Ceticismo

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Temas e Posições

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Como alguém se torna cético? | O cético é algupem que desistiu da verdade? | O cético está "acima" das teorias filosóficas? |
O ceticismo não consegue enfrentar as contradições? | O ceticismo valoriza ou desvaloriza a razão?


 

Como alguém se torna cético?

Os céticos em geral costumam se descrever contando a história de como se tornaram céticos, e essa história é sempre mais ou menos a mesma.

A história dos céticos é aproximadamente a seguinte: nem sempre o cético foi cético. Inicialmente, era apenas um jovem muito bom que se sentia muito angustiado com as contradições do mundo, que o deixavam perturbado. Esse jovem imaginou que se encontrasse a verdade de todas as coisas, uma verdade absoluta, eterna, imutável, que explicasse tudo coerentemente, conseguiria se livrar de todas as contradições e viver com mais tranqüilidade. Então começou a estudar Filosofia em busca dessa verdade.

Mas assim que começou seus estudos, percebeu que em Filosofia as contradições são ainda maiores e mais radicais, cada filósofo tem a sua linha de pensamento e essas linhas de pensamento não concordam uma com a outra. Percebeu que os filósofos vivem num eterno debate e as contradições vão se tornando cada vez mais profundas e angustiantes, todas as linhas de pensamento filosófico parecem muito inteligentes e bem-fundamentadas.

Assim, quanto mais o nosso jovem filósofo estudava cuidadosamente as diferentes filosofias, mais elas pareciam todas igualmente verdadeiras, ou seja, cada vez lhe parecia mais difícil decidir qual delas era "mais verdadeira" que as outras. Sempre que estava para se decidir, surgia uma boa razão para mudar de idéia, então ele temia que qualquer decisão fosse precipitada, e se espantava que os filósofos já tivessem todos se decidido com tanta firmeza, cada um por uma linha de pensamento em especial, contra todas as outras que pareciam tão boas.

A certa altura, algumas teorias pareceram especialmente sedutoras para o nosso jovem, mas como sempre, eram contraditórias uma com a outra, e ele lutou muito para descobrir qual delas era a melhor, argumentando ora a favor de uma, ora a favor de outra, até que chegou a um impasse: não conseguia julgar qual era a melhor, não conseguia decidir. Elas pareciam ter a mesma força, pareciam teorias igualmente boas nos mínimos detalhes.

Então o jovem decidiu suspender o julgamento, ou seja, decidiu não decidir. Parou de tentar julgar qual era a melhor. E de repente começou a sentir-se mais tranqüilo, toda a sua angústia desapareceu, não estava mais perturbado. Ao invés de encontrar a tranqüilidade na descoberta da verdade, só a encontrou quando desistiu de procurar a verdade.

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O cético é alguém que desistiu da verdade?

À primeira vista, pode parecer que o cético é alguém que desistiu da verdade. Mas não se trata exatamente disto. Trata-se de alguém que vivencia uma experiência constante de nunca encontrar nenhuma verdade, e que assume isso como uma expectativa que já faz parte naturalmente do seu caminho de investigação, e encontrou nisto algum conforto ou satisfação, ou se acostumou a isso, de modo até mesmo busca essa frustração na pesquisa da verdade — talvez mais do que busca a própria verdade.

Assim a historinha pela qual os céticos costumam apresentar sua filosofia não termina exatamente com o jovem cético iniciante apenas desistindo da verdade e, graças a essa desistência, encontrando alguma tranquilidade. A história ainda continua.

 Ocorre que, em seguida, depois de desistir de buscar a verdade naquelas teorias que estava examinando, outras teorias, diferentes daquelas, começaram a parecer sedutoras para ele. Ou então uma das teorias que ele já havia examinado apresentou novos argumentos, mais interessantes. E seja em um dos casos ou no outro, o impasse se desfez. Porque alguma das novas teorias, ou aquela já abandonada que retornou com novos argumentos, começou a parecer melhor, mais verdadeira.

Logo nosso jovem estava novamente em busca da verdade, tentando verificar se aquela teoria era realmente melhor. E mais uma vez, acabou chegando a um impasse, suspendendo o seu julgamento e, novamente, sentindo aquela tranqüilidade.

Segundo a história contada habitualmente pelos céticos, a mesma experiência repetiu-se inúmeras vezes para aquele jovem cético iniciante. Destarte, o jovem amadureceu, e começou a imaginar que a cada novo impasse entre as teorias poderia talvez encontrar novamente aquela tranqüilidade que queria tanto. Foi a partir daí que passou a considerar-se um "cético" —  palavra que em grego significa "investigador". Mas se de fato parou de buscar a verdade, foi para passar a investigar as teorias em busca do impasse (e da tranquilidade obtida com ele), procurando mostrar que nenhuma das teorias em jogo é mais verdadeira do que outra.

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O cético está "acima" das teorias filosóficas?

Alguns céticos passaram também a se preocupar com a precipitação dos filósofos, que aceitam rapidamente uma teoria como melhor que a outra sem investigarem o suficiente. E começaram a tentar "curar" os filósofos da sua "mania de verdade", encarando o ceticismo como uma espécie de "terapia" capaz de eliminar as certezas absolutas que certos filósofos defendiam como fanáticos.

Isso não significa que o cético se julgue superior aos filósofos, porque ele sabe que pode estar errado, que talvez alguma dessas teorias no fundo seja a verdadeira. O legítimo cético sempre corre o risco de acabar acreditando em uma teoria, e deixando de ser cético. Por outro lado, nada impede que acabe desiludido com a sua suposta verdade e se torne cético novamente, afinal, está habituado a nunca parar de investigar.

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O ceticismo não consegue enfrentar as contradições?

Podemos notar, em tudo o que foi dito nesta página sobre o caminho típico de formação de um cético, que os céticos iniciam o seu caminho rejeitando radicalmente as contradições. Mas acabam valorizando-as muito na medida em que amadurecem como céticos. E enquanto a razão tem sido usada tradicionalmente pelos filósofos na busca da verdade, o cético parece usá-la de outro modo: parece usar a razão contra a própria razão, mostrando que podemos provar racionalmente, com os melhores argumentos, duas teorias completamente contraditórias.

 

O ceticismo valoriza ou desvaloriza a razão?

O que se aprende, com a prática desenvolvida pelos céticos, é que a razão não serve para encontrar uma verdade absoluta, que seja coerente e sem contradições — serve apenas para buscá-la... mas sem o resultado esperado. Entretanto, os céticos valorizam precisamente essa busca, essa investigação incessante.

Além disso, o modo como os céticos se descrevem, fazendo uma pequena autobiografia que trata de sentimentos e experiências de vida, parece bem afastado do pensamento formal, que a partir do século XX procura raciocinar em termos quase matemáticos, evitando radicalmente tudo o que seja impreciso e contraditório.

Muitos céticos usam a lógica e o pensamento formal, mas apenas como uma arma contra outras linhas de pensamento formal, para no fundo valorizar o quê? O modo como pensamos e vivemos diariamente no mundo concreto, para além dos excessos das especulações racionais.

Em suma, o cético tende a jogar a razão contra ela própria de modo a fazer transparecerem os seus limites, valorizando em contrapartida, e em oposição aos excessos dela, a simples vivência concreta.

 

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