Diálogos & debates

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Os principais debates existencialistas

Quais os principais debates em que os existencialistas estão envolvidos?


Detalhes sobre os debates em torno do existencialismo

O que os existencialistas querem dizer quando falam do "aqui e agora"? | O que os existencialistas pensam a respeito dos sentimentos humanos? | O que é uma "vivência" segundo o existencialismo? | Como se desenvolve o debate em torno do existencialismo na psicologia? | Existe alguma tendência de psicolologia ligada ao existencialismo que consiga ser rigorosamente científica? | Os existencialistas não gostam de abstrações? O que isso tem a ver com a busca da "autenticidade"? | O que acontece com uma pessoa quando percebe que não está vivendo sua vida de maneira autêntica? | Como é a psicologia que se formou a partir da filosofia existencialista? | Quais os principais teóricos da psicologia existencialista? | Existe alguma ligação do existencialismo com a psiquiatria? | Quais as principais diferenças entre a psicologia existencialista e o comportamentalismo? | A teoria da Gestalt nao é mais próxima do comportamentalismo do que do existencialismo? | Qual é a diferença entre os modos como o comportamentalismo e o existencialismo lidam com a ideia de "liberdade"? | Quais as principais diferenças entre a psicologia existencialista e a psicanálise? | Qual a diferença entre as maneiras como a psicologia existencialista e a psicanálise lidam com a questão da tomada de consciência? | Como seria se um psicanalista resolvesse se tratar fazendo uma terapia existencialista? | Um freudiano não teria nada a criticar em uma terapia existencialista? | Como terminaria o tratamento psicoterapêutico de um freudiano por um terapeuta existencialista? | Quais seriam as críticas de um existencialista à crença dos freudianos em conceitos como os de Id, Ego e Superego? | Qual a diferença entre as maneiras como a psicanlálise e o existencialismo lidam com o passado?

 


 

Os principais debates dos existencialistas


Quais os principais debates em que os existencialistas estão envolvidos?

Os debates envolvendo o existencialismo acontecem em três instâncias diferentes:

  1. há o debate interno ao próprio existencialismo, entre os que seguem a linha do existencialismo ateu e os que seguem a do existencialismo teísta (e geral cristão, mas em alguns casos, judeu);
  2. há o debate entre os filósofos existencialistas e uma imensa variedade de outras linhas de pensamento em filosofia que podemos chamar de "essencialistas";
  3. derivado dos debates filosóficos há, finalmente, o debate promovido pelos existencialistas no interior de uma ciência específica, na qual essa tendência filosófica se desenvolveu e frutificou com particular intensidade: a psicologia.

No debate interno ao próprio existencialismo temos, então, duas grandes tendências no existencialismo. Uma é existencialismo cristão, que foi o primeiro a aparecer, e que parece nascer de um cristianismo pessimista, no qual se ressalta muito a distância insuperável entre os homens e Deus, colocando as essências no plano divino e por isso considerando-as igualmente igualmente inacessíveis. A outra, que veio depois mas tem se mostrado sempre mais firme e nitidamente existencialista, é o existencialismo ateu ou então que simplesmente não se ocupa com questões religiosas. Não se ocupa disso justamente porque, de maneira bem existencialista, coloca em primeiro lugar esta vida tal como a estamos vivendo no momento presente, aqui e agora, e não qualquer coisa para além dela — esse existencialismo não-religioso é também o que tem mais seguidores.

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Detalhes sobre os debates em torno do existecialismo


O que os existencialistas querem dizer quando falam do "aqui e agora"?

Os debates mais intensos envolvendo o existencialismo estão no campo da psicologia, mais do que no da filosofia. Mas antes de examinarmos o aparecimento de uma psicologia existencialista especializada, é importante entendermos com mais detalhes essa filosofia geral existencialista, da qual a psicologia existencialista nasceu.

Para entendermos o existencialismo filosófico (e também o psicológico) é importante entendermos em primeiro lugar esta expressão: "aqui e agora".

É uma expressão muito usada pelos filósofos e psicólogos existencialistas. Para eles, o que existe é, justamente, aquilo que existe aqui e agora para alguém. Então, aqui e agora não existe, por exemplo, "o amor" — como se fosse uma espécie de essência profunda que está por detrás de todos só sentimentos desse mesmo "tipo". Não existem "tipos" de sentimento: o que existe é esse sentimento particular e único que tal pessoa, aqui e agora, está sentindo em relação a tal outra pessoa, e que estamos chamando de "amor". Cada sentimento é um, cada sentimento é único e não se repete jamais exatamente do mesmo jeito, nem de uma pessoa para outra, nem na mesma pessoa. Não existem dois sentimentos de "amor" que sejam iguais.

Por isso, inclusive, a convivência entre duas pessoas que se amam é sempre um tanto complicada: ela depende de muitos e constantes ajustes. É que apesar dessa palavra comum que nos engana — a palavra "amor" — o "amor" que uma pessoa está sentindo pela outra não é nunca exatamente o mesmo que a outra está sentindo por essa uma. Podem ser até sentimentos mais ou menos da mesma intensidade, mas são sempre sentimentos um pouco diferentes. O que uma pessoa entende por "amor" nunca é exatamente o mesmo que a outra entende, em todos os detalhes. Além disso, esse entendimento vai mudando na própria pessoa. O que ela considera como "amor" não é sempre exatamente a mesma coisa em todos os detalhes, apesar de continuar usando a mesma palavra.

Então, quando chamamos isso de "amor", precisamos tomar o cuidado de não acreditar mais na palavra do que naquilo que realmente está acontecendo no plano dos sentimentos, porque as palavras enganam, elas classificam os sentimentos como se eles fossem todos variações de uma mesma "essência" (por exemplo o "amor").


