Sombras do amanhã

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Huizinga, Johan / 1946

livro

 

Segue abaixo, por enquanto (provisoriamente), apenas uma seleção cuidadosa de citações com as passagens mais importantes deste livro. Mais adiante essas citações serão completadas com análises críticas e comentários, e então o material será transferido para o menu Resenha crítica, que será acrescentado no cabeçalho desta página. Quando isto ocorrer, o que você encontrará aqui (neste menu Breve Apresentação) será apenas um resumo deste livro.

As citações estão na sequência em que aparecem no livro, e seguem a mesma divisão em capítulos.

 


 

Citações

 

Ambiente de decadência

Vivemos num mundo dementado. Disso estamos bem certos. Para ninguém seria surpresa se amanhã a loucura cedesse ao frenesi, e este deixasse a nossa pobre Europa num estado de torpor, de perturbação mental, com engenhos ainda a rodar, bandeiras tremulando ao vento, mas o espírito morto.

Por toda parte há dúvidas quanto à solidez da nossa estrutura social, vagos receios do futuro iminente, um presságio de que a nossa civilização trilha o caminho da ruína.

 

HUIZINGA, Johan. Nas sombras do amanhã:
diagnóstico da enfermidade espiritual do nosso tempo.

São Paulo: Saraiva, 1946, p. 7. Capítulo Ambiente de decadência.
[Obra publicada originalmente em 1935, entre a 1ª e a 2ª grande guerra
e pouco depois de o partido nazista subir ao poder na Alemanha, em 1933]

 

Receios de antes e de agora

Desta velha e sempre renovada representação duma simples revulsão ou reversão da sociedade, nasceu o conceito de Revolução. O termo revolução derivou-se da rotação duma roda. No fundo da imagem estava sempre a Roda da Fortuna. No sentido político o termo fica de início limitdo a uma simples e imediata reviravolta, como por exemplo em 1688. Não é senão depois do grande acontecimento se 1789 que o conceito de revolução, no decurso do século XIX, vem a ser imbuído de todo o significado que o socialismo lhe havia de dar. Revolução, como conceito ideal, preserva sempre o conteúdo primário do pensamento original - aperfeiçoamento súbito e duradouro.

Esta representação, consagrada pelo tempo, duma revulsão da sociedade, abrupta e conscienciosamente desejada, é das que o espírito do nosso tempo se recusa a aceitar, baseado no moderno e bem fundado conhecimento, que considera tudo o que se encontra no homem e na natureza como produto de numerosas forças interdependentes, atuando a longo prazo. No processo de forças sociais em ação recíproca, o espírito vê na ação da vontade humana um simples fator de significação reduzida, sem por esse motivo professar a aderência a um determinismo rígido. Agrupando-se eficientemente e fazendo uso das suas energias, com o melhor resultado possível, o homem pode tirar vantagem das forças naturais e sociais que regem os processos dinâmicos da sociedade. Pode influenciar certas tendências do processo, mas não alterar-lhe o sentido principal.


HUIZINGA, Johan. Nas sombras do amanhã:
diagnóstico da enfermidade espiritual do nosso tempo.

São Paulo: Saraiva, 1946, p. 16-17. Capítulo Receios de antes e de agora.
[Obra publicada originalmente em 1935, entre a 1ª e a 2ª grande guerra
e pouco depois de o partido nazista subir ao poder na Alemanha, em 1933]

 

A crise atual comparada à do passado

Há casos em que toda uma civilização pereceu, e há outros em que marchou triunfante a caminho de novas formas de existência. Podemos, pois, ver o caso histórico como um processo acabado. E, embora uma tal autópsica histórica ao passado não ofereça a promessa de uma cura do presente, nem talvez mesmo dum prognóstico, nenhum método imaginável, que nos possa levar ao conhecimento profundo da natureza do mal, deverá deixar de ser tentado.

(...)

Poder-se-á perguntar: mas no decorrer desses vinte séculos a civilização não esteve sempre num estado de crise? Não é precária em último grau toda a história da humanidade? Sem dúvida, mas isso é sabedoria para declamação filosófica, útil na ocasião própria. Vistos pelo prisma histórico, contudo, certos complexos de acontecimentos passados apresentam-se como períodos de intensa transformação cultural delimitada com maior ou menor clareza. Tais são: a transição da Antiguidade para a Idade Média; da Idade Média para os tempos modernos; e do século XVIII para o século XIX.

(...)

Seja o que for que a comparação histórica nos possa fornecer para uma compreensão da presente crise, nenhuma garantia nos pode dar a respeito das suas consequências. A conclusão segura de que, de qualquer maneira, tudo irá pelo melhor, não é afiançada por qualquer paralelo histórico. Continuamos a correr para o desconhecido.


HUIZINGA, Johan. Nas sombras do amanhã:
diagnóstico da enfermidade espiritual do nosso tempo.

São Paulo: Saraiva, 1946, p. 19-20 e 26. Capítulo A crise atual comparada às do passado.
[Obra publicada originalmente em 1935, entre a 1ª e a 2ª grande guerra
e pouco depois de o partido nazista subir ao poder na Alemanha, em 1933]

 

Condições básicas da cultura

O que é e em que consiste a cultura? Uma definição exaustiva é praticamente impossível. Tudo quanto podemos fazer é enumerar algumas condições e requisitos essenciais, sem os quais não pode haver cultura.

Cultura requer, em primeiro lugar, um certo equilíbrio de valores materiais e espirituais. Este equilíbrio permite o desenvolvimento duma certa disposição social que se reputa superior, porque proporciona outros valores mais elevados que a mera satisfação das necessidades ou da ambição. Estes valores habitam o domínio do espiritual, do intelectual, do moral e do estético. Por sua vez, esses diversos domínios terçao de estar em equilíbrio e harmonia para que a eles se possa aplicar o conceito de cultura. (...) Esse equilíbrio poder-se-á considerar como um dfuncionar harmonioso e eficaz das várias atividades culturais dentro do todo. O resultado de tal coordenação das atividades culturais manifesta-se na ordem, na força estrutural e no ritmo vital da sociedade considerada.

(...)

A segunda característica fundamental de cultura é que toda ela deverá conter um elemento de esforço orientado para certo objetivo e este objetivo é sempre um ideal, não o ideal dum indivíduo, mas o ideal de uma sociedade. A natureza desse ideal é muito variável. Pode ser puramente espiritual (...). Pode ser um ideal social (...). Pode ainda ser econômico ou higiênico (...). Para os esteios da cultura o ideal significa sempre melhoramento (...).

Quer o objetivo esteja no céu ou na terra, no saber ou na riqueza, a condição essencial para sua busca e obtenção é sempre ordem e segurança. (...) Dessa exigência de ordem provém tudo o que é autoridade; da de segurança tudo o que é direito. No fundo de dezenas de diferentes sistemas jurídicos e de governo há sempre os agrupamentos sociais, cuja luta pelo aperfeiçoamento dá origem à cultura.


HUIZINGA, Johan. Nas sombras do amanhã:
diagnóstico da enfermidade espiritual do nosso tempo.

São Paulo: Saraiva, 1946, p. 30-32. Capítulo Condições básicas da cultura.
[Obra publicada originalmente em 1935, entre a 1ª e a 2ª grande guerra
e pouco depois de o partido nazista subir ao poder na Alemanha, em 1933]

 

 

 

Se (...) domínio da natureza fosse o único pressuposto de cultura, pouca razão haveria para negar às formigas, às abelhas, às aves, ou aos castores o direito à sua posse. Todos esses animaizinhos, alterando partes da natureza, aplicam-nas a uso próprio. Se estas atividades incluem ou não um esforço no sentido de melhorar, isto é uma pergunta cuja resposta fica ao cuidado da psicologia animal. Mas (...)

