Desenvolvimento histórico

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Quem foi o fundador da teoria anarquista? | Houve algum pensador anarquista antes de Proudhon chegar a definir "anarquismo"? | Depois de Proudhon, houve outros pensadores anarquistas importantes? | Existem grandes pensadores anarquistas mais atuais?


 

Quem foi o fundador da teoria anarquista?

O fundador teórico  do socialismo "anarquista" — o primeiro a escrever os fundamentos teóricos dessa tendência — foi o francês Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865), 9 anos mais velho que o famoso pensador comunista Karl Marx (1818-1883), e chegaram a se conhecer pessoalmente. Foi Proudhon quem definiu "anarquismo" como o nome de um posicionamento político claro e consistente.

 

Houve algum pensador anarquista
antes de Proudhon chegar a definir "anarquismo"?

Antes de Proudhon, um outro filósofo, William Godwin (1756-1836), já havia desenvolvido o esboço de uma teoria política (mais simples, bem menos elaborada) que pode ser considerada até certo ponto anarquista, mas ainda não estava realmente desenvolvido o conceito político de "anarquismo", para dar nome a essas ideias. Godwin era o pai de Mary Shelley, a escritora que criou o famoso personagem Frankenstein — Shelley era o nome do marido, (um famoso poeta da época) que ela adotou depois de casar-se. As ideias do livro Frankenstein inclusive refletem indiretamente um certo diálogo entre as ideias de Mary Shelley e as de seu pai.

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Na época a palavra "anarquismo" ainda era tratada como mero sinônimo de "baderna", "desordem" etc. Curiosamente, muitas vezes a palavra "república" era usada pelos mais conservadores no mesmo sentido de "baderna". Chamar alguém de "anarquista" ou de "republicano", para esses conservadores, era o mesmo que chamá-lo de baderneiro, arruaceiro, agitador irresponsável interessado apenas em criar a desordem e o caos. Só as pessoas de espírito mais aberto e democrático, ou pessoas que conheciam bem a história política do conceito de "república", ligado a uma tradição que vem desde a antiguidade, consideravam esse termo como o nome de uma forma consistente e válida de organização política.

Na época de Godwin, os "republicanos" estavam lutando para que esse termo fosse reconhecido universalmente, inclusive pelos conservadores, como nome de uma proposta geral de organização política, válida e consistente, e não simplesmente como sinônimo de "bagunça". Muitas propostas de organização política diferentes podem ser igualmente consideradas "republicanas", entre elas, como uma das mais claramente republicanas, a democracia (que por sua vez tem muitas formas possíveis, algumas mais moderadas e outras mais radicalmente republicanas). As propostas de tipo anarquista, que aparecem pela primeira vez claramente estruturadas em teoria política com William Godwin, são ainda mais radicalmente republicanas do que as propostas apenas "democráticas".

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Depois de Proudhon houve outros pensadores anarquistas importantes?

Depois de Proudhon, o anarquismo se dividiu em mais 4 versões diferentes, além da proudhoniana, cada uma com seus principais pensadores. Passaram a existir então cinco principais linhas de pensamento anarquista, uma francesa, orientada pelo próprio Proudhon, uma pelo anarquista alemão Max Stirner, uma pelo russo Mikhail Bakunin, uma pelo russo Pietr Kropotkin, e uma dividida entre o italiano Errico Malatesta e o francês Georges Sorel (que só foi anarquista até uma certa fase do desenvolvimento de sua teoria e depois foi na direção oposta, se aproximando do monarquismo).

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Existem grandes pensadores anarquistas mais atuais?

Hoje (2012) existem grandes pensadores anarquistas, reconhecidos mundialmente, nos campos da linguística (Noam Chomsky), da lógica e da matemática (Bertrand Russel), da filosofia da ciência (Paul K. Feyerabend) e em vários outros campos, mas em geral bastante moderados (pelo menos para os padrões anarquistas) em termos políticos. Há também pensadores que, sem serem exatamente anarquistas, se aproximam muito das teorias e ideias anarquistas, sob vários aspectos. Por exemplo o psicólogo social Jacob-Levy Moreno, criador do Psicodrama (e, no campo da sociologia, do método dos sociogramas), e também o psicanalista corporal Wilhelm Reich, e o antipsiquiatra R. D. Laing.

O anarquismo floresceu muito nas artes. Nas artes dramáticas, por exemplo, o teatrólogo surrealista Antonin Artaud, era um assumido anarquista. E na literatura, encontramos vários grandes autores também assumidamente anarquistas. Os maiores exemplos são o russo Leon Tolstoy (ou Lev Tolstoy, dependendo da tradução), admirador de Proudhon, que escreveu Guerra e paz e também Anna Karenina; e os famosíssimos escritores ingleses Oscar Wilde (autor de O retrato de Dorian Grey) e George Orwell (autor de 1984 e de A revolução dos bichos, que serviu de inspiração para o músico Chico Buarque de Holanda em obras como a opereta infantil Os saltimbancos, e o pesadíssimo livro Fazenda modelo). No Brasil, um grande escritor anarquista foi Lima Barreto, autor de Triste fim de Policarpo Quaresma e de contos que chegaram a inspirar telenovelas.

Há também filósofos com grande proximidade com o anarquismo, embora não sejam exatamente anarquistas. É o caso do grupo Socialismo ou Barbárie, ex-marxistas de linha trotskista que iniciaram uma crítica radical ao stalinismo e às formas autoritárias de comunismo, e acabaram defendendo a autogestão em todos os níveis (uma proposta reconhecidamente anarquista). Deste grupo, pelo menos um permaneceu mais tarde claramente na proximidade do anarquismo: o filósofo Cornélius Castoriadis, fundador de uma linha política conhecida como autonomismo.

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O filósofo Michel Foucault é outro com grande proximidade em relação ao ideário anarquista, e antes dele, o próprio Nietzsche (que foi uma de suas maiores influências). Alguns chegam a inclusive considerar Nietzsche como um pleno anarquista, apesar de o filósofo explicitamente condenar em certas passagens o anarquismo — na verdade, infelizmente, parece que com bem pouco conhecimento do assunto, porque suas afinidades com essas ideias são realmente muitas, e profundas, a começar pela influência que sofreu do anarco-individualismo de Stirner (mas não deixa de haver quem pretenda negar ao próprio Stirner a qualificação de "anarquista", negação que no entanto seria bastante difícil defender com argumentos).

Podemos citar, finalmente, os Situacionistas, grupo que a partir das análises de Marx sobre o tema do fetichismo da mercadoria, mas se afastando do marxismo rumo a uma interpretação original e muito particular do capitalismo, começou a defender a ideia de uma revolução a ser realizada através da arte. Por meio dessa ideia, acabaram se aproximando muito de certas noções anarquistas.

Em política, no entanto, o anarquismo atual (2012) é bastante fraco, principalmente pelo baixo número de militantes. Por outro lado, sua influência indireta sobre grupos políticos de uma certa esquerda alternativa ao comunismo histórico — que foi emergindo em meio aos movimentos estudantis a partir da Contracultura e do Movimento de 68 — é bastante intensa e profunda. O Situacionismo e o Autonomismo estão longe de serem os únicos exemplos de proximidade com o anarquismo entre tendências e grupos surgidos a partir de 68.

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