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O que os existencialistas pensam a respeito dos sentimentos humanos?

A própria palavra "sentimento" já tende a nos fazer achar que todos os sentimentos tem algo de igual, uma mesma essência profunda, já que afinal todos eles são "sentimentos". Talvez tenham. E talvez, entre os sentimentos, os sentimentos de "amor" também tenham uma mesma essência no fundo. O problema é que se valorizarmos essa "essência" — da qual nem temos certeza porque é apenas uma hipótese imaginária — mais do que o sentimento do modo como ele realmente existe e está acontecendo aqui e agora, vamos acabar não entendendo direito o que realmente se passa com essas pessoas que dizem estar "amando". Vamos acabar não entendendo o que é exatamente esse amor que estão realmente sentido.

O que acontece é que essas pessoas, evidentemente, não estão sentindo uma "essência" de amor ou do que quer que seja: estão sentindo apenas isso que estão sentindo neste momento, seja qual for o nome disso ou a possível "essência" por trás disso.

 

O que é uma "vivência", segundo o existencialismo?

O existencialismo, é uma filosofia que valoriza aquilo que está sendo vivido aqui e agora pelas pessoas — e que é diferente em cada pessoa e em cada momento ou situação. Neste sentido, os existencialistas tendem a falar em "vivências". Dizem que lado "vivencial" das coisas precisa ser levado em conta — isto é bastante ressaltado por exemplo pelo filósofo existencialista Vilém Flusser.

Há muitas coisas que fazemos sem prestarmos atenção na nossa vivência da coisa. A matemática, por exemplo, foi toda desenvolvida de um jeito que nos leva a raciocinar sem levar em conta que somos uma pessoa viva ali, raciocinando. Que esse raciocínio é uma vivência de alguém. Que ele acontece como parte da vida da pessoa que está raciocinando, e que além dessa capacidade de raciocinar essa pessoa também tem um corpo, sentimentos etc.

Nosso corpo e nossos sentimentos não deixam de existir só pelo fato de estarmos fazendo um cálculo matemático. Enquanto fazemos o cálculo, eles continuam existindo. Nosso corpo, nossos sentimentos no momento em que estamos calculando, nosso cálculos que estão acontecendo — tudo isso junto forma uma vivência, isto é, um conjunto de coisas que estamos vivendo, ligadas umas às outras pelo próprio fato de estarem todas sendo vividas por nós no mesmo momento.

Mas do modo como a matemática foi desenvolvida, parece que quando fazemos um cálculo é como se não fôssemos nós inteiros calculando, com toda a nossa vivência. É como se no momento de calcular fôssemos apenas uma maquininha calculadora dentro de nós, porque nada do resto da nossa vivência no momento é levado em conta. Um cálculo matemático é um tipo de coisa que parece não ter nada a ver com o resto da vivência que estamos tendo no momento em que estamos calculando.

Se prestarmos bem atenção no que estamos vivenciando quando fazemos um cálculo matemático, o cálculo sempre parece uma vivência meio falsa, meio inautêntica, porque não é uma vivência completa: ele nos obriga a concentrarmos nossa atenção só em uma pequena parte da nossa vivência e ignorarmos o resto. É como se por um momento estivéssemos reduzindo toda a nossa vivência a um punhado de ideias frias e secas, ideias de números e operações, que vão se encaixando umas nas outras.


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Como se desenvolve o debate em torno do existencialismo na psicologia?

Na psicologia, os existencialistas entram em debate de um lado contra a tendência comportamentalista — que tem como principal pensador o norteamericano B. F. Skinner — e de outro contra a psicanálise, fundada por S. Freud.

Ambas procuram tornar os estudos psicológicos mais científicos. O comportamentalismo skinneriano apoiando-se na observação empírica dos comportamentos e nos cálculos de probabilidade e estatística, com a intenção de prever e controlar os comportamentos. A psicanálise freudiana procurando se apoiar também na observação empírica, a partir das tradições da medicina, mas ainda mais em um método de análise especial pelo qual procura ir além da observação empírica e descobrir os significados psicológicos ocultos por detrás dos comportamentos observáveis nas pessoas — e como ponto de partida, os psicanalistas costumam preferir os comportamentos verbais, analisando aquilo que a pessoa diz em busca do que está oculto (isto é, em busca daquilo que a pessoa não diz mas que está lá).

O existencialismo, na contracorrente, tende a ser propositalmente menos científico e mais filosófico. Do ponto de vista existencialista, quando uma ciência que estuda o ser humano começa a reduzir todas as vivências a meras respostas comportamentais e calculáveis em termos de probabilidades, por exemplo, há algo de errado nessa ciência. É uma das razões pelas quais os existencialistas criticam a teoria comportamentalista de Skinner.

No caso da psicanálise, que apesar de procurar manter-se próxima da medicina continua mantendo um certo aspecto filosófico, o existencialismo tende a criticá-la como uma postura excessivamente dogmática, pouco aberta à diversidade das possíveis condições psicológicas humanas — e sobretudo apegada demais ao determinismo, como se os seres humanos fossem acima de tudo um produto (de certo modo previsível, predeterminado) da sua natureza parcialmente animal e de certos eventos marcantes no seu passado. Esse determinismo exagerado é também considerado pelos existencialistas como típico do cientificismo, da mesma tentativa — comum tanto aos estudiosos skinnerianos quanto aos freudianos — de se apegarem ao modelo científico mais do que se deveria, em se tratando de questões profundamente humanas como as da psicologia.