(...) dizer aue cultura é domínio da natureza, no sentido de construir, matar e assar, é deixar a história em meio. a palavra "natureza", rica em sentido, ainda inclui natureza humana e essa terá de ser também controlada. (...) É somente na consciência humana que a função de cuidar e providenciar toma o aspecto de Dever. (...) Numa fase juvenil da organização social, a obrigação estende-se em convenções, normas de conduta e de cultos, em forma de tabus.

A consciência de ter certos deveres adquire um valor ético, desde o momento em que não haja absoluta necessidade material de respeitar aquilo que sentimos ser uma obrigação perante um semelhante, uma instituição ou um poder espiritual. (...), sempre que numa comunidade as regras de conduta social são geralmente observadas, é pela ação dum impulso genuinamente ético.

 

HUIZINGA, Johan. Nas sombras do amanhã:
diagnóstico da enfermidade espiritual do nosso tempo.

São Paulo: Saraiva, 1946, p. 30-34. Capítulo Condições básicas da cultura.
[Obra publicada originalmente em 1935, entre a 1ª e a 2ª grande guerra
e pouco depois de o partido nazista subir ao poder na Alemanha, em 1933]

 

 

Cultura, como condição da sociedade, existe quando o domínio sobre a natureza no campo material, moral e espiritual assegura um estado superior e melhor do que aquele que adviria das condições naturais existentes, estado cujas características se resumem num harmonioso equilíbrio de valores materiais e espirituais e num ideal mais ou menos homogêneo, para cuja consecução convergem várias atividades da comunidade.

Se a descrição atrás feita - da qual a avaliação "superior" e "melhor", com o seu matiz subjetivo, não pode ser eliminada - surge agora a questão de saber se em nossos dias existem as condições essenciais de cultura.

Cultura pressupões domínio da natureza. Esta condição parece, com efeito, ter atingido um grau de realização mais elevado que o de qualquer outra civilização anterior nossa conhecida. (...)

e o domínio da natureza humana? Não me apontem os triunfos da psiquiatria, da assistência social ou da guerra ao crime. Domínio da natureza humana só poderá significar domínio de todo indivíduo sobre si mesmo. Conseguiu ele isso?

 

HUIZINGA, Johan. Nas sombras do amanhã:
diagnóstico da enfermidade espiritual do nosso tempo.

São Paulo: Saraiva, 1946, p. 35-36. Capítulo Condições básicas da cultura.
[Obra publicada originalmente em 1935, entre a 1ª e a 2ª grande guerra
e pouco depois de o partido nazista subir ao poder na Alemanha, em 1933]

 

 

O que muitas vezes parece é que o homem, abusando da liberdade obtida pelo seu controle da natureza física, se recusa a dominar-se a si próprio, sempre pronto a repelir todos os valores que o espírito para ele conquistara. Os direitos e as pretensões da natureza humana são invocados em toda parte para se oporem à autoridade de leis ética absolutas. a condição de domínio da natureza fica assim apenas a meio do caminho.

(...) O desejo de melhorar, impelindo todas as comunidades e todos os indivíduos, vê por centenas de olhos diferentes. Cada grupo persegue a sua própria concepção de bem estar, sem a integrar num ideal comum, sobreposto aos vários desejos particulares. somente a expressão desse ideal comum, quer atingível quer ilusório, poderá justificar plenamente a noção "cultura moderna".

(...)

As manifestações contemporâneas que nos rodeiam parecem excluir toda ideia de um autêntico equilíbrio. Um sistema econômico do mais puro requinte atira diariamente cá para fora com um montão de produtos e põe em movimento forças que ninguém precisa, que para ninguém trazem vantagens, que toda a gente teme e que muitos escarnecem por inúteis, absurdas e prejudiciais. O café é queimado para se manter o preço; o material de guerra encontrará ávidos compradores, mas ninguém quer que ele seja utilizado. (...) Há também uma superprodução intelectual, um excesso permanente da palavra escrita e "radiodifundida", e uma divergência de pensamento quase irremediável. A arte foi apanhada no círculo vicioso que agrilhoa o artista à publicidade e por meio desta, à moda, qualquer delas, por sua vez, depende dos interesses comerciais. Ao longo de toda a série, desde a vida do Estado à vida da família, parece estar em curso um desconjuntamento como o mundo jamais conheceu.

 

HUIZINGA, Johan. Nas sombras do amanhã:
diagnóstico da enfermidade espiritual do nosso tempo.

São Paulo: Saraiva, 1946, p. 37-39. Capítulo Condições básicas da cultura.
[Obra publicada originalmente em 1935, entre a 1ª e a 2ª grande guerra
e pouco depois de o partido nazista subir ao poder na Alemanha, em 1933]

 

 

Enfraquecimento da capacidade de julgar


A falácia do silogismo: "Conhecimento de si mesmo é sabedoria - o mundo conhece-se melhor que nunca - ergo o mundo tornou-se mais sábio", tem origem na ambiguidade dos termos. O "mundo", em abstrato, nem tem conhecimento nem poder de ação; manifesta-se unicamente através do pensamento e da ação dos indivíduos. Além disso, o termo "conhecimento" pode ser tudo menos permutável com sabedoria, ponto este que mal requer elaboração.

(...) mesmo onde há um desejo genuíno de conhecimento e de beleza, a intrusão ruidosa da moderna engrenagem cultural torna muito difícil a esse homem médio a fuga ao perigo de lhe serem impostas as suas noções e valores. Um conhecimento tão variado como superficial, e um horizonte intelectual demasiado extenso para uma vista desprovida de bagagem crítica, têm de conduzir a um enfraquecimento da capacidade de julgar.

 

HUIZINGA, Johan. Nas sombras do amanhã:
diagnóstico da enfermidade espiritual do nosso tempo.

São Paulo: Saraiva, 1946, p. 57 e 59-60.
Capítulo Enfraquecimento da capacidade de julgar.
[Obra publicada originalmente em 1935, entre a 1ª e a 2ª grande guerra
e pouco depois de o partido nazista subir ao poder na Alemanha, em 1933]

 

 

Em formas de sociedade mais antigas e mais restritas era o homem quem proporcionava a si mesmo os entretenimentos. O povo cantava, dançava e divertia-se. Na civilização de hoje, tudo isto desapareceu em grande parte, para se assistir às canções, danças e divertimentos dos outros. Sem dúvida que sempre houve atores e espectadores, mas o que é significativo, é que atualmente o elemento ativo cede constantemente terreno ao elemento passivo. Até mesmo no domínio dos esportes, essa importantíssima parte da moderna cultura, há uma tendência crescente entre as massas para terem os outros a jogar por elas. Esse afastamento da participação ativa nas ocupações culturais veio a ser ainda mais completo com o aparecimento do cinema e do rádio. A passagem do teatro para o cinema é a passagem da peça para o reflexo da peça. A palavra e o gesto passam de ação viva a simples reprodução. A voz transmitida através do éter não é mais que um eco.

 

HUIZINGA, Johan. Nas sombras do amanhã:
diagnóstico da enfermidade espiritual do nosso tempo.

São Paulo: Saraiva, 1946, p. 60-61. Capítulo Enfraquecimento da capacidade de julgar.
[Obra publicada originalmente em 1935, entre a 1ª e a 2ª grande guerra
e pouco depois de o partido nazista subir ao poder na Alemanha, em 1933]

 

A ciência erroneamente aplicada

As teorias racistas deram-nos um exemplo da pseudo-ciência usurpando o lugar da verdadeira ciência para servir a Força. Na verdadeira ciência, naquela que se dirige à descoberta e construção de meios do poder, a Força encontra um instrumento ainda mais forte para a prossecução dos seus fins. "Saber é poder", outrora o pregão triunfante da era Vitoriana, começou agora a ter um timbre sinistro aos nossos ouvidos.

