Resenha crítica

A Teogonia de Hesiodo, uma mitologia pré­-filosófica:
Um dos primeiros esboços de pensamento racional sobre o mundo,
mas ainda mitológico e não filosófico


Por João Borba - Set. 2002

 

1. Qual a importância do livro Teogonia?

 

A Teogonia de Hesíodo, escrita no século IX a.C., narra, de maneira poética, a origem dos deuses gregos, como foram nascendo uns dos outros.

É um livro de enorme importância histórica, enorme valor literário, e uma referência fundamental nos estudos sobre a passagem do pensamento mágico-mítico para o pensamento de tipo filosófico, porque é uma das primeiras versões da história da origem dos deuses que tenta explicar as coisas de maneira um pouco mais racional, e como os deuses gregos eram as próprias forças da natureza, essa explicação de certo modo tenta explicar ao mesmo tempo, indiretamente, como as coisas da natureza vão surgindo umas a partir das outras. Por isso dizemos que é uma mitologia "pré-filosófica", que antecipa um pouco daquele esforço racional de explicação que começou a ser feito pouco mais tarde pelos filósofos.

Na antiguidade havia várias versões, várias interpretações diferentes da origem dos deuses, que variavam de acordo com as diferentes seitas religiosas da época. E dessas interpretações, várias tentavam ser mais racionais. Entre essas mais racionais, a de Hesíodo é a mais famosa de todas, e é a que aparece neste livro — a Teogonia.

A edição dele que comentamos aqui é uma publicação particularmente valiosa, em primeiro lugar porque é uma edição bilíngue, com o texto original grego acompanhando a tradução para o português, de modo que um especialista em grego antigo poderia acompanhar e examinar a tradução passo a passo. Em segundo lugar, porque conta não apenas com essa excelente, cuidadosíssima tradução para o português ao lado da versão graga original — tradução feita por Jaa Torrano — mas também com uma longa e excelente introdução desse tradutor (90 páginas, 9 capítulos e um Epílogo) intitulada O mundo como função de musas — na qual Torrano comenta e analisa a obra de Hesíodo.

Mas é preciso esclarecer que o objetivo desta resenha crítica não é examinar esse estudo de Torrano, e sim apenas destacar os elementos básicos de racionalidade presentes no início daTeogonia, e a partir dos quais se engendra depois, ao longo de toda ela, uma cadeia de raciocínios que a torna classificável como uma mitologia já pré-filosófica. É claro que, para isso, não deixaremos de mencionar aqui diversos pontos tratados por Torrano em seu valiosíssimo estudo, pois é através de sua interpretação que, na edição que estamos examinando, essa racionalidade pré-filosófica de Hesíodo nos transparece com a devida clareza.

voltar↑

Nesse estudo introdutório, Torrano faz, portanto, uma interpretação explicativa do poemaTeogonia. Ele a faz a partir do significado dos nomes dos deuses, segundo a língua grega antiga. E essa proposta se harmoniza com a de examinar o poema todo, em seu estudo introdutório, a partir do importante papel desempenhado nele pelas musas, que são as forças divinas por detrás da natureza das palavras sábias e sedutoras dos homens inspirados (como por exemplo o próprio poeta Hesíodo).

Deste modo, a interpretação analítica de Torrano ressalta o fato de que o poema de Hesíodo fala não apenas dos deuses, mas também metalinguisticamente de si mesmo, isto é, do próprio fato de ele ser um poema divinamente inspirado, mas que tenta traduzir e exprimir em linguagem humana os saberes divinos.

Com isto, Torrano detecta, focaliza e destaca no poema de Hesíodo uma espécie de esboço de uma teoria mágico-mítica e pré-filosófica sobre a linguagem e seus limites, no esforço de exprimir em palavras o inexprimível.  E assim, num trabalho intelectual belíssimo, ele faz o próprio poema como que falar teoricamente sobre si mesmo.

Ou melhor, Torrano, em seu estudo introdutório, dá voz ao antigo poema, para ouvidos atuais, naquilo em que o poema por si mesmo fala sobre o que é a linguagem poética, e como se dá o exercício poético de exprimir o inexprimível (porque divino), o exercício poético de transmitir em palavras o que está para além do que as palavras são capazes de dizer. O que percebemos esboçado ali, então, acaba por ser uma espécie de belíssima teoria poética. Percebemos que, naquele poema de nove séculos antes de Cristo, estamos diante de um esboço teórico capaz de nos provocar a pensar sobre a poesia e os limites da linguagem ainda mesmo nos dias de hoje.

Pedindo que o leitor me desculpe por mencionar algo um tanto deslocado do que seria natural esperar desta resenha crítica, gostaria de dizer que se trata do tipo de material que provavelmente faria o gosto de um filósofo da linguagem de perfil ao mesmo tempo heideggeriano e wittgensteiniano como aquele que mais me levou ao interesse por filosofia — o filósofo Vilém Flusser (ele certamente gostaria de ler esse estudo introdutório de Torrano). Noto isto apenas porque há algo bem interessante que se pode notar nesse esforço de Torrano, se quisermos situá-lo em relação aos debates filosóficos: é que se percebe claramente, em sua leitura, uma fortíssima influência heideggeriana (da filosofia wittgensteiniana, por outro lado, não pude notar nenhum traço em Torrano).

O estudo introdutório de Jaa Torrano, então — embora não assuma isso explicitamente — tudo indica estar apoiado principalmente na filosofia fenomenológica de Heidegger, embora provavelmente haja outras influências também presentes. A bibliografia utilizada, no final do volume, além da presença de Heidegger, revela outras influências — e mais uma delas aliás coincide mais uma com as leituras preferidas de Flusser: Ernest Cassirer, do qual são citadas várias obras.

voltar↑

A biliografia indica também o uso de outras traduções comentadas daTeogonia, várias obras de Jean-Pierre Vernant (uma de minhas próprias fontes favoritas nos estudos sobre mitologia), algumas de Mircea Eliade e Marcel Detienne, e outros diversos autores presentes cada um com um único texto, entre os quais não encontramos nenhum filósofo reconhecido que chame especial atenção — a não ser talvez Paul Ricouer, ele próprio um heideggeriano, aliás dedicado principalmente a estudos sobre a linguagem (mas o livro de Ricoeur citado é As culturas e o tempo, na verdade não propriamente uma obra dele, mas uma composta por ele e outros autores menos conhecidos).

Precisamos então ter isto em mente: esta edição não apresenta apenas o poema de Hesíodo, e o estudo que vem com ela também não é uma simples apresentação de informações básicas sobre ele. É um estudo que procura decifrar alguma coisa mais no fundo do poema, algo que não havia sido percebido nele até o momento. Para isso, o estudo se utiliza de uma abordagem específica, um ponto de vista filosófico muito particular.

Quando examinamos alguma coisa a partir de um ponto de vista diferente, ela revela coisas novas que não perceberíamos facilmente nela sem esse ponto de vista. Mas por outro lado, uma interpretação como esta sempre deixa uma certa margem de dúvida, de questionamento (e por isso de crítica): será que isto que descobrimos no poema está realmente ali?

Será que o ponto de vista que adotamos está realmente nos ajudando a perceber algo novo? Ou está apenas provocando algumas fantasias, algumas ilusões a respeito do assunto? Será que o nosso ponto de vista se ajusta mesmo bem ao exame do poema, ou nos passa uma imagem distorcida dele? É um ponto de vista que nos revela algo no poema, ou que projeta sobre ele uma imagem falsa, que não nos deixa perceber por debaixo dela como o poema realmente é?

