ou uma lição de vida, elevado a uma insígnia pelo portador, que o imprime com letras douradas à própria vida (...).

 

HUIZINGA, Johan. O outono da Idade Média:
Estudo sobre as formas de vida e de pensamento
dos séculos XIV e XV na França e nos Países Baixos
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São Paulo: Cosac Naify, 2010, p. 377, 382 e 386.

 

 

[O conceito de formalismo:] A noção inerente da realidade transcendental das coisas significa que cada ideia é definida por limites fixos, está isolada numa forma plástica, e que essa forma é dominante.

 

HUIZINGA, Johan. O outono da Idade Média:
Estudo sobre as formas de vida e de pensamento
dos séculos XIV e XV na França e nos Países Baixos
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São Paulo: Cosac Naify, 2010, p. 392.

 

 

O homem moderno pode buscar individualmente a confirmação de sua visão da vida e o mai puro desfrutar de sua alegria de viver em qualquer momento de paz, escolhendo ele mesmo a sua maneira de descontração. Mas numa época em que os luxos espirituais ainda eram pouco difundidos e pouco acessíveis, é necessário um ato comum, ou seja, a festa. E quanto maior o contraste da miséria do dia a dia, tanto mais indispensável é a festa e tanto mais fortes são os estimulantes necessários para, transformando esse êxtase em beleza e prazer, expiar a escuridão da realidade do dia a dia.

 

HUIZINGA, Johan. O outono da Idade Média:
Estudo sobre as formas de vida e de pensamento
dos séculos XIV e XV na França e nos Países Baixos
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São Paulo: Cosac Naify, 2010, p. 431.

 

 

[Normalmente] é a forma que ameaça sobrepujar o conteúdo e o impede de se renovar.


HUIZINGA, Johan. O outono da Idade Média:
Estudo sobre as formas de vida e de pensamento
dos séculos XIV e XV na França e nos Países Baixos
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São Paulo: Cosac Naify, 2010, p. 458.

 

 

O mesmo princípio de estilo leva a resultados bem distintos nas belas-artes e na literatura. Mesmo se o pintor decidir simplesmente reproduzir uma realidade externa em linha e cor, ele sempre acaba pondo atrás dessa imitação meramente formal alguma reminiscência do não pronunciado ou do impronunciável. Mas se o poeta não tentar nada além de simplesmente expressar com palavras uma realidade já visível ou já compreendida, então se esgota na palavra o tesouro do não pronunciado. Pode ser que o ritmo e a sonoridade ali contidos lhe proporcionem uma nova beleza não pronunciada. Mas se também esses elementos forem fracos, o poema apenas manterá o seu efeito enquanto a ideia prender a atenção do ouvinte. (...)

Mas quando a ideia em si já não diz mais nada, o poema consegue manter o seu efeito somente pela forma. A forma tem uma importância sem igual, e pode até ser tão nova e viva que a questão do conteúdo da ideia mal vem à tona. (...)

Para o pintor, a época de tal limitação mental só chega mais tarde. Pois ele vive do tesouro do não pronunciado e é a plenitude desse tesouro que determina o resultado mais profundo e mais duradouro de toda a arte.

 

HUIZINGA, Johan. O outono da Idade Média:
Estudo sobre as formas de vida e de pensamento
dos séculos XIV e XV na França e nos Países Baixos
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São Paulo: Cosac Naify, 2010, p. 483.

 

 

Eis aí o efeito da "elaboração irrefreada" na pintura. O pintor, esse pintor [Jan Van Eyck] tinha a capacidade de, dentro de um espaço que não chegava a meio metro quadrado, dar asas a seu desejo mais descompromissado de detalhamento (ou deveríamos dizer: à satisfação dos pedidos mais exigentes de um mecenas ignorante?) sem nos cansar mais que o que faria um olhar rápido para a aglomeração viva da realidade. Pois um vislumbre é só o que nos é permitido; a força das dimensões estabelecia limites, e adentra-se na beleza e no caráter especial disso tudo que está representado, sem esforço mental: muitos dos detalhes que merecem atenção nem mesmo são notados, ou já desaparecem instantaneamente da consciência e servem apenas para efeitos de cor ou de perspectiva.

Se atribuímos essa característica geral de "elaboração irrefreada das particularidades" também à literatura do século XV (...) tudo ocorre de outra forma.

(...) a relação entre o assunto principal e os assuntos secundários na poesia [é] justamente inversa à da pintura. Na pintura, a diferença entre o assunto principal (ou seja: a expressão adequada do tema) e os assuntos secundários é pouca. Tudo ali é essencial. Para nós, um simples detalhe pode determinar a completa harmonia da obra.

(...)

Mas é justamente no detalhe que o pintor está totalmente livre. Quanto ao tema principal [na Idade Média], a ideia do motivo sagrado, lhe foi estipulada uma rígida convenção; cada cena religiosa possui o seu código iconográfico, do qual não se tolera nenhum desvio. No entanto [nos detalhes] ele tem um campo ilimitado para desenvolver livremente o seu entusiasmo criador.

