Pensadores e debatedores

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Como é o anarquismo de Proudhon? | Como é o anarquismo de Stirner? | Como é o anarquismo de Bakunin? | Como é o anarquismo de Kropotkin? | Como são os anarquismos de Malatesta e Sorel? | Como é a versão de Sorel do anarquismo sindicalista? | Como é a versão de Malatesta do anarquismo sindicalista?


Como é o anarquismo de Proudhon?

O anarquismo proudhoniano costuma ser conhecido como federalismo anarquista "mutualista", ou "de apoio mútuo". De todas as versões do anarquismo, é a mais ligada à Sociologia e à Economia (e também ao Direito), e influenciou diretamente todas as outras versões. Combate as autoridades governamentais através da organização dos trabalhadores para suprirem suas próprias necessidades, de modo a tentar tornar a sociedade, fundada nas organizações dos trabalhadores, independente de qualquer necessidade de governo ou de patrões capitalistas.

 

Como é o anarquismo de Stirner?

A versão do alemão Max Stirner (1806-1856) ficou conhecida como "anarco-individualismo". Defende um materialismo muito radical, e pode-se dizer que é a mais "desiludida" e pessimista de todas em relação à sociedade e aos movimentos sociais. Ela constitui uma minoria "rebelde" e um tanto marginalizada dentro do próprio anarquismo. É a única versão do anarquismo que não pode ser considerada "socialista".

A versão stirneriana, pelo contrário, radicaliza tanto o individualismo como um fato incontornável, e se concentra tanto na defesa dos interesses absolutamente "egoístas" de cada pessoa (na linguagem do próprio Stirner), que acaba tirando a sustentação de qualquer possível concentração de poder, seja pela via política, pela via capitalista ou por qualquer outra.

Sob a teoria de Stirner, não resta absolutamente nada que possa justificar o domínio estável de uma pessoa, grupo ou instituição sobre outras pessoas. Todas as relações humanas se reduzem a conflitos ou negociações completamente instáveis entre forças "egoístas". E a própria construção da pessoa (de sua personalidade) nasce e renasce a todo momento dessa luta incessante. Stirner é precursor de Nietzsche (filósofo da geração seguinte pelo qual os anarquistas de todas as versões sempre costumam nutrir simpatia).

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No meio anarquista, grande parte dos anarco-individualistas demonstrou, na prática, uma tendência para o terrorismo e os atos de violência e destruição individuais, cometidos contra instituições que simbolicamente representavam o poder político, militar ou econômico.

Entretanto a teoria original de Stirner recusa que o indivíduo se acorrente a qualquer gesto seu que seja irreversível, que não possa ser desfeito se mudar de ideia — a menos, é claro, que isso seja absolutamente inevitável.

O que Stirner formula como caminho é a negociação livre entre os indivíduos interessados formando uma ativa "comunidade de egoístas" em luta (inclusive violenta se necessário) contra forças opressivas estatais, capitalistas, sociais etc. Mas sem que de modo algum essa "comunidade" se coloque acima dos interesses individuais presentes nela, de modo que estes indivíduos assumidamente "egoístas" simplesmente se retirem e dissolvam a comunidade (o "acordo") assim que ela não cumpra mais com esses objetivos.

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Como é o anarquismo de Bakunin?

A versão do russo Mikhail Bakunin (1814-1876), que era amigo pessoal de Proudhon e também de Stirner (que nunca se encontraram), parece ter misturado um pouco de cada um deles. Esta versão bakuniniana pode ser chamada de "federalismo anarquista nihilista". É versão mais agressiva, embora tenha um certo tom de romantismo heróico, e depois da morte de Proudhon passou a ser sempre a dominante e a mais famosa.

 

Como é o anarquismo de Kropotkin?

Pietr (ou "Pedro") Kropotkin  (1842-1921) era um príncipe russo muito ligado aos estudos científicos na área biológica sobre evolucionismo e sobre o que mais tarde ficou conhecido como "ecologia". sua versão do anarquismo, conhecida como "anarco-comunismo" tem um perfil ecológico e pacifista.