Jaa Torrano utiliza um ponto de vista filosófico que parece heideggeriano, ou pelo menos bastante marcado por influências da filosofia de Heidegger, e também muito apoiado em questões de tradução, porque é uma interpretação que depende do significado dos nomes dos deuses. Com este ponto de vista em mãos, realiza um belo trabalho, e mostra bastante confiança na boa sintonia de sua interpretação com o poema interpretado a partir dela, pelo menos em relação ao que depende de sua tradução, porque junto à versão em português, apresenta também o texto original em grego, para que essa tradução possa ser checada por qualquer outro conhecedor dessa língua.

voltar↑

A presença de fortes traços heideggerianos se nota sobretudo no estilo e no linguajar de Torrano, bem como na atenção dedicada ao exame da dinâmica do simultâneo mascaramento e desvelamento dos conteúdos conforme são expressos nas palavras. Infelizmente, porém, Torrano — talvez contaminado pela linguagem difícil que Heidegger já utiliza, e que as traduções desajeitadas tornam ainda mais complicada — explica as coisas em uma linguagem por vezes tão densa e difícil, que suas próprias explicações precisam ser explicadas... e é um pouco do que faremos aqui.

Mas vamos nos deter apenas nas explicações de Torrano sobre o início do poema, porque é ali que está o fundamento essencial para entendermos o elemento racional presente nessa história sobre os deuses e sobre forças divinas irracionais. Se há uma certa lógica no raciocínio de Hesíodo, quando compõe sua interpretação da origem dos deuses, os princípios básicos de funcionamento dessa lógica transparecem principalmente no início do poema, como o próprio Torrano nos indica. E são esses princípios o que faz dessa Teogonia uma mitologia já pré-filosófica.

voltar↑

2. O que é exatamente a Teogonia?

 

Conforme já esclarecido logo no início desta resenha, a Teogonia é na verdade um longo poema — e muito sonoro quando lido no grego original, porque foi composto para ser cantado. É um poema narrativo, escrito no século IX a.C. Ele conta a história da origem e do nascimento dos deuses gregos.

Há uma porção de coisas que não são apresentadas nem por Hesíodo na Teogonia nem por Torrano em seu estudo sobre ela, embora seja um excelente, excelentíssimo estudo; mas que constituem informações básicas importantes para entendermos melhor o sentido de tudo isto.

Primeiramente, saibamos queTeo significa deus; e gonía significa gênese, origem, nascimento — uma informação que teria sido útil Torrano apresentar bem no início, logo de saída, para sabermos do que se trata. Uma teogonia — gênero literário muito apreciado naquela época — era uma descrição de como ocorre o nascimento de um deus. E para os gregos antigos havia muitos deuses, que nem sempre nasciam do mesmo modo.

Os deuses, por sua vez, eram imagens com as quais os gregos antigos simbolizavam (ou nas quais eles sentiam que se exprimiam) as diferentes forças e elementos da natureza e do mundo humano. A forma como os gregos supunham que tais deuses iriam nascendo uns dos outros era, ao mesmo tempo, a forma como raciocinavam que os elementos e forças da natureza e da humanidade iriam nascendo uns dos outros.

Os deuses eram eram além disso representados por imagens semi­-humanas, às vezes misturadas com animais ou plantas. Tinham os mesmos sentimentos e viviam uns com os outros os mesmos tipos de relacionamento que os seres humanos. envolvendo amores, ódios, amizades, inimizades etc. Mas no caso dos deuses, tudo isso parecia cem vezes mais exagerado do que era entre os homens.

Os reflexos desses relacionamentos entre os deuses eram fenômenos da natureza como tempestades e variações climáticas em geral, ou fenômenos astronômicos como eclipses e as fases da Lua: ou ainda eventos humanos, como paixões, conflitos entre diferentes famílias ou guerras que os diferentes povos se sentiam levados a declarar uns contra os outros — tais sentimentos pareciam provocados por deuses ou pelas relações entre os deuses. Fazer uma teogonía era, no fundo, fazer uma descrição imaginária de como tudo no mundo teria começado a existir.

voltar↑

 

3. Na antiguidade, a imaginação mitológica servia
como forma de promoção da cultura?

 

Informando ainda o básico sobre o assunto, é bom que saibamos que os gregos sentiam-se impulsionados por essas imagens divinas e pelo que elas representavam, sentiam seu comportamento sendo constantemente modelado e remodelado por elas. Era por intermédio dessas imagens que a comunidade como um todo transmitia seus modelos de vida e de comportamento para os indivíduos. E os indivíduos, pelo seu comportamento, procuravam também projetar modelos de bem-agir para os outros.

Com o tempo, esses modelos, selecionados naturalmente pela aceitação ou não das pessoas, iam aos poucos influenciando as imagens (os mitos), que se alteravam aos poucos, adaptando-se à maneira de pensar e agir de cada nova geração.

Isso seria comparável, de certo modo, a uma grande campanha publicitária criada e promovida constantemente por todos os cidadãos ao mesmo tempo. Visando o avanço da sociedade rumo à areré ­— a idéia, habitual entre os gregos, de um máximo de desenvolvimento humano que as pessoas deveriam buscar — com o sentido dessa areté passando por rediscussões e pequenas variações de geração para geração. Em muitas cidades gregas, talvez na maioria delas, essa areté tendia a ser associada aos valores do heroísmo guerreiro em campo de batalha.

Assim, os mitos tinham um papel fundamental na paidéa grega — a educação dos gregos, que para eles se realizava constantemente através das sua próprias relações diárias, pelas quais eles cultivavam e sempre realimentavam a sua cultura e os seus valores, não sendo de modo nenhum uma educação limitada apenas ao que se aprendia em escolas.

A paideia era como que um ambiente educacional geral no qual se sentiam envolvidos, e que não deixava por isso de ter também os seus grandes e valorizados educadores, entre os quais estavam principalmente os poetas como Homero e o próprio Hesíodo. Portanto, para os gregos a Teogonia era também, ao mesmo tempo, uma obra de valor educacional, uma importante contribuição à sua paideia.

 

voltar↑

O uso nitidamente racional desses mitos que encontramos na Teogonia de Hesíodo pode ser compreendido também como uma das primeiras utilizações racionais do conjunto de imagens em movimento, pelas quais os gregos propagandeavam e promoviam entre si mesmos a sua formação cultural.

Imagens metafóricas, bem entendido, e que eram transmitidas principalmente através das palavras, portanto imagens apenas mentais — os gregos evidentimente não tinham cinema. Mas a emoção, o prazer do contato com aventuras e acontecimentos repletos de mistérios e ocorrências surpreendentes, que sentiam ante a leitura de um texto como esses, era provavelmente ainda maior que a impacto de assistir nos dias de hoje a um filme profundamente emocionante. Porque aquelas eram, ao mesmo tempo, as suas histórias sagradas, histórias que tocavam fundo em suas crenças e valores. Além disso, se essas histórias não se transmitiam principalemente através de textos recitados ou cantados, havia também um outro meio de transmiti-las consideravelmente frequente: o teatro, arte muitíssimo apreciada. Entretanto, o elemento educacional nesses textos era muito mais fundamental, para os autores e para o público, do que o simples impacto emocional.

Em Hesíodo, e nos gregos em geral nesse período, a imaginação criativa já aparece organizada explícita e consciememente para essa finalidade ética e educacional — fazer o público avançar rumo à areté — e buscando maior eficácia nesse sentido.

Promover a formação cultural da população através de cenas imaginárias das vidas dos deuses, neste momento em que encontramos Hesíodo fazendo isto, já não é mais algo que se faz por mero costume, como uma atitude automática, impensada, praticada naturalmente. É um gesto que procura ser racional, calculado e decidido.