Como se vê, geralmente os pensadores existencialistas não simpatizam com teorias que se apoiam mais na matemática (como os skinnerianos, que se apoiam na probabilidade) do que na observação cuidadosa das nossas vivências, das coisas que vamos vivenciando a cada momento. Também não simpatizam com a observação empírica dos comportamentos humanos feita de maneira fria e distanciada — conforme o modelo típico da medicina (como fazem os freudianos) —, como se não se tratasse da própria vida vivida por seres humanos, carregada de seus sentimentos, atitudes pessoais etc.; isto é, como se a psique humana fosse apenas um "objeto de estudo" neutro como qualquer outro.

  Isso não quer dizer que eles rejeitem a matemática e a observação. Quer dizer apenas que em suas observações procuram não se esquecer de que estão observando uma vivência humana, e não um "objeto" neutro. E quer dizer também que pensar coisas tão abstratas como a matemática de uma maneira autenticamente existencialista é um desafio especial para eles. Mas não é impossível nem inútil.


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Existe alguma tendência de psicologia ligada ao existencialismo
que consiga ser rigorosamente científica?

Os psicólogos da teoria da Gestalt conseguiram se aproximar mais da matemática sem perderem sua ligação com o existencialismo, e com base nela pelo menos um deles, chamado Kurt lewin, conseguiu criar uma ferramenta bastante útil não só para os existencialistas, mas também para outras linhas de pensamento na psicologia — apesar de ter realmente mais aproximação com o existencialismo.

Um existencialista como o filósofo Vilém Flusser, por exemplo, sob influência da Gestalt, acabou combinando seu existencialismo com uma filosofia chamada "positivismo lógico", que se apoia em um raciocínio lógico de tipo matemático. Mas o modo como fez isso acabou sendo tão existencialista que dificilmente seria aceito por um positivista lógico tradicional.

 

Os existencalistas não gostam de abstrações?
O que isso tem a ver com a busca da "autenticidade"?

Do mesmo modo como os existencialistas desconfiam do excesso de matemática quando se trata de compreender a vida, acreditam que, quando uma pessoa vive a maior parte do tempo reduzindo suas vivências a meras ideias gerais e abstratas, sejam aquelas ideias que formam cálculos matemáticos ou raciocínios lógicos, sejam ideias sobre "essências" das coisas, em algum momento essa pessoa acaba sentindo que há algo errado em sua vida. Acaba perseguida por uma sensação esquisita, que aparece de vez em quando, de que sua vida tem alguma coisa de incompleta, de superficial, de "inautêntica" e falsa.

A sensação de inautenticidade que às vezes temos em relação à nossa vida, como se ela fosse meio falsa, meio artificial, é um tema comum e bastante presente nas teorias existencialistas. Há coisas diferentes que podem provocar essa sensação incômoda. Mas existe uma que nos ajuda a entender melhor o existencialismo: é aquela sensação de que a nossa vida não está sendo autêntica de tanto que seguimos slogans, teorias, ideias e conceitos artificiais que aprendemos com outras pessoas ou nos livros. Max Stirner, por exemplo, reclamava que as pessoas às vezes se deixam possuir por essas ideias que encontram nos livros, e acabam dominadas por elas, ao invés de usarem livremente essas ideias como ferramentas úteis para buscarem o que estão buscando na vida.

Uma pessoa que vive voltada para o que acha que é a essência do "amor", por exemplo, e não tira essa ideia da sua cabeça, pode acabar não conseguindo vivenciar de maneira satisfatória um sentimento real de "amor", porque o sentimento real que existe a cada momento (a cada aqui-e-agora) nunca vai ser exatamente igual àquela ideia de "amor" que a pessoa pensa ser a essência desse sentimento. E a vida provavelmente vai oferecer muitas situações que vão levá-la a sentir mais claramente essa constante insatisfação no amor.


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O que acontece com uma pessoa quando percebe que não está vivendo sua vida de maneira autêntica?

Quando toma plena consciência de que não está vivendo sua vida autenticamente, a pessoa tem duas escolhas: ou se liberta dessas ideias sobre uma "essência" mais profunda e verdadeira do amor, e passa a aceitar o sentimento do modo como ele realmente vai acontecendo na vida, ou se acostuma com a insatisfação e aprende a conviver com ela. Segundo o existencialismo, como a responsabilidade é da própria pessoa, qualquer das duas escolhas é válida. Mas os existencialistas tendem a valorizar vivências mais completas e autênticas, que aceitam o modo como os sentimentos vão ocorrendo e mudando. Tendem a achar que com essas vivências mais "soltas" e leves, mais abertas às variações dos sentimentos, as pessoas vivem mais felizes e bem-resolvidas.

A busca da autenticidade aparece de diferentes maneiras nos diferentes filósofos do existencialismo. Cada um tem a sua versão, o seu modo de entender essa existência mais autêntica e que não é distorcida por "essências" abstratas e incertas.


Como é a psicologia que que se formou a partir da filosofia existencialista?

Quando se formou uma psicologia existencialista a partir de toda essa filosofia, ela se concentrou principalmente nas ideias de "eu" — quem eu sou realmente, o que eu quero, como eu gostaria de ser etc. — e de "consciência".

Uma outra ideia, que nem sempre aparece explicitada de maneira clara e direta, mas que está sempre no fundo das filosofias existencialistas, e continua presente nas psicologias dessa mesma linha de pensamento, quando elas começam a aparecer, é a ideia de "liberdade e responsabilidade". A filosofia e a psicologia existencialistas sempre procuram ser libertadoras de alguma maneira, e sempre ligando de algum modo liberdade e responsabilidade. O próprio desapego que elas propõem em relação a "essências" fixas, e a aceitação do fluxo natural e passageiro de todas as coisas que vão aparecendo na vida, costuma ser entendido pelos existencialistas como uma espécie de "libertação".


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Quais os principais teóricos da psicologia existencialista?