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Como são os anarquismos de Malatesta e de Sorel?

A quinta versão do anarquismo é a que se apoia em Errico Malatesta (1853-1932) e Georges Sorel (1847-1922). Ficou conhecida como "sindicalismo revolucionário" no caso do primeiro, e "anarco-sindicalismo" no caso do segundo. O sindicalismo anarquista costuma se apoiar principalmente em Malatesta, influenciado pelo ultra-radical Bakunin e mais fiel ao movimento anarquista. Mas o maior teórico dessa linha sindical, com uma construção filosófica mais elaborada, foi o francês Georges Sorel. Ambos defendem a ideia de que os sindicados são o melhor caminho para as grandes mudanças revolucionárias, e ambos consideram a violência como uma ferramenta necessária e incontornável em qualquer processo de transformação revolucionária. Contudo os dois apresentam posturas diferentes em relação a tudo isso.

 

Como é a versão de Sorel do anarquismo sindicalista?

Sorel defendia a ideia de que, para se organizarem e se mobilizarem, os trabalhadores precisavam adotar propositalmente e conscientemente algum grande mito ou fantasia apaixonante, e defender essa ideia com intensidade como se fosse realizável. Propôs nesse sentido usarem, entre outros mas acima de todos, o mito da greve geral revolucionária que, se realizada, trasformaria toda a sociedade de uma vez por todas. Por isso considerava nos sindicatos como a forma de organização ideal para as ações do anarquismo, defendendo o que se conhece como "anarco-sindicalismo".

Acreditava também, conforme já dito no tópico anterior, na violência como um bom instrumento para conseguir mudar a sociedade. Isto o levou a valorizar a ideia "luta de classes" do comunista Marx como um excelente mito revolucionário — mas não como uma realidade.

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Sorel, enquanto era ainda anarquista, construiu uma versão interessante da dialética, que procurava concorrer com a dialética marxista. Ele percebeu que o método de Proudhon — que este chamava de dialética serial — tinha um elemento (o princípio de "progresso" ou "progressão", ou ainda "princípio de movimento") muito parecido com a noção de duração da filosofia de Bergson. Decidiu então fundir a noção de Bergson com a concepção original de dialética formulada por Hegel, e trazer tudo isso de volta para o materialismo, à maneira de Proudhon e de Marx.

O resultado foi um processo dialético que parece concebido a partir de dentro, como ser fosse um percurso vivenciado momento após momento pelos agentes históricos e descrito a partir dessa vivência, das oposições às sínteses, das sínteses às oposições sucessivamente, e não de um ponto de vista sintético objetivo ou distanciado que capta tudo de uma só vez. Com isto, o determinismo histórico que havia na teoria de Marx perde o sentido, e toda a participação dos agentes históricos nos processos de transformação passa a ter o envolvimento passional extremamente ressaltado.

Infelizmente, com o tempo, Sorel foi se deixando levar por incoerências. Mais precisamenre, foi se afastando do socialismo (e do anarquismo) e se aproximando cada vez mais dos monarquistas — o que é uma contradição chocante em vista do fato de que a monarquia significa a concentração de todo poder nas mãos de um rei (monarca), o que é o oposto do anarquismo. Sua teoria não foi capaz de acompanhar sem contradições essa mudança, e foi se desmantelando. No final das contas, suas teorias, alteradas por ele próprio em defesa de um poder centralizado, ou distorcidas por outros, acabaram não apenas perdendo toda a sua coerência interna, mas também servindo de apoio para o fascismo, que se utilizou fartamente delas.

Quem se manteve fiel ao anarquismo sindicalista, conforme já mencionado, foi o pensador italiano Errico Malatesta, mas ele não conseguiu formar uma teoria tão consistente e elaborada quanto a de Sorel. Por outro lado, isto é coerente com a própria intenção de Malatesta, que é a de construir um anarquismo mais prático e realista, e menos teórico.

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Como é a versão de Malatesta do anarquismo sindicalista?