Examinemos então o que Torrano nos faz aprender do início dessa grande obra de Hesíodo, onde a lógica de raciocínio desse poeta para explicar o aparecimento dos deuses vai tomando forma, para depois ser aplicada ao longo de todo o resto do poema fazendo surgirem e se relacionarem mais e mais deuses até que se dê conta de todo o panteão deles. Vamos examinar isto em linguagem bem simples, e apontando apenas o mais essencial.

voltar↑

 

4. Quais as linhas de raciocínio da Teogonia de Hesíodo,
segundo o estudo de Jaa Torrano?

 

A) como se organiza o estudo de Torrano sobre o poema?

 

O estudo de Torrano se divide nos seguintes capítulos:

  1. Discurso sobre uma Canção Numinosa
  2. Ouvir Ver Viver a Canção
  3. Musas e Ser
  4. Musas e Poder
  5. A Quádrupla Origem da Totalidade
  6. Três fases e três linhagens
  7. Memória e Moîra
  8. A temporalidade da Presença Absoluta
  9. A presença do nume-nome
  10. Epílogo

O primeiro capítulo é praticamente uma introdução sobre alguns conceitos básicos que o estudo utiliza e sobre a sua proposta geral, sobretudo a de tentar acompanhar o poema em sua dificuldade de dizer o indizível. O capítulo 2 é uma cuidadosa descrição do contexto histórico em que Hesíodo escreveu, e do papel desempenhado por seu poema nesse contexto.

Há uma especial atenção de Torrano ao fato de a Teogonia ter sido escrita para ser recitada ou cantada, porque isto está ligado à relação que os gregos viam entre aquelas palavras e as potências divinas. Ao dizê-las, o poeta atraía a presença das entidades relacionadas a elas — mais especificamente, em primeiro lugar a presença das Musas, que eram as forças divinas por detrás de palavras divinamente inspiradas (como as de um poema sagrado daquela espécie).

Presentes as "Musas" — palavra no plural que não por acaso é a primeira do poema — e com elas presentificado também o próprio dizer, recitar, cantar de palavras divinamente inspiradas, o poema podia começar a se desenrolar, presentificando na sequência (através das Musas) as demais forças divinas. O próprio ritual de recitar/cantar o poema tornava de algum modo realmente presentes os deuses — que lembremos, eram considerados pelos gregos como míticos (a palavra "mito", curiosamente quer dizer narrativa de ficção). É como se o próprio ato de dizê-los, em um ritual de récita ou canto por um poeta-sacerdote como Hesíodo, os materializasse. Dizer os deuses míticos (seus nomes), os tornava presentemente reais.

voltar↑

Os capítulos 3 e 4 mostram como as Musas (as palavras inspiradas, com as forças divinas que existem nelas e por detrás delas), ao presentificarem os deuses, tornavam presentes e reais o próprio ser dos deuses (e das coisas ligadas a eles), e também o sentido de poder que está inscrito na ideia do que é um deus.

O capítulo 5 nos esclarece que os poemas teogônicos da época — e a Teogonia de Hesíodo não é exceção — conforme iam se desenrolando, costumavam retomar um mesmo tópico várias vezes até o final, a partir de diferentes pontos de vista, às vezes inclusive pontos de vista antagônicos, conflitantes.

Assim, embora haja uma sequência pela qual esses deuses vão nascendo uns dos outros (a começar pelo deus Khaos), na verdade os outros primeiros deuses do panteão a aparecerem de certo modo como que oferecem outros pontos de vista para o que já era característico de Khaos — de modo que acaba se tornando controverso entre os estudiosos se Khaos é realmente o primeiro, ou se é preciso entender que no início havia essas 4 entidades, distribuídas em dois pares de opostos: Khaos e Eros, Terra e Tártaro. Quatro origens de uma mesma totalidade, totalidade da qual a primeira a primeira faceta a se materializar com as palavras do poema é a que se exprime no deus Khaos.

O capítulo 6 fala das três fases em que se desenvolvem diferentes linhagens familiares dos deuses. Antecipando desde já o que ainda nesta resenha crítica terá, mais adiante, um resumo um pouco mais cuidadoso, o que temos nestas três fases de desenvilvimento dos deuses, na Teogonia?

Primeiro aquela que se origina com o pai Céu (Urano) e a mãe Terra (Gea), mobilizados para o sexo (enquanto movimentos sucessivos de união e separação de seus "corpos") pelas ações sucessivas e alternadas de Eros (força que os une) e Khaos (que os separa). Seus filhos vão nascendo e morrendo esmagados pelos corpos do Céu e da Terra em seu incessante êxtase amoroso. Depois a geração de deuses que nascem sob o reinado do Tempo (deus Crono, que castra o seu pai Urano para não ser esmagado), e morrem devorados por ele (pois tem medo de ser castrado pelos filhos, como fez com seu pai Urano, o Céu). E por último a linhagem que se mantém sob o reinado do deus Luz (Zeus, dos relâmpagos), que escapando de ser devorado pelo Tempo (Crono), realiza uma guerra para salvar dele os seus irmãos e irmãs, e depois estabelece a justiça e a paz entre os deuses.

voltar↑

Esta sucessão de três fases, com uma linhagem de deuses cada, resume também a história de todo o poema. Mas o que está nos interessando, nesta resenha crítica, não é exatamente a narrativa do poema, mas sim compreender o elemento racional (e pré-filosófico) inserido por Hesíodo em toda esta narrativa. O mesmo que é interpretado, de um modo particular e revelador, na leitura feita por Jaa Torrano.

O capítulo 7 compara a ação das Musas e a das Moîras (forças da fatalidade, ou da factualidade, a força dos fatos). E faz essa comparação a partir das relações desses dois grupos de potências divinas com a deusa Memória (Mnemosýne) — sendo as Musas filhas da união dessa deusa com o deus Luz (Zeus).

Os demais capítulos tratam da questão da presentificação dos deuses nas e através das palavras.

Tudo isto, no entanto, aprofunda e detalha a interpretação de Torrano, que valeria a pena examinar com mais cuidado em uma resenha crítica dedicada especificamente a isto (especificamente a este brilhante estudo de Torrano, em todos os seus detalhes e nuances, e em toda a sua profundidade). Aqui, nosso objetivo é apenas destacar os traços fundamentais do elemento racional e pré-filosófico presentes na Teogonia de Hesíodo (ainda que o façamos a partir do que a interpretação de Torrano nos mostra a respeito).

Examinemos resumidamente então, em aguns tópicos, apenas aquilo que é necessário para compreendermos esses traços fundamentais do elemento racional em Hesíodo. Esse exame, desenvolvido nos tópicos abaixo (do tópico "B" ao tópico "H") será acompanhado de comentários feitos não tanto por Torrano, mas sobretudo pelo próprio autor desta resenha crítica (comentários meus), visando um público que é na maior parte de estudantes completamente leigos no assunto, de modo que, desculpando-me desde já com leitores acaso mais interessados no aprofundamento da interpretação densa de Torrano, assumo responsabilidade pelas eventuais simplificações demasiado rasteiras.

É que como um professor estou, neste caso específico, talvez ainda mais interessado em divulgar a coisa com simplicidade atraente entre meus alunos, promovendo junto a eles o interesse da leitura de Hesíodo e de comentários como o de Torrano, do que interessado em aprofundar explicações, à maneira do já magnificamente profundo Torrano, em seu estudo introdutório.

voltar↑

B) Zeus

 

Não vamos aqui explorar em detalhe, conforme já dito, toda a história dos deuses narrada por Hesíodo. Tomaremos apenas o necessário para extrairmos e compreendermos a racionalidade inscrita por ele nessa história, ou seja, o início do poema e a primeira geração dos deuses.