 

HUIZINGA, Johan. Nas sombras do amanhã:
diagnóstico da enfermidade espiritual do nosso tempo.

São Paulo: Saraiva, 1946, p. 77. Capítulo A ciência erroneamente aplicada.
[Obra publicada originalmente em 1935, entre a 1ª e a 2ª grande guerra
e pouco depois de o partido nazista subir ao poder na Alemanha, em 1933]

 

O repúdio do princípio intelectual

Aqui temos o fulcro da atual crise da civilização: o conflito entre conhecer e ser, entre a inteligência e a existência. Mas isto nada tem de novo. (...) Na primeira metade do séc. XIX, esta verdade antiga, já conhecida de um Nicolau de Cusa, é novamente tomada por Kierkegaard, cuja filosofia tem o seu centro na antítese do "existir" e do "pensar" e dela se aproveitou para assentar a sua fé em alicerces mais firmes ainda. Só muito mais tarde é que outros pensadores forçaram este pensamento a seguir caminhos alheios a Deus para o deixarem cair no nihilismo e no desespero, ou na adoração da vida terrena. Nietzsche, sinceramente convencido do trágico exílio do homem dos domínios da verdade, e dando à ânsia de vida a interpretação de ânsia de poder, repudiou o princípio intelectual com todo o vigor poético do seu gênio. O pragmatismo privou o conceito de "verdade" do seu direito à validade absoluta, submetendo-o às variações do tempo. (...) Um conceito de verdade reduzido apenas ao valor relativo arrastaria inevitavelmente na sua esteira uma espécie de igualitarismo ideológico, uma abolição de todas as diferenças de categoria e valor de ideias. Sociólogos como Max Weber, Max Scheler, Karl Manheim e Oswald Spengler introduziram ultimamente a expressão Seinsverbundenheit des Denkens que pode ser, muito imperfeitamente, vertida por "subordinação do pensamento ao ambiente e à vida". O próprio conceito aproxima-se do materialismo histórico, ex-professo anti-intelectual. Assim, se fundiram as tendências de toda uma época que, para evitar o vago termo "anti-intelectual" ousamos chamar de anti-noética, numa corrente poderosa que em breve havia de ameaçar o que há mjuito se julgava ser barreiras intransponíveis da cultura intelectual. Georges Sorel, em suas Réflexions sur la Violence, formulou as consequências práticas e políticas de tudo isto, tornando-se por esse fato o pai espiritual de todas as ditaduras contemporâneas.

(...)

(...) Um anti-intelectualismo sistemático, prático e filosófico, tal como aquele que estamos a assistir, afigura-se-nos algo verdadeiramente novo na história da cultura humana.

(...)

Quando as antigas correntes do pensamento recsavam a vassalagem à Razão, era sempre em favor do supra-racional. O que se alardeia como sendo a cultura de hoje, não só nega a Razão, mas ainda o próprio cognoscível, e isto em favor do infra-racional, das paixões e dos instintos.

 

HUIZINGA, Johan. Nas sombras do amanhã:
diagnóstico da enfermidade espiritual do nosso tempo.

São Paulo: Saraiva, 1946, p. 83-87. Capítulo O repúdio do princípio intelectual.
[Obra publicada originalmente em 1935, entre a 1ª e a 2ª grande guerra
e pouco depois de o partido nazista subir ao poder na Alemanha, em 1933]

 

O culto da vida

As categorias ficção e história, no seu significado simples e corrente, já não se distinguem com clareza.

(...) A voga do conceito "mythos" é o exemplo mais flagrante. Aceita-se uma representação em que são propositalmente incluídos os elementos "desejo" e "fantasia", mas que apesar disso se diz representar o "passado" e servir de teor de vida, confundindo assim irremediavelmente as esferas do conhecimento e da vontade.

O pensamento "condicionado pela existência", na sua luta pela expressão, deixa que o fantasioso da alegoria, sem o freio do raciocínio crítico, penetre no argumento lógico. Se a vida não pode se exprimir em termos de lógica, o que todos têm de admitir, então chega a vez ao poeta de fazer a sua aparição onde falha a aproximação lógica. Assim tem sido desde que o mundo conheceu a arte da poesia. No processo do desenvolvimento cultural, porém, pensador e poeta puderam ser bem diferenciados e a cada um foi concedido o seu domínio próprio. Ultimamente a nova "filosofia da vida" tem revelado certa tendência para reincidir numa confusão desnorteante de meios de expressão lógicos e poéticos.

 

HUIZINGA, Johan. Nas sombras do amanhã:
diagnóstico da enfermidade espiritual do nosso tempo.

São Paulo: Saraiva, 1946, p. 90-91. Capítulo O culto da vida.
[Obra publicada originalmente em 1935, entre a 1ª e a 2ª grande guerra
e pouco depois de o partido nazista subir ao poder na Alemanha, em 1933]

 

 

 

O incremento da segurança, do conforto e das possibilidades de conquista do necessário, em suma, a maior facilidade de existência, teve duas consequências. Por um lado preparou o terreno a todas as formas de renûncia à vida: negação filosófica do seu valor, "spleen" puramente emotivo e aversão à própria vida; por outro lado incutiu a crença no direito à felicidade: fez com que os povos exigissem da vida um certo número de coisas. Relacionado com este há um outro contraste. A atitude ambivalente, pairando hesitante entre a renúncia e o gozo da vida, é exclusivamente peculiar ao indivíduo isolado. Ao contrário, a coletividade aceita, sem hesitação e mais convicta do que nunca, a vida terrena como objeto de todo esforço e toda ação. Não há duvida de que se trata de um autêntico culto à vida.

Surge-nos agora uma pergunta, motivo de séria reflexão: poderá uma cultura adiantada sobreviver sem que seja, em certa medida, orintada para a morte? Todas as grandes civilizações do passado o foram. Há indícios de que o pensamento filosófico de nossos dias segue também essa rota. Parece naturalmente lógico, além do mais, que uma filosofia que dá maior valor à existência que ao conhecimento, deva incluir na sua visão o fim dessa existência.

 

HUIZINGA, Johan. Nas sombras do amanhã:
diagnóstico da enfermidade espiritual do nosso tempo.

São Paulo: Saraiva, 1946, p. 94-95. Capítulo O culto da vida.
[Obra publicada originalmente em 1935, entre a 1ª e a 2ª grande guerra
e pouco depois de o partido nazista subir ao poder na Alemanha, em 1933]

 

 

 

Uma filosofia que de início declara as suas verdades básicas condicionadas por uma certa forma de vida a que serve, é realmente supérflua para os defensores dessa forma e inútil para o resto do mundo. Serve apenas para racionalizar e apoiar a ordem existente.

 

HUIZINGA, Johan. Nas sombras do amanhã:
diagnóstico da enfermidade espiritual do nosso tempo.

São Paulo: Saraiva, 1946, p. 95. Capítulo O culto da vida.
[Obra publicada originalmente em 1935, entre a 1ª e a 2ª grande guerra
e pouco depois de o partido nazista subir ao poder na Alemanha, em 1933]

 

 

Viver é lutar. É uma verdade já velha (...) - luta, isto é, vontade e energia em ação para superar os obstáculos que se opõem à consecução de um certo objetivo. Quase toda ação da alma humana é expressa em termos de combate. Uma das características mais essenciais do organismo vivo é que este está mais ou menos apetrechado para uma atitude de combate. A identificação "vida e luta" quadra bem, tanto no sentido puramente biológico, como no espiritual. Há de haver poucas verdades que uma escola de pensamento, na sua tarefa de tudo subjugar às exigências da vida, queira pregar com mais ardor. Mas qual será o significado que ela atribui a isso?