Malatesta era um anarquista voluntarista. Isto quer dizer que, ao contrário de Sorel, que defendia a mobilização apoiada em mitos e fantasias capazes de apaixonar e arrastar irracionalmente uma multidão de militantes, Malatesta preferia manter a ação anarquista sob a responsabilidade de um pequeno grupo lúcido, consciente e movido pela vontade. E quer dizer também que não acredita em mecanismos históricos que coloquem as pessoas no rumo das revoluções conscientemente ou não. Tudo depende sempre da vontade dos indivíduos envolvidos.

Por isso o pequeno grupo dos revolucionários anarquistas deve atuar junto com os movimentos sociais reais, inserido neles, como propagandistas dessas ideias revolucionárias — sem jamais perderem sua independência em relação a esses movimentos, e procurando sempre conduzir os outros à conscientização, à livre decisão e à tomada da iniciativa, sem permitir que "se deixem levar" irrefletidamente por alguma ideia.

Isto quer dizer que os sindicatos, para Malatesta, são apenas a principal organização social em que podem atuar, mas que não devem se apegar a ela, mantendo sua ação livre desta ou de qualquer outra instituição.

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O "sindicalismo revolucionário" de Malatesta, assim como a teoria anarco-individualista de Stirner, considera naturais e incontornáveis as atitudes que em certa medida são "egoístas". Mas as considera fundadas na necessidade material de sobrevivência de cada um. Acredita por outro lado que isso não impede as pessoas de se solidarizarem e lutarem juntas por um mesmo objetivo, e que a luta puramente individual e "egoísta" não leva a nada. Pelo contrário, a propaganda junto a outros é fundamenrtal, e não é preciso que todos os envolvidos sejam anarquistas para que se formem alianças e se leve adiante uma mesma luta conjunta.

Para Malatesta é preciso que haja, além disto, resultados práticos imediatos. Por isso defende que a luta anarquista envolve também lutar para arrancar dos patrões e dórgãos governamentais, por meio de pressões sociais e greves, todos os benefícios imediatos que for possível. Isto é importante para garantir melhores condições de luta e para atrair aliados, que provavelmente se interessarão a princípio por esses benefícios imediatos.

Para Malatesta, o centro da ação anarquista está sempre na organização dos trabalhadores e agentes sociais em geral sem a necessidade de lideranças, de modo que atuem juntos cada vez melhor e façam alianças cada vez mais proveitosas, mais fortes e mais combativas, percebendo as vantagens da aliança com os anarquistas e quem sabe, aos poucos, interessando-se de fato diretamente pelas propostas anarquistas.

Quanto à questão da violência, Malatesta em alguns momentos se aproxima da linha de Sorel, considerando-a como necessária, incontornável e até desejável em certas circunstâncias. Assim como o anarco-sindicalista francês, o italiano Malatesta defende também a noção de luta de classes formulada por Marx como justificativa da violência, e a ideia de que a luda de classes deve ser aprofundada cada vez mais, separando claramente os proletários dos capitalistas.

Mas Malatesta ao mesmo tempo considera a necessidade de manter o senso crítico em relação às possíveis consequências disto, que incluem por exemplo o estímulo aos autoritários, que sempre encontram na violência ou na contra-violência espaço e justificativa para se firmarem.

Assim, como um dispositivo para que os anarquistas mantenham sempre o senso crítico em relação aos limites de utilidade e de interesse da violência, Malatesta propõe um princípio ético: que se trabalhe com o mito  de uma sociedade ideal em que a luta de classes estaria definitivamente superada, e que seria uma sociedade pacífica. Com base nisto, Malatesta defende que se procure sempre lutar para que os meios não deturpem esse objetivo ideal de paz, esse sonho inatingível, talvez irrealizável, mas de importância fundamental e absolutamente inegociável.

Este sindicalismo revolucionário de Malatesta, mais prático e realista do que teórico, foi o que serviu de base para a organização dos primeiros sindicatos no Brasil, após a abolição da escravatura e a "importação" para o país de mão-de-obra italiana já fortemente influenciada por essa tendência.

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