Com a formação de uma psicologia existencialista, trabalhando com essas ideias surgiu um estudioso alemão de psicologia chamado Karl Jaspers. Além de filósofo, Jaspers era também psiquiatra, isto é, estudava doenças mentais ligadas a problemas químicos no cérebro, que podem ser tratadas com a combinação de terapia e remédios. E surgiu também um psicólogo americano — que se tornou o mais conhecido nessa linha de psicologia — chamado Carl Rogers, que abriu uma clínica para se dedicar principalmente ao uso de um método existencialista e fenomenológico em terapias. Seu método acabou ficando famoso.

Rogers criou uma terapia "centrada na pessoa", isto é, no cliente. O terapeuta deve atuar como uma espécie de "espelho especializado", que mostra para a pessoa com mais clareza aquilo que a própria pessoa está dizendo e fazendo sem perceber. Deste modo, ele vai ajudando a pessoa vai se dar conta por si mesma de suas atitudes, pensamentos e sentimentos. A ideia é que a pessoa vá se dando conta do seu "eu", isto é, vá entendendo melhor quem ela é e o que ela mesma aprova ou desaprova no seu modo de ser. Que ela vá assumindo a responsabilidade por tudo isso e começando a formar com mais clareza o seu projeto de vida, aquilo que ela quer ser ou viver daqui para a frente, deixando de se sentir passiva, e passando a atuar ativamente em relação ao seu próprio caminho na vida. Rogers trabalha muito, então, com a auto-imagem da pessoa e com sua auto-estima.


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Existe alguma ligação do existencialismo com a psiquiatria?

Apesar da desconfiança dos existencialistas em relação a posturas mais científicas, como por exemplo aquelas ligadas à medicina — e de a psiquiatria estar fortemente ligada à medicina — o existencialimo não deixou de influenciar os estudiosos de psiquiatria.

Além dos psicólogos Rogers e Jaspers (este último, como já dito, com formação também de psiquiatra) surgiu do existencialismo, além disso, um grupo de psiquiatras rebeldes, que começaram a achar os tratamentos e os remédios da psiquiatria muito agressivos e pouco eficazes para as pessoas com problemas mentais. Achavam que os métodos tradicionais da psiquiatria promoviam uma situação nada saudável de submissão, passividade e dependência dos pacientes em relação à clínica ou hospício, aos médicos e aos remédios.

Esse grupo acabou criando a Antipsiquiatria, que propunha que ao invés de serem internados e isolados da sociedade, os doentes mentais fossem reintegrados na vida social, trabalhando e se relacionando normalmente com outras pessoas. Mas sempre acompanhados por um terapeuta conselheiro para ajudá-los nessa integração até se tornarem independentes. Os principais nomes dessa antipsiquiatria influenciada pelo existencialismo são Ronald David Laing e o sul-africano David G. Cooper.


Quais as principais diferenças entre a psicologia existencialista
e o comportamentalismo?

Há bastante variação entre as teorias existencialistas. Elas não seguem todas rigidamente o mesmo modelo. Mas é possível perceber com bastante clareza as características da psicologia existencialista quando a comparamos com o comportamentalismo de Skinner e a psicanálise de Freud.

Em relação ao comportamentalismo de Skinner, a primeira grande diferença que se nota é que os existencialistas não se concentram nem no comportamento observável como os skinnerianos, como já vimos, nem nos impulsos do inconsciente, como os freudianos. Se concentram principalmente naquilo de que cada pessoa tem consciência e no que cada pessoa considera como seu "eu" — que tem alguma semelhança com o que Freud chama de "Ego", mas não é exatamente a mesma coisa.

Examinar o "eu" das pessoas, para um psicólogo existencialista, significa examinar a imagem que cada pessoa tem de si mesma e o modo como a pessoa gostaria ou não gostaria de ser. Mas também os possíveis auto-enganos da pessoa, as coisas em que ela vai percebendo que estava se iludindo, e as barreiras que ela sente existirem entre sua auto-imagem e o que ela pretende ser ou deixar de ser. Aquilo que ela vai precisar enfrentar e mudar por seu próprio esforço e sua própria responsabilidade, para se sentir mais satisfeita. Esta questão do "eu" e da auto-imagem é um dos pontos mais trabalhados por Rogers.

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Um tema especialmente importante para os existencialistas é o das aparências. Elas envolvem não só a imagem que a pessoa tem de si mesma, mas também a que os outros têm dela, e a que ela acha que os outros têm dela. Mas essas aparências envolvem também a imagem que a pessoa tem das outras pessoas e do mundo à sua volta. Ou em outras palavras, o modo como a pessoa percebe a si mesma e tudo mais o que existe à sua volta, o modo particular e pessoal como cada coisa, e o conjunto das coisas nela mesma e no mundo ao redor, aparecem para essa pessoa.

Se o comportamentalista skinneriano diz que nosso comportamento é um conjunto de respostas a estímulos externos positivos ou negativos, o existencialista diz que a própria percepção que temos dos estímulos externos depende da nossa auto-imagem e do nosso modo particular de percebermos as coisas, e portanto, que nossos comportamentos dependeriam disso também mesmo que fossem respostas a estímulos externos — mas quem garante que sejam? Onde os comportamentalistas falam em autocontrole através do controle do ambiente e dos estímulos externos que ele oferece, os existencialistas falam em assumir a responsabilidade por nossas ações e por suas possíveis consequências — o que não é a mesma coisa. Não é o mesmo porque a "responsabilidade" existencialista pressupõe que estamos realmente livres, no fundo, para agirmos de uma maneira ou de outra.

Para os comportamentalistas, no fundo o próprio empenho que temos ou não no sentido de "nos libertarmos" controlando os estímulos que nos afetam já é, de algum modo, um efeito de outros estímulos em nós. É uma resposta nossa a outros estímulos, e essas nossas respostas sempre podem ser calculadas, previstas em termos de probabilidades e controladas. Mesmo o "autocontrole" nunca deixa de ter algo de controle externo, porque a própria busca do autocontrole foi provocada em última instância por estímulos externos.