(...) Uma coisa, porém, é certa: no que geralmente se pensa a propósito dos deveres sociais, a noção do bem e do mal absolutos desempenha um papel relativamente insignificante. Para muita gente a ideia de luta pela vida foi transferida do campo da consciência individual para o da vida pública coletiva. Nessa transferência a ideia perdeu muito do seu conteúdo ético.

A luta pela vida, aceita como um destino e um dever, é concebida quase exclusivamente como luta duma certa comunidade por uma certa prosperidade geral, isto é, como uma tarefa cultural. É uma luta contra certos males públicos.

(...) As resistências com qure a coletividade se julga ameaçada são geralmente exercidas por outros grupos humanos. A luta pela vida, tomada como um dever público, torna-se então uma luta de homens contra homens. Estes outros, contra os quais se dirige a luta, , já não aparecem teoricamente sob a forma de "perversos". Na luta pelo poder ou pelas riquezas, são simplesmente rivais, tiranos políticos ou econômicos.

 

HUIZINGA, Johan. Nas sombras do amanhã:
diagnóstico da enfermidade espiritual do nosso tempo.

São Paulo: Saraiva, 1946, p. 99-100. Capítulo O culto da vida.
[Obra publicada originalmente em 1935, entre a 1ª e a 2ª grande guerra
e pouco depois de o partido nazista subir ao poder na Alemanha, em 1933]

 

Declínio das normas morais

A tendência para exaltar o ser e o viver, dando-lhe a primazia sobre o ompreender e o avaliar (...) que encarniçadamente se nega a ser guiada pelo intelecto, não pode encontrar direção em qualquer espécie de ética consciênciosa dos seus alicerce no "conhecimento. Mas que fica então para guiar e dirigir, se já não se procura a diretriz numa crença metafísica visando uma felizidade incorpórea e extramundana, nem no pensamento ansioso de verdade, nem numa ordem moral ampla e geralmentre reconhecida, que contenha valores, tais como justiça e caridade? Como sempre, a resposta terá de ser: Só a própria vida cega e impenetrável.

 

HUIZINGA, Johan. Nas sombras do amanhã:declínio das normas morais.
São Paulo: Saraiva, 1946, p. 120. Capítulo Declínio das normas morais.
[Obra publicada originalmente em 1935, entre a 1ª e a 2ª grande guerra
e pouco depois de o partido nazista subir ao poder na Alemanha, em 1933]

 

 

 

[Atualmente] a adoração do sucesso que, como vimos atrás, exerce uma influência atenuante na apreciação do mau procedimento econômico, é capaz de eliminar praticamente do juízo político toda e qualquer indignação moral. E essa adoração vai a tais extremos, que muitos parecem estar prontos a ajuizar de uma organização política, cujas doutrinas fundamentais detestam, pelo grau de sucesso com que ela leva a termo o seu objetivo prefixo. Incapaz de ajuizar a natureza desse objetivo, dos meios com que ele é perseguido, e [incapaz de fazê-lo] até o ponto em que ele na realidade é executado, o espectador contenta-se com os sinais exteriores de realização, os únicos que o leitor do jornal ou o turista pode observar. Deste modo, um sistema político que primeiro o cumulou de desgostos e a seguir de medo e de pavor, poderá ainda, pouco a pouco, obter seu bom acolhimento e até mesmo a sua admiração. Injustiça, crueldade, coerção da consciência, opressão, falsidade, perfídia, dolo, violação de direito? - Mas veja como eles embelezaram as cidades e que maravilhosas estradas construíram!

 

HUIZINGA, Johan. Nas sombras do amanhã:
diagnóstico da enfermidade espiritual do nosso tempo.

São Paulo: Saraiva, 1946, p. 122. Capítulo Declínio das normas morais.
[Obra publicada originalmente em 1935, entre a 1ª e a 2ª grande guerra
e pouco depois de o partido nazista subir ao poder na Alemanha, em 1933]

 

 

Regna regni lupi?

"O Estado não pode causar danos". Sáo as palavras duma teoria política disfrutando presentemente de uma popularidade que se estende para muito além da esfera do Moderno Despotismo. Segundo esta opinião, o Estad não se pode considerar obrigado às normas morais da sociedade humana. Qualquer tentativa para o submeter ao veredito do juízo ético terá de se inutilizar de encontro à independência absoluta do político como tal. O Estado está fora de toda a ética. Poder-se-ia perguntar: e também acima de toda a ética? Talvez que o teórico do Estado amoral evite afirmá-lo. Recorrerá à construção que já vimos anteriormente, a construção do político como categoria absoluta, governada unicamente pela oposição amigo-inimigo, quer dizer, por uma oposição que apenas expressa perigo e obstrução, e o esforço para os eliminar. Com efeito, (...) nesta oposição "amigo" significa nada mais que "não perigoso". Portanto, o Estado tem que ser julgado somente pelas suas realizações no exercício do Poder.

Embora essa interpretação em si seja nova, a teoria do Estado amoral pode ser tudo menos nova. Mais ou menos justificadamente, pode dizer-se que deriva de pendadores como Maquiavel, Hobbes, Fichte e Hegel. Na própria história a teoria encontra, aparentemente, valioso apoio. é que, em verdade, a história pouco mais patenteia que a avidez, ambição de poder, interesse pessoal e temor, como motivos dirigentes das ações recíprocas, concordantes ou opostas, dos Estados entre si. A época do absolutismo sistematizado reunia todos esses motivos sob a designação de "raison d'état".

 

HUIZINGA, Johan. Nas sombras do amanhã:
diagnóstico da enfermidade espiritual do nosso tempo.

São Paulo: Saraiva, 1946, p. 125-126. Capítulo Regna regni lupi?
[Obra publicada originalmente em 1935, entre a 1ª e a 2ª grande guerra
e pouco depois de o partido nazista subir ao poder na Alemanha, em 1933]

 

 

Para o Estado não pode haver delitos políticos nem crimes que ele possa [ser acusado de] cometer. Em teoria isto também deve se aplicar ao Estado inimigo. Este também deve estar imune à condenação e ao juízo moral. Mas aqui revela-se imediatamente a lastimosa debilidade destas ideias sobre o Estado, plenas como estão dos odores corruptos da avidez e da loucura humanas. Na prática, esta pomposa teoria do Estado fora de toda moralidade é válida unicamente para o próprio Estado. É que, quando a hostilidade atinge o ponto crítico, a voz serena e sublime do argumento transforma-se em guincho histérico, buscando avidamente a insinuação e a difamação do inimigo no velho arsenal da virtude e do pecado (...) Mas então o inimigo não é também um Estado?

(...) Regna regnis lupi, o Estado lobo do Estado. Não é uma lamentação pessimista semelhante ao velho homo homini lupus, mas um dogma e um ideal político. Ora, infelizmente para esta teoria, toda comunidade, até mesmo a dos animais, se baseia na confiança mútua de seres que se podiam exterminar uns aos outros.

 

HUIZINGA, Johan. Nas sombras do amanhã:
diagnóstico da enfermidade espiritual do nosso tempo.