Hesiodo começa declarando que está sendo inspirado pelas musas para cantar o poema em homenagem ao reino de Zeus. Essa declaração inicial era comum entre os poetas gregos, e tem um significado importante. Zeus era considerado o rei dos deuses, e seu nome vem de Zás, que significa luz. O reino de Zeus é o reino da luz, e quando Zeus se zanga, lança luzes destruidoras sobre a Terra, sob a forma de relâmpagos. Zeus seria um rei justo para os deuses porque em seu reino (reino da luz) cada deus (cada coisa da natureza) teria o seu próprio lugar garantido, o seu próprio pequeno reino dentro do reino de Zeus, e nenhum deus teria direito de invadir o território de outro.

Ou seja, nenhuma coisa da natureza poderia "invadir o território de outra". O mar é mar e não é céu, não tem o direito de invadir o céu, não tem o direito de misturar-se com o céu. Para os gregos, cada deus é (ou pelo menos parte dele é) o espaço que ele ocupa na natureza. Um deus que não tenha um reino da natureza sob seu domínio não é um deus, ele não existe. Para os deuses, perder todo o seu reino na natureza, todo o seu território de domínio, seria deixar de existir, e isso nunca acontece porque Zeus (a luz) garante que todos os limites entre os deuses estejam claramente visíveis. Isso permite a fiscalização de Zeus, para evitar que os deuses invadam um o território do outro, e as coisas da natureza desapareçam numa grande massa única em que tudo estaria misturado e não se poderiam mais distinguir as coisas.

Não obstante, a todo momento acontece de um deus começar a querer invadir o território de outro (por exemplo quando ocorre uma enchente, e as águas parecem querer invadir a terra), e cria-­se então um conflito entre os deuses, que deve ser resolvido por Zeus.

voltar↑

C) A fé religiosa e a imaginação entre os gregos

 

Hoje temos muita dificuldade para compreender como os gregos pensavam em seus deuses, porque para nós as imagens e a imaginação são sempre ou quase sempre coisas irreais ou superfîciais, e a verdade, aquilo em que acreditamos, é quase sempre algo que parece estar além das imagens — além de imagens como fotografias ou desenhos. E também além das imagens mentais que temos das coisas.

Hoje tendemos a pensar na verdade como algo que existe independentemente de qualquer coisa que imaginemos a respeito. Mas essa nossa maneira de pensar começou apenas mais tarde, com Pitágoras e os primeiros filósofos, entre os séculos VII e VI antes de Cristo.

Para os gregos do tempo de Hesiodo (um século antes disso, ou seja, no século VIII antes de Cristo) todas as coisas imaginárias eram consideradas como realidades que existiam mesmo fora das nossas mentes, no mundo dos deuses — e que constantemente entravam em nossas mentes (e especialmente nas mentes dos poetas) para se comunicarem com a raça humana. Imaginar era receber mensagens dos deuses, que poderiam ser sérias e importantes ou apenas brincadeiras desses eles, porque eles muitas vezes gostavam de se divertir uns com os outros às custas dos seres humanos, muitas vezes usados como peças de jogo ou instrumentos de provocação de um deus a outro.

Os próprios gregos, então, sabiam que seus deuses eram imaginários. Mas acreditavam que esses deuses eram imagens vivas que existiam num mundo espiritual para além da mente de cada pessoa. Eram imagens de quê? Os deuses eram imagens das coisas da natureza. Essas imagens vivas da natureza que eram os deuses, eram como "almas" das coisas naturais.

voltar↑

Se podemos hoje pensar que nossas almas controlam nossos corpos, os gregos daquela época pensavam que as "almas" das coisas da natureza controlavam essas coisas. Só que hoje, quando pensamos na "alma" humana, tendemos a pensar em algo que continua existindo quando o corpo desaparece. As "almas" das coisas da natureza, que eram os deuses, eram apenas imagens dessas coisas controladas por eles. Então se alguma coisa desaparecesse na natureza, o deus que era sua "alma" desapareceria também.

Se essa coisa voltasse a existir na natureza, o deus correspondente voltaria a existir. Mas naquela época ninguém precisava se preocupar com poluição e destruição da natureza, as coisas naturais pareciam eternas e isso não chegava a ameaçar os deuses.

Por outro lado, havia algo que poderia ameaçar os deuses: se eles eram imagens para quem eles apareciam? Será que podemos chamar de "imagem" algo que não aparece para ninguém?

Para os gregos, os deuses existiam porque apareciam na imaginação dos homens a qualquer momento que quisessem. Os próprios gregos consideravam seus deuses como imagens das coisas, e portanto esses deuses também não existiriam se não existissem os homens para imagina-los. Se todos os homens morressem ou parassem de imaginá-los, os deuses deixariam de existir. Mas as coisas da natureza só se movimentavam e se relacionavam umas com as outras por causa de suas "almas", ou seja, por causa de seus deuses. Um corpo sem alma morre e se decompõe, desaparece. Se os deuses deixassem de existir, tudo no mundo acabaria morrendo com eles, seria o fim do mundo.

Se compreendermos isso, poderemos finalmente compreender toda a importância dessa idéia de que Zeus (a luz) mantinha cada coisa em seu lugar porque deixava claramente visíveis (como imagens) os limites de cada coisa. Na verdade, Zeus (a luz) fazia com que os deuses, essas imagens vivas, tivessem contornos nítidos e pudessem aparecer. Sem isso eles não poderiam existir. A idéia de um reino da luz (de Zeus), então, é muito mais forte do que poderíamos pensar a princípio.

voltar↑

D) As musas

 

Os deuses apareciam para os homens de várias maneiras: através de seus sonhos, através de suas fantasias etc. Mas havia um grupo de deusas que eram mensageiras especiais, e que inspiravam os poetas para que eles estimulassem a imaginação de todos com seus poemas e continuassem sempre lembrando aos homens que os deuses existiam e precisavam continuar existindo.

Hesiodo começa a Teogonia (como todos os poetas tendiam a fazer) declarando que estava inspirado pelas Musas. Essas deusas — as musas — eram imagens de quê? Elas representavam o quê?

Já o dissemos antes nesta resenha crítica: as musas representavam as vozes sedutoras das pessoas quando diziam ou ensinavam coisas belas e grandiosas, e especialmente coisas divinas (sobre os deuses). Simplificando um pouco a coisa, podemos entender que quando alguém começava a dizer coisas bonitas e grandiosas de maneira sedutora, ou começava a ensinar algo e isso soava belo e atraente (especialmente algo tão grandioso que parecesse divino ou relacionado aos deuses), dizia-se que as musas estavam inspirando a fala da pessoa, as "almas" dessas palavras que soavam tão belas eram as Musas.

Naturalmente. estamos falando das palavras poéticas, das coisas ditas com poesia; e precisamos lembrar que na Grécia antiga as palavras poéticas traziam também poderosos ensinamentos, que influenciavam toda a sociedade. Ninguém tinha maior inspiração das Musas do que os poetas. Mas além disso, as Musas (essas palavras sábias, belas e sedutoras) eram filhas de Zeus (da luz) e da deusa Mnemosýne (que era a imagem da Memória).

voltar↑

O que significa dizer que essas palavras ditas com beleza e que podiam ser ensinamentos eram filhas da luz e da memória?

Significa que os ensinamentos dos poetas nasciam da mesma força (Zeus, a luz) que fazia com que as imagens vivas das coisas (os deuses) aparececem com limites claros e bem definidos, sem se confundirem umas com as outras, e também nasciam da força que nos faz lembrar das coisas (a memória). Em resumo: para os gregos, as belas palavras dos poetas tinham a força mágica de nos fazer lembrar das "almas" das coisas naturais, de que a natureza era viva porque havia deuses por detrás de tudo, e de que precisávamos manter esses deuses vivos imaginando sempre (com nossa imaginação sempre realimentada por exemplo pelos rituais sagrados) como esses deuses eram e viviam, porque se nossa imaginação morresse, os deuses desapareceriam, a natureza morreria, e seria o fim do mundo.