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A teoria da Gestalt não é mais próxima do comportamentalismo
do que do existencialismo?

A Gestalt, mais tarde, vai trabalhar com essa ideia de comportamento como conjunto de respostas a estímulos externos (como em Skinner), mas distorcidas pelo modo como cada um percebe as coisas, conforme proposto pelos existencialistas. O resultado dessa combinação, ao contrário do que se poderia imaginar, acaba sendo na verdade bem mais existencialista e quase nada comportamentalista, embora alguns manuais de psicologia, examinando a coisa mais superficialmente, cometam o erro de considerar a Gestalt uma espécie de comportamentalismo, e acabem não percebendo o quanto está ligada ao existencialismo.

O que os confunde alguns escritores de manuais sobre psicologia é o fato de que, realmente, a maioria dos existencialistas vai mais longe que a Gestalt nessa recusa da ideia de que nosso comportamento é uma simples resposta direta a estímulos externos. Na verdade, a Gestalt tem muitos e fortes traços do existencialismo, inclusive um certo traço de rebeldia valorização da liberdade, mas nela esses traços aparecem de maneira mais suave e moderada.

 

Qual a diferença entre os modos como o comportamentalismo e o existencialismo lidam com a ideia de "liberdade"?

As posturas do comportamentalismo e do existencialismo em relação à ideia de "liberdade" são diametralmente opostas e incompatíveis. E é importante notar que, para o existencialismo, não é possível separar as ideias de "liberdade" e "responsabilidade".

Para os comportamentalistas skinnerianos, não existe exatamente "liberdade", mas apenas uma liberdade entendida como autocontrole. Eles trabalham com a ideia de que todo o nosso comportamento está sempre, o tempo todo, sendo moldado e remodelado por estímulos externos, e a "liberdade" estaria em controlarmos esses estímulos, para através deles controlarmos os nossos próprios comportamentos.

Já para os existencialistas, pelo contrário, no fundo somos sempre livres em cada mínimo gesto que fazemos - Heidegger, por exemplo explora bastante essa ideia - mas muitas vezes não reconhecemos nem aceitamos essa nossa liberdade com todas as consequências que ela traz. Acabamos nos agarrando a ideias que nos fazem nos sentirmos presos a certos comportamentos ou forçados a repeti-los. Isso nos dá mais segurança e nos permite fugirmos da responsabilidade pelas coisas que fazemos, atribuindo a culpa aos outros ou a "forças e estímulos externos".

A noção de responsabilidade, como já vimos, costuma ser importante para os existencialistas, e para eles ela está intimamente ligada à noção de liberdade. Uma coisa não existe sem a outra. Reconhecer nossa liberdade coloca nas nossas costas o peso da responsabilidade pessoal por tudo o que fazemos. A liberdade é angustiante — mas deve ser buscada. É preciso aceitarmos isso e nos acostumarmos à nossa própria responsabilidade pelas coisas. Esse é um dos principais temas de Sartre, por exemplo.


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Quais as principais diferenças entre a psicologia existencialista
e a psicanálise?

A comparação com a psicanálise freudiana também ajuda a entender o existencialismo. Para os existencialistas não deixa de haver um "inconsciente" capaz de interferir na consciência e no comportamento da pessoa. Mas esse "inconsciente" já não é nada como aquele poço de impulsos animalescos de prazer e destruição que os freudianos dizem encontrar no fundo de nós. Para os existencialistas, "inconsciente" é apenas uma situação em que nossa consciência deixa as coisas quando não presta atenção a elas.

As coisas que vivenciamos — nossas vivências — são mais claras, nítidas e conscientes na medida em que concentramos nelas a nossa atenção, e se tornam então aparências mais nítidas para nós, aparecem com mais clareza na nossa mente. São mais vagas, indefinidas e obscuras na medida em que estão fora do nosso foco de atenção. Mas o fato de não prestarmos atenção a elas não as impede de interferirem na nossa vida. Enfiar a cabeça num buraco para não enxergar mais nada, como se diz que os avestruzes fazem quando aparece um perigo que os assusta e que têm medo de encarar, não vai fazer os nossos problemas desaparecerem. Não basta simplesmente tirá-los da nossa consciência, parar de dar atenção a eles: é preciso compreender o quanto eles nos afetam, de que modo nos afetam, e enfrentá-los.

Então, assim como a psicanálise, o existencialismo também trabalha com a tomada de consciência das coisas que nos afetam. Mas se trata de tomar consciência de quê?

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Qual a diferença entre as maneiras como o existencialismo e a psicanálise
lidam com a questão da tomada de consciência?

Para a psicanálise de Freud, há sempre impulsos irracionais de busca de prazer e destruição que nos levaram, em algum momento — provavelmente na infância — a vivenciarmos alguma coisa de maneira traumática. Vimos ou sentimos alguma coisa, quando crianças, que por causa desses nossos impulsos, de alguma maneira nos traumatizou, e para fugirmos do sofrimento escondemos essa vivência lá no fundo da nossa memória. Para vencer o trauma seria preciso se conscientizar dessa vivência a ponto de nos sentirmos como se a estivéssemos vivendo de novo, com todo o sofrimento. Passado esse momento de sofrimento, passaríamos a nos sentir bem melhor.

