Foto de Cunhadismo indígena e teorias igualitárias

Histórico e detalhamento

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História e funcionamento do cunhadismo indígena nas sociedades tupi-guarani

De onde vem a expressão "cunhadismo"? | As famílias tupis guaranis eram como as de hoje? | A liberdade sexual dos tupis guaranis gerava crianças sem família? | Os tupis guaranis eram um povo pacífico? | Os guerreiros tupis guaranis se consideravam "iguais" como os antigos guerreiros espartanos? | Como os tupis guaranis preservavam a igualdade e a paz no interior de suas tribos? | Os tupis guaranis mudaram com a chegada dos portugueses?


 

 

História e funcionamento do cunhadismo indígena
nas sociedades tupi-guarani

 

De onde vem a expressão "cunhadismo"?

A palavra "cunhado" vem do latim "cognato", que originalmente queria dizer nascido da mesma origem, parente de sangue, da mesma família. Mas a palavra com o tempo passou a ter outro significado, e hoje, como se sabe, chamamos de "cunhados" os irmãos de nossas esposas ou esposos, que nasceram portanto de uma outra família, mas ligada à nossa justamente pelo nosso casamento com essa pessoa.

É possível que essa mudança no sentido da palavra "cognato" tenha algo a ver com os contatos entre os portugueses e os tupis-guaranis do Brasil no séc. XVI, ou provável que ela tenha pelo menos sofrido um forte impulso a partir desse contato, devido à importância que teve para os portugueses, naquela época, uma palavra tupi-guarani por coincidência parecida com essa: a palavra "cunhã".

"Cunhã", em tupi-guarani, significa mulher ou fêmea humana. Para as fêmeas de outras espécies, a palavra "cunhã" vinha acompanhada de uma outra, que designava qual era o animal. Por exemplo, "jagua" era um termo geral usado para caninos (lobos, cachorros do mato etc.) e principalmente felinos (jaguar, onça etc.), "jaguacunhã" seria a fêmea de um animal desse tipo. Por exemplo uma gata selvagem.

Mas "cunhã" significava também companheira, esposa, aquela que vive com um homem, e acima de tudo, que liga esse homem e seus familiares a uma outra família — e este era um significado importante para eles. As mulheres casadas eram o principal elo de ligação entre os membros da tribo. Pode-se dizer que eram a própria costura que mantinha as sociedades tupis guaranis unidas.

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As famílias tupis guaranis eram como as de hoje?

Na maioria das sociedades do mundo atual (mas não em todas) os casamentos são monogâmicos, isto é, cada pessoa pode se casar apenas com uma outra, e não com mais de uma ao mesmo tempo — e o sexo é (pelo menos oficialmente) limitado a essa relação.

Entre os tupis guaranis as coisas não funcionavam assim.

Os tupis guaranis eram poligâmicos. Um homem podia se casar com várias mulheres — desde que conquistasse esse direito oficialmente, aos olhos da sociedade, pela sua capacidade de trabalho e pelas suas realizações em benefício de toda a tribo. O mais interessante é que tudo indica que, antes da vinda dos portugueses e de sua influência, o mesmo valia também para as índias, que podiam se casar com vários homens.

Por isso, cada pessoa casada tendia a ter muitos cunhados. Eles também não diferenciavam tão fortemente os pais e os sogros, de modo que ao se casar, uma pessoa era como que "adotada" pela família da esposa ou esposo, passava a ter mais "pais" do que tinha antes. Quanto mais casamentos, mais pais adotivos a pessoa passava a ter, além de mais cunhados.

Essa poligamia dos indígenas, organizada desse modo, reforçava enormemente as ligações de parentesco entre os membros da tribo. O número de cunhados, especialmente, aumentava muito a cada novo casamento simultâneo que uma mesma pessoa conseguisse conquistar. E aumentava ainda mais pelo fato de que, entre os tupis guaranis, o sexo era livre, e realizado fora dos casamentos com o consentimento dos esposos e esposas. Era aliás considerado desrespeitoso fazer isso sem o consentimento dos mesmos, mas era igualmente desrespeitoso o esposo ou esposa nunca consentir — seria considerado um desrespeito à vontade livre da companheira ou companheiro. Tudo tinha que ser feito às claras e amigavelmente.

Mas se um encontro amoroso extraconjugal fosse arranjado com o consentimento do esposo ou esposa, e o (ou a) "amante" mudasse de ideia e recuasse, recusando esse encontro já arranjado, isso era considerado ofensivo para o casal, e não só para a pessoa rejeitada. O próprio esposo ou esposa se sentia ofendido(a) — o que podia levar inclusive a muita tensão e conflitos.

