Cientificismo

Cientificismo

Temas e Posições

 

O cientificismo é um posicionamento de supervalorização da ciência, de extremada confiança no valor das produções científicas, geralmente em detrimento de produções não-científicas, que tendem a ser consideradas "inferiores" ou "menos relevantes" (ou até mesmo "fontes de erro"). O termo "cientificista" na maioria dos casos é usado em sentido pejorativo, acompanhado de críticas contra o pensador "acusado" de ser cientificista. Mas a rigor, o cientificismo é fundamentalmente uma confiante supervalorização do poder da ciência.

O cientificista coloca a ciência, então, acima de outras formas de conhecimento (como a filosofia) e de outras atividades de cultivo da espiritualidade humana (como as artes ou a religião). Costuma ter a tendência de inclusive reduzir as demais atividades aos critérios da ciência — e sua referência normalmente são aquelas ciências que adquiriram o prestígio a fama de "mais eficazes": as ciências exadas e naturais, como matemática, física, química, biologia etc.

O momento mais forte de cientificismo na história do pensamento filosófico mundial foi o século XIX na Europa, sobretudo na França, onde se desenvolveu, sob a batuta de Augusto Comte (o fundador da Sociologia) a tendência do positivismo, uma tendência que sempre foi fortemente cientificista. Mas é posível detectar certos traços de cientificismo ainda antes disso, em algumas posturas de Maquiavel, por exemplo — pois em sua época, passagem do século XV para o XVI, ele procurou afastar o pensamento político dos juízos de valor, isto é, das afirmações que exprimiam posicionamentos subjetivos a favor ou contra certas atitudes dos líderes políticos, acusando essas avaliações subjetivas de promoverem uma visão distorcida, fantasiosa e enganadora da realidade. E tentou concentrar-se ao invés disso nos juízos de fato, isto é, nas afirmações sobre como são ou como não são os fatos.

Os únicos juízos de valor que Maquiavel aceitava eram aqueles que se mostravam tão objetivos quanto os próprios juízos de fato: os juízos de valor que afirmavam como um lider deve agir ou evitar agir para ser eficaz (a eficácia das ações de um lider, em relação aos objetivos propostos para essas ações, é algo que pode ser avaliado e até medido de maneira objetiva e consideravelmente precisa).  

Pode-se dizer que esse posicionamento de Maquiavel tem algum traço de cientificismo por duas razões. Primeiro, porque as ciências foram se desenvolvendo justamente com base nessa proposta, de se concentrarem apenas no que é mais preciso e objetivo, isto é, nos juízos de fato e nas avaliações de eficácia ou bom funcionamento. E ao dirigir desprezo às teorias que lidavam com a subjetividade dos juízos de valor, Maquiavel estava desmerecendo grande parte (e uma parte importantíssima) das atividades intelectuais dos filósofos, que lidam centralmente com juízos de valor quando examinam por exemplo questões de ética ou de filosofia da arte. Portanto, apesar de ser ele próprio um filósofo (e de primeiríssima grandeza), foi de certa maneira um "anti-filósofo", um filósofo que, em certa medida, zomba da própria filosofia e filosofa "contra" ela.

Além disso, Maquiavel se antecipou brilhantemente a Francis Bacon (o famoso fundador "oficial" da pesquisa empírica, que até hoje é uma das atividades básicas dos cientistas). Na verdade, o próprio Maquiavel já praticava isto antes de Bacon, coisa que não costuma ser devidamente reconhecida (uma exceção a essa injustiça é o próprio Bacon, um dos poucos que reconheciam que o verdadeiro "pai" da coisa não era ele, mas Maquiavel, antes dele).

Por esse seu trabalho pioneiro de pesquisa empírica na área política (no caso, pesquisa empírica de campo, e não em laboratório), Maquiavel costuma ser tido como o fundador da Ciência Política, embora em sua época o termo "ciência" ainda não fosse empregado dessa maneira, como algo distinto da filosofia.

(É curioso notar que o cientificismo, que costuma valorizar tando o modelo das ciências exatas e naturais, na verdade tenha nascido de uma ciência humana, a ciência política... e que mais tarde, tenha sofrido com Comte uma re-fundação na versão positivista, mas baseada em uma ciência humana, a sociologia.

Entretanto, é preciso estarmos alertas a uma coisa: chamar Maquiavel de "cientificista" implica projetarmos sobre ele (que viveu na passagem do século XV para o XVI) uma visão que na verdade só passou a existir a partir do século XIX. Na época de Maquiavel não havia ainda a noção de uma ciência separada da filosofia, de modo que sua separação entre esses dois modos de estudar as coisas, valorizando o primeiro em detrimento do segundo, é uma atitude inaugural, e não pode ser considerada a atitude do "seguidor" de uma tendência como se ela já existisse. Maquivel, na época, estava criando uma nova visão das coisas, uma nova abordagem. Todas as teorias filosóficas costumam se esforçar para fazerem isso. Mas no caso dele, essa "visão nova das coisas" foi tomando mais tarde um rumo cada vez mais diferente daquele tomado pelo resto da filosofia, até que se destacou dela para aí sim, finalmente, tomar a forma de uma tendência  — a tendência cientificista — que poderia ser seguida por alguém.

Seria uma pouco mais correto, por exemplo, atribuir esse cientificismo (ou pelo menos alguns fortes traços dele) a Karl Marx, no século XIX, por exemplo em sua crítica aos "socialistas utópicos", aos quais pretendia opor um "socialismo científico", ou em sua crítica à "ideologia burguesa", à qual pretendia opor uma sólida ciência histórico-econõmica. é que Marx está entre os que sofreram uma razoável dose de influência do positivismo de Augusto Comte — tendência eminentemente cientificista. Marx também (como Maquiavel) propôs uma espécie de "antifilosofia" cientificizante.

Mas artibuindo esses traços de cientificismo a Marx, é preciso notar por outro lado que a influência do positivismo sobre ele foi muito menor do que sobre a maioria dos pensadores que no seu tempo estudavam a política e a sociedade. E isto quer dizer: para os padrões da época, Marx foi até que bem pouco influenciado pelo cientificismo positivista.

No balanço final das coisas, podemos dizer que a marca maior do cientificismo (e um cientificismo muitas vezes antifilosófico, pretendendo substituir a filosofia pela ciência), ficou com os herdeiros mais próximos e diretos do positivismo Comteano, e depois com aquela variante mais razionalista do positivismo comteano, que é o positivismo lógico, do qual temos uma ramificação com características específicas no juspositivismo ou positivismo jurídico. Entre os positivistas comteanos e os positivistas lógicos (incluindo aí indiretamente muitos juspositivistas do Direito, mas não todos), o rótulo de "cientificistas", inclusive com toda a carga de sentido pejorativo que os defensores do valor da filosofia atribuem a esse rótulo, costuma se ajustar bastante bem.

Eu, de minha parte — autor deste site — tendo a posicionar-me contra o cientificismo. e inclusive em favor de uma reintegração das ciências à filosofia como partes menores dela (mas sem absorver e  dissolver as ciêncdias nela, sem sem jogarmos fora o que a construção das ciências como atividades de pesquisa independentes e com seus próprios critérios nos trouxer de útil e bom.

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