Se lembramos que essa imaginação do século VIII antes de Cristo estava ligada a toda a busca dos gregos por modelos de comportamento sempre melhores, e que isso foi um dos fatores responsáveis pelo "milagre" do desenvolvimento grego nos séculos VI e V antes de Cristo — quando nasceram a filosofia, a ciência, a democracia, e quando as artes, os esportes e o comércio tiveram um enorme avanço — se lembrarmos de tudo isso, enfim, a ideia de que parar essa imaginação seria como deixar o mundo acabar nos dá uma boa medida do vasto esforço dos gregos para se desenvolverem naquela época: parar de se dedicar a essa imaginação criadora e construtiva seria parar de se desenvolver, e eles comparavam isso a nada menos que o fim do mundo. O esforço de cada um estava empenhado nisso.

voltar↑

E) O esforço civilizatório dos gregos antigos
teve alguma repercussão perceptível ainda nos dias de hoje?

 

O esforço autocivilizatório dos gregos antigos continuou presente e ativo, espalhando-se mais e mais para outros povos, até os dias de hoje — apesar de em geral estarmos agora menos conscientes da presença desse nosso esforço do que eles em sua época.

Uma comparação: procurem observar a postura fisica das pessoas. Atualmente, os estudiosos de fisiologia humana (que estudam o corpo humano e como ele se desenvolveu ao longo dos séculos) dizem que nossa estrutura óssea ainda não é perfeitamente adaptada para andamos em pé e com as costas retas, porque temos uma coluna vertebral maleável com os membros (braços e pemas) pendurados nela, fazendo peso para deixarmos de andar com a postura "correta" de uma pessoa elegante.

Tudo depende do nosso esforço muscular constante, somos ensinados a manter esse esforço desde pequenos, e mesmo que não nos ensinem, tendemos a aprender e a manter esse esforço constante pela observação de como as pessoas andam: o modo de andar das pessoas adultas, em pé e com a coluna reta, fomece um modelo de comportamento que as crianças imitam e assimilam conforme crescem. Se pararmos completamente esse esforço, começamos a ficar com a coluna encurvada para baixo e uma postura parecida com a dos macacos.

Aliás, quando uma pessoa está muito cansada, tensa, desanimada ou sobrecarregada, o desgaste a deixa com pouca energia e freqüentemente ela perde a boa postura, parece meio "encolhida", curvada, e precisa de um esforço muito maior que o normal se quiser manter as costas retas.

Esforçar-se para manter as costas retas é um pequeno gesto que representa muito mais do que "elegância": representa o imenso esforço de toda a humanidade para se superar a si mesma desde a pré­história até hoje, e se diferenciar de todos os outros animais na face da terra, construindo uma civilização que procura sem pre se aperfeiçoar. Esse pequeno esforço cotidiano, mas heróico, dos seres humanos, é um esforço inconsciente para manter a condição de seres humanos, de seres civilizados, cultos, desenvolvidos.

Os gregos, entre os séculos VII e V antes de Cristo, estavam plenamente conscientes da importância desse esforço para sermos e nos mantermos cada vez mais humanos, e buscarmos o máximo daquilo que somos, o máximo de humanidade. Seu esforço na época é comparável a esse esforço geral de toda a humanidade, e é isso o que representa para nós o grande "milagre" de desenvolvimento dos gregos. Um momento de grande conscientização quanto à condição humana e de grande desenvolvimento nesse sentido, sob a idéia de que, sem esse esforço de desenvolvimento da cultura, nós todos regridiríamos e nos comportaríamos cada vez mais como animais.

voltar↑

F) O esforço civilizatório dos gregos antigos e a civilização cristã

 

Muitas vezes o estudo de uma obra como a de Hesíodo gera algumas resistências oriundas de uma formação cristã que, algumas vezes, acaba se mostrando demasiado obscurantista, antiintelectual. Então é preciso algumas palavrinhas sobre isto, para o limpar o terreno de possíveis preconceitos religiosos.

Saibamos do seguinte: é a esse esforço monumental dos gregos daquela época que devemos muito da nossa civilização. Sem ele, não podemos dizer que teríamos a ciência que temos hoje, nem a filosofia, nem a idéia de democracia, apenas para citarmos alguns dos desenvolvimentos que herdamos deles.

A evolução do cristianismo, mais tarde, se apoiou e muito nesse esforço. A noção de um deus único não teria sido possível se a humanidade não tivesse feito, em algum momento, o esforço de aperfeiçoar as imagens mágicas que tinha das coisas da natureza e desenvolver os seus conhecimentos apoiados nessas imagens até atingir algo mais profundo e verdadeiro por detrás de cada uma delas. Os gregos fizeram esse esforço, e os cristãos puderam por isso se aproveitar dele mais tarde. Sem isso, sem esse esforço grego em busca de uma compreensão mais profunda das coisas, é possível que o monoteísmo dos hebreus (que começaram mais cedo a acreditar em um só deus) talvez nunca tivesse se misturado com a filosofia grega para formar o cristianismo como conhecemos hoje.

O cristianismo que conhecemos combina esse monoteísmo com as filosofias de Platão e Aristóteles adaptadas a ele, em algumas versões valorizando mais Aristóteles, em outras Platão. As tendências mais platônicas tendem a defender com argumentos que a fé é a única via de acesso a deus, e que a razão não serve para isso — o que é uma um posicionamento plenamente filosófico, de uma área da filosofia chamada metafísica, que hoje está pouco valorizada mas que esteve por muito tempo no centro das atenções dos filósofos.

voltar↑

Durante toda a idade Média muitos julgavam ingenuamente que deus teria criado o ser humano de um instante para o outro inteiramente do modo exato como ele era, apenas mais "puro" de alma. Mas os escritos bíblicos são muito mais ricos, profundos e interessantes do que essa leitura puramente "literal" tende a fazer parecer. Cada frase da Biblia é carregada de toda uma simbologia que não pode ser compreendida de maneira tão superficial, precisa ser estudada com muito mais cuidado, porque traz ensinamentos muito mais profundos do que isso a respeito dos seres humanos, do mundo e da vida.

Os escritos bíblicos cristãos representam a vida espiritual de boa parte da humanidade atual, e mesmo os ateus precisam reconhecer que estão entre os escritos mais importantes jamais produzidos pela nossa civilização. Por isso mesmo, não podem ser tratados como uma mera descrição banal de fatos que teriam acontecido. Seria empobrecer de maneira absurda a significação desses textos que marcaram mais de metade da civilização.

No entanto muitas pessoas religiosas tendem a esse tipo de leitura, porque é mais simples e fácil, e acabam fazendo da Biblia um instrumento contra o pensamento científico e contra o pensamento filosófico. No limite, uma arma contra todo desenvolvimento intelectual e humano, como se para seguir a Biblia devêssemos recusar qualquer coisa que parecesse diferente, e como se a fé fosse afinal uma boa desculpa para não nos esforçamos para sermos melhores do que somos — coisa que o próprio Cristo jamais aceitaria, pois sua mensagem era justamente a de fazermos um esforço para melhorarmos de algum modo, para nos aperfeiçoarmos. Ele estava, ao que tudo indica, muito distante de qualquer posicionamento conformista. Trouxe um novo modelo de vida e de comportamento, um novo modelo de areté, que foi e continua sendo reinterpretado de muitas maneiras até hoje, e seguido por grande parte da humanidade em diferentes versões. E chegou a ser perseguido politicamente por seu inconformismo. Mas muitos de seus seguidores atuais, infelizmente, insistem em manter o mais completo conformismo.