Mas havia procedimentos oficiais sempre utilizados para acalmar os ânimos e reduzir os conflitos.

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A liberdade sexual dos tupis guaranis gerava crianças sem família?

As relações amorosas extraconjugais e livres entre esses indígenas evidentemente aumentavam os casos de gravidez fora do casamento. Mas não tanto quanto se poderia imaginar. Os tupis-guaranis conheciam ervas bastante eficazes para evitar a gravidez, e também métodos de aborto. Mas as crianças que mesmo assim nascessem de sexo livre, costumavam ser criadas amorosamente em uma espécie de guarda compartilhada entre os pais e com apoio constante de toda a tribo.

 

Os tupis guaranis eram um povo pacífico?

Eram um povo bastante afetivo, tendiam a tratar-se uns aos outros com carinho e com intimidade fácil, mas por outro lado eram também bastante ferozes e agressivos na relação com povos inimigos. Eram um povo guerreiro, e que praticava suas guerras sempre com uma carga emocional muito alta, e não com frieza puramente técnica. No entanto, suas técnicas e estratégias de guerra eram muito avançadas, e reconhecidas mais tarde pelos portugueses como superiores às dos próprios europeus.

Havia entre eles um certo sentido de honra e glória nas realizações militares, que lembra em alguns aspectos o modo de pensar da nobreza guerreira da antiguidade grega. Mas com um sentido de união e de igualdade muito mais intenso, e uma união afetiva, em função dos laços familiares. A união da tribo através de relações familiares os fortalecia muito na guerra, mas também e principalmente no trabalho, realizado sempre em forma de mutirões organizados a partir dessas relações.

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Os guerreiros tupis guaranis se consideravam "iguais"
como os antigos guerreiros espartanos?

O sentido de igualdade era extremamente aguçado entre eles. E consideravam-se um povo guerreiro. A própria palavra "guarani" significa guerreiro. Mas a igualdade que sentiam entre eles não era de modo nenhum a igualdade de uma corporação de guerreiros à maneira dos antigos espartanos.

O sentido de heroísmo individual nas guerras tornava os guerreiros sempre suspeitos de se considerarem superiores aos demais, e isso era considerado inaceitável. Então, se por um lado eram valorizados por sua bravura nas guerras, por outro quanto mais heróicos se mostravam mais seram vigiados com desconfiança e controlados pela tribo.

A noção de igualdade dos tupis guaranis estava mais ligada à ideia de manter a paz dentro das tribos.

Os tupis guaranis acreditavam que a paz entre os membros da tribos, e que os mantinha unidos, estava ligada principalmente à igualdade, e ao respeito mútuo de todos como iguais. Acreditavam que a diferença de poder entre uma pessoa e as outras trazia discórdia, conflitos e separação da tribo.

Por isso é que, ao contrário da imensa maioria dos povos indígenas do mundo — que também se apoia nas relações familiares — o que os tupis guaranis mais valorizavam nessas relações não eram os pais, e sim os irmãos e cunhados, aqueles que, de algum modo, estão no mesmo nível na estrutura familiar.

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Como os tupis guaranis preservavam a igualdade
e a paz no interior de suas tribos?

Procuravam manter essa igualdade por diversos mecanismos. Por exemplo:

Dito isto, se pode entender claramente porque os caciques, nas tribos tupis guaranis, tendia a ser sempre uma pessoa muito querida, uma espécie de amigo de todos. Mas ao mesmo tempo sem nenhum poder de comando.

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Os tupis-guaranis mudaram com a chegada dos portugueses?

Este é um assunto doloroso para os que se apaixonam pela cultura tupi-guarani. A vinda dos portugueses afetou fortemente a cultura desses indígenas, no sentido de promover a derrubada da igualdade política que era cultivada por eles. Mas além disso, promoveu a morte física desses indígenas, por diversas razões conjugadas e simultâneas.

Morreram em uma quantidade poucas vezes vista nos genocídios de que se tem notícia na história da humanidade. E a morte de sua cultura social e política "cunhadista" contribuiu fortemente para a sua morte física, isto é, para o extermínio dos tupis-guaranis no Brasil — embora uma quantidade considerável deles tenha espertamente sobrevivido e até conseguido alguma ascenção social, às custas de sua integração na cultura portuguesa; e embora sua língua tenha deixado, além disso, marcas de influência profundas e irreversíveis no portugues falado no Brasil (e portanto no modo de pensar dos brasileiros também).

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