Para os existencialistas, existe nisso tudo especulação demais, muita imaginação do psicanalista e pouca observação do que a própria pessoa que está sendo examinada pensa a respeito disso tudo. A situação descrita pelos psicanalistas não é impossível, e pode até acontecer em algum caso aproximadamente como eles dizem. Mas generalizar e acreditar que o mesmo modelo se encaixa a toda e qualquer pessoa parece um absurdo. É preciso parar de querer encaixar as pessoas em modelos gerais que sejam sempre os mesmos. Cada pessoa é uma pessoa, cada caso é um caso. Mais do que isso: cada pessoa é pessoalmente responsável pelo modo como vivencia sua vida, pelas decisões e atitudes que toma, pelo modo como encara suas vivências (e os sentimentos em relação à vida que surgem daí), e pelas consequências de toda essa sua liberdade. 

Para os freudianos a pessoa foge de seus traumas sexuais no passado e de seus impulsos irracionais, escondendo-os de si mesma sob mil disfarces. E ela precisa então ser levada a parar de fugir e a tomar consciência de tudo isso.

Para os existencialistas, pelo contrário, a pessoa foge de sua liberdade e responsabilidade fundamentais. Esconde de si mesma as mil possibilidades a que seu futuro está sendo sempre novamente reaberto a cada nova situação. Foge do reconhecimento daquilo que ela autenticamente quer para si mesma, segundo sua própria personalidade ou projeto de vida. Esconde sua liberdade recusando a responsabilidade pela sua própria vida, e atribuindo essa responsabilidade a mil forças externas à sua vontade. É disto que a pessoa precisa tomar consciência, para recuperar sua liberdade e aprender a dar rumos autenticamente seus à sua vida, e não os que colheu dessa supostas forças externas que a dominam.

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Como seria se um psicanalista resolvesse se tratar
fazendo uma terapia existencialista?

Podemos tentar imaginar essa situação divertida: um psicanalista freudiano indo fazer terapia com um psicólogo existencialista. Neste caso, provavelmente o existencialista começaria tentando ajudar o freudiano a se auto-psicanalizar, a tomar consciência de seus traumas etc. Por que? Porque essa é a auto-imagem que o freudiano tem de si mesmo, ele acredita que sua vida é moldada por forças inconscientes e traumas sexuais da infância que ficaram mal-resolvidos e escondidos na memória.

Mas o existencialista tentaria ajudar o freudiano a encontrar também as razões pelas quais ele tem essa auto-imagem, as razões pelas quais é freudiano, afinal de contas. Tentaria mostrar que essa auto-imagem freudiana do freudiano, no fundo, não é uma "verdade" incontestável e da qual não se pode escapar, mas uma escolha que o freudiano fez e pela qual o único responsável é ele próprio. Que ele escolheu enxergar a si mesmo e aos seus problemas dessa maneira. Tentaria ajudar o freudiano a repensar isso, e verificar se é mesmo desse modo que quer ver a si mesmo ou não, e qual é o projeto de vida que quer levar adiante.

Talvez possamos pensar que um freudiano que vai buscar uma terapia existencialista não seria tão firmemente freudiano assim... senão teria buscado uma terapia freudiana.

Segundo os existencialistas, o próprio fato de a pessoa buscar uma terapia existencialista, freudiana ou skinneriana já mostra um pouco da imagem que a pessoa tem de si mesma e do que que ela está buscando para o futuro em sua vida.

Mas digamos que, estranhamente, seja sim um freudiano bem firme em suas convicções. Com ajuda do existencialista, ele provavelmente concluiria aquilo que já sabia antes de entrar no consultório: que é uma pessoa movida por impulsos irracionais de prazer e destruição que sua consciência tenta constantemente controlar — conforme sua própria auto-imagem —, e que seu projeto de vida consiste nesse constante controle, e em se livrar de traumas inconscientes adquiridos na infância que atrapalham esse controle, porque o levaram a esconder certos sentimentos muito fortes no fundo da memória, dos quais não se lembra mas que continuam agindo sobre ele.


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Um freudiano não teria nada a criticar em uma terapia existencialista?

Podemos continuar imaginando, por brincadeira, um freudiano que decidisse se tratar com um terapeuta existencialista. Talvez talvez essa terapia pudesse ser levada adiante até um certo ponto. Entretanto, surgiria um problema metodológico: para o freudiano, toda a importância de uma terapia está no fato de que o terapeuta, sendo uma pessoa externa, é capaz não só de enxergar com mais clareza o que o paciente não enxerga em si mesmo — coisa com a qual o existencialista talvez concordasse — mas de encontrar meios para interferir e forçar o paciente a encarar aquilo que ele não suporta e não quer encarar, porque é o único modo de o paciente vencer o seu trauma.

A terapia existencialista, por outro lado, não foi feita para escavar traumas do passado no fundo da memória, embora possa chegar a fazer isso se a própria pessoa, aqui e agora, se sente presa a esses traumas. Para o freudiano, talvez ela não pareça ter ferramentas suficientemente fortes para fazer essa "escavação" de traumas do passado.

E mais do que isso, a terapia existencialista não foi feita de maneira nenhuma para interferir diretamente no modo como o paciente vê a si mesmo e corrigir alguma coisa nele a partir de algum modelo de saúde, como os freudianos fazem. As decisões são, em última instância, da responsabilidade — livre — do próprio paciente, e a decisão final será sempre dele, incluindo todas as possíveis consequências.

Em outras palavras, o terapeuta existencialista procurará apenas mostrar ao seu paciente com mais nitidez a imagem que ele (o próprio paciente) tem de si mesmo, e desfixar essa auto-imagem para que o paciente a assuma como uma decisão de sua própria responsabilidade, e se sinta livre para mudar — se chegar à conclusão de que essa mudança é necessária e possível. Caso o próprio paciente chegue à conclusão de que não quer a mudança no final das contas, ou de que ela realmente não é possível, então que pelo menos assuma e aceite de uma vez esse modo de ser e viver que já está levando adiante, com todas as consequências envolvidas. Mas assuma e aceite isso por sua livre decisão, como principal responsável por essa escolha — o que o fará viver um pouco mais "de bem" consigo mesmo.