Durante a ldade Média, muitos filósofos também sofreram perseguições devido a essa perigosa ingenuidade conformista das pessoas, que tendem a tantas vezes a argredir os inconformistas. E alguns desses filósofos, curiosamente, são santos canonizados pela Igreja, como São Thomás de Aquino (filósofo aristotélico) e Santo Agostinho (filósofo platônico).

voltar↑

G) Eros e Khaos nas primeiras gerações dos deuses:
as duas linhas de raciocínio por detrás da Teogonia de Hesíodo.

 

No início havia a deusa Géia (a Terra), o deus Tártaro (que era a região das profundezas, abaixo da Terra), Eros (o Amor, força do desejo, força de união) e O deus Khaos. Khaos era a matéria primordial sem forma, onde tudo se confundia e portanto nada era determinado, nada tinha contomos, nada existia; mas essa confusão no Khaos era energética, movendo-se em todas a direções desordenadamente, chocado-se consigo mesma, portanto, Khaos era uma força contraditória, força de conflito e de ruptura, de separação.

Desses quatro deuses parecem ter nascido todos os outros. Mas se examinarmos o modo como acontecem esses nascimentos, e seguirmos a linha de raciocínio de Hesíodo em busca do que poderia existir antes deles, perceberemos que Khaos parece o mais primordial dos deuses, porque é o único que não precisa de nenhum outro deus para se reproduzir: em seus conflitos internos. quando são muito intensos, ele se divide formando outros deuses. Os descendentes de Khaos nascem como que "brotando" dele a partir de seus conflitos intemos. Curiosamente. quando nascem, eles não saem completamente parafora do Khaos.

Como assim? Nascem do Khaos mas continua dentro dele?

Para os gregos antigos, cada deus representa um fenômeno da natureza (ou mais precisamente, como cada deus é a "alma" de algum fenomeno natural aparecendo na imaginação dos homens, ou melhor, invadindo a imaginação dos homens), e os fenômenos da natureza muitas vezes estão uns "dentro" dos outros, ou uns '"fazem parte" dos outros (como por exemplo a escuridão faz parte da noite).

O que Hesíodo deixa muito mais claro e coerente do que outros poetas da época, é que quando uma Musa fala ao poeta do nascimento de um deus, está dizendo que uma parte da natureza, tem nome e vida própria, que ela é um fenômeno natural com "alma" própria, e não se confunde mais com o outro fenômeno do qual faz parte (por exemplo dizendo que "escuridão" não é a mesma coisa que "noite"; são duas "almas" diferentes na natureza, embora uma faça parte da outra). Entāo, cada deus que nasce é a explicitação de alguma coisa que já existia implictamente, oculta, nos deuses que são os pais dele.

No fundo, todos os deuses são filhos de Khaos, onde tudo já existe desde o início, mas nada é claro e explicito, tudo se confunde, tudo está mergulhado numa confusão de conflitos e contradições desordenadas. Os mitos gregos tendem a sugerir essa origem no Khaos, sem a colocar com muita clareza, e muitos historiadores e estudiosos da Mitologia grega tendem hoje a afirmar que os gregos provavelmente pensavam assim. Então, para os gregos, parece que no início era o Khaos... dele teria nascido Eros — que explicita a com-fusão (ou fusão das coisas umas com as outras) que faz parte de Khaos.

voltar↑

 Dele tabém teria nascido a deusa Géia, a Terra, que é a base ou o fundamento das coisas do mundo físico, onde elas se apóiam e de onde elas nascem. A Terra é a explicitação daquilo que Khaos tem de fundamento das coisas, de fonte ou origem de onte tudo nasce. Essa relação entre Terra e Khaos fica mais clara se lembrarmos que a sociedade dos gregos antigos era agrária e muito ligada à natureza, estavam acostumados à idéia de que tudo nascia da terra, inclusive as colheitas que eram boa parte da sua alimentação. Portanto, estamos falando do que "brota" da terra, e não só do que "se apoia" nela. Além disso, a palavra grega phisis, de onde nasceu a palavra "físico" que usamos para falar em um "mundo fisico" à nossa volta, queria dizer "fonte", "água que brota do chão".

No poema e Hesíodo, as Musas (Palavras), filhas de Zeus (Luz, que esclarece as coisas), dançam com sensualidade em volta de uma fonte (phisis) sagrada, a água da fonte brota constantemente por causa da dança mágica das Musas, e enquanto elas continuarem dançando, a fonte continuará sempre jorrando água e regando a existência de tudo.

A Região das profundezas, que é o deus Tártaro, explicita o "lado negro" de Khaos, por assim dizer, porque o Tártaro é como um labirinto escuro, onde nada consegue consegue encontrar o caminho da luz. É um deus muito primitivo, muito próximo de Khaos, os dois não estão tão separados. Na verdade, tudo indica que neste primeiro momento, todos os deuses que nasceram do Khaos ainda não estariam muito desenvolidos, ainda não teria nascido completamente, e não estariam explicitando e esclarecendo muito bem o que devem explicitar e esclarecer, são "almas" que ainda estão muito fundidas com a alma geral do mundo que é o Khaos.

O mais importante é notar a presença de Eros já nessa primera geração. Eros, deus do amor e força desejo (que nos impulsiona no sentido de nos unirmos com aquilo que desejamos), explicita de certa maneira a con-fusão (a fiisāo das coisas umas com as outras) que existe em Khaos. Podemos imaginar então que Eros nasce de Khaos como explicitação este seu aspecto de Conşfusāo das coisas, lembrando que Hesíodo não chega a dizer isso, mas que segundo sua linha de raciocínio e a mentalidade grega em geral na sua época essa é a única origem possível para Eros, porque Khaos é a origem de tudo. Mas Eros nasce quase como uma espécie de gêmeo invertido de Khaos.

voltar↑

Se Khaos é principalmente uma força de conflito e separação, e se reproduz a partir de si mesmo através de conflitos intemos, dando origem a divisões, sendo altamente reprodutor, Eros e um deus estéril, que não pode gerar filhos por si mesmo, mas que gera os seus filhos através de uma espécie de possessão, pois sendo uma força ou energia de união, ele invade outras "almas" da natureza (outros deuses) provocando a união entre eles, e o nascimento de novos deuses, ou seja, são descendentes de Eros todos os deuses gerados pela sua força de união, que é a do desejo e do amor.

Os descendentes de Eros não explicitam "partes" ou "aspectos" do deus que os gerou, como os descendentes de Khaos. que têm sempre apenas um pai (ou mãe): os descendentes de Eros, filhos de dois deuses (pai e mãe), quando nascem, explicitam aquilo que "une" os pais, ou seja, aquilo que existe tanto no pai quanto na mãe, o que existe de comum aos dois.

Se entendermos essas duas formas de geração dos deuses (ou seja, das "almas" de cada coisa no mundo), entenderemos a linha de raciocínio de Hesiodo, e como ele consegue esclarecer as coisas do mundo com mais coerência do que outros poetas da Grécia atiga: tudo é uma questāo de compreendemos a dinâmica de como as coisas se distinguem umas das outras e do que existe de comum entre elas.

Se por exemplo ocorre um furacão e nunca se viu antes um fenômeno como este, a essência do que é um furacão, ou seja, a "idéia" de furacão, seria explicada talvez como o nascimento de um novo deus, uma nova "alma" que surge no mundo — e o poeta tentaria entender de quê o furacão, essa força claramente ligada ao Khaos, faz parte... talvez de alguma deusa da Destruição ou coisa parecida, da qual seria descendente pela linhagem do Khaos como uma forma particular de destruição.

