Ditos & Feitos de Sérgio Buarque de Holanda
Seleção e organização das citações por João R. A. Borba
Sobre o personalismo típico dos latinoamericanos | Sobre os tipos humanos que existem | Sobre o uso de tipos idealizados como método | Sobre o modo de ser típico do brasileiro
Sérgio Buarque de Holanda:
o ponto em que o Brasil faz terapia de si mesmo
Weber à moda brasileira — um novo médodo dos "tipos ideais", e
o exame crítico do personalismo aventureiro na nossa cultura
Sobre o personalismo típico dos latinoamericanos
É significativa, em primeiro lugar, a circunstância de termos recebido a herança através de uma nação ibérica.
(...)
Pode dizer-se, realmente, que pela importância particular que atribuem ao valor próprio da pessoa humana, à autonomia de cada um dos homens em relação aos semelhantes no tempo e no espaço, devem os espanhóis e os portugueses muito da sua originalidade nacional. Para eles, o índice do valor de um homem infere-se, antes de tudo, da extensão em que não precise depender dos demais, em que não necessite de ninguém, em que se baste. Cada qual é filho de si mesmo, de seu esforço próprio, de suas virtudes...
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil.
São paulo: Cia. das Letras, 1995, p. 31 e 32
Sobre os tipos humanos que existem
Nas formas de vida coletiva podem assinalar-se dois princípios que se combatem e regulam diversamente as atividades dos homens. Esses dois princípios encarnam-se nos tipos do aventureiro e do trabalhador.
(...)
Existe uma ética do trabalho, como existe uma ética da aventura. Assim, o indivíduo do tipo trabalhador só atribuirá valor moral positivo às ações que sente ânimo de praticar e, inversamente, terá por imorais e detestáveis as qualidades próprias do aventureiro — audácia, imprevidência, irresponsabilidade, instabilidade, vagabundagem — tudo, enfim, quanto se relacione com a concepção espaçosa do mundo, característica desse tipo.
Por outro lado, as energias e esforços que se dirigem a uma recompensa imediata são reconhecidos pelos aventureiros; as energias que visam à estabilidade, à paz, à segurança pessoal e os esforços sem perspectiva de rápido proveito material passam, aos contrário, por viciosos e desprezíveis para eles. Nada lhes parece mais estúpido e mesquinho do que o ideal do trabalhador.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil.
São paulo: Cia. das Letras, 1995, p. 44
Sobre o uso de tipos idealizados como método
A partir do exemplo dos tipos humanos trabalhador e aventureiro:
Entre esses dois tipos não há, em verdade, tanto uma oposição absoluta quanto uma incompreensão radical. Ambos participam, em maior ou menor grau, de múltiplas combinações e é claro que, em estado puro, nem o aventureiro nem o trabalhador possuem existência real fora do mundo das ideias. Mas também não há dúvida de que os dois conceitos nos ajudam a situar melhor e a melhor ordenar nosso conhecimento dos homens e dos conjuntos sociais.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil.
São paulo: Cia. das Letras, 1995, p. 44-45)
Sobre o modo de ser típico do brasileiro
Já se disse, numa expressão feliz, que a contribuição brasileira para a civilização será de cordialidade — daremos ao mundo o "homem cordial".
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil.
São paulo: Cia. das Letras, 1995, p. 146
(...) a palavra "cordial" há de ser tomada, neste caso, em seu sentido exato e estritamente etimológico (...), pela expressão "cordialidade", se eliminam aqui, deliberadamente, os juízos éticos e as intenções apologéticas (...).
Cumpre ainda acrescentar que essa cordialidade, estranha, por um lado, a todo formalismo e convencionalismo social, não abrange, por outro, apenas e obrigatoriamente, sentimentos positivos e de concórdia. A inimizade bem pode ser tão cordial como a amizade, nisto que uma e outra nascem do coração, procedem, assim, da esfera do íntimo, do familiar, do privado.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil.
São Paulo: Cia. das Letras, 1995, p. 204-205
(nota do autor à citação da p. 146)