São Paulo: Saraiva, 1946, p. 132-133. Capítulo Regna regni lupi?
[Obra publicada originalmente em 1935, entre a 1ª e a 2ª grande guerra
e pouco depois de o partido nazista subir ao poder na Alemanha, em 1933]

 

 

Heroísmo

A humanidade sempre precisou da visão de uma faculdade mais elevada no homem, de força e coragem humanas em alto grau, para apoio e alívio na dura luta pela vida e como interpretação de grandeza da ação. O pensamento mitológico colocou a realização destas visões na esfera do super-humano. Os heróis eram semi-deuses (...), o termo foi também aplicado a seres humanos vulgares; tais como os que tivessem tombado pela pátria e os tiranicidas. Mas eram sempre os mortos. (...) Só muito mais tarde é que ele começa a ser usado em referência aos vivos, e mesmo então só no sentido retórico.

(...)

Durante todo o século XIX, a representação do heroico foi, em reduzida escala, um modelo e um ideal a seguir.

(...)

Há algo de trágico no fato de a degeneração do ideal heroico ter a sua origem na popularidade superficial que a filosofia de Nietzsche conseguiu nos anos noventa [a partir de 1890]. A concepção do poeta-filósofo, nascida no desespero, foi acolhida pelo grande público antes de ter passado pelas provas do pensamento puro. O vulgo dos anos noventa falava do "super-homem" como se se tratasse de um irmão gigante. Essa vulgarização prematura do ideal de Nietzsche foi, sem dúvida, o começo da tendência do pensamento, que em nossos dias fez do heroísmo o seu mote e o seu programa.

No processo de popularização o ideal do heroico sofreu assim uma pasmosa alteração que o priva de todo o seu significado mais profundo. O título honorífico de "herói", embora por vezes retoricamente aplicado aos vivos, ficara sempre reservado aos mortos, precisamente como o atributo "santo". era o prêmio de gratidão que os vivos concediam aos mortos. Ninguém se orgulhava de ser um herói, mas sim de cumprir o seu dever.

Depois do aparecimento das várias formas de despotismo popular (...) Heroísmo é uma doutrina política, é mesmo representado como uma nova ética destronando a velha, que muitos julgam já desnecessária e inútil. Seria tolice desprezar o valor deste sentimento. A sua veracidade e a sua significação devem ser postas a prova.

O entusiasmo pelo heroico é a prova mais significativa da grande revulsão do saber e compreender para o imediato praticar e viver, fato que constitui por assim dizer o foco da crise cultural. Glorificação da ação por si mesma, narcotização da faculdade crítica pelo sobre-estímulo da vontade, obscurecimento da ideia pela beleza da ilusão, são tudo qualificações que, para o crente na atitude anti-noética perante a vida, correspondem a tantas outras justificações do heroísmo.

 

HUIZINGA, Johan. Nas sombras do amanhã:
diagnóstico da enfermidade espiritual do nosso tempo.

São Paulo: Saraiva, 1946, p. 140 e 144-146. Capítulo Heroísmo.
[Obra publicada originalmente em 1935, entre a 1ª e a 2ª grande guerra
e pouco depois de o partido nazista subir ao poder na Alemanha, em 1933]

 

 

Por heroísmo entende-se sair fora dos limites habituais. Neste mundo é por vezes necessário que as coisas saiam fora dos limites. Mais uma vez se chega ao ponto do pensamento em que o juízo tem de ficar inconcludente. Ninguém pode desejar que o mundo continue, em todos os seus aspectos, a seguir a confusa viela para onde o impeliram leis imperfeitas e uma conduta ainda mais imperfeita.

(...) A nossa época precisa deste tônico porque está fraca. a exaltação do heróico é em si um fenômeno de crise. Demonstra que as ideias de serviço, tarefa e cumprimento do dever, já não exercem no grande público a necessária força propulsora. Têm de ser ampliadas como que por um alto-falante. Têm de ser atiçadas como um fogo que se extingue.

 

HUIZINGA, Johan. Nas sombras do amanhã:
diagnóstico da enfermidade espiritual do nosso tempo.

São Paulo: Saraiva, 1946, p. 147. Capítulo Heroísmo.
[Obra publicada originalmente em 1935, entre a 1ª e a 2ª grande guerra
e pouco depois de o partido nazista subir ao poder na Alemanha, em 1933]

 

 

O atual heroísmo de camiseta e braço levantado muitas vezes na prática pouco mais significa que uma tosca reafirmação do conscienciosismo do "nós". Uma determinada entidade, "nós e os nossos" com o nome de "partido", tem o monopólio do heroísmo e reparte-o entre seus servos. Tais asserções do conscienciosismo do "nós", sociologicamente são da mais alta importância. Encontram-se me todos os períodos e em todas as raças sob a forma de ritos, danças, gritos, emblemas etc. Se a nossa época perdeu realmente o desejo de compreender e determinar racionalmente o seu procedimento, seria muito natural que ela voltasse aos primitivos métodos de instilar o sentido da unidade e da força.

 

HUIZINGA, Johan. Nas sombras do amanhã:
diagnóstico da enfermidade espiritual do nosso tempo.

São Paulo: Saraiva, 1946, p. 148. Capítulo Heroísmo.
[Obra publicada originalmente em 1935, entre a 1ª e a 2ª grande guerra
e pouco depois de o partido nazista subir ao poder na Alemanha, em 1933]

 

 

 

Um perigo ficará sempre inalienavelmente ligado à doutrina anti-noética da vida. A primazia dada ao viver em detrimento do compreender arrasta necessariamente, com o abandono dos critérios de compreensão, o abandono das normas morais. Se a autoridade prega violência, terão a palavra os violentos. em princípio é negar-se a si próprio o direito de os dominar. E neste princípio eles hão de ver a justificação dos seus instintos animais ou patológicos. Talvez uma autoridade militar, rigidamente disciplinada, possa mantê-los dentro de certos limites. Contudo, no fanatismo dum movimento popular, se tornarão os pagens do assassínio.

 

HUIZINGA, Johan. Nas sombras do amanhã:
diagnóstico da enfermidade espiritual do nosso tempo.

São Paulo: Saraiva, 1946, p. 148-149. Capítulo Heroísmo.

 

[Obra publicada originalmente em 1935, entre a 1ª e a 2ª grande guerra,
e pouco depois de o partido nazista subir ao poder na Alemanha, em 1933
- no caso desta citação especificamente, há uma provável referência à juventude nazista,
que já existia desde 1922. Esses jovens a certa altura adquiriram o costume de sair às ruas na Alemanha
com seus uniformes cometendo atos de agressão e vandalismo, movidos por ódio racial e considerando esses atos "heroicos", como uma atitude de luta contra o que achavam "errado" ( e o que achavam "errado" era que houvesse aceitação e reconhecimento
de quem consideravam "diferente" e "inferior" como tendo os mesmos direitos que eles).]

 

Puerilismo

Puerilismo chamaremos nós à atitude duma comunidade cujo comportamento é mais imaturo do que o estado das suas faculdades críticas e intelectuais poderiam deixar supor. Que, em vez de fazer do jovem um homem, adapta a sua própria conduta à do adolescente. O termo nada tem que ver com infantilismo em psicanálise. Baseia-se unicamente na observação de fatos culturais e sociológicos evidentes.

 

HUIZINGA, Johan. Nas sombras do amanhã:
diagnóstico da enfermidade espiritual do nosso tempo.

São Paulo: Saraiva, 1946, p. 151. Capítulo Puerilismo.

 

 

Façamos apenas uma leve alusão àquele espírito de marcha e parada militar que inundou o mundo. As multidões formam uma massa compacta, não há praça suficientemente espaçosa que as possa conter, uma nação inteira fica a pé firme, rígida e atenta como milhares de soldadinhos de chumbo. Até o espectador estrangeiro é incapaz de se furtar à fascinação deste espetáculo. Isto dá a impressão de grandeza, de poder. É puerilidade. Forma vazia que dá ilusão de um desíngio sério e meritório. Os que ainda são capazes de refletir sabem que nada disto tem valor. Simplesmente revela quão intimamente se relaciona o heroísmo popular com um certo puerilismo geral.