Mas ao mesmo tempo esse deus Furacão teria algum parentesco com Eros, talvez fosse filho da Destruição com o deus Vento, ou coisa parecida. Naturalmente não estamos falando aqui de deuses que realmente existiam, nem mesmo sabemos se havia furacões na Grécia antiga, mas apenas imaginando um exemplo possível de aplicação da linha de raciocínio de Hesiodo para explicar mitologicamente (e ainda não filosoficamente) o mundo.

voltar↑

Perceba-se como a combinação dessas duas linhas de raciocínio, a do nascimento khaótico e a do nascimento erótico, podem ser aplicadas à compreensão de qualquer novo evento ou fenômeno natural sem que seja necessário recorrer às vontades e irracionais e imprevisíveis dos deuses. Porque até mesmo nos detalhes em que essas vontades interferem essas vontades estão explicadas: derivam da personalidade dos deuses, e essa personalidade também não é irracional, pelo contrário, é até aproximadamente previsível como um deus será antes que ele nasça. Basta examinar as características que descrevem seus pais e antepassados entre os deuses, ou em outras palavras, a herança que ele carrega.

O importante é que, a partir de Hesíodo, os gregos passaram a poder aplicar esses raciocínios à explicação de novas ocorrências e eventos na natureza de maneira a fazer com que tais eventos e ocorrências não pareçam aleatórios, ou produto de algo aleatório.

É interessante é notar que os deuses iniciais descritos por hesíodo não se parecem de modo algum com aqueles deuses gregos clássicos aos quais estamos acostumados. Não parecem ser deuses dotados de (ou propensos a assumir) forma humana, nem tampouco capazes de raciocinar como os humanos. Não são deuses com os quais seja possível "negociar", pela oferenda de rituais e sacrifícios de animais ou por outros meios, a sua proteção — em vista de nossas fragilidades humanas. Os deuses iniciais figuram apenas como gigantescas e poderosíssimas forças irracionais. Mas os deuses da geração final, os da geração de Zeus, já se assemelham mais à imagem humana.

Os deuses iniciais, pelo modo como estão relacionados, geram não apenas os demais deuses, mas também a própria lógica das explicações que depois serão desenvolvidas com a aplicação dessa mesma lógica ao longo de todo o poema. E essa lógica implica também um desenvolvimento que vai dos deuses mais irracionais e — por que não dize-lo? — dos mais animalescos, assumindo inclusive muito frequentemente a forma de animais misturados, cabeça de um, patas de outro etc... até os deuses mais racionais e propensos a assumir a forma humana, que são também aqueles com os quais parece possível de alguma maneira dialogar... (através de orações, é claro).

Curiosamente, deuses como esses primeiros que dão origem a tudo na Teogonia de Hesíodo, vistos como gigantescas potências animalescas e irracionais, forças que uma vez desencadeadas tendiam a se revelar incontroláveis, condizem bem mais com o modo como as divindades eram imaginadas em uma outra época, bem anterior à de Hesíodo: no período arcaico, que antecede não só Hesíodo (séc. VIII a.C.) mas também Homero (séc. IX a.C.). Ao que parece, para poder desenvolver uma linha racional e coerente de pensamento na explicação da origem dos deuses, Hesíodo teve que começar por deuses que realmente pudessem ter o seu comportamento explicado assim, deuses dos quais fosse possível examinar como funciona o seu comportamento, segundo regras previsíveis de ação.

voltar↑

Em suma, deuses que se comportavam quase como forças físicas, mecanicamente — à maneira dos deuses arcaicos. Assim, o que muitas vezes é interpretado como um arcaísmo de Hesíodo, se revela na verdade um necessário movimento de dar alguns passo atrás para poder tomar impulso para um salto adiante, rumo a uma maior racionalidade. E o salto (embora não chegando ainda ao nível de racionalidade da filosofia) se dá já no próprio desenrolar do poema. Porque as duas linhas de raciocínio combinadas como que dialeticamente por Hesíodo, a dos nascimentos divinos por "brotamento e ruptura" à maneira caótica e a dos nascimentos divinos por "união e fusão" amorosa, vão se desenvolvendo até atingirem sinteticamente a formação de uma panteão de deuses dominados pelos mais "humanizados" entre eles, os que são do reino da Luz.

Mas mesmo esses deuses "da luz", descendentes da união amorosa (erótica) estão constantemente em conflito com os sumetidos mas não submissos deuses do reino da ruptura caótica... e além disso esses deuses da luz (do reino de Zeus), se são dominantes, por outro lado não deixam de carregar em si mesmos também as marcas da influência dos deuses caóticos. Aliás, se a luz permite ver os limites que demarcam e separam os territórios dos deuses, é precisamente por causa dessa influência, visto que sem ela não seria possível promover a ruptura do todo natural nesses territórios, para distribuí-los entre os deuses.

E se a luz carrega esse elemento de ruptura caótica, ao permitir a demarcação de contornos, limites, fronteiras entre as coisas, por outro lado permite a visão delas em conjunto, unidas, interligadas no todo que está assim dividido. Deste modo, a força erótica de fusão irracional — que agindo cegamente e sem resistências teria destruído os contornos de tudo e fundido todas as coisas em uma massa homogênea em que nada mais seria discernível — essa força primordial arcáica e, do ponto de vista humano, tão terrível quanto a força do Khaos — sintetizando-se em alguma medida com este último acaba por transformar-se em uma força de harmonização entre os diferentes.

voltar↑

Nesta síntese final que é o conjunto do panteão grego, a parte dominante então —os deuses mais humanizados, da linhagem erótica transformada em linhagem luminosamente harmônica na geração de Zeus — acabam por ser paradoxalmente os mais dotados de livre vontade, e portanto os mais propensos a deciões humanamente imprevisíveis. No entanto, sua própria imprevisibilidade está prevista pelo desencadeamento como que lógico-dialético de sua formação. São duas linhagens de deuses opostas uma à outra na imagem de uma guerra entre as duas linhagens divinas (a de Khaos e a de Eros).

Em outras palavras, a lógica de Hesíodo incorpora e explica em si a liberdade — sob a forma da livre decisão em um conjunto de vontades livres harmonicamente equilibradas por um poder que lhes distribui justiça os direitos. Vontades que permanecem unidas nessa harmonia, entre outras coisas, sob a necessidade de se manterem unidas ante a resistência constante das forças vencidas, mas não eliminadas (porque afinal os deuses são imortais) daquelas potências mais depuradamente irracionais e caóticas, tendentes ao conflito. O raciocínio de Hesíodo desemboca em uma espécie de síntese tensa, e muito bem ajustada à explicação do que vinha sendo tantas vezes compreendido como pura, simples e aleatória arbitrariedade dos deuses.

Como os deuses são as "almas" das coisas da natureza, a Teogonia de Hesiodo, que é a história do nascimento dos deuses geração após geração. É uma espécie de história da origem do mundo. e podemos perceber que, para ele, o mundo vai nascendo "de baixo para cima", das trevas para a luz, do Khaos (em que nada existe claramente) a Eros, dos subterrâneos (que são o Tártaro, ainda muito próximo do Khaos) à Terra (iá um pouco mais claramente desenvolvida que os subterrâneos), sendo a Terra o fundamento para a existência das coisas ñsicas, porque é dela que emergirão e nela se apoiarão para não cair no Tártaro e acabar retomando ao Khaos primordial. Mas aqui mesmo a Terra ainda se confunde parcialmente com o próprio Khaos. Na verdade essas grandes forças primordiais não são ainda exatamente deuses gregos como aqueles a que estamos acostumados, com imagem humana, sentimentos como os humanos etc.

voltar↑

Somente na geração dos filhos de Urano (o Céu) os deuses se desenvolvem mais claramente como de fato como algo diferente daquela potência irracional que caracteriza o Khaos, e existindo como "almas" mais independentes em relação a ele. E de certa maneira são a primeira geração de deuses como aqueles a que estamos acostumados pelas pinturas de artistas e pelas histórias da mitologia. Nessa geração. Urano (o Céu) nasce como filho de Géia (a Terra), brotando dela como na linhagem do Khaos, e diretamente do Khaos nascem os deuses Nix (a Noite), e Érebo (a Escuridão Profunda) que ainda se confundem um pouco um com o outro. Essa noite negra, fomrada por Érebo e Nix, é a região do esquecimento onde os deuses derrotados serão lançados pelos deuses vitoriosos, nas guerras entre os deuses.