Na poesia do século XV, no entanto, essa relação de certa forma se inverte. Quanto ao tema principal, o poeta é livre: ele pode encontrar uma nova ideia, se puder, enquanto justamente o detalhe e o pano de fundo são dominados em grande parte por convenções. Flores, o prazer da natureza, tristezas e alegrias, todos esses elementos têm as suas formas fixas de expressão, as quais o poeta pode lustrar e colorir um pouco, mas não renovar.

Ele lustra e colore infinitamente, pois lhe falta a salutar limitação imposta ao pintor pelo preenchimento do espaço vazio; o espaço do poeta é sempre ilimitado. Ele não tem a limitação dos meios materiais, e justamente por causa dessa liberdade ele, proporcionalmente, precisa de uma capacidade mental maior que a do pintor para fazer algo bom. Os pintores medianos ainda continuam sendo um deleite para os olhos da geração seguinte, mas o poeta mediano afunda no esquecimento.

Para demonstrar o efeito da "elaboração irrefreada" numa obra poética do século XV, seria necessário acompanhá-la passo a passo, em todo o seu conteúdo (e elas são longas!)


HUIZINGA, Johan. O outono da Idade Média:
Estudo sobre as formas de vida e de pensamento
dos séculos XIV e XV na França e nos Países Baixos
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São Paulo: Cosac Naify, 2010, p. 489-492.


 

Comparado à pintura, o que constitui no poema [medieval tardio] o efeito diferente da elaboração extensa da cena natural? Qual é o efeito da expressão de uma mesma inspiração através do uso de diferentes meios? O fato de o pintor, devido à natureza de sua arte, ser obrigado a manter uma fidelidade simples à natureza, enquanto o poeta se perde na grande superficialidade amorfa e na enumeração de motivos convencionais. A prosa, neste aspecto, aproxima-se mais da pintura do que a poesia. Ela está menos presa a certos motivos. Muitas vezes expõe mais enfaticamente a reprodução precisa de uma realidade vista e a executa usando meios mais livres. Com isto, talvez a prosa demonstre melhor do que a poesia o profundo parentesco entre a literatura e a arte.


HUIZINGA, Johan. O outono da Idade Média:
Estudo sobre as formas de vida e de pensamento
dos séculos XIV e XV na França e nos Países Baixos
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São Paulo: Cosac Naify, 2010, p. 494-495.

 

 

A característica básica do espírito medieval tardio é o seu caráter predominantemente visual. Este está ligado de maneira íntima ao atrofiamento das ideias. O pensamento se dá a partir de concepções visuais. Tudo aquilo que se quer expressar é acomodado em termos visuais. A absoluta falta de conteúdo intelectual das representações alegóricas ou poemas podia ser tolerada porque a satisfação situava-se toda naquilo que se tinha visto. A tendência de reproduzir o imediato externamente visível encontrou uma expressão mais forte e mais absoluta nos meios pictóricos do que nos literários. E do mesmo modo, uma expressão mais forte pelos meios da prosa do que pelos da poesia. Por isso a prosa do século XV, em muitos aspectos, se situa como um meio termo entre a pintura e a poesia. Todos os três possuem em comum a elaboração irrefreada das particularidades, a qual contudo, conduz a um realismo direto na pintura e na prosa, realismo que a poesia desconhece e não tem nada melhor a dispor.

 

HUIZINGA, Johan. O outono da Idade Média:
Estudo sobre as formas de vida e de pensamento
dos séculos XIV e XV na França e nos Países Baixos
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São Paulo: Cosac Naify, 2010, p. 494-495.

 

 

Na pintura a reprodução da natureza era de caráter meramente secundário e por isso podia permanecer pura e sóbria. Uma vez que o pano de fundo não era importante para o tema, por não fazer parte do estilo hierático, os pintores do século XV podiam reproduzir um certo grau de naturalidade harmônica em sua paisagem,, que as rigorosas regras quanto ao tema ainda lhes proibiam na cena principal (...).

Quanto menor for a ligação entre a paisagem e a ideia central, tanto mais harmônica e natural será a pintura como um todo.


HUIZINGA, Johan. O outono da Idade Média:
Estudo sobre as formas de vida e de pensamento
dos séculos XIV e XV na França e nos Países Baixos
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São Paulo: Cosac Naify, 2010, p. 504.

 

 

As belas-artes, sempre que descem ao nível da caricatura, conseguem somente expressar um limitado sentimento cômico. Reproduzido apenas visualmente, o cômico tendo a tornar-se novamente sério. Apenas nos casos em que a adição do elemento cômico na representação da vida é muito pequena - quando não passa de um tempero e não o sabor dominante do próprio prato -, a imagem consegue acompanhar o passo da expressão em palavras. A pintura de gênero contém o elemento cômico em seu grau mais fraco.

(...)

Porém, mesmo no caso do gênero, a palavra passa a ter uma dimensão maior do que a da imagem. Ela consegue reproduzir explicitamente o estado de espírito.

 

HUIZINGA, Johan. O outono da Idade Média:
Estudo sobre as formas de vida e de pensamento
dos séculos XIV e XV na França e nos Países Baixos.

São Paulo: Cosac Naify, 2010, p. 521.

 

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