HUIZINGA, Johan. Nas sombras do amanhã:
diagnóstico da enfermidade espiritual do nosso tempo.

São Paulo: Saraiva, 1946, p. 153. Capítulo Puerilismo.

 

 

 

O moderno puerilismo manifesta-se de duas maneiras. Por um lado, atividades de natureza confessadamente séria e universalmente tidas por sérias (...) são penetradas pelo espírito do divertimento e chegam a comportar todas as características destes; por outro lado, atividades aceites como tendo um caráter de jogo perdem a verdadeira qualidade de divertimento pela maneira como são executadas.(...)


HUIZINGA, Johan. Nas sombras do amanhã:
diagnóstico da enfermidade espiritual do nosso tempo.

São Paulo: Saraiva, 1946, p. 154. Capítulo Puerilismo.

 

 

 

Se temos de admitir que na verdade a sociedade moderna manifesta um acentuado grau de puerilismo, surge a questão de saber se ela partilha desta característica com os períodos civilizados anteriores, e se assim é, se uma comparação com estes lhe é desfavorável neste aspecto. Poder-se-ia facilmente demonstrar que outrora a sociedade se conduziu muitas vezes duma maneira que só poderia ser qualificada de infantil. Parece haver, contudo, uma diferença entre as infantilidades do passado e a puerilidade do presente.

Nas fases mais primitivas da civilização, grande parte da vida social é levada em forma de jogo, isto é, dentro duma esfera mental artificial governada pelas suas próprias regras e abrangendo temporariamente toda conduta num sistema de ação voluntariamente aceito. Um procedimento convencional toma o lugar da perseguição direta da utilidade ou do prazer. Se o jogo é religioso esta atividade torna-se um culto ou um rito. Mesmo que os ritos ou as competições envolvam derramamento de sangue a ação continua a ser um jogo. Tal espécie de jogo exige uma limitação local, a criação dum campo vedado ao mundo exterior. A vida corrente é excluída do recinto enquanto dura o jogo. O antigo temenos grego, as liças do torneio, o palco dum teatro, o "ring", são desses círculos consagrados ao jogo. a realidade fora do campo é esquecida; há uma rendição geral à ilusão comum e o juízo independente é posto de lado. Todo verdadeiro jogo ainda encerra estas características.

 

HUIZINGA, Johan. Nas sombras do amanhã:
diagnóstico da enfermidade espiritual do nosso tempo.

São Paulo: Saraiva, 1946, p. 156-157. Capítulo Puerilismo.

 

 

 

A característica mais fundamental do autêntico jogo, quer se trate de um culto, de uma representação, de uma competição ou de uma festividade, é que em determinado momento ele cessa. Os espectadores se retiram, os atores tiram as máscaras, a exibição acabou. É aqui que se revela o mal do nosso tempo. É que hoje, em muitos casos, o jogo nunca acaba, e daí não ser verdadeiro jogo. Houve uma contaminação de efeitos remotos entre jogo e atividade séria. As duas esferas começam a misturar-se. Nas atividades de natureza exteriormente séria esconde-se um elemento de jogo. Por outro lado, o que é realmente jogo já não é capaz de manter o seu caráter de verdadeiro jogo em virtude de ser tomado muito a sério e de ser tecnicamente muito complicado. assim se perdem as indispensáveis qualidades de desprendimento, naturalidade e alegria.

Até certo ponto, algo de semelhante a esta contaminação se manifestou em todas as culturas, tanto quanto podemos ver no passado. Mas é um privilégio dúbio da moderna civilização ocidental ter dado a maior intensidade a esta (di)fusão das duas esferas de vida. Um grande número de cultos e de ignorantes tem perante a vida a mesma atitude de criança perante o jogo. Caracteriza-se por uma falta de sentido do decoro, uma falta de dignidade pessoal, de respeito pelos outros e pelas suas opiniões, e por uma excessiva concentração sobre sua própria personalidade. A debilitação geral da capacidade de julgar e do impulso crítico preparou terreno à expansão dessa atitude. Ora, se é interessante, não deixa de ser inquietante, notar que a emergência deste estado de espírito foi facilitada não só pelo minguado desejo de julgamento individual, pelo efeito "standardizador" da organização de grupos que fornecem uma lista de opiniões já feitas, e pelas sempre acessíveis oportunidades de diversão banal, mas ainda pelo maravilhoso desenvolvimento das facilidades técnicas. Perante o seu mundo pleno de maravilhas o homem é como uma criança diante dum conto de fadas. Pode viajar pelo espaço, falar para outro hemisfério ou ter em sua casa um continente, graças ao rádio. Aperta um botão e a vida desfila na sua frente. Tal vida poder-lhe-á dar maturidade? Pelo contrário.

(...)

Valeria a pena investigar como nas diferentes línguas o vocabulário próprio do jogo inunda continuamente o sério...

HUIZINGA, Johan. Nas sombras do amanhã:
diagnóstico da enfermidade espiritual do nosso tempo.

São Paulo: Saraiva, 1946, p. 158-159. Capítulo Puerilismo.

 

Superstição

Uma superstição que passa por ser científica dá origem a uma confusão de ideias muito maior do que aquela que se contenta com as simples práticas populares. (...)

A forma mais espalhada e mais perniciosa da moderna superstição não reside numa pronta aceitação de afinidades misteriosas, nem num apela à pseudo-ciência, mas sim dentro da esfera puramente racional e da confiança na verdadeira ciência e na verdadeira tecnologia.

 

HUIZINGA, Johan. Nas sombras do amanhã:
diagnóstico da enfermidade espiritual do nosso tempo.
São Paulo: Saraiva, 1946, p. 164-165. Capítulo Superstição.

 

 

(...) uma fé em meios e métodos, cuja ineficácia é clara como o dia e está fora de toda a dúvida, não merece outro nome que não seja superstição. Um mundo que vive em tais crenças é um mundo estúpido.

 

 

HUIZINGA, Johan. Nas sombras do amanhã:
diagnóstico da enfermidade espiritual do nosso tempo.
São Paulo: Saraiva, 1946, p. 168-169. Capítulo Superstição.

 

A arte e a literatura

Há meio século que a arte vem se afastando cada vez mais da razão.

(...) A arte poética de todos os tempos, mesmo quando o poeta se transporta aos maiores êxtases, mantém sempre um elo que a liga à expressão racional. (...) [Agora] o quinhão do não-racional e do anti-racional é cada vez maior (...), vemos a poesia a seguir propositadamente uma derrota diferente da da razão. Os poetas principais começaram a negar-se ao reconhecimento do critério de inteligibilidade lógica (...).

Este divórcio da razão e da arte poética tem o seu correspondente nas artes plásticas com o alheamento das formas visíveis da realidade. Ars imitatur naturam fôra durante muitos séculos, desde a sua formulação por Aristóteles, um artigo de fé bem firme. O tratamento estilístico, ornamental ou monumental do assunto nunca o suprimiu, embora desse por vezes a impressão de perturbar o cumprimento desse princípio. O significado da sentença de Aristóteles nunca foi o de que a arte simplesmente copia o que vê na natureza. Tem um sentido muito mais profundo: a arte imita a natureza, isto é, tal como ela, cria formas. Contudo, a reprodução perfeita da realidade visível ficou sempre o ideal universalmente acarinhado. Para a expressão plástica, respeito pela natureza significava de certo modo respeito pela razão, visto que esta é o órgão com que o homem interpreta e compreende o seu ambiente.

(...)