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Como terminaria o tratamento psicoterapêutico de um freudiano
por um terapeuta existencialista?

Para sabermos como poderia terminar a terapia de um freudiano feita por um terapeuta existencialista — lembrando que esta é uma uma situação meramente hipotética e bem pouco provável, que estamos imaginando apenas para facilitar o entendimento das diferenças entre a psicanálise freudiana e a psicologia existencialista — precisamos pensar na atitude que um terapeuta existencialista tenderia a tomar diante das crenças do freudiano em conceitos como os de Id, Ego, Superego etc. O terapeuta existencialista logo perceberia que, para esse paciente tão especial, esses conceitos estariam afetando a sua mente como se fossem reais — independentemente de serem reais ou não.

Então imaginemos a atitude do nosso terapeuta existencialista frente àquele paciente firmemente freudiano: ele tentaria desfixar a crença do freudiano naquela auto-imagem formada por um Id, um Ego e um Superego da maneira como Freud descrevia. Isso provavelmente irritaria o freudiano, que teria a sensação de que o existencialista estaria fugindo do problema. Por outro lado, o existencialista teria também a sensação de que o freudiano estaria fugindo de seu próprio problema, mas justamente por ele (o freudiano) estar se apegando demais a certas ideias fixas sobre a essência da mente humana em geral, como se elas devessem se aplicar necessariamente a si mesmo de novo e de novo e de novo, constantemente, a cada novo momento e situação, a cada novo aqui-e-agora... como se o paciente freudiano estivesse se prendendo a elas para fugir do seu aqui-e-agora.

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A certa altura, o terapeuta talvez chegasse a admitir que o paciente não quer sair dessa autoimagem herdada da teoria de Freud para encarar os seu sentimentos reais para além de qualquer teoria - ou melhor, talvez chegasse à conclusão de que o paciente acredita demais nisso, e portanto ainda não está pronto para admitir que se trata apenas uma autoimagem escolhida livremente por ele próprio. Neste caso, em sua conversa com o paciente freudiano, a certa altura o terapeuta existencialista provavelmente daria a entender que a questão, por enquanto, se resumiria ao seguinte: então, neste momento da sua vida, você quer afinal enfrentar esse trauma que acredita ter passado na sua infância ou quer aceitar que tem esse trauma e conviver com o fato de ter um trauma não-resolvido?

O freudiano, provavelmente chocado com a ideia de que o terapeuta prefere adiar o enfrentamento do trauma e abre ao paciente até a possibilidade de não enfrentá-lo. Que mais do que isso, o terapeuta sugere que talvez tudo não passe da imaginação do paciente a respeito de si mesmo. Que ele sugere que talvez não haja nada de trauma, de pressões do passado na memória, de impulsos irracionais e inconscientes que escapam do controle etc. etc. etc. Ou que, mesmo havendo tudo isso, nada disso tenha necessariamente tanta importância assim, e o paciente poderia muito bem viver sem dar tanta atenção a essas coisas. Que existe a possibilidade de que tudo isso fosse resolvido ou aliviado se o paciente simplesmente se livrasse de tantas ideias fixas sobre o seu passado e tratasse de olhar mais para o seu presente e o seu futuro, construindo um projeto de vida.

Chocado com tudo isso, o mais provável é que o paciente freudiano se levantasse indignado, e saísse do consultório frustrado e furioso, ofendido com o "descaso" do terapeuta, que parece não querer interferir e realmente ajudá-lo, minimizando a seriedade do problema como se pudesse ser pura fantasia, e jogando toda a decisão de volta para o paciente — que obviamente não vai querer ou conseguir enfrentar o trauma sozinho, porque esse é todo o problema que torna necessária a terapia. É possível que o freudiano saísse do consultório muito tenso, esforçando-se para se controlar e não bater a porta diante de toda aquela palhaçada superficial e escapista.

Provavelmente não voltaria mais. Será? — Não importa: nossa historinha imaginativa parece ter servido suficientemente bem para passar alguma ideia, ainda que vaga, a respeito de como poderia se dar o confronto entre essas tuas tendências teóricas na psicologia.

O terapeuta existencialista provavelmente concluiria algo mais ou menos assim: ele está preso demais na sua autoimagem freudiana... talvez não devesse ter me procurado, talvez devesse ter procurado um outro psicanalista freudiano como ele... mas se me procurou, é porque talvez no fundo já esteja se desapegando, aos poucos, de todas essas ideias fixas, talvez no fundo já esteja começando a encarar sua própria existência, e só precise de um pouco mais de tempo... talvez acabe voltando.


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Quais seriam as críticas de um existencialista
à crença dos freudianos em conceitos como os de Id, Ego e Superego?

Para o existencialista, acreditar demais em toda essa noção de uma "essência" humana formada por Id, Ego, Superego etc. — essas ideias freudianas sobre regiões "essenciais" presentes na mente de qualquer humano — é algo que pode facilmente acabar servindo apenas como uma maneira de a gente se esconder de nossa situação de liberdade e responsabilidade por nossas próprias escolhas e decisões a cada momento na vida. Escolhas e decisões que nos fazem todos diferentes uns dos outros e de nós mesmos, já que vamos mudando ao longo do tempo.

É preciso fazermos e refazermos sempre o difícil esforço de colocar nossas vivências — que são particulares a cada um de nós em cada momento de nossas vidas, com todas as escolhas e decisões que levam a elas e todas as consequências que derivam delas — na frente de qualquer conceito teórico (ou ideia sobre "essências") que sejamos capazes de formular a respeito dessas vivências. Escolher conceitos teóricos para entendê-las ou interpretá-las — freudianos, skinnerianos ou de qualquer outro tipo — também faz parte das nossas livres escolhas e decisões, pelas quais somos os únicos ou pelo menos os principais responsáveis.