Urano (o Céu), assim como a Terra, também é fundamento, mas não é fundamento das coisas físicas e sim das coisas espirituais (hoje, em filosofia, diríamos das coisas "metafisicas"). Apesar de também ser fundamento, o Céu já não se confunde em nada com a Terra, porque Khaos mantém os dois em um certo conflito um com o outro. Além das diferenças óbvias, no Céu se concentra a masculinidade, e na Terra a feminilidade, por isso são realmente diferentes.

Mas ao mesmo tempo, Eros, que quer gerar descendentes para rivalizar com o Khaos, e não pode fazê­lo por si mesmo (porque é estéril), atiça fortemente o desejo do Céu por sua mãe Terra. Assim surge um movimento constante em que o Céu, descontrolado como um animal pelo impulso constante de Eros, deita sobre a Terra, procurando "fundir-se" eroticamente com ela (à força) — mas não consegue a fusão completa porque Khaos, opondo-­se a Eros, afasta constantemente o Céu da Terra.

Nesse vai-e-vem do Céu sobre a Terra (que não consegue se defender), com ele impulsionado de um lado por Eros e de outro pelo Khaos, acabam-se produzindo chuvas constantes, numa infindável tempestade... cujas águas são o esperma do Céu fecundando a Terra. O que significa, afinal, o que uma vitória de Eros. E com isso o início de uma relação às vezes conflituosa, às vezes amorosa, às vezes as duas coisas ao mesmo tempo, entre os descendentes de Khaos (força de conflituosidade) e os de Eros (força de fusão, união), descendentes que começam a nascer a partir da Terra e do Céu.

voltar↑

H) Do reinado do Tempo, que devora seus filhos, ao reinado da justiça e da Luz.

 

O deus Crono (o Tempo) já é um pouco mais conhecido por nós: é o mais famoso dos Titãs, uma geração de gigantes que teriam nascido da Terra. A pedido de sua mãe (Terra), Crono (o Tempo) cortou os testículos do pai (o Céu), libertando-a dessa tirania sexual.

Depois o deus Tempo casou-se com uma irmã, Rhéa (palavra que significa aquilo que corre como água, ou que escorre, e que se trasformou no que hoje chamamos de "rio"). Os rios, para os gregos, representavam muitas coisas, mas principalmente a vida, que vai passando como as águas. O tempo teve muitos filhos com Rhéa, mas como tinha medo de ser destronado por algum de seus filhos, passou a devorá-los um a um conforme nasciam — e Rhéa naturalmente não gostava nada disso. Podemos resumir então que, pra os gregos, nessa época, o tempo devorava seus filhos, o que a partir de um olhar mais racional sugere muitos pensamentos interessantes se tentamos compreender o que pode significar isso.

De qualquer modo, Rhéa engana o Tempo e salva um de seus filhos: o faz engolir uma pedra no lugar dele. Esse filho é Zeus (Zás, que queria dizer "luz"), e depois de destronar Crono e obrigá-lo a vomitar os filhos de volta para a vida, ele (Zeus) será coroado o último dos reis no mundo dos deuses, estabelecendo um reinado de justiça, e não sendo jamais destronado.

Mas o que é esse reinado de "justiça" de Zeus?

voltar↑

Conforme já vimos, é o reinado da luz, que coloca claramente os contornos de todas as coisas — porque nos faz vê-las melhor.

Ou seja: Zeus distribui a natureza pelos deuses que a representam, decidindo qual deus reinará sobre qual parte da natureza, quais são os limites do reino de cada deus. Percebemos então que cada deus reina sobre um fenômeno da natureza de certo modo como uma "alma" que reina sobre seu corpo.

Sempre que ocorre algum conflito é Zeus quem em última instância será o juiz — mesmo assim, os conflitos continuam constantes porque mesmo que apenas Eros esteja claramente na corte do reino de Zeus, o deus Khaos continua vivo, ativo e presente por detrás das coisas, como uma força primordial que impulsiona irracionalmente os deuses uns contra os outros. Mas em última instância, eles convivem em relativa harmonia, num equilíbrio instável que incorpora, finaliza e coroa todo o raciocínio de Hesíodo com uma síntese entre sua própria lógica explicativa (de perfil dialético, podemos dizer) e a própria liberdade irracional da vontade e decisão dos deuses, presidida no entanto por deuses que tendem a decidir um tanto mais racionalmente que os velhos deuses arcaicos.

Se o leitor já percebeu algo que vagamente sugere uma aproximação entre essa lógica de oposições criada por Hesíodo e aquilo que costumamos chamar de "dialética", não está imaginando coisas. Em última instância é disso mesmo que se trata. Parece mesmo haver aqui um primeiro princípio, digamos "arqueologicamente" falando, desse modo de raciocinar mais tarde desenvolvido na filosofia.

voltar↑


5. Umas palavras finais

 

Como já mencionei, de vez em quando, em meio às explicações em seu estudo introdutório, JaaTorrano procura valorizar uma certa interpretação (muito boa, aliás) que o filósofo Heidegger faz da Teogonia de Hesíodo e do pensamento mitológico dos gregos antigos em geral. Nesta resenha crítica, mantive a mesma interpretação, mas sem ressalta-la tanto. Porque apesar de ser muito boa, não deixa de ser apenas uma interpretação entre outras possíveis — é preciso ter sempre isto em mente. Até mesmo esta resenha crítica de certo modo reinterpreta a interpretação feita por Torrano, e neste sentido, aliás, faz uma reinterpetração muito pobre. O trabalho de Torrano, mais denso e desenvolvido em 90 paginas, é evidentemente muito melhor.

É que procurei ressaltar mais, ao invés disto, a simples explicação das relações entre os deuses da mitologia no processo de origem do mundo. E principalmente, procurei também "traduzir" a difícil linguagem heideggeriana de Torrano em certas passagens numa linguagem mais simples e acessível (o que é bastante trabalhoso). Mas quem se dispuser a ler o texto original de Hesíodo e as noventa páginas da explicação de Torrano, naturalmente muito mais profunda, só terá a ganhar com isso.esta é a função de uma resenha crítica, dar um vislumbre geral de uma obra, comentando-a criticamente numa espécie de resumo acessivel, passando uma ideia do que o leitor irá encontrar ao lê-la.

A obra que tinha em mente resumir e comentar aqui era mais mais propriamente a Teogonia de Hesíodo do que o estudo introdutório de Torrano. e mais especificamente o início do poema, em que se concentram os elementos básicos da racionalidade pré-filosófica inscrita nele. Mas devo confessar que esse estudo de Torrano me encantou e me tomou consideravelmente os pensamentos quando escrevia esta resenha (que era originalmente uma apostila para alunos de primeiro ano da disciplina de filosofia em um curso de Direito) — de modo que a resenha acabou por ser um tanto híbrida, dedicada um pouco a cada um dos dois textos, o poema e o estudo de Torrano sobre o poema publicado nesta excelente publicação da editora Iluminuras.

Eis então a Teogonia de Hesíodo, resumida e comentada através de meus filtros simplificadores (mas espero que provocativos) e dos filtros mais densos e cuidadosos de Jaa Torrano. O texto original de Hesíodo, em grego, acompanha a edição para os estudiosos mais exigentes e especializados. Mas a ideia aqui era apenas a de ir um pouco além, mesmo arriscando possíveis imprecisões, a fim de provocar alguma faísca no pensamento dos leitores.

Faíscas.

Parafraseando Heidegger... será que dá o que pensar?

voltar↑

 

rodapé