A ruptura só se verifica quando o artista tenta criar formas fora da realidade, tal como esta se apresenta ao observador comum. Se por vezes na composição artística as figuras isoladas podem ser ainda tiradas da natureza, o seu agrupamento é tal, que o todo já não corresponde a uma percepção da realidade passada pelo crivo da lógica. (...) Com a sua completa renúncia ao concreto da imagem natural como esqueleto da expressão pictórica, a arte da pintura rejeita todos os meios vulgares da faculdade perceptiva (...).

 

 

HUIZINGA, Johan. Nas sombras do amanhã:
diagnóstico da enfermidade espiritual do nosso tempo.
São Paulo: Saraiva, 1946, p. 171-174. Capítulo A arte e a literatura.

 

 

Uma certa analogia entre a situação da arte e a da ciência é inegável. (...) Olhando porém mais de perto, descobre-se uma diferença fundamental entre os dois fenômenos.

(...) Para a arte não há um imperativo absoluto; não há uma disciplina do espírito que a constranja. O seu impulso criador centraliza-se na vontade. E aqui é que se manifesta um fato de grande importância; a arte aproxima-se, muito mais que a ciência, da moderna filosofia da vida que sacrifica a compreensão à existência. A nova arte julga poder representar e interpretar verdadeira e sinceramente a vida sem fazer uso da função intelectual, esquecendo que, apesar de tudo, tal interpretação com a sua expressão continua a ser um ato do intelecto.

 

HUIZINGA, Johan. Nas sombras do amanhã:
diagnóstico da enfermidade espiritual do nosso tempo
.
São Paulo: Saraiva, 1946, p. 175-177. Capítulo A arte e a literatura.

 

 

(...) a ânsia perpétua de originalidade, outra enfermidade do nosso tempo, torna a arte muito mais suscetível que a ciência a todas as influências corruptivas exteriores.

 

HUIZINGA, Johan. Nas sombras do amanhã:
diagnóstico da enfermidade espiritual do nosso tempo
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São Paulo: Saraiva, 1946, p. 179-180. Capítulo A arte e a literatura.

 

 

Passando em revista, no sei todo, o desenvolvimento do processo espiritual desde os meados do século XVIII tem-se a impressão de que no decurso deste processo a percepção estética e sentimental foi penetrando cada vez mais no domínio do pensamento. Esta apreciação estética e sensível introduziu-se na compreensão lógica. Por outro lado, em trabalhos de beleza e sensibilidade, o elemento "razão" inerente às suas formas de expressão, tornou-se progressivamente mais débil. Este processo geral atinge o seu ponto extremo e culminante no momento em que nega ao conhecimento a primazia como meio de compreensão do mundo.

O perigo desta irracionalização, reside, sobretudo, no fato de ela ser acompanhada pelo maior desenvolvimento das forças técnicas. É evidente que a adoração da vida, originada pela irracionalização da cultura, não pode senão promover o culto do eu. Mas o culto do eu significa a exasperação da ânsia de bem-estar terreno. Ora se esta ânsia tem ao seu dispor as ilimitadas possibilidades duma faculdade técnica altamente desenvolvida, o perigo inerente a todo culto do eu será muitíssimo maior para a sociedade, visto que a realização desse desejo ardente de bem-estar conduz necessariamente à destruição do bem-estar dos outros.

(...) Um regresso à razão e ao racionalismo não é suficiente para nos arrancar ao abismo. O peso para equilibrar essa cooperação de fatores destrutivos só o podemos encontrar nos mais altos valores éticos e metafísicos.

 

HUIZINGA, Johan. Nas sombras do amanhã:
diagnóstico da enfermidade espiritual do nosso tempo
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São Paulo: Saraiva, 1946, p. 186. Capítulo A arte e a literatura.

 

 

Com a crescente falta de mérito da palavra falada ou escrita, motivada pelo progresso da civilização ao dar-lhe tão vastas possibilidades de expansão, aumenta proporcionalmente a indiferença pela verdade. A margem de erro vai se alargando firmemente em todos os campos à medida que a atitude irracionalista se expande. (...) Tal como os vapores da fumarada e da gasolina sobre as cidades, assim paira sobre o mundo uma névoa de palavras ocas.

 

HUIZINGA, Johan. Nas sombras do amanhã:
diagnóstico da enfermidade espiritual do nosso tempo
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São Paulo: Saraiva, 1946, p. 187-188. Capítulo A arte e a literatura.

 

Perspectivas

Sabemos que o mundo de hoje não pode voltar atrás. Compreendê-mo-lo logo que olhamos para a ciência, para a filosofia e para a arte. (...) E o mesmo sucede com a tecnologia e sua gigantesca aparelhagem, ou com toda a máquina econômica, social e política. (...)

E todavia, esta perspectiva duma civilização à mercê do seu próprio dinamismo intrínseco, dum domínio sempre crescente da natureza (...), assemelha-se mais a um pesadelo.

(...)

Barbarização pode definir-se como sendo um processo cultural pelo qual uma condição de alto valor, já obtida, vai sendo espezinhada e substituída por elementos de qualidade inferior. É matéria de controvérsia saber se esses elementos opostos, , superior e inferior, correspondem à antítese elite-massa. Em qualquer dos casos a aceitação desta polaridade exige que os termos elite e massa sejam despidos da sua significação social e considerados simplesmente como tipos de intelecto ou atitudes espirituais. Foi neste sentido, recentemente, que Ortega y Gasset usou os termos na sua Revolta das massas.

O nosso conhecimento duma completa barbarização no passado limita-se apenas a um exemplo: a decadência da civilização antiga no império romano [isto é, o mergulho na Idade Média]. Todavia (...), a comparação com o presente é dificultada por uma grande diferença de circunstâncias.

 

HUIZINGA, Johan. Nas sombras do amanhã:
diagnóstico da enfermidade espiritual do nosso tempo
.
São Paulo: Saraiva, 1946, p. 191. Capítulo Perspectivas.

 

 

Um exemplo duma grande realização técnica é a telegrafia sem fios. Apesar disso, com todas as suas utilíssimas e benéficas possibilidades, ameaça indiretamente prejudicar a cultura. Ninguém duvidará por um momento do extraordinário valor deste novo instrumento de comunicação. Os S.O.S., a música e as notícias para pessoas isoladas nos mais remotos lugares, são apenas alguns dos seus múltiplos dons. E todavia, como órgão de informação, o rádio, na sua função de todos os dias, traduz em muitos aspectos um regresso a uma forma menos eficaz de transmissão do pensamento. Não nos estamos a referir aos conhecidos males da prática popular: escutar sem atenção, passar rapidamente de uma a outra estação, apanhando assim uma mistura incoerente de sons e pensamentos etc.

Além de todos estes defeitos, que não são inevitáveis, o rádio constitui uma forma de assimilação do conhecimento mais vagarosa e mais restrita (...). Ler é a função cultural mais eficaz. Pela leitura, o espírito absorve muito mais rapidamente; está continuamente selecionar, fortificar-se a si próprio, salta, detém-se a pensar; exerce mil atividades mentais interditas àquele que só escuta. Num artigo intitulado The decline of the Writen World, um defensor do filme e do rádio a serviço do ensino profetizava, satisfeito e seguro, um futuro próximo em que a criança seria educada por imagens e palestras. Se tal profecia se viesse a realizar, teríamos dado um enorme passo para o barbarismo. Dificilmente se poderia ter imaginado melhor método de ensinar a juventude a não refletir, de a manter no puerilismo e muito provavelmente de a aborrecer ao máximo.

 

HUIZINGA, Johan. Nas sombras do amanhã:
diagnóstico da enfermidade espiritual do nosso tempo
.
São Paulo: Saraiva, 1946, p. 192-193. Capítulo Perspectivas.