Decisões teóricas desse tipo não deixam de afetar as nossas vidas. Seria bom que não se fixassem tanto na nossa mente a ponto de nos tirar a liberdade para decidirmos os nossos rumos na vida. O existencialismo procura ser uma construção teórica menos rígida, com conceitos que garantam o máximo possível dessa liberdade, e dificultem a formação de ideias fixas capazes de nos desviar das nossas próprias vivências particulares a cada momento, que são vivências e não meras teorias, portanto estão para além de qualquer conceito.


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Qual a diferença entre as maneiras como a psicanálise
e o existencialismo lidam com o passado?

A psicanálise e o existencialismo lidam de maneira muito diferente com o passado. Para ambas as tendências, grande parte dos sofrimentos psicológicos humanos está ligada ao fato de estarmos presos ao ao nosso passado. Mas para o existencialismo, só estamos presos ao passado porque nós mesmos decidimos ficar presos a ele, mesmo que não tenha sido uma decisão consciente. E continuamos reconstruindo essa mesma decisão de nos prendermos ao passado de novo e de novo ao longo da vida, cultivando o sofrimento e, acima de tudo (mesmo que não nos sintamos "sofrendo"), fugindo da consciência de que somos livres para deixar de cultivá-lo, e portanto fugindo da responsabilidade pelos rumos da nossa própria vida. Fugindo da responsabilidade pelo nosso próprio projeto de vida.

Este último conceito existencialista, entre tantos outros que procuram orientar para a liberdade e não fixar crenças rígidas, é especialmente importante para entendermos com maior clareza essa filosofia e essa psicologia: o conceito de projeto. Trata-se de um conceito que tende a ganhar maior cada vez maior destaque na medida em que continuemos procurando diferenciar o existencialismo da psicanálise.

Ao invés de construírem, como Freud, uma teoria apegada a fatos do passado — que estariam fixados na nossa história de vida e não poderiam ser mudados —, traumas que poderiam ser apenas "cicatrizados", mas que deixariam para sempre suas marcas em nós; ao invez de tudo isso, os existencialistas afirmam que a própria teoria a partir da qual nós compreendemos a nós mesmos acaba afetando o nosso modo de viver e toda a nossa existência.

De modo que, segundo o existencialismo, pensar que somos moldados pelo nosso passado pode, de fato, acabar nos tornando pessoas mais moldadas pelo nosso passado — e isso quer dizer pessoas menos livres, já que o passado não pode ser mudado.

Se, pelo contrário, estivermos voltados para o futuro, teremos mais chances de vivermos uma vida livre, na medida em que aceitemos que o futuro é algo sempre em aberto e vai sendo redesenhado conforme vivemos. Assim, para o existencialismo, a vida de um ser humano, na verdade, é como um projeto inacabado que está constantemente sendo refeito conforme vai sendo realizado, e as teorias que usamos para entendermos quem somos e como somos, e o que devemos fazer ou evitar em nossas vidas, também fazem parte disso.

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Outro problema com o apego ao passado é que, na verdade, ele acaba nos iludindo, porque não temos realmente acesso às nossas vivências passadas: o que passou passou, e nunca poderia ser vivido de novo da mesma maneira. Só temos acesso à nossa memória do passado, às nossas lembranças, e acontece que, na verdade, a memória e todas as suas lembranças sobre o passado, são coisas que estão acontecendo no presente. É a nossa mente aqui e agora, no presente, que está pensando no que aconteceu no passado, tentando reviver o que existiu e já não existe mais, porque a vida continuou e as coisas mudaram. A imagem que temos aqui e agora das coisas que aconteceram no nosso passado, como tudo mais na nossa existência, vai mudando conforme nossa vida segue adiante.

Se escrevêssemos detalhadamente a história do nosso passado, dentando descrever nossas vivências da maneira mais completa, incluindo os sentimentos, e alguns anos depois tentássemos reescrevê-la toda de novo sem consultarmos o que tínhamos escrito antes, provavelmente o resultado seria muito diferente. Porque nossa vida teria mudado muito, e junto com ela, a imagem que temos do nosso passado teria mudado também.

É por essa mesma razão que, se nossa vida está projetada para o futuro, se vivemos fazendo da nossa vida um projeto para o futuro conforme as coisas que queremos ser ou viver, e as coisas que queremos deixar de ser e de viver, esse vai ser sempre um projeto incompleto, e que irá sendo constantemente refeito e alterado por nós. É que nossa visão do futuro que queremos, na verdade está acontecendo aqui e agora, no presente.

É aqui e agora que estamos criando e recriando esse nosso projeto, e nosso aqui-e-agora vai passando e mudando com o tempo. Então o nosso projeto de vida muda junto com ele. Manter sempre o mesmo projeto de vida a qualquer custo, sem considerar as variações da nossa vida, é se escravizar a uma ideia de futuro que é sempre a mesma, e isso, naturalmente, tende a deixar nossa vida inautêntica, provocando aquela mesma sensação desagradável e incômoda de estarmos vivendo meio que em falso.

O fundamental é prestarmos atenção às nossas vivências no momento presente, ao nosso aqui-e-agora. Se há algo que precisamos estudar para nos entendemos melhor com nós mesmos, não é como desencavar de maneira mais fiel o nosso passado que ficou enterrado no fundo da memória. Nem como manter alguma ideia fixa e definitiva a respeito do nosso futuro. O que precisamos estudar é o conjunto das aparências que vão ocorrendo na nossa mente a cada momento, no decorrer da nossa vida, e que vão formando as nossas vivências.

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