Há algo interessante quanto ao livro de Schürmann, Le principe d'anarchie: Heidegger et la question de l'agir. Seguindo o próprio modo heideggeriano de reflexão, Schürmann detecta no filósofo algo "impensado", mas que está necessariamente implicado em sua filosofia: uma teoria da ação que, colada à questão do ser, curiosamente se liga também ao "princípio de anarquia" (ou de an-arkhé, não-arkhé, ausência de um princípio organizador para o pensamento e a ação que seja ontologicamente dominante). Pensar an-arkhicamente, sem arkhé, parece ser por sua vez, para Heidegger, uma implicação dos excessos tecnocráticos da nossa era.

Curiosamente, quando Pierre-Jeseph Proudhon construiu  a primeira consistente teoria do anarquismo, partiu de questões e posicionamentos muito similares a esses de Heidegger. As similaridades não param por aí, há diversas outras, embora em sua maior parte sejam filosofias muito diferentes, e apesar de Proudhon viver em sua época (a primeira metade do séc. XIX) sob pressão de um tecnicismo de outro tipo, ainda mecânico, e não o eletrônico. 

Provavelmente é uma das razões de que eu venha encontrando diversas coincidências também entre Proudhon e Vilém Flusser (influenciado fortemente por Heidegger, mas também por Marx e ouros pensadores). Outra dessas razões é o fato de Proudhon e Flusser compartilharem críticas similares à filosofia de Kant.

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