 

 

 

A barbarização tem início quando, numa velha cultura que outrora, no decurso de muitos séculos, se guindara à pureza e clareza do pensamento e da compreensão, os vapores do mágico e do fantástico se erguem novamente do fermento fervente das paixões para irem nublar a compreensão; quando o mythos suplanta o logos.

A todo instante se vê como o novo credo da heroica vontade de poder, com a sua exaltação da vida e detrimento da compreensão, é a expressão exata das tendências que fascinam e arrastam ao barbarismo (...). Na verdade a "filosofia da vida" faz exatamente isso: põe o mythos acima do logos (...)

As divindades atuais, mecanização e organização, foram portadoras da vida e da morte. Cobriram todo o mundo de fios condutores, estabeleceram o contato mundial, por toda parte tornaram possível a cooperação, a concentração de forças e compreensão mútua. Simultaneamente, armaram a cilada ao espírito, puseram-no a ferros e sufocaram-no.Conduziram o homem do individualismo ao coletivismo; mas sem guia para seu discernimento, o homem apenas conseguiu compreender o mal inerente a todo coletivismo, a negação dos mais profundos valores pessoais e a escravidão do espírito. Teremos um futuro de mecanização da sociedade sempre crescente, e somente governado pelas exigências da utilidade e do poder?

 

HUIZINGA, Johan. Nas sombras do amanhã:
diagnóstico da enfermidade espiritual do nosso tempo
.
São Paulo: Saraiva, 1946, p. 194-195. Capítulo Perspectivas.

 

 

 

(...) embora seja verdade que a vai tomando esse rumo, isto é, a direção do maior controle técnico no exercício do poder e do cálculo prudente dos efeitos desejados, o tipo humano se tornou ao mesmo tempo mais e mais indisciplinado, mais pueril, mais suscetível a reações do sentimento (...)

 

HUIZINGA, Johan. Nas sombras do amanhã:
diagnóstico da enfermidade espiritual do nosso tempo
.
São Paulo: Saraiva, 1946, p. 196. Capítulo Perspectivas.

 

 

 

Quando analisamos os últimos dois mil anos e neles distinguimos as unidades históricas chamadas civilizações, os períodos de florescimento parecem ter sido sempre relativamente curtos. Tanto quanto parecem indicar os nossos imperfeitos meios de medida, raras vezes vão além de dois séculos. Para a civilização helênica são os séculos V e IV antes de Cristo; para a civilização romana o primeiro século antes e o primeiro depois de Cristo (embora aqui haja motivo para divergência de opiniões); para o medievalismo ocidental os séculos XII e XIII; para a Renascença e Barroco os séculos XVI e XVII. Por mais vagas e mesmo arbitrárias que tais delimitações tenham de ser, as fases específicas de maior desenvolvimento não são longas.

(...) contra tudo o que parece pressagiar declínio e ruína, a humanidade contemporânea, à exceção de alguns fatalistas, opõe unânime e firmemente esta enérgica declaração: mas não queremos perecer (...). Nós não esperamos o fim do mundo [como parece tender a ocorrer em tempos de declínio cultural].

 

HUIZINGA, Johan. Nas sombras do amanhã:
diagnóstico da enfermidade espiritual do nosso tempo
.
São Paulo: Saraiva, 1946, p. 198. Capítulo Perspectivas.

 

 

O novo brota sempre do velho. Mas os vivos não sabem nem podem saber o que é verdadeiramente novo e que está destinado a triunfar.

Toda grande ação é seguida duma reação. Se a reação se mostra lenta na sua chegada, tenhamos paciência e a guardemos a história.

 

HUIZINGA, Johan. Nas sombras do amanhã:
diagnóstico da enfermidade espiritual do nosso tempo
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São Paulo: Saraiva, 1946, p. 200. Capítulo Perspectivas.

 

 

Na resultante de qualquer época há sempre um componente que é depois considerado como novidade, o inesperado., o imprevisível. Esta incógnita pode ser sinônimo de ruína, mas enquanto a perspectiva pode hesitar entre ruína e salvação, é nosso dever ter esperança.

 

HUIZINGA, Johan. Nas sombras do amanhã:
diagnóstico da enfermidade espiritual do nosso tempo
.
São Paulo: Saraiva, 1946, p. 200-201. Capítulo Perspectivas.

 

Katharsis

O mundo atual já avançou bastante no caminho que conduz à renúncia absoluta das normas éticas. Dificilmente consegue já distinguir o bem do mal. Tem a tendência para considerar toda a crise da civilização contemporânea como uma simples luta entre forças opostas, um duelo entre adversários que disputam a supremacia. E todavia, a única esperança está na recognição de que nesta luta as ações humanas devem ser governadas pelo princípio absoluto do bem e do mal.

 

HUIZINGA, Johan. Nas sombras do amanhã:
diagnóstico da enfermidade espiritual do nosso tempo
.
São Paulo: Saraiva, 1946, p. 209. Capítulo Katharsis.

 

 

 

Katharsis, assim chamavam os gregos ao estado de espírito produzido pelo espetáculo duma tragédia; uma espécie de silêncio do coração em que a piedade e o medo se fundiram, uma purificação da alma nascida da compreensão dum significado mais profundo das coisas; um estado que dispõe ao cumprimento sério do dever e à aceitação do destino; que rompe o hybris tal como se faz na tragédia; que nos liberta das paixões violentas da vida e nos dá a paz à alma.

Para conseguir a purificação necessária à hora presente, impõe-se uma nova askesis. Aqueles que se dispõem a criar essa cultura purificada terão que se assemelhar aos que despertam ao romper da aurora. Terão de afugentar os maus sonhos da noite - sonhos de almas saídas do lodo e que para lá querem voltar; sonhos dum cérebro cujas circunvoluções são fios de aço: sonhos de corações frágeis como o vidro; sonhos de mãos transformadas em garras e de dentes feito lâminas. Deverão recordar, enfim, que o homem pode querer não ser um animal.

Esta nova askesis não será uma renúncia ao mundo para conquistar o céu; será o domínio próprio e uma justa apreciação da força e do prazer. A exaltação da vida terá de baixar um pouco o seu tom. Será preciso recordar o que já Platão dissera das ocupações do sábio: que eram uma preparação para a morte. Só uma orientação firme da vida para a morte pode enobrecer o uso das próprias forças vitais.

A nova askesis deverá comportar uma rendição, rendição a tudo quanto se possa conceber como ideal. [E] nem um povo, nem uma classe, nem a existência individual própria poderão ser objeto deste pensamento.

 

HUIZINGA, Johan. Nas sombras do amanhã:
diagnóstico da enfermidade espiritual do nosso tempo
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São Paulo: Saraiva, 1946, p. 212. Capítulo Katharsis.

 

 

Donde quer que surja o botão, ainda o mais frágil, do verdadeiro internacionalismo (melhor diríamos internacionalidade), cuidai dele, regai-o com a água criadora da consciência nacional, contanto que ela seja pura. Assim há-de florir com mais vigor. O sentido internacional - esta palavra já implica a preservação das nacionalidades, mas só daquelas que se compreendem e resolvem pacificamente os conflitos - pode tornar-se modelo da nova ética da qual deverá desaparecer a oposição coletivismo-individualismo. Será sonho pensar que um dia o mundo possa conhecer tal situação? Mesmo que fosse, nunca deveríamos abandonar esse ideal.

 

HUIZINGA, Johan. Nas sombras do amanhã:
diagnóstico da enfermidade espiritual do nosso tempo
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São Paulo: Saraiva, 1946, p. 213-214. Capítulo Katharsis.

 

 

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